A civilização chinesa nasceu às margens do Rio Amarelo (Huang He), cujo lodo fértil mas traiçoeiro — o rio mudou de curso e transbordou inúmeras vezes, ganhando o apelido de 'a tristeza da China' — sustentou as primeiras aldeias agrícolas do Neolítico. Por volta de 1600 a.C. surge a primeira dinastia historicamente documentada, a Shang, famosa por seus bronzes rituais e pelos 'ossos oraculares': omoplatas de boi e cascos de tartaruga que os adivinhos aqueciam para ler o futuro e nos quais aparecem os sinais mais antigos da escrita chinesa.
Por volta de 1046 a.C., a dinastia Zhou derrubou os Shang e introduziu uma ideia que atravessaria toda a história chinesa: o Mandato do Céu. O soberano governava pela vontade celestial, mas esse mandato podia ser perdido se ele reinasse com injustiça; uma dinastia derrotada, por definição, o havia perdido. Foi a teoria que legitimou cada troca de dinastia ao longo dos três milênios seguintes.
Quando o poder dos Zhou desmoronou, a China entrou em séculos de guerra entre estados rivais: os períodos da Primavera e Outono e dos Reinos Combatentes. Paradoxalmente, esse caos foi uma era de ouro do pensamento, a das 'cem escolas'. Foi quando viveu Confúcio (551-479 a.C.), mestre cuja insistência na ordem, na hierarquia, na família e no dever moral se tornou a espinha dorsal da ética chinesa. Ao lado do taoísmo de Laozi e do legalismo, o confucionismo definiria como se pensaria o governo e a sociedade até o século XX.
Em 221 a.C., depois de derrotar um a um os seis reinos rivais, o rei do estado de Qin se proclamou Qin Shi Huang, 'Primeiro Imperador'. Pela primeira vez, um só homem governava o que reconhecemos como China, e de sua dinastia — Qin, pronunciada 'tchin' — vem, segundo a etimologia mais difundida, o nome ocidental do país.
Seu reinado foi brevíssimo, mas fundador. Guiado pela doutrina legalista, que confiava mais em leis duras do que na virtude, ele padronizou de uma vez todo o império: uma só escrita, uma só moeda, pesos e medidas unificados e até a largura dos eixos das carroças, para que as estradas servissem em todo lugar. Dividiu o território em comandarias administradas por funcionários nomeados, e não por nobres hereditários, inventando o modelo do estado burocrático centralizado que a China conservaria por dois mil anos. Esse poder teve um custo brutal: trabalhos forçados em massa e uma célebre queima de livros e perseguição de eruditos.
Para defender a fronteira norte dos povos nômades, mandou unir e ampliar as muralhas que os antigos reinos já tinham erguido: foi o primeiro grande antecessor da Grande Muralha (a que os turistas admiram hoje é, em sua maior parte, muito posterior, da dinastia Ming). E para a própria eternidade mandou construir um mausoléu colossal perto da atual Xi'an, guardado por um exército de cerca de 8.000 guerreiros de terracota em tamanho real, cada um com um rosto diferente, descobertos por acaso por camponeses em 1974. O império Qin, porém, não sobreviveu ao seu fundador: desmoronou em guerras poucos anos depois de sua morte, em 210 a.C.
Das cinzas dos Qin surgiu em 206 a.C. a dinastia Han, que governaria por quatro séculos e marcaria tão fundo a identidade do país que ainda hoje a maioria étnica da China se chama de 'han'. Os Han mantiveram o estado centralizado dos Qin, mas suavizaram sua dureza legalista adotando o confucionismo como ideologia oficial: os funcionários passaram a ser selecionados por sua formação nos clássicos, embrião do futuro sistema de exames imperiais que durante séculos permitiu, em teoria, que um filho de camponeses chegasse ao governo por mérito.
Sob o imperador Wu (141-87 a.C.), o império se expandiu enormemente rumo ao sul, à Coreia e à Ásia Central. Foi então que se abriram as rotas comerciais que o geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen batizaria séculos depois de Rota da Seda: uma rede de caravanas que, partindo da capital Chang'an, cruzava os desertos da Ásia Central até chegar, de mão em mão, ao Império Romano. Por ela saíam seda, laca e papel — invenção chinesa dessa época — e entravam cavalos, vidro, ideias e, mais tarde, o budismo.
A dinastia Han foi contemporânea e comparável a Roma: dois impérios enormes nos extremos da Eurásia, cada um ignorando quase por completo o outro. Sua queda, por volta do ano 220 d.C., provocada por revoltas camponesas e lutas entre senhores da guerra, abriu um dos períodos mais longos de fragmentação da história chinesa.
Depois da queda dos Han, a China se partiu no período dos Três Reinos — Wei, Shu e Wu —, uma época de guerras entre caudilhos que a literatura posterior transformou em epopeia nacional no romance 'Romance dos Três Reinos'. Seguiram-se quase quatro séculos de divisão, invasões nômades no norte e dinastias breves no sul, um trecho que costuma ser chamado de período das Seis Dinastias ou das dinastias do Norte e do Sul.
Foi uma época politicamente dura, mas culturalmente fértil. O grande acontecimento do período foi a difusão do budismo, vindo da Índia pela Rota da Seda. Em poucos séculos, ele passou de religião estrangeira a força central da vida chinesa, transformando a arte, a filosofia e a paisagem. Os povos nômades que governavam o norte, longe de rejeitá-lo, o adotaram com fervor: a dinastia Wei do Norte, de origem xianbei, patrocinou a escavação de gigantescos santuários budistas na rocha, como as grutas de Yungang, perto de Datong, e as de Longmen, junto a Luoyang.
Esse processo mostra um padrão que se repetiria na história chinesa: os conquistadores do norte, em vez de impor sua cultura, acabavam se assimilando à civilização que dominavam, adotando sua língua administrativa, sua burocracia e seus costumes. A China absorvia seus invasores. A reunificação chegaria no fim do século VI com a breve dinastia Sui, que reconstruiu o estado centralizado e começou a escavar o Grande Canal, a via aquática que uniria o norte e o sul do país.
A dinastia Tang (618-907) é lembrada como o auge do esplendor chinês. Sua capital, Chang'an — a atual Xi'an —, com mais de um milhão de habitantes, foi por muito tempo a maior e mais cosmopolita cidade do mundo: terminal oriental da Rota da Seda, em suas ruas conviviam mercadores persas, monges indianos, músicos da Ásia Central e comunidades cristãs, judaicas e muçulmanas. Foi uma era de tolerância, de poesia imortal — Li Bai, Du Fu — e de uma China segura de si e aberta ao mundo. Teve até, por um breve período, a única imperatriz reinante de sua história, Wu Zetian.
Após um período de divisão, a dinastia Song (960-1279) inaugurou algo diferente: não um império militar expansionista, mas uma potência econômica, tecnológica e cultural sem igual em seu tempo. Sob os Song floresceram invenções que mudariam o mundo: a imprensa de tipos móveis, a pólvora aplicada às armas, a bússola magnética para a navegação e o papel-moeda, o primeiro dinheiro de papel da história. As cidades cresceram até um milhão de habitantes, floresceu uma economia comercial sofisticada e o sistema de exames imperiais atingiu sua forma clássica.
Militarmente, por outro lado, os Song viveram na defensiva. Pressionados por povos do norte, perderam sua capital e a metade setentrional do país em 1127 e recuaram para o sul, onde a dinastia dos Song do Sul fez de Hangzhou sua capital e do delta do Yangtzé o coração econômico da China, posição que a região nunca mais perderia. Foi um império brilhante e rico, mas cercado, e no horizonte se erguia uma ameaça como o mundo jamais havia conhecido.
No século XIII, as estepes do norte deram à luz o maior império terrestre da história. Sob Gengis Khan e seus sucessores, os mongóis conquistaram tudo, do mar do Japão até a Europa oriental. A China foi uma de suas maiores presas: os Song do Sul resistiram por décadas, mas em 1279 o último imperador, ainda criança, morreu lançado ao mar na batalha de Yamen, e a China inteira ficou, pela primeira vez, sob o domínio de um povo estrangeiro.
O neto de Gengis, Kublai Khan, se proclamou imperador e fundou a dinastia Yuan (1271-1368), estabelecendo sua capital em Dadu, a atual Pequim. Foi um momento de conexão inédita entre a Ásia e a Europa: pelos caminhos seguros do império mongol viajou, segundo seu famoso relato, o veneziano Marco Polo, que descreveu a um Ocidente maravilhado a riqueza fabulosa da corte de Kublai e de cidades como Hangzhou.
Os mongóis governaram como uma elite militar minoritária sobre uma população esmagadoramente chinesa, que relegaram na hierarquia social. Nunca conquistaram uma legitimidade plena aos olhos confucianos, e seu regime se enfraqueceu rapidamente após a morte de Kublai, por disputas sucessórias, corrupção, inflação do papel-moeda, desastres naturais e epidemias. Em meados do século XIV, revoltas camponesas — entre elas a dos Turbantes Vermelhos — sacudiram o país. De uma delas emergiu um antigo monge mendicante transformado em chefe rebelde, que expulsaria os mongóis e fundaria uma nova dinastia nativa.
Em 1368, o camponês e ex-monge Zhu Yuanzhang expulsou os mongóis e se proclamou primeiro imperador da dinastia Ming, restaurando o governo chinês nativo após quase um século de domínio estrangeiro. Os Ming (1368-1644) deixaram algumas das imagens mais icônicas da China. Reconstruíram e ampliaram a Grande Muralha na forma monumental de pedra e tijolo que conhecemos hoje, para blindar a fronteira contra um novo retorno mongol. E o imperador Yongle transferiu a capital para Pequim, onde mandou erguer a Cidade Proibida, o colossal complexo palaciano que seria a sede do poder imperial por cinco séculos.
Em suas primeiras décadas, a China Ming olhou com ousadia para o mar. Entre 1405 e 1433, o almirante eunuco Zheng He comandou sete gigantescas expedições navais, com frotas de centenas de navios — alguns muito maiores que as caravelas europeias — que chegaram ao Sudeste Asiático, à Índia, à Arábia e à costa oriental da África, décadas antes das viagens portuguesas. A China tinha então a marinha mais poderosa do planeta.
E, no entanto, em meados do século XV a corte suspendeu essas expedições e se voltou para o isolamento, uma mudança de rumo que os historiadores ainda debatem. Justamente quando a Europa iniciava sua era de exploração oceânica, a China dava as costas ao mar. Os Ming entraram em decadência entre crises fiscais, fomes, revoltas e a pressão de um novo povo do norte, os manchus. Em 1644, um exército rebelde tomou Pequim, o último imperador Ming se enforcou numa colina atrás do palácio, e os manchus cruzaram a Grande Muralha para 'restaurar a ordem' e ficar com o império inteiro.
A dinastia Qing (1644-1912), fundada pelos manchus vindos do nordeste, foi a última dinastia imperial da China e a segunda de origem estrangeira. Como os mongóis, eram uma minoria étnica governando uma imensa maioria han; ao contrário deles, souberam durar. Adotaram a burocracia confuciana e o sistema de exames, se apresentaram como continuadores legítimos da tradição chinesa e, ao mesmo tempo, preservaram sua identidade manchu: impuseram aos homens han o rabicho (a trança) como símbolo de submissão e reservaram cargos-chave para sua etnia.
Sob três grandes imperadores — Kangxi, Yongzheng e Qianlong —, que reinaram ao longo de mais de um século e meio, os Qing chegaram ao auge. O império dobrou de território incorporando a Mongólia, o Tibete, Xinjiang e Taiwan, alcançando a maior extensão da história chinesa e definindo, em linhas gerais, as fronteiras que a China atual reivindica. A população triplicou, passando de 400 milhões, e a economia chinesa continuava sendo uma das maiores do mundo.
Mas, por trás dessa fachada de esplendor, as tensões se acumulavam: a pressão demográfica sobre a terra, a corrupção de uma burocracia enorme e uma rigidez crescente diante de um mundo que mudava em altíssima velocidade. A corte imperial, convencida de que a China era o 'Reino do Meio' autossuficiente e superior, tratava os europeus como bárbaros tributários e limitava seu comércio ao único porto de Cantão. Essa confiança estava prestes a se espatifar contra os canhões da Revolução Industrial.
No começo do século XIX, a Grã-Bretanha comprava da China enormes quantidades de chá, seda e porcelana, mas a China quase não queria nada em troca, e o desequilíbrio drenava prata britânica para a Ásia. A solução dos comerciantes britânicos foi tão lucrativa quanto devastadora: contrabandear ópio cultivado na Índia. O vício disparou entre a população chinesa e o fluxo de prata se inverteu. Quando o governo Qing tentou frear o tráfico confiscando e destruindo o ópio em Cantão, a Grã-Bretanha respondeu com a guerra.
A Primeira Guerra do Ópio (1839-1842) terminou com uma derrota chinesa esmagadora. O Tratado de Nanquim, primeiro de uma longa série de 'tratados desiguais', obrigou a China a abrir portos ao comércio estrangeiro, pagar indenizações e ceder Hong Kong à Grã-Bretanha. A Segunda Guerra do Ópio (1856-1860), já com a França, foi ainda mais humilhante: tropas anglo-francesas ocuparam Pequim e saquearam e incendiaram o Antigo Palácio de Verão.
Começava o que a historiografia chinesa chama de 'século da humilhação'. Às derrotas externas se somaram catástrofes internas: a rebelião Taiping (1850-1864), uma das guerras mais sangrentas de toda a história humana, com um saldo estimado em dezenas de milhões de mortos; a derrota para o Japão em 1895, que tirou Taiwan da China; e a rebelião dos Boxers (1899-1901), esmagada por uma coalizão de oito potências estrangeiras que impuseram uma indenização pesadíssima. Potências europeias, Rússia, Japão e Estados Unidos dividiram entre si esferas de influência, concessões e privilégios de extraterritorialidade. O império que se julgara o centro do mundo estava de joelhos.
Humilhado pelo estrangeiro e desacreditado por sua incapacidade de se modernizar, o regime Qing perdeu o Mandato do Céu aos olhos de uma nova geração de reformistas e revolucionários. Em 10 de outubro de 1911, um motim militar em Wuchang desencadeou a Revolução Xinhai, que em poucos meses se espalhou por todo o país. Em 1º de janeiro de 1912 foi proclamada a República da China, com o médico e revolucionário Sun Yat-sen como presidente provisório; em fevereiro, o último imperador, o menino Puyi, abdicou. Terminavam assim mais de dois mil anos de governo imperial.
Mas a república nasceu fraca. O poder logo passou ao general Yuan Shikai, que chegou a tentar se proclamar imperador antes de morrer em 1916, e o país se fragmentou na 'era dos senhores da guerra', com caudilhos militares disputando regiões inteiras. Nesse contexto de humilhação nacional explodiu, em 4 de maio de 1919, um movimento estudantil e cultural que rejeitava as cláusulas do Tratado de Versalhes que entregavam ao Japão antigas concessões alemãs na China. O Movimento Quatro de Maio foi muito mais que um protesto: um abalo intelectual que questionou o velho confucionismo, reivindicou ciência e democracia e abriu a porta para novas ideologias.
Desse fermento surgiram as duas forças que definiriam o século chinês: o Kuomintang (Partido Nacionalista), reorganizado por Sun Yat-sen e depois liderado por Chiang Kai-shek, e o Partido Comunista da China, fundado em Xangai em 1921. No início aliados para reunificar o país e derrotar os senhores da guerra, não demorariam a se tornar inimigos mortais.
A aliança entre nacionalistas e comunistas se rompeu em 1927, quando Chiang Kai-shek desencadeou um violento expurgo de comunistas em Xangai. Começou uma longa guerra civil. Encurralados, os comunistas empreenderam em 1934-1935 a Longa Marcha, uma retirada épica de milhares de quilômetros até o norte, da qual Mao Tsé-tung saiu como líder indiscutível do partido.
O conflito ficou suspenso diante de uma ameaça maior: a invasão japonesa. Após a ocupação da Manchúria em 1931 e a invasão em larga escala em 1937, a China suportou oito anos de uma guerra atroz — com episódios como o massacre de Nanquim — que lhe custou milhões de mortos e que é parte central da Segunda Guerra Mundial na Ásia. Encerrada a guerra em 1945 com a derrota do Japão, nacionalistas e comunistas retomaram a sua. Desta vez venceram os comunistas: em 1º de outubro de 1949, Mao proclamou na praça Tiananmen a fundação da República Popular da China. Chiang Kai-shek e o governo nacionalista recuaram para Taiwan, onde a República da China subsiste até hoje, na origem do conflito que ainda divide o estreito.
A era de Mao transformou a China pela raiz e a um custo humano imenso. Foram feitas reformas agrárias e campanhas políticas que custaram centenas de milhares de vidas. Dois episódios marcam seus extremos: o Grande Salto Adiante (1958-1962), um plano de coletivização e industrialização forçada que provocou uma fome catastrófica, com estimativas de vítimas que vão, conforme a fonte, de cerca de 15 a mais de 40 milhões de mortos; e a Revolução Cultural (1966-1976), uma convulsão política lançada por Mao para expurgar seus rivais, que mergulhou o país no caos, destruiu patrimônio cultural, perseguiu intelectuais e deixou, segundo as estimativas, entre um e dois milhões de mortos. A morte de Mao em 1976 encerrou uma época e abriu uma disputa por sua herança.
Após a morte de Mao, quem se impôs foi Deng Xiaoping, um veterano expurgado duas vezes durante a Revolução Cultural. A partir de 1978, ele lançou a 'reforma e abertura', a virada que transformaria a China mais profundamente do que qualquer revolução. As comunas foram dissolvidas e as famílias camponesas voltaram a poder cultivar a própria terra e vender o excedente; foram abertas 'zonas econômicas especiais', como Shenzhen, para atrair investimento e comércio estrangeiros; a empresa privada passou a ser tolerada. Resumido em frases pragmáticas atribuídas a Deng —'não importa se o gato é branco ou preto, desde que cace ratos'—, o rumo era claro: crescer. E a China cresceu como nenhum outro país na história, tirando centenas de milhões de pessoas da pobreza em poucas décadas.
O processo teve um limite político que ficou tragicamente exposto em 1989. Naquele ano, protestos estudantis que pediam reformas e denunciavam a corrupção ocuparam a praça Tiananmen, em Pequim, durante semanas. Na noite de 3 para 4 de junho, o governo mandou o exército desocupar a praça à força. O número de mortos nunca foi estabelecido oficialmente e as estimativas variam muito, de várias centenas a mais de mil; o tema continua fortemente censurado dentro da China. A mensagem do regime foi inequívoca: abertura econômica, sim; abertura política, não.
Essa fórmula —capitalismo de Estado sob o controle férreo do Partido Comunista— definiu as décadas seguintes. A China entrou na Organização Mundial do Comércio em 2001, virou a 'fábrica do mundo' e, por volta de 2010, a segunda maior economia do planeta. Sob Xi Jinping, no poder desde 2012-2013, o país reafirmou o papel central do Partido, projetou sua influência global com iniciativas como a Nova Rota da Seda e reforçou seu controle interno, enquanto persistem as tensões em torno de Taiwan, do Tibete, de Xinjiang e de Hong Kong. Da humilhação do século XIX ao palco mundial do século XXI, a China de hoje volta a ser, como em boa parte de sua história, uma das grandes potências do mundo.
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O norte da China é, literalmente, onde tudo começou. Nas planícies banhadas pelo Rio Amarelo surgiram as primeiras dinastias, foram gravados os primeiros caracteres e nasceu a própria ideia de 'China'. Por isso esta região concentra uma densidade de capitais antigas que nenhum outro canto do país iguala. Luoyang, às margens do rio, foi capital de nove dinastias ao longo de mais de um milênio, entre elas os Zhou orientais, os Han posteriores e várias das dinastias do período de divisão.
Essa primazia tinha uma lógica geográfica e agrícola: o lodo fértil depositado pelo Rio Amarelo permitia sustentar populações densas, e as planícies abertas favoreciam o controle centralizado. Mas o mesmo rio que dava vida era também uma ameaça mortal, com cheias e inundações que tiravam centenas de milhares de vidas e obrigavam os Estados a organizar gigantescas obras hidráulicas. Dominar a água era dominar o poder.
Percorrer o norte é, de certa forma, folhear as primeiras páginas da história chinesa: aqui estão as camadas mais antigas, a escrita oracular dos Shang, os bronzes rituais, os túmulos dos primeiros imperadores. Antes que Xangai ou Cantão fossem algo mais do que aldeias, estas planícies do norte já eram o palco onde se decidia o destino do país.
Embora não seja tão antiga quanto Luoyang ou Xi'an, Pequim (Beijing, 'capital do norte') acabou se impondo como o centro político definitivo da China. Sua ascensão veio pelas mãos dos conquistadores do norte: foi capital dos mongóis com o nome de Dadu no século XIII, e se consagrou quando o imperador Yongle, da dinastia Ming, transferiu a capital para lá no começo do século XV e mandou construir a Cidade Proibida, o maior complexo palaciano do mundo, sede do poder imperial dos Ming e dos Qing por quase cinco séculos.
Ao redor do palácio, a cidade se organizou segundo uma geometria cósmica rígida: o Templo do Céu, onde o imperador conduzia os ritos para garantir boas colheitas; os eixos cerimoniais; e o labirinto de hutongs, as vielas de casas com pátio (siheyuan) onde vivia a gente comum. Pequim era ao mesmo tempo o umbigo simbólico do império e uma cidade de bairros populares.
No século XX, Pequim foi palco dos grandes marcos da China contemporânea. A praça Tiananmen, diante do antigo portão da Cidade Proibida, foi onde explodiu o Movimento Quatro de Maio de 1919, onde Mao proclamou a República Popular em 1949 e onde ocorreu a repressão de 1989. Capital da potência global que a China voltou a ser, a cidade hoje combina os palácios imperiais com os estádios olímpicos e os arranha-céus do poder do século XXI.
O norte da China foi, durante milênios, a linha de atrito entre dois mundos: o dos camponeses sedentários das planícies e o dos povos nômades e guerreiros da estepe —xiongnu, mongóis, manchus—. Dessa tensão permanente nasceu o monumento mais famoso do país: a Grande Muralha. Não é uma só muralha nem de uma só época, mas um sistema de fortificações construído, destruído e reconstruído ao longo de mais de dois mil anos, desde os primeiros muros do Primeiro Imperador até a imponente obra de pedra e tijolo da dinastia Ming, que é a que hoje serpenteia pelas colinas ao norte de Pequim.
Datong, no extremo norte da província de Shanxi, encarna como poucas cidades essa condição de fronteira. Foi posto de guarda estratégico, praça-forte contra as incursões nômades e, durante a dinastia Wei do Norte, até capital imperial. Ao seu redor sobrevivem trechos de muralha muito menos visitados que os de Pequim, e a paisagem conserva a aspereza de terra de confins.
A Muralha nunca foi uma barreira impenetrável —os mongóis e os manchus acabaram atravessando-a e governando a China—, mas funcionou como sistema de alerta, controle alfandegário e projeção de poder. Mais do que um muro militarmente infalível, foi uma gigantesca declaração: aqui termina o império agrário e começa a estepe. Essa geografia do medo e da defesa moldou toda a história do norte chinês.
Quando o budismo chegou da Índia pela Rota da Seda, durante os séculos de divisão que se seguiram à queda dos Han, o norte da China se tornou a grande oficina onde a nova fé virou pedra. As dinastias nômades que governavam a região, longe de rejeitar a religião estrangeira, a abraçaram e financiaram a escavação de santuários colossais nos penhascos.
Perto de Datong ficam as grutas de Yungang, iniciadas pela dinastia Wei do Norte por volta do ano 460: 53 cavernas principais com dezenas de milhares de imagens de Buda, algumas com quase vinte metros de altura, num estilo que ainda deixa ver influências da arte da Ásia Central e greco-budista. Quando essa mesma dinastia transferiu sua capital para Luoyang, a obra continuou nas grutas de Longmen, sobre o rio Yi, onde ao longo de séculos foram esculpidas mais de cem mil imagens budistas, incluindo a majestosa figura de Vairochana do século VII.
O norte foi também o berço de uma das tradições budistas mais famosas do mundo. Nas montanhas perto de Luoyang, o templo Shaolin é considerado o local de origem do budismo chan (o zen) e das artes marciais que levam seu nome. Esses lugares —Yungang e Longmen estão na lista do Patrimônio Mundial da Unesco— mostram como uma religião importada se tornou parte essencial da civilização chinesa e deixou na rocha do norte algumas de suas obras-primas.
Em pleno Shanxi se conserva algo insólito: uma cidade murada da dinastia Ming quase intacta. Pingyao mantém seu recinto de muralhas do século XIV, o traçado das ruas, as casas com pátio e os templos, e por isso a Unesco a inscreveu em 1997 como um dos conjuntos urbanos históricos mais bem conservados da China. Caminhar por Pingyao é espiar como era uma cidade chinesa antes da modernização.
Mas Pingyao não foi só uma cidade bonita: foi, durante o século XIX, a capital financeira do império. Aqui, por volta de 1823, nasceu o Rishengchang ('Sol Nascente e Próspero'), considerado o primeiro 'piaohao', ou banco de remessas, da China. Sua inovação foi revolucionária para a época: um comerciante podia depositar prata numa agência de uma cidade e sacá-la, mediante um documento verificável, em outra agência a centenas de quilômetros, sem transportar o metal por estradas infestadas de bandidos. No auge, a rede de bancos de Pingyao chegou a movimentar uma fatia enorme da economia chinesa, com agências em todo o país e até na Rússia, na Mongólia e no Japão.
Por trás dessas casas bancárias estavam os mercadores de Shanxi, um dos grandes grupos comerciais da China imperial, que fizeram fortuna com o comércio de sal, chá e tecidos ao longo das rotas que ligavam o coração agrícola à fronteira da estepe. A história deles lembra que o norte não foi só berço de imperadores e exércitos, mas também de uma sofisticada cultura mercantil e financeira anterior à banca moderna ocidental.
O delta do Yangtzé, a região baixa e alagada onde o rio mais longo da Ásia deságua no mar, é há um milênio o coração econômico da China. Seu clima quente e úmido, suas planícies aluviais e sua rede de rios, lagos e canais fizeram dele uma área de agricultura intensiva de arroz, capaz de sustentar uma das maiores densidades populacionais do mundo pré-industrial. Daqui saía o excedente de grãos que alimentava as capitais do norte.
Essa conexão se materializou numa obra descomunal: o Grande Canal, a via aquática artificial mais longa do mundo, iniciada pela dinastia Sui no começo do século VII e ampliada depois, que uniu o rico sul arrozeiro ao norte político e militar ao longo de quase 1.800 quilômetros. Cidades como Suzhou e Hangzhou prosperaram como nós dessa artéria comercial, enchendo-se de mercadores, artesãos e funcionários.
A riqueza da região ficou registrada num ditado chinês repetido durante séculos: 'Lá em cima está o céu; aqui embaixo, Suzhou e Hangzhou'. Aqui, no baixo Yangtzé, se concentraram durante o período imperial tardio a produção de seda, a indústria têxtil, a imprensa, a erudição e a arte dos jardins. Quando o centro econômico da China se deslocou definitivamente do norte para o sul, foi nestas terras que ele veio se instalar.
O momento de glória de Hangzhou chegou no século XII. Quando os invasores do norte tomaram a capital dos Song em 1127 e forçaram a dinastia a recuar para o sul, Hangzhou —então chamada Lin'an— se tornou a capital dos Song do Sul. Por mais de um século e meio foi a cidade maior, mais rica e mais refinada do mundo: calcula-se que tenha passado de um milhão de habitantes numa época em que nenhuma cidade europeia chegava a cem mil.
O veneziano Marco Polo, que a teria visitado sob o domínio mongol posterior, a descreveu deslumbrado como 'a cidade mais nobre e esplêndida do mundo', com seus canais, suas pontes, seus mercados e seu famoso lago. Porque a alma de Hangzhou é o Lago do Oeste (Xi Hu), um espelho d'água cercado de colinas, pagodes, calçadas e templos que durante séculos inspirou poetas e pintores e se tornou o próprio modelo da paisagem ideal chinesa, imitado em jardins de todo o país e do leste da Ásia. A Unesco o inscreveu em 2011 como paisagem cultural.
Hangzhou foi também a capital do chá: nas colinas vizinhas se cultiva o Longjing (Poço do Dragão), um dos chás verdes mais célebres da China. Refinada, culta e voltada para a beleza da paisagem, a cidade encarna um ideal bem diferente do poder marcial do norte: o de uma civilização que tinha feito da economia, da arte e do prazer estético sua forma de grandeza.
A pouca distância de Hangzhou, sobre o Grande Canal, Suzhou é a outra grande cidade clássica do delta, famosa por seus canais —que lhe renderam o apelido de 'Veneza do Oriente'—, por sua seda e por seus jardins. Fundada há mais de 2.500 anos, floresceu como centro da indústria da seda: durante o período imperial, seus teares produziam os tecidos mais finos do país, que vestiam a corte e viajavam pela Rota da Seda.
A riqueza de seus mercadores e funcionários deu origem ao seu tesouro mais delicado: os jardins clássicos de Suzhou, considerados o auge da arte paisagística chinesa. Em espaços reduzidos, atrás de muros discretos, os mestres jardineiros recriavam universos inteiros —montanhas em miniatura feitas de rochas do lago Tai, lagos, pavilhões, janelas vazadas que emolduravam vistas como quadros— seguindo o ideal taoista e confuciano de um retiro culto no meio da cidade. Nove desses jardins formam hoje um sítio do Patrimônio Mundial da Unesco.
Suzhou representa uma faceta muito particular da civilização chinesa: a do letrado-funcionário que, depois de servir na burocracia, se retirava para cultivar a poesia, a caligrafia e a contemplação em seu jardim particular. Diante da épica militar do norte, aqui se construiu um ideal de vida refinada e letrada. Hoje, essa cidade de canais e jardins convive com um moderno polo industrial e tecnológico, um dos mais dinâmicos do país.
Durante quase toda a história chinesa, Xangai foi apenas uma modesta vila pesqueira e comercial do delta, à sombra das ilustres Suzhou e Hangzhou. Seu destino mudou de repente com a derrota chinesa na Primeira Guerra do Ópio: o Tratado de Nanquim, de 1842, a abriu ao comércio estrangeiro como um dos cinco 'portos do tratado'. Em poucas décadas ela se transformou na grande cidade das concessões, símbolo ao mesmo tempo da humilhação nacional e de uma modernidade vertiginosa.
Às margens do rio Huangpu surgiram as concessões estrangeiras: a Concessão Internacional —fusão da britânica com a americana em 1863— e a Concessão Francesa, territórios onde os residentes estrangeiros viviam sob suas próprias leis graças à extraterritorialidade, à margem da autoridade chinesa. Ao longo do calçadão conhecido como Bund se enfileiraram os bancos, as casas comerciais e os hotéis com fachadas monumentais de estilo europeu que ainda hoje definem o cartão-postal da cidade.
A Xangai do entreguerras foi uma das cidades mais cosmopolitas e contraditórias do mundo: capital financeira do Leste Asiático, meca do jazz, do cinema e do luxo, mas também da miséria operária, do ópio, do jogo e das máfias. Refúgio de exilados de meio mundo —incluindo milhares de judeus que fugiam do nazismo—, era chamada de 'Paris do Oriente' e de 'puta da Ásia' com a mesma facilidade. Em suas fábricas e bairros operários se incubava, além disso, o descontentamento que alimentaria a revolução.
Não foi por acaso que o Partido Comunista da China nasceu em Xangai, em 1921, numa casa da Concessão Francesa: a cidade, com seu enorme proletariado industrial e sua desigualdade brutal, era o cenário perfeito. Foi também em Xangai que Chiang Kai-shek desencadeou, em 1927, o sangrento expurgo que rompeu a aliança entre nacionalistas e comunistas e abriu a guerra civil. Durante a guerra com o Japão, a cidade sofreu combates ferozes e uma longa ocupação.
Após a fundação da República Popular em 1949, a Xangai cosmopolita e capitalista foi colocada sob controle: as concessões já tinham sido formalmente abolidas, a burguesia emigrou ou foi expropriada, e a cidade ficou como um centro industrial cinzento a serviço do Estado. Durante décadas, a antiga 'Paris do Oriente' viveu apagada, embora continuasse a fornecer boa parte da arrecadação fiscal do país.
O renascimento veio nos anos 1990. O governo decidiu transformar Xangai na vitrine da nova China e, para isso, converteu Pudong, a margem leste do Huangpu, que até então era só campos e depósitos, num distrito financeiro de arranha-céus futuristas: a Torre Pérola do Oriente, a Torre Jin Mao, a Torre de Xangai. Hoje, a cidade coloca frente a frente suas duas margens como suas duas épocas: numa, o Bund colonial de pedra; na outra, o skyline da superpotência do século XXI. Xangai voltou a ser o que era antes da revolução: a grande metrópole econômica da China, de olho no mundo.
Poucas cidades do mundo carregam tanta história quanto Xi'an. Com seu antigo nome de Chang'an ('Paz Perpétua'), foi capital de mais de dez dinastias ao longo de mais de um milênio, dos Zhou ocidentais e da dinastia Qin do Primeiro Imperador até os Han e os Tang. Nos arredores fica o mausoléu de Qin Shi Huang com seu exército de guerreiros de terracota, descoberto em 1974, uma das descobertas arqueológicas mais impressionantes da história.
Seu auge veio sob a dinastia Tang (618-907), quando Chang'an foi a cidade maior e mais cosmopolita do planeta, com mais de um milhão de habitantes dentro de uma malha murada perfeitamente planejada. Era o ponto final oriental da Rota da Seda: por seus portões entravam caravanas da Ásia Central, mercadores persas e sogdianos, monges budistas e comunidades de todas as religiões. O Grande Pagode do Ganso Selvagem foi erguido para guardar os textos budistas que o monge Xuanzang trouxe da Índia depois de uma viagem lendária.
Essa vocação de encruzilhada deixou uma marca que perdura: o bairro muçulmano de Xi'an, com sua Grande Mesquita e a comunidade hui, descendente em parte daqueles mercadores da Rota da Seda, é uma das marcas registradas da cidade. Xi'an conserva ainda sua muralha Ming quase completa, um raro anel de fortificação que circunda o centro histórico. É, em muitos sentidos, a porta de entrada para o passado mais profundo da China.
A sudoeste, cercada por montanhas e protegida do resto do país por barreiras naturais, fica a bacia de Sichuan, uma das regiões mais férteis e densamente povoadas da China. Esse relativo isolamento sempre lhe deu uma personalidade forte: na Antiguidade foi o reino de Shu, um dos três protagonistas do período dos Três Reinos, e ao longo da história serviu muitas vezes de refúgio quando o resto do país mergulhava na guerra.
A chave da sua prosperidade tem mais de dois milênios: por volta de 256 a.C., o engenheiro Li Bing, a serviço do estado de Qin, comandou a construção do sistema de irrigação de Dujiangyan, que domou as cheias do rio Min e irrigou a planície de Chengdu sem precisar de barragens. A obra continua funcionando até hoje (está na lista do Patrimônio Mundial) e transformou Sichuan num pomar que os chineses chamam desde a Antiguidade de 'a terra da abundância'.
A capital, Chengdu, é famosa pelo ritmo tranquilo, pelas casas de chá, pela cozinha apimentada inconfundível (uma das grandes tradições culinárias do país) e, sobretudo, por ser o lar do panda-gigante, cujo hábitat nas montanhas de Sichuan abriga os centros de reprodução mais importantes do mundo. Fronteira histórica entre a China han e as terras tibetanas e das minorias do sudoeste, Sichuan é uma região de transição, uma ponte entre as planícies do interior e as alturas do Tibete.
Rio abaixo de Chengdu, empoleirada nas colinas onde o rio Jialing encontra o Yangtzé, Chongqing é uma metrópole montanhosa e vertiginosa que hoje está entre as maiores aglomerações urbanas do planeta. A sua história está ligada ao grande rio: durante milênios foi o porto que conectava o isolado Sichuan ao resto da China pelo Yangtzé, e continua sendo o ponto de partida dos cruzeiros que atravessam as espetaculares Três Gargantas.
Esse desfiladeiro lendário também é cenário de uma das obras de engenharia mais colossais e polêmicas da China contemporânea: a barragem das Três Gargantas, a maior usina hidrelétrica do mundo, concluída em 2012. A construção obrigou a deslocar mais de um milhão de pessoas e a inundar cidades, vilarejos e sítios arqueológicos inteiros, num debate sobre progresso, meio ambiente e custo humano que resume muitas das tensões do desenvolvimento chinês.
O capítulo mais dramático de Chongqing veio durante a guerra com o Japão. Quando as tropas japonesas ocuparam o leste e as capitais do governo nacionalista caíram, Chiang Kai-shek transferiu a capital para Chongqing, no interior, protegida pelas montanhas. Entre 1938 e 1943, a cidade aguentou um dos bombardeios aéreos mais prolongados da história, símbolo da resistência chinesa contra a invasão. Refúgio, cidade castigada e, por fim, grande metrópole industrial do interior, Chongqing encarna a China profunda que sustentou o país nas suas horas mais sombrias.
Depois de Sichuan ergue-se o planalto do Tibete, o 'teto do mundo', um imenso altiplano a mais de 4.000 metros de altitude onde se desenvolveu uma civilização única. No século VII, o rei Songtsen Gampo unificou as tribos tibetanas e fundou um império que chegou a rivalizar com a China dos Tang, a ponto de ocupar brevemente a capital deles. Dessa época vem a introdução do budismo, trazido da Índia, que com o tempo se fundiu com crenças locais e deu origem ao característico budismo tibetano.
Com a desintegração do império, o Tibete passou a se organizar em torno do poder religioso. A partir do século XVII consolidou-se o governo dos Dalai Lamas, líderes espirituais e temporais da escola Gelug, que fizeram de Lhasa a sua capital. Ali, no alto de uma colina, ergue-se o Palácio de Potala, residência de inverno dos Dalai Lamas e uma das obras arquitetônicas mais imponentes da Ásia, ao lado do templo de Jokhang, coração espiritual da cidade e destino de peregrinos que percorrem milhares de quilômetros se prostrando pelo caminho.
A relação histórica entre o Tibete e a China é tema de debate intenso. Durante as dinastias Yuan e Qing existiu um vínculo complexo que a China interpreta como soberania e boa parte da tradição tibetana como uma relação de 'patrono e sacerdote' entre iguais. O indiscutível é que, nas primeiras décadas do século XX, após a queda do império Qing, o Tibete funcionou de fato de forma autônoma, com governo próprio em Lhasa, embora sem pleno reconhecimento internacional da sua independência.
Em outubro de 1950, pouco depois da fundação da República Popular, o Exército Popular de Libertação entrou no Tibete oriental e derrotou as forças tibetanas. Em maio de 1951, representantes do governo tibetano assinaram em Pequim o chamado Acordo dos Dezessete Pontos, pelo qual o Tibete ficava sob soberania chinesa em troca de promessas de autonomia e de respeito ao sistema religioso e ao papel do Dalai Lama. A validade desse acordo é contestada: o governo tibetano no exílio afirma que seus delegados o assinaram sob coação, algo que Pequim rejeita.
As tensões explodiram em março de 1959. Diante do temor de que as autoridades chinesas fossem prender o 14º Dalai Lama, houve em Lhasa um levante popular que foi reprimido. O Dalai Lama fugiu para a Índia, onde estabeleceu um governo tibetano no exílio em Dharamsala e onde permanece até hoje, seguido por dezenas de milhares de tibetanos. O Tibete foi plenamente integrado à República Popular e, em 1965, foi criada a Região Autônoma do Tibete.
O que aconteceu depois continua sendo um dos temas mais sensíveis e polarizados da política asiática. Para o governo chinês, a incorporação do Tibete significou o fim de um sistema feudal e teocrático e trouxe desenvolvimento, infraestrutura e melhorias materiais. Para o governo no exílio e muitas organizações de direitos humanos, implicou a repressão da cultura, da religião e da língua tibetanas, com episódios como a destruição de mosteiros durante a Revolução Cultural e os protestos reprimidos de 1989 e 2008. O próprio Dalai Lama, Prêmio Nobel da Paz em 1989, reivindica há décadas não a independência, mas uma 'autonomia genuína', proposta que Pequim rejeita. É um conflito em aberto, no qual convivem narrativas históricas profundamente opostas.
O sul da China é, em muitos sentidos, outro país dentro do país. Separado do norte por cadeias de montanhas e por séculos de história, foi incorporado mais tarde e de forma mais gradual ao mundo chinês: quando a civilização do Rio Amarelo já tinha milênios, boa parte do sul ainda era habitada por povos que os cronistas do norte chamavam de 'bárbaros'. A expansão e a sinização do sul foram um processo longo, acelerado por ondas de migração han que fugiam das guerras do norte.
Essa história diferente ainda se ouve hoje na língua. No sul não se fala o mandarim do norte, e sim um mosaico de idiomas chineses mutuamente ininteligíveis: o cantonês na região de Cantão e Hong Kong, além do hakka, do min e de outros. O cantonês, com seus seis ou mais tons, conserva traços do chinês antigo que o mandarim perdeu, e é a língua de uma cultura com identidade muito forte, com seu cinema, sua ópera e sua cozinha.
A paisagem também é outra: montanhosa, subtropical, verde, cortada por rios e coberta de arrozais em terraços. Aqui se planta arroz em vez do trigo e do painço do norte, e o clima permite duas ou três colheitas por ano. Com a costa aberta para o mar do Sul da China e o Sudeste Asiático, o sul sempre foi a China mais voltada ao comércio marítimo e ao exterior, e dos seus portos partiu a maioria dos milhões de emigrantes chineses que povoaram os 'bairros chineses' do mundo inteiro — incluindo a comunidade chinesa que se formou no Brasil.
Nenhuma cidade encarna melhor a vocação mercantil do sul do que Guangzhou, a antiga Cantão, grande porto no rio das Pérolas. Por mais de dois milênios foi o principal ponto de contato da China com o comércio marítimo do Sudeste Asiático, da Índia e do mundo árabe; já na época medieval tinha uma grande comunidade de mercadores estrangeiros. Quando a dinastia Qing decidiu restringir o comércio com os europeus, concentrou-o justamente aqui: entre 1757 e 1842, sob o chamado 'Sistema de Cantão', o porto foi o único lugar de toda a China onde era permitido negociar com o Ocidente, por meio das Treze Feitorias onde operavam os mercadores europeus.
Foi justamente em Cantão que se acendeu o pavio das Guerras do Ópio. Era aqui que chegava o ópio contrabandeado da Índia, e foi aqui que o comissário imperial Lin Zexu confiscou e destruiu, em 1839, milhares de caixas da droga, o ato que desencadeou a resposta militar britânica e o início do 'século de humilhação'.
Com raízes revolucionárias tão profundas quanto a sua tradição comercial, Cantão também foi berço de movimentos políticos: base de Sun Yat-sen e do Kuomintang nos seus primórdios, palco de greves e levantes. E quando Deng Xiaoping lançou a reforma econômica no fim dos anos 1970, foi de novo o sul o laboratório da mudança: a vizinha Shenzhen, uma vila de pescadores ao lado de Hong Kong, virou a primeira zona econômica especial e símbolo do milagre econômico chinês. O delta do rio das Pérolas é hoje um dos maiores centros industriais e tecnológicos do mundo.
Na foz do rio das Pérolas, um punhado de ilhas e uma península escarpada tiveram o rumo da sua história mudado pela guerra. Depois de derrotar a China na Primeira Guerra do Ópio, a Grã-Bretanha obteve a ilha de Hong Kong pelo Tratado de Nanquim, de 1842. Somou a península de Kowloon em 1860, após a Segunda Guerra do Ópio, e em 1898 arrendou por 99 anos os chamados Novos Territórios. De um rochedo quase despovoado, os britânicos fizeram um porto livre que, com o tempo, se tornou um dos grandes centros financeiros e comerciais da Ásia.
Hong Kong prosperou como a janela capitalista da China: refúgio de exilados e de capitais que fugiam das guerras e da revolução comunista, plataforma comercial, meca do cinema e das finanças. Enquanto a China continental vivia as convulsões do maoísmo, Hong Kong crescia como uma das economias mais dinâmicas do mundo, com identidade cantonesa própria, Estado de direito de raiz britânica e liberdades civis.
O fim do arrendamento em 1997 obrigou a resolver o seu futuro. Na Declaração Conjunta Sino-Britânica de 1984, os dois países acordaram a devolução de todo o território à China, que se concretizou em 1º de julho de 1997, encerrando mais de um século e meio de domínio britânico. A transferência foi feita sob a fórmula 'um país, dois sistemas', que prometia a Hong Kong manter sua autonomia, sua economia de mercado e suas liberdades por 50 anos, como Região Administrativa Especial. O quanto essa autonomia foi mantida é hoje alvo de forte controvérsia internacional, sobretudo depois dos grandes protestos de 2014 e 2019 e das mudanças legais que vieram em seguida. Hong Kong continua sendo um lugar único: profundamente chinês e, ao mesmo tempo, marcado por um século e meio de história colonial.
Se existe uma imagem que resume a beleza do sul — e que aparece até no verso da nota de vinte yuans — é a dos picos cársticos de Guilin refletidos nas águas calmas do rio Li. Durante milhões de anos, a erosão da água sobre o calcário esculpiu milhares de montanhas cônicas de encostas íngremes que se erguem como uma floresta de pedra sobre os arrozais e o rio, numa das paisagens mais famosas de toda a China.
Esse relevo cárstico não é só um espetáculo natural: moldou uma cultura e uma economia. A navegação pelo rio Li entre Guilin e o povoado de Yangshuo, entre picos de nomes poéticos e vilarejos de pescadores que tradicionalmente usavam cormorões amestrados para pescar, inspira há séculos os pintores paisagistas chineses, para quem essas montanhas encarnavam o próprio ideal da natureza. A região também é habitada por comunidades da etnia zhuang — a minoria mais numerosa da China — e outros povos que cultivam os famosos arrozais em terraços das montanhas próximas.
Guilin mostra outra face do sul: não a dos grandes portos comerciais, mas a de uma China rural, agrícola e de minorias étnicas, onde a geografia ditou um modo de vida. Hoje, as mesmas paisagens que inspiraram a pintura clássica sustentam uma forte economia turística, com Yangshuo transformada em meca de mochileiros, ciclistas e escaladores do mundo todo.
No interior montanhoso da província de Hunan, na borda noroeste do sul chinês, ergue-se uma das paisagens mais extraordinárias do país: os mais de três mil pilares de arenito quartzítico do parque florestal de Zhangjiajie, colunas verticais de até duzentos metros que surgem da neblina e da vegetação subtropical. Foi o primeiro parque florestal nacional da China, criado em 1982, e faz parte de um sítio do Patrimônio Mundial da Unesco pela sua geologia única.
A fama correu o mundo em 2009, quando o filme 'Avatar' se inspirou nesses pilares para as 'montanhas flutuantes' do planeta Pandora; um dos picos foi até rebatizado em homenagem ao filme. Hoje, mirantes de dar frio na barriga, teleféricos e pontes de vidro suspensas sobre precipícios fizeram de Zhangjiajie um dos grandes destinos de natureza da China.
Além do espetáculo geológico, esta região montanhosa é terra de minorias étnicas. Aqui vivem os tujia, os miao e os bai, povos com línguas, roupas, arquitetura de madeira e tradições próprias, que durante séculos habitaram essas montanhas afastadas do poder central han. O sul profundo da China é, assim, um mosaico de povos: lembra que a 'China' nunca foi uma única cultura homogênea, e sim a soma de muitas, unidas por uma história comum, mas que conservam, nos seus vales e montanhas, identidades próprias que sobrevivem até hoje.
Quase nada do que aconteceu com China aconteceu sozinho: estas são as histórias ao lado.