Há paisagens que parecem impossíveis, e Zhangjiajie é uma delas. Milhares de colunas de arenito quartzítico, algumas com mais de duzentos metros de altura, erguem-se verticais do chão da floresta como os pilares de um templo colossal, coroadas de pinheiros e envoltas em fiapos de neblina que as fazem flutuar. Não é por acaso que estas montanhas inspiraram as 'montanhas flutuantes' do planeta Pandora no filme 'Avatar', de James Cameron: aqui, a realidade supera a ficção científica. Quando a bruma sobe dos vales e os pilares aparecem e desaparecem entre as nuvens, a sensação é de estar dentro de uma pintura chinesa a nanquim que ganhou vida.
Zhangjiajie é, antes de tudo, um destino de natureza e de vertigem. Além do labirinto de pilares do Parque Florestal Nacional, oferece algumas das atrações mais espetaculares e cheias de adrenalina da China: o elevador externo mais alto do mundo, colado a um penhasco; a montanha Tianmen, com seu gigantesco 'Portão do Céu' aberto na rocha e suas trilhas de vidro suspensas sobre o abismo; e a ponte de vidro do Grande Cânion, uma das mais longas e altas do planeta. É um lugar feito para se maravilhar e para testar o estômago.
Este guia percorre o melhor de Zhangjiajie com um olhar prático: como organizar a visita ao imenso Parque Florestal e a Wulingyuan sem se perder nem se esgotar, como subir a montanha Tianmen, que transportes internos usar, como funcionam os ingressos de vários dias e o que você precisa saber sobre reservas, preços e VPN antes de chegar. É um destino um pouco mais trabalhoso em termos de logística que outros, pelo tamanho e pelas multidões, mas recompensa com algumas das paisagens mais impressionantes de toda a China.
Ao contrário das grandes cidades imperiais da China, Zhangjiajie não é um destino de história e monumentos, e sim de natureza: sua verdadeira 'história' é geológica. Seus milhares de pilares de arenito quartzítico se formaram ao longo de centenas de milhões de anos, pelo soerguimento de antigos sedimentos marinhos e pela posterior erosão da água, do gelo e das raízes, que foram esculpindo a rocha até restarem apenas as colunas mais resistentes. A região, isolada e montanhosa, foi habitada durante séculos por minorias étnicas como os tujia, os miao e os bai, que viviam da agricultura nos vales. Permaneceu relativamente isolada e desconhecida até que, em 1982, foi criado aqui o primeiro parque florestal nacional da China, e em 1992 a Unesco declarou a área de Wulingyuan Patrimônio da Humanidade por seu valor natural excepcional. A fama mundial veio em 2009-2010, quando se popularizou a ideia de que esses pilares tinham inspirado a paisagem de 'Avatar'. Desde então, Zhangjiajie se tornou um dos destinos naturais mais visitados da China. A história completa, da formação geológica às minorias e ao fenômeno turístico, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Cantonese and karst south: the trading gateway of Canton, colonial Hong Kong and its return, the peaks of the Li River at Guilin and the stone pillars of Zhangjiajie.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A verdadeira história de Zhangjiajie não começa com os homens, mas com a Terra, e dura centenas de milhões de anos. Há cerca de 380 milhões de anos, no período Devoniano, toda esta região do centro-sul da China estava coberta por um mar quente e raso. No fundo dele foram se depositando, camada sobre camada, grossos estratos de areia que, com o tempo, a pressão e os minerais, se compactaram até formar uma espessa plataforma de arenito quartzítico, uma rocha especialmente dura e rica em quartzo, com várias centenas de metros de espessura.
Mais tarde, os movimentos da crosta terrestre levantaram aquele fundo marinho e o transformaram em terra firme elevada. Foi então que começou o lento trabalho de escultura da natureza. A água da chuva e dos rios entrou pelas fendas verticais da rocha e, com a ajuda do gelo que se expande ao congelar, das raízes das árvores e das variações de temperatura, foi alargando essas fraturas durante milhões de anos, separando a massa de rocha em blocos, e depois os blocos em colunas cada vez mais esguias. O arenito duro resistiu melhor que as camadas moles, e assim ficaram de pé mais de três mil pilares e agulhas verticais, alguns com mais de duzentos metros de altura.
O resultado é um tipo de relevo raríssimo e espetacular, diferente do carste de calcário de Guilin: uma 'floresta de pedra' de arenito quartzítico, coberta por uma vegetação exuberante que se agarra aos topos e às encostas dos pilares, e banhada quase o ano inteiro pela umidade que sobe dos vales em forma de neblina. Quando essa bruma envolve as colunas e só aparecem os topos coroados de pinheiros, a paisagem parece flutuar entre as nuvens. Essa é a maravilha natural que, muito tempo depois, deixaria o mundo inteiro de queixo caído.
Durante quase toda a história humana, esta região montanhosa e acidentada do oeste de Hunan ficou afastada dos grandes centros de poder da China. Ao contrário das planícies férteis onde floresceram as dinastias imperiais, estas montanhas íngremes, cobertas de floresta e difíceis de atravessar, ficaram à margem, habitadas sobretudo por minorias étnicas não han: principalmente os tujia, mas também os miao (hmong) e os bai, povos com suas próprias línguas, costumes, música, arquitetura de madeira e tradições.
Essas comunidades viviam da agricultura de montanha, da caça e da coleta nos vales, em aldeias de casas de madeira, muitas vezes num regime semi-independente em relação à administração imperial, que exercia sobre essas áreas remotas um controle indireto por meio de chefes locais hereditários. O próprio nome da cidade, Zhangjiajie, significa algo como 'o feudo da família Zhang', em referência a um clã local; a palavra 'jie' alude a essas divisões territoriais das minorias. Foi uma terra de fronteira cultural, com episódios de rebeliões e de resistência à sinização ao longo dos séculos.
Para os habitantes destas montanhas, os pilares de pedra, as cavernas e os picos não eram uma atração turística, mas o seu lar e a sua paisagem sagrada, povoada de lendas. Algumas montanhas, como a Tianmen ('a Porta do Céu'), com sua gigantesca cavidade natural, eram consideradas lugares de poder espiritual. A montanha Tianzi ('a montanha do Filho do Céu') deve seu nome, segundo a tradição, a um líder rebelde da etnia tujia que se proclamou rei nessas alturas. Durante séculos, a impressionante paisagem de Zhangjiajie foi conhecida apenas por quem vivia entre seus pilares.
A paisagem de Zhangjiajie continuou praticamente desconhecida do grande público chinês, que dirá do mundo, até bem avançada a segunda metade do século XX. A região era remota, de difícil acesso e sem infraestrutura turística. A virada veio nas décadas de 1970 e 1980, quando artistas, fotógrafos e pintores paisagistas chineses começaram a visitar a região e a divulgar imagens de seus pilares enevoados, revelando ao país um tesouro natural que parecia saído das pinturas clássicas a nanquim. Aquelas fotografias fizeram sucesso imediato.
O reconhecimento oficial não demorou. Em 1982, o governo chinês declarou a área o primeiro parque florestal nacional do país: o Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie. Foi um marco na nascente política de conservação da natureza da China moderna, e lançou as bases para proteger a paisagem e, ao mesmo tempo, abri-la aos poucos ao turismo. Nos anos seguintes, as áreas vizinhas de Tianzi e Suoxiyu também passaram a ser protegidas, formando o grande conjunto cênico de Wulingyuan.
A consagração internacional veio em 1992, quando a Unesco inscreveu a área de Wulingyuan na lista do Patrimônio Mundial por seu valor natural excepcional, destacando sua extraordinária concentração de pilares de arenito quartzítico, seus cânions, seus riachos, suas cavernas e sua rica biodiversidade. A partir de então, Zhangjiajie começou a aparecer no mapa do turismo chinês e internacional: os acessos foram melhorados e foram construídos caminhos, mirantes, teleféricos e, com o tempo, algumas das obras de engenharia mais espetaculares e polêmicas do turismo chinês.
O grande salto de Zhangjiajie para a fama mundial veio com o cinema. Em 2009 estreou 'Avatar', de James Cameron, cujas espetaculares 'montanhas Aleluia' flutuantes do planeta Pandora lembravam de forma impressionante os pilares enevoados de Zhangjiajie. Embora a equipe do filme tenha se inspirado em várias paisagens cársticas e montanhosas da China — a montanha Huangshan, em Anhui, também já foi citada —, e não exista uma única fonte oficial, as autoridades locais de Zhangjiajie reivindicaram a conexão com entusiasmo: em 2010 rebatizaram oficialmente o 'Pilar do Céu do Sul' do planalto de Yuanjiajie como 'montanha Aleluia de Avatar', e o filme virou uma campanha de marketing involuntária de valor incalculável.
O efeito foi imediato e avassalador. Zhangjiajie deixou de ser um destino conhecido sobretudo pelos chineses e passou a atrair viajantes do mundo todo que queriam ver 'as montanhas de Avatar', e o número de visitantes disparou. Para administrar (e também para ampliar) esse sucesso, a região apostou numa série de atrações cada vez mais espetaculares e vertiginosas: o elevador de Bailong, o elevador externo mais alto do mundo, colado a um penhasco; as trilhas e mirantes de vidro à beira dos precipícios da montanha Tianmen; e, em 2016, a ponte de vidro do Grand Canyon de Zhangjiajie, uma das mais longas e altas do planeta, projetada por um arquiteto israelense.
Hoje Zhangjiajie é um dos grandes destinos naturais da China e um fenômeno do turismo de massa, com milhões de visitantes por ano. Esse sucesso também trouxe desafios: o enorme movimento na alta temporada, as filas nos transportes internos, a pressão sobre um ecossistema frágil e o debate sobre quanta engenharia 'de emoções fortes' cabe numa paisagem natural protegida. Mesmo assim, quando a neblina sobe pelos vales e os milhares de pilares aparecem e desaparecem entre as nuvens, o espetáculo que a natureza levou trezentos milhões de anos para esculpir continua deixando sem fôlego quem o contempla.