A Islândia é um acidente geológico feliz. A ilha fica sobre a dorsal mesoatlântica, a enorme cadeia de montanhas submarina que percorre o fundo do oceano Atlântico de norte a sul e marca o limite entre duas placas tectônicas: a norte-americana a oeste e a eurasiática a leste. Em quase todo o planeta essa dorsal está submersa a milhares de metros de profundidade; na Islândia, graças a uma "pluma" de magma especialmente quente que sobe sob a ilha (um ponto quente parecido com o do Havaí), a dorsal emerge do mar e fica à vista. Por isso a Islândia é um dos poucos lugares da Terra onde dá para caminhar, literalmente, sobre a fenda entre dois continentes.
As duas placas se afastam a um ritmo de uns dois centímetros por ano, e esse vão é preenchido continuamente por rocha derretida que sobe das profundezas. O resultado é um país jovem, vulcanicamente ativíssimo e em crescimento permanente: boa parte do oeste da Islândia se afasta da parte oriental alguns centímetros por ano, e a superfície da ilha, em média geológica, vai se alargando. Ao longo dessa fissura central se alinham os vulcões — são mais de trinta sistemas vulcânicos ativos —, os campos de lava, as fumarolas, os gêiseres e as áreas geotérmicas que dão à Islândia sua paisagem sobrenatural.
Esse mesmo calor subterrâneo, que ao longo da história foi fonte de catástrofes, é hoje a grande riqueza do país: quase todas as casas islandesas são aquecidas com água geotérmica, e a eletricidade vem quase inteiramente de fontes renováveis — hidrelétrica e geotérmica. A própria palavra que abre o nome da capital, Reykjavík, "baía das fumaças", faz referência ao vapor que os primeiros colonos viram subir da terra. Fogo e gelo convivem num equilíbrio instável: geleiras que cobrem vulcões, rios de lava ao lado de línguas de gelo. Toda a história humana da Islândia foi escrita em cima desse chão que treme.
Antes dos vikings houve, talvez, monges. Fontes medievais islandesas como o Íslendingabók (o "Livro dos islandeses", de Ari Þorgilsson, por volta de 1130) e relatos irlandeses contam que, quando os primeiros nórdicos chegaram, encontraram vestígios de eremitas cristãos irlandeses, a quem chamaram de papar: sinos, báculos e livros abandonados. Esses monges, herdeiros da tradição monástica celta que buscava ilhas desertas para o retiro espiritual, teriam usado a Islândia como refúgio de solidão nos séculos VIII e IX, e teriam ido embora ao ver os pagãos chegando. A arqueologia não confirmou com certeza essa presença, e o assunto continua em debate, mas vários topônimos — como as ilhas Vestmann ou o próprio nome Papey — guardam essa memória.
Já o povoamento estável e em massa está bem documentado. Segundo a tradição, o primeiro colono permanente foi o chefe norueguês Ingólfur Arnarson, que teria se instalado por volta do ano 874. O relato do Landnámabók (o "Livro do assentamento") conta que, ao avistar a costa, Ingólfur jogou ao mar os pilares de madeira do seu assento de honra, jurando se estabelecer onde as ondas os levassem; ele os encontrou numa baía do sudoeste de onde saía vapor geotérmico, e por isso a chamou de Reykjavík. A datação é notável: os estudos de camadas de cinza vulcânica (tefrocronologia) identificam uma grande queda de cinzas datada por volta de 871-872, logo abaixo dos vestígios humanos mais antigos, o que confirma que a colonização começou de fato nesses anos.
A chamada "Era do Assentamento" (landnám) foi aproximadamente de 874 a 930, e em apenas meio século o país foi ocupado. Chegaram sobretudo noruegueses que fugiam do poder crescente do rei Haroldo Cabelo Belo, junto com escravos e colonos de origem celta — irlandeses e escoceses —, algo que os estudos genéticos modernos confirmam: boa parte da ascendência feminina dos islandeses atuais vem das ilhas britânicas. Esses colonos trouxeram gado, a língua nórdica antiga — da qual descende o islandês atual, notavelmente conservador — e uma forma de se organizar sem rei que marcaria o rumo do país.
No ano 930, os chefes que tinham dividido a ilha entre si deram um passo extraordinário: em vez de coroar um rei, fundaram uma assembleia comum. Na planície de Þingvellir — um lugar de enorme força simbólica, bem onde a fenda entre as placas tectônicas abre um vale de penhascos de lava — reuniu-se pela primeira vez o Alþingi, a assembleia geral de toda a Islândia. Ele é considerado um dos parlamentos mais antigos do mundo ainda em funcionamento. Todo verão, durante duas semanas, os goðar (os chefes-sacerdotes que concentravam poder político e religioso) e os homens livres iam a Þingvellir para criar e emendar leis, resolver disputas, fechar negócios e casamentos e ouvir o lögsögumaður, o "recitador da lei", que precisava declamar de memória um terço do código jurídico a cada ano do alto da Rocha da Lei.
Nascia assim a Comunidade ou Estado Livre Islandês (Þjóðveldið), que durou de 930 a 1262. Foi um experimento político singular: um país sem rei, sem exército e quase sem governo central, sustentado por uma rede de goðorð — as chefias — e por um sistema de leis sofisticado, mas sem um verdadeiro poder executivo para fazê-las cumprir. A justiça dependia, no fim das contas, de as partes aceitarem a sentença ou de terem força para impô-la, o que fazia das alianças, da negociação e da vingança os verdadeiros motores da vida social.
Durante boa parte desses três séculos, a Comunidade viveu um florescimento notável. A sociedade de fazendeiros independentes prosperou, converteu-se ao cristianismo de forma pacífica no ano 1000 e desenvolveu uma vida cultural intensíssima, que culminaria na escrita das sagas. Mas o mesmo desenho que a tornava original — a falta de um poder central capaz de impor a ordem — carregava o germe da sua crise: quando poucas famílias poderosas acumularam chefias demais, o equilíbrio se rompeu e o país deslizou para a guerra civil.
A contribuição mais impressionante da Islândia medieval não foi militar nem política, e sim literária. Entre os séculos XII e XIV, num país pobre e remoto de apenas algumas dezenas de milhares de habitantes que criavam ovelhas e pescavam, foi escrito um conjunto de prosa narrativa sem paralelo em toda a Europa da época: as sagas. Escritas na língua vernácula — e não em latim —, num estilo sóbrio, realista e surpreendentemente moderno, as sagas contam histórias de famílias, disputas, viagens, vinganças e leis com uma economia de recursos e uma profundidade psicológica que continuam fascinando os leitores.
Há vários grandes grupos. As Íslendingasögur, ou "sagas dos islandeses" — como a Saga de Njál, a Saga de Egil ou a Saga do povo de Laxárdalur —, narram a vida das famílias da época do assentamento e da Comunidade, na paisagem real dos fiordes e vales do país. As sagas dos reis, como a Heimskringla de Snorri Sturluson, contam a história dos monarcas noruegueses. As sagas lendárias e as eddas — a Edda poética e a Edda em prosa do próprio Snorri — preservam boa parte do que sabemos hoje sobre a mitologia nórdica: Odin, Thor, o Ragnarök e todo o seu universo de deuses teriam chegado até nós muito mais pobres sem esses manuscritos islandeses.
O valor das sagas é duplo. Por um lado, são literatura de primeira linha, com heróis complexos, mulheres poderosas e um senso trágico de destino e honra. Por outro, são uma fonte histórica e antropológica insubstituível: graças a elas conhecemos a sociedade, o direito, a geografia e até o dia a dia da Escandinávia medieval. Que uma obra dessas tenha nascido nas mãos de camponeses, em pergaminhos de pele de bezerro costurados junto ao fogo durante os longos invernos, é um dos grandes enigmas culturais da história. Os islandeses guardaram esses manuscritos como seu maior tesouro, e a repatriação deles da Dinamarca em 1971 foi vivida como uma festa nacional.
Por volta do ano 1000, a Islândia esteve à beira de uma guerra religiosa. O rei Olaf Tryggvason, da Noruega, pressionava duramente para que os islandeses abandonassem o paganismo, e no Alþingi a comunidade se dividiu em dois lados, pagãos e cristãos, a ponto de se temer a ruptura do país. A solução foi tipicamente islandesa: em vez de recorrer às armas, os dois lados concordaram em se submeter à arbitragem de um único homem, o lögsögumaður Þorgeir Ljósvetningagoði, que — segundo o Íslendingabók — era ele próprio pagão. Þorgeir passou um dia e uma noite deitado sob uma capa de pele, meditando em silêncio, e no dia seguinte decidiu que todos os islandeses deveriam ser batizados, embora o culto aos velhos deuses em privado, o consumo de carne de cavalo e o abandono de recém-nascidos indesejados continuassem tolerados. A Islândia se tornou cristã sem derramar sangue, por decisão de uma assembleia.
Quase ao mesmo tempo, esses mesmos nórdicos protagonizavam uma das maiores façanhas da exploração humana. A partir da Islândia, Érico, o Vermelho, tinha colonizado a Groenlândia por volta de 985; e, a partir da Groenlândia, seu filho Leif Erikson navegou para o oeste por volta do ano 1000 e chegou a uma terra que chamou de Vinland: a costa da América do Norte, uns cinco séculos antes de Cristóvão Colombo. Durante muito tempo isso foi apenas um relato das sagas de Vinland, tido como lenda.
Hoje é um fato confirmado pela arqueologia. Nos anos 1960, a escavação do sítio de L'Anse aux Meadows, no extremo norte da Terra Nova (Canadá), revelou os restos inequívocos de um assentamento nórdico — casas de turfa, uma forja, objetos escandinavos —, a primeira prova material da presença europeia na América antes de Colombo. O local hoje é Patrimônio da Humanidade. Não foi uma colônia duradoura — os nórdicos se retiraram diante da distância e do conflito com os povos originários, a quem chamavam de skrælingjar —, mas mostra que, a partir de sua pequena ilha do Atlântico Norte, islandeses e groenlandeses tocaram a América muito antes de alguém no Mediterrâneo imaginar que ela existia.
O sistema da Comunidade se sustentava num equilíbrio de poder entre muitos goðar. Ao longo do século XIII esse equilíbrio se rompeu: poucas famílias poderosas — os Sturlungar, os Ásbirningar, os Haukdælir, entre outras — foram acumulando chefias e territórios, até se tornarem verdadeiros senhores em disputa pelo controle da ilha. O período, conhecido como a Era dos Sturlungos (Sturlungaöld), foi uma guerra civil sangrenta e prolongada, com batalhas, massacres e traições que deixaram o país exausto. Paradoxalmente, esses mesmos anos de violência coincidem com o grande auge da escrita das sagas: boa parte delas foi composta justamente enquanto desmoronava o mundo que descreviam. A própria Sturlunga saga, escrita por testemunhas daquela sangria, é a crônica dessa autodestruição.
O rei Haakon IV da Noruega soube aproveitar o caos. Um dos grandes protagonistas da época, o historiador e político Snorri Sturluson — autor da Heimskringla e da Edda em prosa —, tinha sido cortesão do rei norueguês e acabou assassinado em 1241 no porão da sua fazenda em Reykholt, por ordem indireta da coroa. Esgotados por décadas de guerra e pressionados pela Noruega, os chefes e as assembleias islandesas foram aceitando, distrito por distrito, a autoridade do rei.
Entre 1262 e 1264, o Alþingi ratificou o chamado Gamli sáttmáli, o "Velho Pacto", pelo qual a Islândia reconhecia a soberania do rei da Noruega em troca de certas garantias — a manutenção da paz, o envio regular de navios com provisões e o respeito às leis locais. Terminavam assim mais de três séculos de independência. Em 1271 e 1281 a coroa introduziu novos códigos legais de modelo norueguês (Járnsíða e Jónsbók), e o poder passou para funcionários reais. A Islândia entrava numa longa fase de dependência estrangeira da qual só sairia no século XX.
Os séculos seguintes foram duros. Em 1397, a União de Kalmar reuniu sob uma mesma coroa a Dinamarca, a Noruega e a Suécia, e, junto com a Noruega, a Islândia passou na prática para a órbita dinamarquesa, onde ficaria por mais de cinco séculos. A ilha, distante e pouco povoada, virou uma possessão marginal cujo destino era decidido em Copenhague. A essa dependência política somaram-se as catástrofes: embora a Peste Negra não tenha chegado à Islândia na grande onda europeia de meados do século XIV, ela atingiu a ilha com enorme violência em dois episódios posteriores, por volta de 1402-1404 e de novo por volta de 1494-1495, que mataram talvez metade da população em cada ocasião e desorganizaram a vida do país por gerações.
O século XVI trouxe a Reforma protestante, e na Islândia ela não foi uma conversão, e sim uma imposição. O rei Cristiano III da Dinamarca decidiu impor o luteranismo em todos os seus domínios, sobretudo para se apropriar das ricas propriedades da Igreja Católica. A resistência teve um rosto: Jón Arason, bispo católico de Hólar, no norte, poeta e último grande defensor da velha fé e de uma certa autonomia islandesa diante da coroa. Ele se opôs de armas na mão ao avanço luterano, mas foi capturado e decapitado junto com dois de seus filhos em Skálholt em 7 de novembro de 1550.
Sua execução marcou o triunfo definitivo da Reforma e do poder dinamarquês. A coroa confiscou os bens eclesiásticos, os mosteiros foram fechados e a Igreja luterana ficou submetida ao rei. A Bíblia foi traduzida para o islandês em 1584 — o que, sem querer, ajudou a preservar a língua —, mas o país perdeu boa parte da sua vida cultural monástica e afundou ainda mais na pobreza e na dependência. Jón Arason ficou na memória como uma figura quase trágica: o último islandês que resistiu com armas antes de três séculos de submissão.
Em 1602, a coroa dinamarquesa impôs à Islândia um monopólio comercial: só comerciantes dinamarqueses autorizados, e só a partir de portos determinados, podiam comprar e vender na ilha. O sistema, que se manteve sob diferentes formas até 1787, condenou os islandeses a vender seu peixe e sua lã a preços fixados por outros e a comprar caro, e de má qualidade, farinha, madeira e ferramentas. Proibido de negociar com ingleses ou holandeses, que muitas vezes ofereciam condições melhores, o país ficou preso numa economia de subsistência e numa miséria crônica; os invernos ruins se traduziam diretamente em fome. O monopólio é lembrado como uma das grandes injustiças da dominação dinamarquesa.
Sobre essa população empobrecida caiu, em 1783, a maior catástrofe da história islandesa. Em 8 de junho começou a se abrir o Lakagígar, uma fissura vulcânica de uns 27 quilômetros no sul da ilha, na maior erupção de lava por fissura registrada em tempos históricos. Durante oito meses, até fevereiro de 1784, o Laki expeliu rios de lava e, sobretudo, quantidades colossais de gases venenosos — dióxido de enxofre e flúor — que envenenaram o ar, a água e os pastos. O flúor intoxicou o gado: morreu cerca de metade das vacas e grande parte das ovelhas e dos cavalos do país. Sem animais e com as colheitas arruinadas, veio a fome conhecida como Móðuharðindin, "as penúrias da névoa". Estima-se que morreu cerca de um quinto da população islandesa — umas 9.000 pessoas —; em Copenhague chegou-se a discutir a evacuação completa da ilha.
Os efeitos foram muito além da Islândia. A "névoa do Laki" se espalhou pela Europa durante o verão de 1783, com um sol avermelhado e um ar irrespirável, e o inverno seguinte foi um dos mais rigorosos de que se tinha lembrança; as colheitas ruins e a carestia atingiram meia Europa. Alguns historiadores levantaram a hipótese de que essa sequência de colheitas ruins, fome e descontentamento na França teria contribuído, entre muitas outras causas, para preparar o terreno da Revolução Francesa de 1789. Vale encarar isso como o que é — uma hipótese em debate, não um fato comprovado —: a Revolução teve raízes sociais e políticas profundas, e o peso concreto do Laki nela continua sendo discutido pelos especialistas.
O século XIX foi o da emigração e do despertar nacional. Empurrados pela pobreza, pelas erupções — como a do Askja em 1875, que cobriu de cinzas o leste do país — e pela falta de terras, dezenas de milhares de islandeses partiram entre as décadas de 1870 e 1910 rumo à América do Norte. Muitos se instalaram no Canadá, na região de Manitoba, às margens do lago Winnipeg, onde fundaram a colônia de "Nova Islândia" em torno da cidadezinha de Gimli, até hoje o maior núcleo de descendentes de islandeses fora da ilha. Estima-se que cerca de um quinto da população emigrou.
Ao mesmo tempo crescia o movimento pela independência, encarnado sobretudo na figura de Jón Sigurðsson (1811-1879), erudito e político que conduziu com paciência e sem violência a luta pela autonomia diante da Dinamarca. Sob sua liderança, a Islândia obteve uma constituição e um Alþingi restaurado, com funções legislativas, em 1874, no milênio do assentamento. Seu aniversário, 17 de junho, seria mais tarde escolhido como dia nacional da Islândia. O processo seguiu por etapas: em 1904 o país conquistou o autogoverno (Home Rule), e em 1918 tornou-se o Reino da Islândia, um Estado soberano ligado à Dinamarca apenas pela figura do rei e pela política externa.
A Segunda Guerra Mundial precipitou o desfecho. Quando a Alemanha ocupou a Dinamarca em abril de 1940, a Islândia ficou isolada do seu rei, e no mês seguinte, em maio de 1940, tropas britânicas ocuparam a ilha para impedir que os alemães o fizessem; em 1941 os Estados Unidos assumiram o lugar dos britânicos. A ocupação — aceita a contragosto, mas muito vantajosa economicamente — transformou o país, encheu-o de empregos, estradas e dinheiro, e tornou inviável continuar atrelado a uma Dinamarca ocupada. Em 17 de junho de 1944, na planície histórica de Þingvellir, a Islândia proclamou finalmente a República, plenamente independente. Sveinn Björnsson foi seu primeiro presidente. Mil anos depois do Alþingi, a velha república de fazendeiros renascia como Estado moderno.
A Islândia independente fez do mar sua grande questão de Estado. A pesca, sobretudo a do bacalhau, era o sustento do país, e defender os pesqueiros contra as frotas estrangeiras virou uma questão de sobrevivência nacional. Daí nasceram as chamadas Guerras do Bacalhau, uma série de confrontos com o Reino Unido ao longo de três décadas: quando a Islândia ampliou unilateralmente suas águas exclusivas —para 4 milhas em 1952, 12 em 1958, 50 em 1972 e 200 em 1975—, os pesqueiros britânicos continuaram trabalhando escoltados por navios de guerra. A guarda costeira islandesa respondia cortando as redes dos arrastões com tesourões, e houve colisões, abalroamentos e uma forte tensão diplomática. Apesar de ser uma das menores nações do mundo e não ter exército, a Islândia venceu as três disputas: na última, por volta de 1976, chegou a ameaçar fechar a base militar de Keflavík e romper com a OTAN, e o Reino Unido cedeu. Aquelas "guerras" quase sem vítimas consolidaram o princípio da zona econômica exclusiva de 200 milhas que hoje vale no mundo todo.
Esse braço de ferro mostra o peso estratégico que a Islândia teve durante a Guerra Fria. Situada no meio do Atlântico Norte, entre a América e a Europa, a ilha era uma peça-chave para o controle do oceano. A Islândia foi membro fundador da OTAN em 1949 —decisão que provocou distúrbios em Reykjavík— e abrigou a partir de 1951 a grande base aeronaval americana de Keflavík, sem ter exército próprio.
Essa posição de encruzilhada fez de Reykjavík o cenário de um momento histórico. Nos dias 11 e 12 de outubro de 1986, na casa Höfði, à beira-mar, reuniram-se o presidente americano Ronald Reagan e o líder soviético Mikhail Gorbachev. A cúpula terminou formalmente sem acordo —esbarrou na Iniciativa de Defesa Estratégica de Reagan—, mas os dois líderes chegaram surpreendentemente perto de pactuar a eliminação de todas as armas nucleares, e o terreno preparado ali levou, um ano depois, ao Tratado INF, que retirou os mísseis de alcance intermediário. Muitos consideram a cúpula de Reykjavík um dos grandes passos rumo ao fim da Guerra Fria.
Nas décadas seguintes, a Islândia se modernizou a toda velocidade e, no começo do século XXI, viveu um espetacular boom financeiro. Seus três grandes bancos —Kaupthing, Landsbanki e Glitnir— se expandiram pelo mundo captando poupança estrangeira, sobretudo britânica e holandesa (as contas "Icesave"), até que seus ativos chegaram a valer várias vezes o PIB do país. Era uma bolha insustentável: em outubro de 2008, em plena crise financeira mundial, os três bancos quebraram quase ao mesmo tempo. Em proporção ao tamanho da economia, foi o maior colapso bancário da história de qualquer país.
A resposta islandesa fugiu do roteiro habitual. Em vez de resgatar os bancos com dinheiro público, o Estado os deixou cair, estatizou-os e dividiu cada um em um "banco bom" e um "banco ruim", garantindo os depósitos internos, mas não as dívidas com credores estrangeiros. A coroa despencou, houve controle de capitais, protestos em massa —a "revolução das panelas", que derrubou o governo— e, com o tempo, processos judiciais que mandaram para a prisão dezenas de banqueiros, algo inédito no mundo. A economia afundou e depois se recuperou, apoiada na pesca, na energia barata e num turismo que cresceria de forma explosiva nos anos seguintes.
E então os vulcões voltaram. Em 2010, a erupção do Eyjafjallajökull lançou na atmosfera uma nuvem de cinzas que, levada pelo vento sobre a Europa, obrigou a fechar o espaço aéreo de grande parte do continente durante dias: mais de 100.000 voos foram cancelados e milhões de passageiros ficaram retidos, no maior fechamento aéreo desde a Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, a península de Reykjanes, às portas de Reykjavík, entrou em um novo ciclo eruptivo depois de oito séculos de calma: desde a erupção do Fagradalsfjall em março de 2021, várias erupções se sucederam e, a partir do fim de 2023, a atividade se deslocou para a fileira de crateras de Sundhnúkur, junto à vila de pescadores de Grindavík. Em novembro de 2023, seus quase 4.000 habitantes foram evacuados diante da ameaça do magma, e as erupções seguintes danificaram casas e infraestrutura e deixaram a vila praticamente abandonada. Mais uma vez, a história da Islândia se escreve no ritmo da terra que a criou.
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A costa sul da Islândia vive sob a ameaça de uma combinação peculiar e temível: vulcões cobertos por geleiras. Quando um desses vulcões subglaciais entra em erupção, o calor derrete de uma vez enormes quantidades de gelo, e a água acumulada sob a geleira é liberada de repente numa inundação catastrófica. Os islandeses deram a isso um nome próprio, hoje usado pela ciência no mundo todo: jökulhlaup, literalmente "corrida da geleira". São enxurradas súbitas que podem arrastar blocos de gelo do tamanho de casas e despejar, durante horas, vazões comparáveis às dos maiores rios do planeta.
Sob a grande calota do Vatnajökull se esconde o vulcão Grímsvötn, um dos mais ativos do país, responsável por repetidos jökulhlaup ao longo da história. A erupção do Grímsvötn em 1996 provocou uma inundação colossal que arrasou pontes e estradas da costa sul e despejou no mar uma planície de areia e gelo. Esses episódios explicam por que boa parte do sul é coberta de sandur: vastas planícies de areia preta e cascalho depositadas por séculos de inundações glaciais, uma paisagem desolada e magnífica.
Viver aqui sempre exigiu conviver com esse risco. As fazendas ficavam nos poucos pontos altos e seguros, e a memória coletiva guarda a lembrança de enxurradas que apagaram caminhos e isolaram regiões inteiras. Hoje o monitoramento científico dos vulcões subglaciais é constante, mas a costa sul continua sendo um lugar onde a geografia pode mudar em um único dia.
Ao longo da costa sul se estende uma estreita faixa habitável entre o mar e as geleiras, e nela se instalaram, desde a Era do Assentamento, algumas das fazendas mais antigas da Islândia. É uma terra fértil, mas perigosa: os pastos verdes ficam literalmente à sombra de vulcões como o Hekla, o Eyjafjallajökull e o Katla, e a vida dos fazendeiros sempre dependeu do humor da montanha.
O Hekla, no interior dessa região, foi tão temido na Idade Média que, na Europa cristã, chegou a ser considerado uma das bocas do Inferno; suas erupções, frequentes e violentas, cobriam os campos de cinzas e matavam o gado. Quando o Eyjafjallajökull entrou em erupção em 2010, as fazendas em suas encostas ficaram soterradas pelas cinzas e os moradores tiveram que sair e passar meses limpando uma terra que tinha ficado cinza; o mundo lembra dessa erupção pelo caos aéreo que provocou, mas para os fazendeiros do sul foi, acima de tudo, uma luta para salvar os animais e as colheitas.
Essa convivência com o perigo forjou um caráter. As sagas e as crônicas estão cheias de histórias de famílias que reconstruíam suas fazendas uma vez atrás da outra depois de cada erupção ou inundação. Ainda hoje, muitas dessas propriedades continuam nas mãos das mesmas famílias há gerações, e algumas abriram pequenos museus ou hospedagens que contam aos viajantes o que significa plantar e criar gado na fronteira entre o habitável e o impossível.
O sul é dominado pelo Vatnajökull, a maior geleira da Europa em volume, uma calota de gelo que cobre boa parte do sudeste da Islândia e esconde sob sua massa vários vulcões ativos. De suas bordas descem numerosas línguas glaciais que, durante milênios, esculpiram os vales e levaram o gelo quase até o mar. Esse gelo, porém, é um arquivo do clima: seu avanço e seu recuo registram as mudanças de temperatura do planeta.
Nas últimas décadas, o recuo se acelerou de forma alarmante. Com o derretimento da língua glacial de Breiðamerkurjökull formou-se, já no século XX, a lagoa de Jökulsárlón: um lago glacial de águas geladas onde flutuam icebergs desprendidos da frente da geleira, que derivam lentamente para o mar e às vezes ficam encalhados na praia de areia preta, a chamada "praia dos diamantes". A lagoa não existia há um século; nasceu e cresce à medida que a geleira recua, e hoje é uma das paisagens mais fotografadas da Islândia e, ao mesmo tempo, um termômetro visível da mudança climática.
O aquecimento global é um assunto muito presente na Islândia. Em 2014 o país declarou oficialmente "morta" a Okjökull, a primeira geleira islandesa perdida para o aquecimento, e em 2019 instalou ali uma placa comemorativa dirigida ao futuro. Os glaciologistas alertam que, se a tendência continuar, boa parte das geleiras islandesas pode desaparecer nos próximos séculos. Jökulsárlón, com sua beleza serena de gelo à deriva, virou assim um símbolo dessa perda anunciada.
Vík í Mýrdal, a vila mais ao sul da Islândia, vive literalmente à sombra de um perigo. Acima dela ergue-se a geleira Mýrdalsjökull e, sob o gelo, esconde-se o Katla, um dos maiores e mais temidos vulcões do país. O Katla entrou em erupção de forma violenta muitas vezes ao longo da história —em média, várias vezes por século—, e cada erupção desencadeia jökulhlaup devastadores que varrem a planície entre a montanha e o mar. A última grande erupção reconhecida foi em 1918, o que significa que, pelo seu ritmo histórico, o vulcão está mais de um século atrasado: os islandeses sabem que o Katla vai despertar de novo, e a pergunta não é se, mas quando.
Por isso Vík é também uma vila preparada para a catástrofe. A igreja, no alto de uma colina, foi pensada como refúgio: em caso de erupção e inundação, espera-se que a população suba correndo até ela, o único ponto que ficaria a salvo da enxurrada glacial. São feitos simulados, e o monitoramento sísmico do Katla é permanente.
Ao redor de Vík se abre uma das paisagens mais espetaculares da costa sul: as praias de areia vulcânica preta de Reynisfjara, com suas colunas de basalto e os rochedos de Reynisdrangar saindo do mar, envoltos em lendas de trolls petrificados pelo amanhecer. É um litoral lindo e traiçoeiro, de ondas repentinas e correntes perigosas, que resume o espírito de toda a região: beleza extrema no limite do risco.
Atrás da faixa litorânea do sul se abre outro mundo: as Highlands, o vasto interior desabitado da Islândia. É um planalto de altitude, de desertos de cinzas, campos de lava, geleiras e rios sem pontes, onde nunca houve assentamentos permanentes e onde ainda hoje ninguém vive. Durante séculos, esse interior foi terra de ninguém, atravessada apenas pelas rotas que ligavam o norte e o sul do país, e refúgio dos útlagar, os proscritos condenados pelo Alþingi que sobreviviam como podiam longe de qualquer comunidade —um tema recorrente nas sagas e no folclore islandês.
Na borda meridional das Highlands fica Landmannalaugar, famosa por suas montanhas de riolito tingidas de ocre, vermelho, verde e amarelo, e por suas fontes termais naturais, onde os viajantes se banham depois da caminhada. A região faz parte de uma área geotérmica ativa e é o ponto de partida do Laugavegur, considerado uma das trilhas de montanha mais bonitas do mundo. Só dá para chegar no verão, com veículos 4x4 capazes de atravessar os rios, já que no inverno as Highlands ficam fechadas pela neve.
Esse isolamento fez do interior um espaço quase mítico na cultura islandesa: lugar dos huldufólk (o "povo oculto" do folclore), de fugitivos e de fenômenos naturais extremos. Hoje é um santuário natural protegido e um destino de trekking, mas conserva seu caráter indomável. Percorrer as Highlands é mergulhar na Islândia mais pura e implacável, a mesma que os colonos medievais nunca conseguiram domar.
No fundo do Eyjafjörður, o fiorde mais longo da Islândia, fica Akureyri, a maior cidade do norte e a segunda do país fora da área de Reykjavík. Habitada desde a Era da Colonização, foi durante séculos um punhado de fazendas e um pequeno entreposto comercial dinamarquês; recebeu direitos de mercado em 1786, com a abolição do monopólio, embora seu crescimento de verdade tenha chegado nos séculos XIX e XX com o comércio, a pesca e a agricultura do fértil vale ao redor.
Protegida dos ventos do norte pelas montanhas e beneficiada por um microclima relativamente ameno, Akureyri é surpreendentemente verde para a sua latitude —fica a apenas uns cem quilômetros do Círculo Polar Ártico— e se orgulha de ter um dos jardins botânicos mais setentrionais do mundo. Tornou-se um centro cultural e intelectual do norte, com escolas, teatro e uma vida própria que a transformou num contrapeso natural da capital.
Hoje Akureyri funciona como capital regional de todo o norte da Islândia: porto pesqueiro, sede universitária, centro de comunicações e base para chegar às grandes maravilhas naturais da região, do lago Mývatn à cachoeira de Goðafoss —a "cachoeira dos deuses", onde, segundo a tradição, o recitador da lei Þorgeir teria jogado seus ídolos pagãos depois da conversão do ano 1000—. É uma cidade pequena e acolhedora que concentra a vida de um vasto território de fiordes e vales.
A leste de Akureyri, a região do lago Mývatn é uma das grandes vitrines do vulcanismo islandês. O lago, raso e salpicado de ilhotas, foi formado por erupções antigas, e todo o seu entorno é uma paisagem surreal de crateras, campos de lava retorcida, pseudocrateras, fumarolas e poças de lama fervente. Debaixo da terra, o calor geotérmico alimenta banhos termais e uma usina elétrica. A riqueza de insetos do lago —da qual vem seu nome, "lago dos mosquitos"— sustenta ainda uma extraordinária população de aves aquáticas, única na Europa.
O grande episódio histórico da região são os Fogos de Krafla (Kröflueldar), uma série de erupções e episódios vulcânicos que sacudiram o sistema do vulcão Krafla entre 1975 e 1984. Durante quase uma década, a terra se abriu repetidas vezes em fissuras, o solo inchou e afundou, e rios de lava brotaram das rachaduras, num fenômeno que os cientistas puderam estudar de perto e que ilustrou de forma espetacular como as placas tectônicas se separam ao longo da dorsal. As erupções chegaram a ameaçar a usina geotérmica que estava sendo construída na época em Krafla.
Essa atividade não é por acaso: Mývatn e Krafla ficam justamente sobre a zona de rift, a fratura pela qual a Islândia está se rasgando em duas. Antes dos Fogos de Krafla, a região tinha vivido outra grande crise vulcânica no século XVIII, os chamados Fogos de Mývatn (1724-1729). Viver aqui sempre significou habitar uma terra que racha; hoje essa mesma energia é aproveitada na usina de Krafla, e a paisagem vulcânica é uma das maiores atrações do norte.
Húsavík, um pequeno porto na baía de Skjálfandi, no norte, se tornou a "capital das baleias" da Islândia. Suas águas, ricas em alimento, atraem no verão inúmeras espécies —baleias-jubarte, minke e, com sorte, a enorme baleia-azul—, e desde meados dos anos noventa a cidade fez da observação de cetáceos sua grande atividade econômica. O turismo de baleias transformou Húsavík: barcos de madeira zarpam todos os dias em busca dos gigantes do mar, e a cidade abriga um notável Museu das Baleias que explica sua biologia e história. Curiosamente, Húsavík também reivindica ser o lugar onde teria se instalado Garðar Svavarsson, um colono nórdico que passou o inverno ali antes mesmo de Ingólfur.
Esse boom da observação convive com uma realidade incômoda: a Islândia é um dos poucos países do mundo que ainda permitem a caça comercial de baleias. Depois da moratória internacional, a Islândia retomou a caça no começo do século XXI e continua concedendo licenças para capturar baleias-comuns (fin whales), a segunda maior espécie do planeta, considerada vulnerável. Em 2024, o governo concedeu à empresa baleeira Hvalur uma nova licença para caçar mais de uma centena de baleias-comuns, apesar da queda da demanda —a carne é exportada sobretudo para o Japão— e da pressão internacional.
A questão divide a sociedade islandesa. Muitos defendem a caça como uma tradição e um direito soberano sobre seus recursos; outros a consideram cruel, economicamente marginal e contraditória com a imagem de um país que ganha muito mais dinheiro mostrando baleias vivas aos turistas do que matando-as. O debate sobre o futuro da caça —com propostas de proibi-la definitivamente— continua aberto, e Húsavík, com seus barcos de observação, encarna como nenhum outro lugar essa tensão entre as duas maneiras de se relacionar com os cetáceos.
Seyðisfjörður, um vilarejo encaixado no fundo de um fiorde estreito do leste, com casas de madeira coloridas trazidas por comerciantes noruegueses no fim do século XIX, teve um papel decisivo na conexão da Islândia com o mundo. Durante séculos, a ilha tinha ficado praticamente incomunicável: as notícias levavam semanas para chegar da Europa, transportadas de barco, e essa distância reforçava seu isolamento político e econômico sob o domínio dinamarquês.
Isso mudou em 1906. Naquele ano, a Grande Companhia Telegráfica do Norte (Store Nordiske) instalou um cabo submarino que, partindo da Escócia e das Ilhas Faroé, chegava à terra islandesa justamente em Seyðisfjörður. O serviço foi inaugurado em 25 de agosto de 1906, e a partir do fiorde do leste uma linha terrestre —sustentada por milhares de postes ao longo de centenas de quilômetros— finalmente levou o telégrafo até Reykjavík. Pela primeira vez, a Islândia podia se comunicar com o resto do mundo em questão de minutos, e não de semanas.
Aquele cabo foi uma revolução. Acelerou o comércio, a imprensa e a vida política justamente quando o país avançava rumo ao autogoverno, e colocou Seyðisfjörður no mapa como a porta de entrada das telecomunicações na Islândia. O vilarejo conserva hoje esse legado no seu Museu Técnico do Leste da Islândia e continua sendo, além disso, o único porto islandês com ligação regular de ferry para o continente europeu, mantendo seu velho papel de elo entre a ilha e o mundo. Sua igreja azul e sua rua de paralelepípedos o transformaram, com os anos, num dos vilarejos mais fotografados do país.
O norte e o leste também carregam a memória da grande emigração. Em março de 1875, o vulcão Askja, nas terras altas do interior nordeste, entrou numa violenta erupção que lançou enormes quantidades de cinzas sobre os vales do leste da Islândia. As cinzas envenenaram as pastagens, mataram o gado e arruinaram as fazendas de regiões inteiras, num momento em que o país já sofria com invernos duros, pobreza e falta de terras.
Aquela catástrofe foi um dos estopins de uma onda migratória sem precedentes. Entre as décadas de 1870 e 1900, dezenas de milhares de islandeses —muitos deles do norte e do leste— deixaram a ilha rumo à América do Norte. Um grande número se estabeleceu no Canadá, na província de Manitoba, às margens do lago Winnipeg, onde em 1875 fundaram a colônia de "Nova Islândia" em torno do vilarejo de Gimli. Ali conservaram por gerações a língua, as tradições e até um jornal em islandês, e ainda hoje a comunidade de descendentes celebra todo ano o Íslendingadagurinn, o "Dia dos Islandeses".
Estima-se que cerca de um quinto da população do país tenha emigrado, uma sangria demográfica enorme para uma nação tão pequena. Essa diáspora criou um vínculo duradouro entre a Islândia e o Canadá e deixou no norte e no leste a lembrança das famílias que partiram quando a terra —o vulcão, o frio, a fome— se tornou impossível de habitar. A história da região não se entende sem esses navios que zarparam rumo ao oeste levando tantos de seus filhos.
O oeste da Islândia é, mais do que qualquer outra região, a terra das sagas. Nos vales de Borgarfjörður e na península de Snæfellsnes se passam algumas das grandes narrativas medievais islandesas: a Saga de Egil Skallagrímsson, protagonizada pelo guerreiro-poeta Egil, cuja família se estabeleceu em Borg; ou a Saga dos habitantes do vale de Laxárdalur (Laxdæla saga), uma das mais admiradas, com sua heroína Guðrún Ósvífursdóttir e sua trágica história de amor e vingança, ambientada nos arredores do fiorde de Breiðafjörður.
Mas o grande nome do oeste é Snorri Sturluson (1179-1241), o maior escritor da Islândia medieval, que viveu e governou a partir de Reykholt, em Borgarfjörður. Historiador, poeta e político poderosíssimo, Snorri compôs a Edda em prosa —o manual de mitologia e poesia nórdica sem o qual mal conheceríamos os deuses vikings— e a Heimskringla, a grande história dos reis da Noruega. Em Reykholt ainda dá para ver a Snorralaug, a antiga piscina termal circular ligada ao seu nome, e os restos da sua fazenda.
Snorri encarnou também a tragédia da sua época. Envolvido nas lutas de poder da Era dos Sturlungos e na sua complexa relação com a coroa norueguesa, acabou assassinado no porão da sua casa em Reykholt em setembro de 1241, por ordem indireta do rei Haakon da Noruega. Suas últimas palavras, segundo a tradição —"Eigi skal höggva", "não se deve golpear"—, ficaram gravadas na memória islandesa. Que a maior obra literária da Idade Média escandinava tenha saído daquelas fazendas do oeste islandês é um dos grandes orgulhos da região.
O oeste, com seus fiordes abertos para o Atlântico e seus pesqueiros abundantes, foi durante séculos uma das grandes despensas pesqueiras da Islândia. O bacalhau seco foi, desde a Idade Média, o principal produto de exportação do país: era pescado em barcos a remo durante o inverno e a primavera, secado ao ar nas praias e enviado para a Europa, onde a demanda por peixe para os dias de jejum cristão o transformava numa mercadoria valiosa. Boa parte da economia islandesa dependeu do bacalhau muito antes de existir qualquer indústria.
Essa riqueza atraiu frotas estrangeiras. Desde o século XV, barcos ingleses, alemães da Liga Hanseática e, mais tarde, franceses e de outras nações frequentaram essas águas, às vezes comerciando e às vezes em conflito com os islandeses e com a coroa dinamarquesa, que reivindicava o monopólio. Os fiordes do oeste e dos Westfjords foram cenário dessa competição, com estações de pesca temporárias onde conviviam e se chocavam pessoas de diferentes países.
A dependência do bacalhau marcou o destino do país até o século XX. A modernização da frota, com os primeiros arrastões a vapor no começo dos anos 1900, disparou a produção e lançou as bases da Islândia moderna; e a defesa desses pesqueiros diante das frotas britânicas desembocaria, já na segunda metade do século, nas Guerras do Bacalhau. Ainda hoje, a pesca continua sendo um dos pilares da economia islandesa, e os vilarejos do oeste conservam seu caráter marinheiro.
No extremo ocidental da península de Snæfellsnes se ergue o Snæfellsjökull, um vulcão cônico coroado por uma geleira que domina a paisagem e que, nos dias claros, dá para ver da distante Reykjavík, do outro lado da baía. Sua silhueta perfeita e seu ar misterioso o encheram de lendas e lhe deram um lugar inesperado na literatura universal.
Foi o escritor francês Júlio Verne quem o tornou famoso no mundo inteiro. No seu romance Viagem ao centro da Terra (1864), o professor Lidenbrock e seus companheiros descem justamente pela cratera do Snæfellsjökull para iniciar sua expedição rumo às entranhas do planeta. Verne nunca esteve na Islândia, mas escolheu esse vulcão real como porta de entrada para o seu mundo subterrâneo e, com isso, ligou para sempre o nome da montanha à imaginação de gerações de leitores.
A península de Snæfellsnes, às vezes chamada de "Islândia em miniatura" porque reúne em pouco espaço geleiras, campos de lava, praias, falésias e vilarejos de pescadores, é hoje Parque Nacional em torno da geleira. Seus vilarejos —como Arnarstapi ou Hellnar— guardam a memória da velha Islândia marinheira, e muitos visitantes chegam atraídos tanto pela natureza quanto pelo eco do romance de Verne. O Snæfellsjökull continua sendo, para muitos, a montanha mais literária da Islândia.
A noroeste, os Westfjords, ou Fiordes do Oeste, são a região mais remota, montanhosa e despovoada da Islândia: uma península recortada por fiordes profundos, ligada ao resto do país por um istmo estreito, com falésias onde fazem ninho milhões de aves marinhas. Seu isolamento fez dela cenário de histórias extraordinárias, e uma das mais sombrias aconteceu no outono de 1615.
Naquele ano, vários navios baleeiros bascos —então chamados de "espanhóis"— trabalhavam nos Westfjords depois de um acordo com os islandeses para caçar baleias. Quando já se preparavam para partir, uma tempestade despedaçou seus navios contra as rochas; cerca de oitenta marinheiros sobreviveram, mas ficaram encalhados e sem recursos, e estouraram conflitos com a população local por comida e mantimentos. O xerife da região, Ari Magnússon, ditou uma sentença declarando-os fora da lei, e nas semanas seguintes grupos de islandeses mataram cerca de trinta e dois baleeiros bascos. Foi o último massacre documentado da história da Islândia, conhecido como o "Massacre dos Espanhóis" (Spánverjavígin).
Aquela sentença que autorizava matar os bascos à primeira vista ficou, por incrível que pareça, sem ser revogada durante séculos. Só em 22 de abril de 2015, quatrocentos anos depois, o comissário distrital dos Westfjords, Jónas Guðmundsson, a revogou oficialmente durante a inauguração de um monumento em Hólmavík em memória dos baleeiros assassinados, num ato de reconciliação com o País Basco. A história deixou ainda um legado curioso: do contato entre baleeiros bascos e islandeses nasceu um pidgin basco-islandês, do qual se conservam glossários, um dos poucos testemunhos daquela convivência trágica.
Os mesmos fiordes escarpados que dão aos Westfjords sua beleza os tornam mortalmente perigosos no inverno. Muitos vilarejos de pescadores se espremem numa estreita faixa de terra entre o mar e montanhas íngremes cobertas de neve, expostos às avalanches. Em 1995, duas catástrofes seguidas comoveram o país inteiro.
A primeira aconteceu na madrugada de 16 de janeiro de 1995, quando uma avalanche de 400 metros de largura caiu sobre o vilarejo de Súðavík em plena tempestade, destruiu quinze casas e matou catorze pessoas, entre elas oito crianças. Apenas nove meses depois, em 26 de outubro de 1995, outra avalanche se desprendeu da encosta de Skollahvilft sobre o vilarejo de Flateyri, arrasou dezessete casas e deixou vinte mortos. No total, as duas avalanches daquele ano tiraram trinta e quatro vidas em comunidades pequenas, onde todo mundo se conhecia.
O impacto na consciência nacional foi enorme. A Islândia entendeu que um número considerável de seus vilarejos estava construído em áreas de risco inaceitável, e as tragédias de 1995 desencadearam uma mudança radical na política de segurança: foram erguidos grandes diques e barreiras defletoras para proteger as localidades ameaçadas, foram elaborados mapas de risco e casas foram realocadas. Aqueles muros de contenção que hoje se veem acima de Flateyri, Súðavík ou Ísafjörður são o legado silencioso de uma das maiores tragédias da Islândia moderna e um lembrete de que, nos Westfjords, a montanha também manda.
O sudoeste da Islândia é o berço do país. Segundo a tradição registrada no Landnámabók, foi aqui que, por volta do ano 874, desembarcou Ingólfur Arnarson, considerado o primeiro colono permanente da ilha. Conta o relato que ele jogou ao mar os pilares de madeira de seu assento de honra e jurou se estabelecer onde as ondas os deixassem; encontrou-os em uma baía de onde subia vapor geotérmico, e por isso a batizou de Reykjavík, "baía das fumaças". Aquela coluna de vapor que deu nome à futura capital brotava das mesmas forças geotérmicas que hoje aquecem a cidade.
Durante séculos, porém, Reykjavík não passou de um punhado de fazendas. A Islândia era um país sem cidades: a população vivia espalhada em propriedades rurais, e nem mesmo sob o domínio dinamarquês houve verdadeiros núcleos urbanos. Reykjavík só começou a existir como vila no século XVIII, quando o reformador Skúli Magnússon instalou ali algumas oficinas de lã na década de 1750 para tentar tirar o país da miséria; desse modesto começo industrial nasceu o centro original da cidade.
Essa combinação —o lugar do primeiro assentamento e o embrião da única cidade do país— faz do sudoeste o coração histórico da Islândia. Num raio pequeno se concentram os grandes marcos fundadores: o desembarque de Ingólfur, a assembleia de Þingvellir e os campos geotérmicos que definiriam a relação dos islandeses com sua terra ardente.
A menos de uma hora da atual Reykjavík fica Þingvellir, sem dúvida o lugar mais carregado de história de toda a Islândia. É uma planície cortada por uma grande falha: aqui, de forma visível, se abre a fenda entre as placas norte-americana e eurasiática, com paredões de lava, fissuras e um rio que a percorre. Sobre esse cenário geológico único reuniu-se, no ano 930, o primeiro Alþingi, a assembleia geral do Estado Livre Islandês, um dos parlamentos mais antigos do mundo.
Durante mais de oito séculos, a cada verão, os goðar e os homens livres iam a Þingvellir para legislar, julgar e negociar. Da Lögberg, ou Rocha da Lei, o recitador declamava as leis de memória diante da multidão; no Alþingi decidiu-se, no ano 1000, a conversão pacífica do país ao cristianismo, e ali foram resolvidas inúmeras disputas que as sagas relatam. O lugar foi durante séculos o centro simbólico da vida nacional.
Não é por acaso que a história moderna voltou várias vezes a Þingvellir. Ali se celebrou em 1874 o milênio do assentamento e ali, em 17 de junho de 1944, foi proclamada a República independente da Islândia. Hoje Þingvellir é Parque Nacional e Patrimônio da Humanidade, e faz parte do famoso "Círculo Dourado", junto com o gêiser Geysir —que deu nome a todos os gêiseres do mundo— e a cachoeira de Gullfoss. Caminhar pela sua falha é percorrer, ao mesmo tempo, a geologia e a memória política da Islândia.
Daquelas fazendas junto à baía das fumaças nasceu a capital mais setentrional do mundo. Reykjavík recebeu direitos de cidade em 1786, quando caiu o monopólio comercial dinamarquês, mas durante muito tempo continuou sendo uma vila pequena e modesta. O crescimento de verdade veio com o século XX: a pesca motorizada, a independência e, sobretudo, a Segunda Guerra Mundial, quando a ocupação britânica e americana encheu a região de obras, empregos e dinheiro, e o campo se esvaziou rumo à cidade.
Hoje a região metropolitana de Reykjavík concentra cerca de dois terços da população da Islândia. É a sede do Alþingi moderno, do governo e da vida cultural do país: ali ficam a igreja Hallgrímskirkja, que domina o horizonte da cidade, a sala de concertos Harpa junto ao porto, os museus e a vibrante cena musical de onde saíram nomes como Björk e Sigur Rós. Apesar de ser capital de Estado, continua sendo uma cidade pequena, de prédios baixos e cores vivas, cercada de mar e montanhas.
Reykjavík encarna o paradoxo islandês: uma nação de apenas algumas centenas de milhares de habitantes que funciona como um Estado plenamente desenvolvido, com uma das rendas e um dos índices de igualdade de gênero mais altos do mundo. Abastecida quase totalmente por energia geotérmica e hidrelétrica, é também uma das capitais mais limpas do planeta, aquecida pelo mesmo vapor que um dia Ingólfur viu subir do chão.
Nada resume melhor a relação dos islandeses com sua terra ardente do que a geotermia. Sob o sudoeste do país, o calor do subsolo aquece enormes reservas de água que a sociedade aprendeu a aproveitar: quase todas as casas de Reykjavík são aquecidas com água quente natural bombeada dos campos geotérmicos, um modelo desenvolvido ao longo do século XX que fez do país um pioneiro mundial em energias renováveis. A Islândia obtém praticamente toda a sua eletricidade e o seu aquecimento de fontes limpas.
O símbolo turístico dessa geotermia é a Lagoa Azul (Bláa lónið), na península de Reykjanes. Curiosamente, não é um fenômeno totalmente natural: a lagoa se formou a partir da água saturada de sílica e minerais descartada pela usina geotérmica de Svartsengi, inaugurada na década de 1970. As pessoas começaram a se banhar naquelas águas de um turquesa leitoso, atribuindo a elas propriedades benéficas para a pele, e com o tempo o lugar virou um dos destinos mais visitados do país, um spa de águas quentes no meio de um campo de lava preta.
Essa mesma região mostra as duas faces da geotermia. A usina de Svartsengi, que alimenta a Lagoa Azul, abastece de água quente e eletricidade toda a região de Reykjanes; mas ela fica justamente na área que, desde 2023, passou a ser ameaçada pelas erupções vulcânicas perto de Grindavík, o que obrigou a construir diques de proteção e a interromper as atividades várias vezes. A água que dá prazer e calor brota do mesmo fogo que às vezes destrói.
A península de Reykjanes, no sudoeste, é o lugar da Islândia onde a dorsal mesoatlântica sai do mar e entra em terra firme: aqui a fenda entre os dois continentes atravessa a paisagem, e por isso esta é uma das áreas geologicamente mais ativas do país. Durante quase oito séculos, porém, ela permaneceu vulcanicamente calma, e sobre ela cresceram o aeroporto internacional de Keflavík, a usina de Svartsengi, a Lagoa Azul e várias vilas de pescadores, como Grindavík.
Essa calma acabou em março de 2021. Em 19 de março abriu-se uma fissura em Geldingadalir, junto ao monte Fagradalsfjall, numa erupção tranquila e prolongada que atraiu multidões de trilheiros e cientistas. A ela se seguiram novas erupções no Fagradalsfjall em 2022 e 2023, sinal de que a península tinha entrado em um novo ciclo eruptivo que pode durar décadas ou séculos.
No fim de 2023, a atividade ficou perigosa. O magma se deslocou para a fileira de crateras de Sundhnúkur, bem embaixo da vila de Grindavík: depois de milhares de terremotos, em novembro de 2023 seus quase 4.000 habitantes foram evacuados e, em 18 de dezembro, abriu-se uma grande fissura. Em janeiro de 2024 a lava chegou às primeiras casas da vila e, em fevereiro, outra erupção rompeu a tubulação de água quente de Svartsengi, deixando dezenas de milhares de pessoas sem aquecimento em pleno inverno. Grindavík ficou praticamente despovoada. As erupções de Reykjanes são hoje o grande lembrete de que a Islândia continua sendo uma terra viva, que se faz e se desfaz sob os pés de seus habitantes.
Quase nada do que aconteceu com Islândia aconteceu sozinho: estas são as histórias ao lado.