O Lago Mývatn é um dos lugares mais impressionantes e estranhos da Islândia: um lago vulcânico raso, salpicado de ilhotas, cercado por uma paisagem que parece de outro planeta. Crateras, campos de lava retorcida, colunas de vapor brotando da terra, poças de lama fervente e montanhas em tons de ocre e enxofre compõem um cenário que resume, em poucos quilômetros, toda a fúria geológica do país. Estamos sobre a dorsal mesoatlântica, a grande fenda onde as placas da América e da Europa se separam e onde a Islândia, literalmente, está se partindo em duas.
O nome diz tudo, ainda que num idioma difícil: 'mý' é mosquito e 'vatn' é lago, então Mývatn significa, ao pé da letra, 'o lago dos mosquitos'. E é verdade: no verão, essas nuvens de borrachudos (na maioria inofensivos, mas irritantíssimos) são o alimento que sustenta uma das maiores concentrações de aves aquáticas do mundo, com dezenas de espécies de patos que fazem ninho em suas margens. É um lugar de uma riqueza natural extraordinária, protegido como reserva, tão valioso para a biologia quanto espetacular para o viajante.
Este guia percorre o melhor de Mývatn com olhar prático: as pseudocrateras de Skútustaðir, os labirintos de lava de Dimmuborgir, a grande cratera Hverfjall, as fumarolas fumegantes de Hverir, a caverna de Grjótagjá (famosa por Game of Thrones, mas onde não é mais permitido tomar banho), os banhos naturais do norte — a alternativa mais barata à Blue Lagoon — e a região vulcânica de Krafla, com sua usina geotérmica e sua história extraordinária. Também avisamos o que é bom saber: os mosquitos do verão, o forte cheiro de enxofre e os preços altíssimos da Islândia. Tudo em coroas islandesas, com equivalente em euros.
O Mývatn é um lago jovem em termos geológicos: formou-se há cerca de 2.300 anos, quando uma grande erupção de lava represou o vale. Toda a região é atravessada pela dorsal mesoatlântica, a fissura onde as placas da América do Norte e da Eurásia se separam, e por isso é uma das áreas vulcânicas e geotérmicas mais ativas da Islândia. Sua história moderna é marcada por dois grandes episódios eruptivos: os 'Fogos de Mývatn' (Mývatnseldar), de 1724 a 1729, e os 'Fogos de Krafla' (Kröflueldar), de 1975 a 1984, ambos protagonizados pelo sistema vulcânico de Krafla. Em 1967 foi instalada uma fábrica de diatomita que extraía sedimentos do fundo do lago, o que gerou um longo conflito ambiental até seu fechamento em 2004. E em 2009, um poço do Iceland Deep Drilling Project perfurou por acidente uma câmara de magma a cerca de 2.100 metros de profundidade, um feito científico extraordinário. A história geológica completa, com as pseudocrateras, os Fogos e a reserva de aves, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Akureyri, the capital of the north; the volcanism of Lake Mývatn and the Krafla Fires; Húsavík, the whale capital, caught between whale watching and the hunting Iceland still allows; and Seyðisfjörður, the eastern fjord where the telegraph cable that connected the island to the world came ashore in 1906.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para entender o Lago Mývatn, é preciso entender que ele está bem em cima de uma das maiores feridas do planeta: a dorsal mesoatlântica, a cadeia de fissuras vulcânicas onde a placa tectônica da América do Norte e a da Eurásia se afastam lentamente, cerca de dois centímetros por ano. A Islândia é um dos pouquíssimos lugares do mundo onde essa dorsal, normalmente escondida sob milhares de metros de oceano, aparece na superfície. Na verdade, o país inteiro está se partindo em dois ao longo de uma faixa diagonal, e o norte, com a região de Mývatn e Krafla, é um de seus trechos mais ativos.
Essa posição geológica explica quase tudo. O magma sobe das profundezas por essas fendas, e o resultado é uma paisagem em construção permanente: campos de lava recentes, crateras, caldeiras, fumarolas, poças de lama fervente e água quente por todo lado. O próprio lago é jovem. Ele se formou há cerca de 2.300 anos, quando uma enorme erupção de lava basáltica represou um vale e criou esta bacia larga e rasa, salpicada de ilhotas e de pseudocrateras. Não é um lago esculpido por geleiras nem por rios, e sim moldado pelo fogo.
É essa mesma atividade que aquece o subsolo e alimenta as fontes geotermais que tornam possíveis os banhos naturais, que tinge de ocre e de amarelo-enxofre os campos de Hverir e que, séculos depois, permitiria à Islândia gerar eletricidade a partir do calor da terra. Mývatn é, em poucos quilômetros quadrados, um museu a céu aberto de como nasce e se transforma uma ilha vulcânica. Tudo o que o viajante vê, o belo e o inquietante, é consequência direta de viver sobre uma fenda que não para de se abrir.
Um dos traços mais característicos e menos compreendidos de Mývatn são suas pseudocrateras, especialmente o grupo protegido de Skútustaðir, na margem sul do lago. À primeira vista, parecem pequenos vulcões: têm um cone arredondado e uma cratera no topo. Mas não são, e a diferença é fundamental. Um vulcão é uma abertura por onde o magma sobe do interior da Terra. Já uma pseudocratera não tem nenhuma ligação com o magma profundo: é, literalmente, uma 'falsa cratera'.
Elas se formam por explosões de vapor. Quando um fluxo de lava muito quente avança sobre um terreno encharcado, como um brejo, a margem de um lago ou um solo saturado de água, a água presa sob a lava esquenta de repente até ferver e vira vapor. Esse vapor, preso e sob pressão crescente, acaba explodindo para cima e atravessa a lava ainda mole, lançando fragmentos que se acumulam ao redor do ponto da explosão. Repetido muitas vezes, o processo constrói esses cones com cratera que imitam vulcões de verdade, mas que na realidade são 'cicatrizes' de uma batalha entre a lava e a água. Por isso também são chamadas de crateras 'sem raiz' (rootless craters): não têm uma raiz que desça até o magma.
As pseudocrateras de Mývatn estão entre os exemplos mais famosos e estudados desse fenômeno no mundo, a ponto de os geólogos usarem formações parecidas descobertas em Marte para deduzir onde houve água no planeta vermelho. Há vários grupos ao redor do lago, mas o de Skútustaðir, com suas trilhas entre lagoas, é o mais visitado e acessível. Entender que elas não são vulcões muda completamente a leitura da paisagem: Mývatn é tanto a história do fogo quanto a da água, e do que acontece quando os dois se encontram de repente.
A história moderna de Mývatn foi escrita por dois grandes episódios eruptivos do sistema vulcânico de Krafla, separados por dois séculos e meio, mas surpreendentemente parecidos entre si. O primeiro foram os chamados Fogos de Mývatn (Mývatnseldar), que se estenderam de 1724 a 1729. Começaram de forma espetacular em 1724, com a formação explosiva da cratera Víti ('o inferno'), e continuaram nos anos seguintes com a abertura de inúmeras fissuras e fluxos de lava, que ameaçaram fazendas e até a igreja de Reykjahlíð. A tradição local conta que a lava cercou a igreja, mas parou pouco antes de destruí-la, um episódio que ficou gravado na memória da comunidade. Numa época sem ciência moderna, aqueles fogos foram vividos com terror religioso.
O segundo episódio, os Fogos de Krafla (Kröflueldar), aconteceu entre 1975 e 1984 e, desta vez, foi observado com todo o instrumental da geologia contemporânea. Durante esses nove anos, a caldeira de Krafla foi palco de uma longa sequência de eventos: o solo inchava e afundava várias vezes à medida que o magma se acumulava e escoava pelas fissuras subterrâneas, em uns quinze ciclos de inflação e deflação, acompanhados de nove erupções que abriram novas fendas e derramaram lava fresca sobre a paisagem. Os cientistas consideram que os Fogos de Krafla foram, em essência, uma continuação do mesmo mecanismo que havia produzido os Fogos de Mývatn no século XVIII: o mesmo sistema vulcânico, se comportando de maneira quase idêntica.
Essas erupções não são coisa de um passado remoto: a lava negra de Leirhnjúkur, que o viajante pode percorrer hoje perto do lago, ainda solta fumaça em alguns pontos e tem apenas algumas décadas. Caminhar sobre ela é pisar no solo mais jovem da Islândia. E Krafla continua sendo um vulcão ativo e monitorado, capaz de despertar de novo. Mývatn não é uma paisagem pronta, e sim uma obra em andamento.
A riqueza vulcânica de Mývatn também transformou o lago em alvo de exploração econômica, com consequências polêmicas. Em 1967, foi instalada em Bjarnarflag, perto do lago, uma fábrica de diatomita (kieselguhr): um material formado pelas carapaças microscópicas de diatomáceas, algas que se acumulam no fundo do Mývatn. A fábrica bombeava esses sedimentos do leito do lago e os secava usando o vapor geotérmico, para produzir um pó usado como filtro e abrasivo industrial. Durante décadas foi uma fonte de emprego local, mas também motivo de um intenso conflito ambiental: dragar o fundo do lago alterava seu delicado ecossistema, do qual dependem as famosas aves aquáticas. A pressão de cientistas e ambientalistas, somada a fatores econômicos, levou ao fim da extração em 2004. O episódio é um exemplo precoce da tensão islandesa entre aproveitar os recursos naturais e proteger paisagens únicas.
Nessa mesma região aconteceu, além disso, um dos fatos científicos mais extraordinários da história geotérmica mundial. Em 2008-2009, o Iceland Deep Drilling Project (IDDP) perfurou em Krafla um poço, o IDDP-1, com a ambição de alcançar fluido geotérmico 'supercrítico' a cerca de 4.500 metros de profundidade, muito mais quente e energético que o habitual. Mas a apenas uns 2.100 metros a perfuração deu de cara com algo inesperado e, a princípio, temido: os restos de vidro vulcânico fresco nas amostras revelaram que a broca tinha chegado diretamente a uma câmara de magma. Perfurar magma é, para os engenheiros geotérmicos, praticamente a única coisa que eles aprendem a evitar.
Em vez de abandonar o poço, a equipe decidiu estudá-lo e colocá-lo para produzir. O IDDP-1 acabou sendo um dos poços geotérmicos mais potentes já medidos, capaz de gerar uma enorme quantidade de energia a partir do calor próximo ao magma, e abriu uma linha de pesquisa pioneira sobre como aproveitar diretamente essa fonte extrema. Tudo isso a poucos quilômetros de onde os patos fazem ninho entre as pseudocrateras. Mývatn é assim: um lugar onde a biologia mais frágil e a geologia mais brutal convivem a minutos de distância.
Por trás de sua paisagem vulcânica, Mývatn esconde uma das maiores riquezas biológicas da Islândia, e tudo começa pelo nome: 'mý' significa mosquito e 'vatn', lago. Mývatn é, literalmente, 'o lago dos mosquitos'. Longe de ser um defeito, essas enormes nuvens de mosquitinhos que aparecem no verão são a base de todo o ecossistema. As larvas desses insetos vivem aos milhões no fundo raso e rico em nutrientes do lago, e sua abundância sustenta uma cadeia alimentar excepcional. Por isso Mývatn e o rio Laxá, que nasce nele, abrigam uma das populações de aves aquáticas reprodutoras mais ricas do mundo: já foram registradas mais de cem espécies de aves na região, com mais de dez espécies de patos que fazem ninho em suas margens.
Entre essas aves há verdadeiras raridades para os observadores europeus. Mývatn é o único lugar da Europa onde se reproduz o olho-de-ouro-islandês, ou 'Barrow's goldeneye', um pato de olho dourado e uma mancha branca característica que vive aqui o ano todo. Também é refúgio do pato-arlequim, de plumagem azul, castanha e branca, que gosta das águas rápidas do Laxá. Esse valor biológico levou à proteção da área: o lago e seus arredores formam uma reserva natural especial desde 1974, com regras rígidas para preservar o hábitat, e o conjunto de Mývatn e Laxá está entre os sítios que a Islândia candidata por sua importância ecológica internacional.
Hoje, essa dupla natureza, geológica e biológica, é o que atrai os viajantes. Mývatn é ao mesmo tempo um laboratório de vulcanismo vivo e um santuário de aves; um lugar onde, no mesmo dia, dá para caminhar entre lava fumegante, espiar dentro de uma cratera, assar pão debaixo da terra, tomar banho em água geotermal e observar patos raríssimos entre as pseudocrateras. Reserva há meio século, continua sendo um equilíbrio delicado entre o uso turístico e energético e a conservação de um ecossistema único, nascido, como tudo aqui, da fenda que divide a ilha em duas.