Jökulsárlón é, para muita gente, a imagem mais impactante da Islândia: uma lagoa de água azul-turquesa onde flutuam, à deriva, enormes blocos de gelo que se soltaram da geleira. Esses icebergs se desprendem da língua do Breiðamerkurjökull, vão navegando lentamente em direção ao mar e, no caminho, mudam de forma e de cor: brancos, azul elétrico, e alguns com veios pretos de cinza vulcânica presa no gelo durante séculos. É um espetáculo silencioso e em movimento permanente, onde de vez em quando um bloco vira com um estalo abafado.
O mais impressionante é que essa lagoa é novíssima: ela não existia há cem anos. Começou a se formar só por volta dos anos 1930-40, quando a geleira começou a recuar e deixou para trás uma depressão que foi se enchendo de água do degelo. Desde então ela não para de crescer, porque a geleira continua encolhendo. Jökulsárlón é, literalmente, o cartão-postal da mudança climática: linda e ao mesmo tempo inquietante, um lugar que aumenta ano após ano enquanto o gelo derrete.
Este guia conta como visitá-la com foco no que é prático: como chegar pela Ring Road (e por que não vale a pena fazer como bate-volta de Reykjavik), quando saem os passeios de barco e quanto custam de verdade em coroas, o que é a Diamond Beach em frente, onde ver as focas e como combinar a lagoa com o resto da costa sul. Com dados verificados, preços reais e sem rodeios.
Jökulsárlón não existia há um século. A lagoa nasceu por volta de 1934-35, quando a geleira Breiðamerkurjökull, que durante a Pequena Era do Gelo tinha avançado até quase tocar o mar e destruído fazendas, começou a recuar com o aquecimento do clima. O gelo que derretia foi deixando uma fossa que se encheu de água, e assim surgiu o lago. Desde os anos 70 ele quadruplicou de tamanho e hoje tem uns 25 km² e até 284 metros de profundidade, o que o torna o lago mais profundo da Islândia. Seu crescimento ameaça até a ponte da Rodovia 1. Em 2017 o Estado islandês comprou a fazenda Fell, que incluía a lagoa, para protegê-la, e hoje ela faz parte do Parque Nacional Vatnajökull. Sua beleza a transformou em cenário de filmes de James Bond, Batman e Lara Croft. Toda a história, com datas e números, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The strip where ice and fire touch: farms planted at the foot of glacier-capped volcanoes, the sudden floods known as jökulhlaup, the retreat of Vatnajökull and the Jökulsárlón lagoon, the village of Vík in the shadow of the fearsome Katla, and the highlands of Landmannalaugar.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Quase todos os lugares que a gente visita numa viagem estão ali há séculos. Jökulsárlón, não. A lagoa glacial mais famosa da Islândia é mais jovem que muitos dos avós de quem a fotografa: ela só começou a se formar por volta de 1934-35. Antes disso, no lugar onde hoje flutuam os icebergs não havia um lago, e sim gelo: a frente da geleira Breiðamerkurjökull, que chegava quase até a costa do Atlântico.
Para entender como ela nasceu, é preciso olhar para a grande calota de gelo que a alimenta. O Vatnajökull é a maior geleira da Islândia e da Europa em volume: cobre cerca de 8% do país e passa dos 900 metros de espessura em alguns pontos. Das suas bordas descem dezenas de línguas glaciais (outlet glaciers), rios de gelo lentos que descem em direção às terras baixas. Uma delas é a Breiðamerkurjökull, que desce para o sul, em direção ao mar. Foi essa língua que, ao derreter e recuar, deixou para trás a depressão que hoje é a lagoa.
O nome já diz tudo: Jökulsárlón significa, em islandês, 'a lagoa do rio glacial'. O rio Jökulsá á Breiðamerkursandi liga a lagoa ao oceano num trecho curtíssimo, de apenas algumas centenas de metros, por onde os icebergs acabam escapando para o Atlântico. Esse rio é, aliás, um dos mais curtos da Islândia e, ao mesmo tempo, um dos que mais despejam água.
O fato de uma paisagem tão imponente ser tão recente a torna única: não é um cartão-postal congelado no tempo, mas um lugar que mudou radicalmente em menos de um século e que continua mudando a cada ano. Jökulsárlón é a prova visível, em escala humana, de como o clima transforma a geografia.
Para chegar à lagoa, é preciso voltar alguns séculos, a uma época em que o gelo fazia o contrário do que faz hoje: crescia. Entre os séculos XIV e XIX, boa parte do hemisfério norte passou pelo que os cientistas chamam de Pequena Idade do Gelo, um período de temperaturas mais frias. Na Islândia, isso fez as geleiras avançarem, e a Breiðamerkurjökull foi uma das que mais cresceram.
Quando os primeiros colonos nórdicos chegaram à Islândia, por volta do ano 870, a língua da geleira estava muito mais recuada, terra adentro: calcula-se que sua frente ficava uns 20 km mais ao norte do que hoje. Entre essa língua e o mar havia uma planície fértil, a região de Breiðamörk ('a floresta larga'), onde existiam fazendas e povoados. A área era habitável e produtiva.
Com o frio da Pequena Idade do Gelo, a geleira avançou implacável rumo ao sul. Foi cobrindo pastagens e soterrando fazendas sob o gelo e a morena. No fim do século XIX, a frente da Breiðamerkurjökull tinha chegado quase até a costa: restava apenas uma faixa estreita de areia (o sandur) entre o gelo e as ondas do Atlântico. A terra que antes alimentava famílias inteiras tinha desaparecido debaixo da geleira.
Esse foi o ponto máximo. A partir do fim do século XIX e, principalmente, no século XX, o clima começou a esquentar e o processo se inverteu: a geleira que tinha avançado durante séculos começou a recuar. E, ao recuar, deixou o cenário pronto para o nascimento da lagoa.
O aquecimento do clima entre as décadas de 1920 e 1960 acelerou o recuo da Breiðamerkurjökull. Ao derreter, o gelo deixou à mostra uma fossa profunda que a própria geleira tinha escavado no terreno durante seu avanço. Essa depressão começou a se encher com a água do degelo e, assim, por volta de 1934-35, surgiu Jökulsárlón. No começo era um lago pequeno, pouco mais que uma poça ao pé do gelo.
Desde então, ela não parou de crescer, porque a geleira continua recuando (estima-se que sua frente recue cerca de 200 metros por ano). Os números falam por si: em 1975 a lagoa media uns 8 km², e hoje está em torno de 25 km², mais que o quádruplo em meio século. Ela é, além disso, o lago mais profundo da Islândia: em 2009 foram medidos até 284 metros de profundidade no setor onde antes ficava a frente da geleira, com uma média próxima dos 153 metros.
A lagoa funciona como uma fábrica constante de icebergs. A frente da geleira acaba flutuando sobre a água profunda e, por isso, se parte com facilidade: grandes blocos se desprendem (um processo chamado calving), caem na lagoa e ficam à deriva. Eles vão derivando devagar até a boca que se liga ao mar, empurrados pelo vento e pelas marés, enquanto derretem e mudam de forma. Alguns levam anos para atravessar a lagoa; outros saem para o Atlântico e voltam à costa, na Diamond Beach.
Todo esse espetáculo tem um lado inquietante: é a imagem direta da mudança climática. A lagoa é linda justamente porque a geleira está morrendo. A cada verão a frente recua um pouco mais, a lagoa aumenta, e o que hoje é água era gelo há pouco tempo. Jökulsárlón virou, sem querer, um dos símbolos mundiais do recuo das geleiras.
O crescimento da lagoa não é só um dado bonito para os turistas: ele traz um problema de engenharia bem concreto. Na frente de Jökulsárlón passa a Rodovia 1, a Ring Road, a única estrada que contorna toda a Islândia e liga o sudeste ao resto do país. Bem ali, sobre o rio curto que liga a lagoa ao mar, há uma ponte. E essa ponte está em risco.
Conforme o mar erode a boca da lagoa e ela se alarga, a correnteza que sai para o Atlântico fica mais forte e mina a costa e os pilares da ponte. Além disso, os icebergs à deriva podem bater na estrutura. Para proteger a estrada, as autoridades islandesas construíram defesas: um dique e grandes blocos de pedra que freiam a erosão e desviam o gelo. Mesmo assim, o avanço do mar em direção à lagoa é uma preocupação constante, e soluções de longo prazo estão sendo estudadas para que a Ring Road não seja interrompida nesse ponto.
A lagoa também foi protagonista de uma curiosa história de propriedade. Durante décadas, o terreno onde fica Jökulsárlón pertenceu a uma fazenda particular, a fazenda Fell. Como o lugar tinha se tornado uma das maiores atrações turísticas do país (com centenas de milhares de visitantes por ano), na década de 2010 surgiu o temor de que ele acabasse nas mãos de investidores privados ou estrangeiros, com o risco de passar a cobrar entrada ou ser explorado sem controle.
Para evitar isso, em 2017 o Estado islandês comprou a parte da fazenda Fell que inclui a lagoa, depois de um processo que gerou bastante debate público sobre quem deveria ser dono de um lugar natural tão emblemático. No mesmo ano, a área foi incorporada ao Parque Nacional Vatnajökull, um dos maiores da Europa, o que lhe deu proteção legal. Hoje Jökulsárlón é patrimônio público e o acesso continua gratuito.
A beleza surreal de Jökulsárlón não passou despercebida pela indústria do cinema. Sua paisagem de icebergs flutuando serviu de cenário para produções de Hollywood muito antes de o turismo de massa chegar à Islândia. Pela lagoa passaram dois filmes de James Bond — 'A View to a Kill' (007 – Na Mira dos Assassinos, 1985) e 'Die Another Day' (007 – Um Novo Dia para Morrer, 2002), em que o 007 dirige sobre o gelo —, além de 'Lara Croft: Tomb Raider' (2001), 'Batman Begins' (2005) e vários outros. Essas aparições ajudaram a colocar a lagoa no mapa turístico mundial.
O turismo na lagoa, porém, começou antes e de forma modesta. Os primeiros passeios comerciais de barco começaram em 1985; no verão de 1987, só umas 5.000 pessoas navegavam pela lagoa por ano. Com o tempo, e com o boom turístico islandês da década de 2010, o número disparou: hoje os barcos anfíbios (veículos que rodam até a água e navegam entre o gelo) levam dezenas de milhares de passageiros a cada temporada, e a lagoa é uma das paradas obrigatórias de qualquer roteiro pela costa sul.
Além dos números, Jökulsárlón é também um santuário de vida selvagem. As focas-comuns entram a partir do mar e podem ser vistas nadando entre os blocos de gelo ou descansando sobre eles, principalmente perto da boca que dá para o Atlântico. No verão, a área se enche de aves marinhas: trinta-réis-árticos, que fazem uma das viagens migratórias mais longas do planeta, e mandriões-parasíticos. Os icebergs que saem para o mar e voltam à costa formam, logo em frente, a famosa Diamond Beach, onde o gelo transparente brilha sobre a areia preta.
Assim, em menos de um século, um canto que antes foi terra de fazendas soterradas pelo gelo se transformou primeiro numa lagoa, depois em cenário de cinema e, por fim, numa das paisagens mais visitadas e fotografadas da Islândia. Um lugar que continua crescendo e mudando a cada ano, lembrando a gente, em silêncio, de como o gelo do planeta está derretendo rápido.