Existe um cantinho da Islândia onde o verde e o branco se encontram de um jeito que parece impossível: bosques de bétulas, campos floridos e cachoeiras de águas cristalinas aos pés de línguas de gelo que descem da maior geleira da Europa. Esse lugar é Skaftafell, um antigo parque natural hoje integrado ao enorme Parque Nacional Vatnajökull, no sudeste do país. Protegido do clima mais duro pelas próprias montanhas, Skaftafell tem um microclima surpreendentemente ameno que o transforma num oásis de vegetação em meio a paisagens de gelo e areia preta.
Sua grande joia é Svartifoss, a 'cachoeira negra': uma queda d'água emoldurada por colunas de basalto hexagonais de cor escura, que pendem como os tubos de um órgão gigante ou as estalactites de uma caverna. Mas Skaftafell é muito mais: é o ponto de partida de algumas das caminhadas mais bonitas da Islândia, o lugar para espiar as línguas glaciais do Vatnajökull, como o Skaftafellsjökull, e a base ideal para viver a experiência de caminhar sobre uma geleira com crampons, piolet e guia.
Este guia percorre o essencial de Skaftafell com um olhar prático e acolhedor: quais trilhas escolher conforme o tempo que você tem, como chegar a Svartifoss e aos mirantes das geleiras, como fazer uma caminhada sobre o gelo com segurança, onde dormir e comer numa região com poucos serviços e como combinar a visita com a vizinha lagoa de Jökulsárlón. Skaftafell é trilha, gelo e silêncio: um daqueles lugares onde a Islândia mostra toda a sua grandeza natural.
Durante séculos, Skaftafell foi uma fazenda (uma de várias na região) habitada num ambiente extremo, encurralada entre o avanço das geleiras do Vatnajökull e as inundações glaciais (jökulhlaups) provocadas pelas erupções de vulcões escondidos sob o gelo, como o Grímsvötn. Esses jökulhlaups, somados às erupções do vizinho Lakagígar em 1783-1784 (uma das catástrofes vulcânicas mais mortais da história da Islândia), devastaram repetidas vezes as terras baixas e isolaram a região, que por muito tempo ficou separada do resto do país por rios glaciais impossíveis de atravessar. Só em 1974, com a conclusão da ponte sobre o Skeiðará e o fechamento do anel da Ring Road, Skaftafell passou a ter ligação rodoviária com o resto da Islândia. Àquela altura, sua natureza excepcional já estava protegida: em 1967 foi criado o Parque Nacional de Skaftafell, que reconhecia o valor de seu microclima, sua vegetação e suas paisagens glaciais. Em 2008, Skaftafell foi integrado ao grande Parque Nacional Vatnajökull, um dos maiores da Europa, que protege a geleira de mesmo nome e vastas áreas ao redor. Em 2019, o conjunto do Vatnajökull foi inscrito na lista de Patrimônio Mundial da Unesco por sua interação excepcional entre o fogo vulcânico e o gelo glacial. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The strip where ice and fire touch: farms planted at the foot of glacier-capped volcanoes, the sudden floods known as jökulhlaup, the retreat of Vatnajökull and the Jökulsárlón lagoon, the village of Vík in the shadow of the fearsome Katla, and the highlands of Landmannalaugar.
Ler a história de South coast →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existir o nome 'Öræfi' (que em islandês significa literalmente 'terra baldia' ou 'ermo'), toda esta região do sudeste tinha um nome bem diferente: Litla Hérað, 'o pequeno distrito'. Era, segundo as fontes históricas e as sagas, uma região relativamente próspera para os padrões da Islândia medieval: calcula-se que, por volta de meados do século XIV, chegou a ter umas 40 fazendas em produção, muitas delas assentadas nas terras férteis que hoje fazem parte do Parque Nacional Vatnajökull, incluindo a área que hoje conhecemos como Skaftafell.
Skaftafell em si era uma propriedade importante dentro desse distrito: na Idade Média, funcionou como fazenda senhorial e como sede de uma assembleia local (þing), o que indica que tinha peso administrativo e social na região. Nos seus primeiros séculos, a propriedade pertenceu à Igreja e mais tarde passou para as mãos da Coroa dinamarquesa, reflexo de como a posse da terra na Islândia esteve, durante boa parte da sua história, ligada ao poder eclesiástico e depois ao domínio colonial da Dinamarca.
A vida nessa região girava em torno da pecuária, da pesca sazonal e do aproveitamento de terras baixas relativamente protegidas pelas montanhas, aos pés do imponente vulcão Öræfajökull (então chamado Knappafellsjökull), o pico mais alto da Islândia. Ninguém podia imaginar, em meados do século XIV, que aquele mesmo vulcão que dava nome e sustento à região estava prestes a apagá-la do mapa tal como a conheciam.
Em 1362, o vulcão Öræfajökull — o mais alto da Islândia, com 2.110 metros, e hoje escondido sob a calota do Vatnajökull — protagonizou uma das erupções mais violentas da história registrada do país. Foi uma erupção pliniana, explosiva e brutal, comparável em magnitude à do Pinatubo em 1991 ou à explosão do Krakatoa: expeliu algo em torno de 10 quilômetros cúbicos de tefra (cinzas e piroclastos), escurecendo o céu e soterrando a região sob uma chuva de material vulcânico incandescente.
O impacto sobre Litla Hérað foi devastador e praticamente instantâneo. Estima-se que a erupção destruiu entre 20 e 40 fazendas da área, com a morte de todos os seus moradores e do gado nas propriedades mais próximas do vulcão. Os fluxos piroclásticos e as torrentes de lama vulcânica (lahares) arrasaram as lavouras e as pastagens que durante gerações haviam sustentado a comunidade. No começo do século XV, das cerca de 40 fazendas que existiam antes da catástrofe, apenas oito continuavam habitadas.
Foi esse cataclismo que deu origem ao novo nome da região: onde antes se dizia Litla Hérað, os sobreviventes e as gerações seguintes passaram a chamá-la de Öræfi, 'a terra baldia', um nome que continua em uso até hoje e que é uma lembrança permanente da magnitude da tragédia. O próprio vulcão acabou rebatizado como Öræfajökull ('a geleira da terra baldia'), no lugar do nome anterior. Curiosamente — e de forma importante para a história posterior de Skaftafell —, a área específica onde hoje fica o centro de visitantes do parque ficou fora das principais rotas de fluxo dessa erupção de 1362 (e também da erupção posterior, de 1727), o que permitiu que a vida agrícola continuasse ali nos séculos seguintes, ainda que sob a sombra constante do vulcão e das suas geleiras.
Sobreviver em Öræfi depois de 1362 não significou viver em paz com a natureza. A região continuou exposta, século após século, a um dos fenômenos mais temidos da Islândia: os jökulhlaups, inundações glaciais súbitas e colossais que acontecem quando uma erupção vulcânica ocorre sob o gelo do Vatnajökull — por exemplo, no vulcão subglacial Grímsvötn — e derrete de uma vez enormes volumes de água congelada. Essas cheias, capazes de arrastar blocos de gelo do tamanho de prédios, arrasavam periodicamente os campos, destruíam caminhos e mudavam completamente o curso dos rios que desciam rumo ao mar, dando forma à atual planície de areia preta do Skeiðarársandur.
A essa ameaça recorrente somou-se, em 1783-1784, a erupção do Lakagígar (as 'crateras do Laki'), o episódio vulcânico mais mortífero de toda a história da Islândia e um dos mais letais do mundo em tempos históricos. Embora o foco eruptivo ficasse mais a oeste, as consequências foram nacionais: os derrames de lava mais extensos já registrados em tempos históricos e, sobretudo, uma nuvem tóxica de gases sulfurosos (a chamada 'névoa do Laki') que envenenou pastagens e gado em boa parte do país. A fome resultante, conhecida como Móðuharðindin ('as duras privações da névoa'), matou cerca de um quinto da população da Islândia e até 80% do gado, atingindo com especial dureza as comunidades já vulneráveis do sudeste.
Esses fenômenos repetidos — erupções, jökulhlaups, fomes — foram isolando cada vez mais Öræfi e Skaftafell do resto da Islândia. Os rios glaciais que cruzavam o Skeiðarársandur eram, durante boa parte do ano, impossíveis ou extremamente perigosos de atravessar a vau, e não existia nenhuma ponte sobre eles. Durante séculos, essa região do sudeste viveu praticamente isolada por terra, dependendo de rotas sazonais e do conhecimento local do terreno para qualquer deslocamento até o resto do país.
A grande mudança para Skaftafell e toda a região de Öræfi só chegou no século XX, em duas etapas que se entrelaçam. A primeira foi o reconhecimento do valor natural excepcional da área: já em 1960 foi proposto formalmente transformar Skaftafell em parque nacional, levando em conta o seu microclima singular — protegido dos ventos mais fortes pelas próprias montanhas —, que permitia a existência de bosques de bétulas, campos floridos e uma vegetação exuberante bem ao pé das geleiras, um contraste que quase não se repete em nenhum outro ponto do país. Em 15 de setembro de 1967, Skaftafell foi oficialmente declarado Parque Nacional, o segundo da Islândia depois de Þingvellir, e o fazendeiro local Ragnar Stefánsson, da propriedade Hæðir, tornou-se o primeiro guarda-parque.
A segunda etapa, não menos decisiva, foi a conexão física com o resto do país. Até o começo dos anos 70, atravessar o traiçoeiro Skeiðarársandur continuava sendo uma empreitada arriscada, sem pontes sobre os vários braços do rio glacial Skeiðará. Só em 1974 foi concluída a construção da ponte sobre o Skeiðará, a última peça que faltava para fechar o anel completo da Ring Road (Rota 1), a estrada que contorna toda a Islândia. Com essa ponte, Skaftafell e toda a região de Öræfi ficaram pela primeira vez ligadas por estrada, de forma permanente, a Reykjavík e ao resto do país, pondo fim a séculos de isolamento relativo.
Essa mesma ponte, no entanto, seria protagonista de mais um episódio dramático da turbulenta relação entre esta terra e os seus vulcões: em 1996, uma erupção subglacial do vulcão Grímsvötn provocou um jökulhlaup de proporções colossais que arrasou boa parte da infraestrutura sobre o Skeiðarársandur, incluindo as estruturas metálicas da ponte original, retorcidas pela força da água e do gelo. Hoje, os restos dessas vigas estão preservados como monumento junto à Rota 1, uma lembrança física e contundente do poder da natureza nesta região.
O Parque Nacional de Skaftafell, tal como foi criado em 1967, funcionou de forma independente durante quatro décadas, consolidando-se como um dos destinos naturais mais visitados da Islândia graças à sua combinação única de trilhas acessíveis, cachoeiras, bosques e vistas diretas das línguas do Vatnajökull. Mas em 7 de junho de 2008 houve uma mudança institucional de grande porte: Skaftafell foi incorporado, junto com o antigo Parque Nacional de Jökulsárgljúfur (no norte do país, onde fica a cachoeira Dettifoss), ao novo e muito mais extenso Parque Nacional Vatnajökull (Vatnajökulsþjóðgarður).
Esse novo parque, que chegou a se tornar o maior da Europa em área, protege não só a própria geleira Vatnajökull — a de maior volume do continente —, mas também as vastas áreas periféricas onde o gelo encontra paisagens vulcânicas, cânions, cachoeiras e planícies de areia preta. Dentro dessa nova estrutura, Skaftafell passou a ser uma das principais 'áreas' ou distritos de gestão do parque, mantendo a sua identidade e o seu Centro de Visitantes como porta de entrada preferida por boa parte dos turistas que percorrem a Ring Road.
O reconhecimento internacional veio em 2019, quando a Unesco inscreveu o Parque Nacional Vatnajökull na sua Lista do Patrimônio Mundial, destacando de forma explícita a interação excepcional entre o vulcanismo ativo e a dinâmica glacial que caracteriza esta região: os mesmos processos — erupções sob o gelo, jökulhlaups, o recuo e o avanço das línguas glaciais — que durante séculos representaram uma ameaça mortal para os moradores de Öræfi são hoje valorizados como um laboratório natural único no planeta para entender a interação entre o fogo e o gelo. Hoje, caminhar até Svartifoss ou chegar perto da frente do Skaftafellsjökull é também, de certo modo, caminhar sobre setecentos anos de uma história marcada pela catástrofe, pela resiliência e, finalmente, pela proteção de uma paisagem única.