Há lugares que parecem pintados para um cartão-postal do fim do mundo, e Vík é um deles. Esta minúscula cidadezinha do extremo sul da Islândia se acomoda entre o mar revolto do Atlântico Norte e o maciço branco da geleira Mýrdalsjökull, com uma igrejinha vermelha de telhado pontudo vigiando tudo do alto de uma colina verde. Lá embaixo se estende uma das imagens mais icônicas do país: praias de areia completamente preta, colunas de basalto que parecem um órgão de pedra e, mar adentro, os dramáticos rochedos de Reynisdrangar emergindo das ondas.
Mas Vík não é só beleza serena: é também um lugar de forças da natureza em estado puro. Debaixo da geleira que a coroa dorme o vulcão Katla, um dos mais temidos da Islândia, cujas erupções marcaram a história da região. O mar, por sua vez, é traiçoeiro: as chamadas 'sneaker waves' (ondas repentinas) de Reynisfjara já tiraram vidas, e as placas avisam em todos os idiomas. Aqui a natureza não se contempla da calçada: se respeita.
Este guia percorre o essencial de Vík e arredores com um olhar prático e acolhedor: quais praias e falésias visitar, como circular com segurança numa costa famosa pelo mar perigoso, onde dormir e comer numa cidadezinha minúscula, mas bem preparada para o turismo, e como aproveitá-la como base para uma das regiões mais espetaculares da Islândia. Vík é pequena, mas condensa em poucos quilômetros boa parte da magia da ilha.
Vík í Mýrdal —cujo nome significa, mais ou menos, 'baía no vale do pântano'— é um povoado relativamente jovem para os padrões islandeses. Embora a região do Mýrdalur seja habitada desde a época da colonização viking (séculos IX e X), a cidadezinha em si só cresceu no fim do século XIX e começo do XX, quando se tornou um ponto de comércio costeiro, apesar de não ter um porto natural protegido: os barcos precisavam descarregar diretamente na perigosa praia aberta. A vida de Vík sempre foi marcada por dois gigantes que a cercam. Um é o mar do Atlântico Norte, bravio e fundamental para a pesca e o comércio. O outro é o vulcão Katla, escondido sob a geleira Mýrdalsjökull, cujas erupções provocaram ao longo dos séculos enormes 'jökulhlaups' (inundações glaciais repentinas) que arrasaram as planícies de areia preta (os 'sandur') dos arredores. A igreja de Víkurkirkja, construída em 1934 no alto da colina, não está ali por acaso: é o ponto de encontro designado em caso de uma erupção do Katla, já que se acredita que seria um dos poucos lugares da cidadezinha que ficaria acima de uma eventual inundação. Hoje Vík vive sobretudo do turismo: sua localização na Rota 1, em plena costa sul, a transformou numa parada imprescindível do roteiro mais percorrido da Islândia. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The strip where ice and fire touch: farms planted at the foot of glacier-capped volcanoes, the sudden floods known as jökulhlaup, the retreat of Vatnajökull and the Jökulsárlón lagoon, the village of Vík in the shadow of the fearsome Katla, and the highlands of Landmannalaugar.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome completo da cidadezinha é Vík í Mýrdal, que em islandês significa, mais ou menos, 'a baía no vale do pântano' (ou 'vale lamacento'). 'Vík' quer dizer 'baía' ou 'enseada' — a mesma raiz, aliás, que está por trás da palavra 'viking' —, e 'Mýrdalur' é o nome do vale e da região onde ela fica. Como em tantos lugares da Islândia, o topônimo é pura descrição geográfica: diz exatamente o que é e onde está.
Essa geografia explica boa parte da história e da vida do povoado. Vík fica espremida entre o mar aberto do Atlântico Norte, ao sul, e as encostas e geleiras da cordilheira, ao norte. Não tem um porto natural protegido, porque o litoral é uma longa praia aberta de areia preta castigada por ondas poderosas. Essa falta de abrigo natural marcaria toda a sua história comercial: durante muito tempo, os barcos precisavam descarregar as mercadorias direto na praia exposta, uma operação difícil e perigosa.
Ao mesmo tempo, a localização faz dela um ponto estratégico. Vík é o povoado mais ao sul da Islândia continental e fica bem na costa sul, na atual Rota 1 (a Ring Road que contorna a ilha). É o último centro de serviços de certo porte antes de entrar nas vastas planícies de areia (os 'sandur') e nas geleiras do sudeste, o que historicamente a tornou importante como ponto de passagem e, na era moderna, como parada quase obrigatória do turismo.
A região do Mýrdalur é habitada desde a época da colonização (o 'Landnám') da Islândia, o grande processo pelo qual colonos nórdicos — sobretudo noruegueses, junto com gente de origem celta vinda das ilhas britânicas — se estabeleceram na ilha entre o fim do século IX e o começo do X. A Islândia, até então desabitada, exceto talvez por alguns monges irlandeses, foi povoada por famílias que chegavam de barco em busca de terras, e a costa sul, com seus vales e pastos, recebeu vários desses primeiros moradores.
A vida no Mýrdalur, como em quase toda a Islândia, girou durante séculos em torno de uma economia de subsistência muito dura: a criação de ovelhas (que fornecia carne, leite e, principalmente, lã), um pouco de gado bovino e cavalos, e a pesca como complemento essencial. O clima frio e o solo vulcânico tornavam impossível a agricultura de cereais em grande escala, então a sobrevivência dependia do gado, do mar e da capacidade de estocar provisões para os longos e escuros invernos.
Diferentemente de outras áreas costeiras, o Mýrdalur e a própria Vík não desenvolveram cedo um grande povoado, em parte pela ausência de um porto natural. Durante a maior parte da sua história, a população viveu espalhada em fazendas (os 'bær' islandeses), e o núcleo concentrado que hoje conhecemos como a cidadezinha de Vík é, na verdade, uma criação relativamente tardia, do fim do século XIX e do século XX, ligada ao comércio costeiro.
Poucos lugares do mundo vivem tão literalmente à sombra de um vulcão quanto Vík. Logo ao norte se ergue a calota glacial do Mýrdalsjökull, e sob esse gelo dorme o Katla, um dos vulcões maiores e mais temidos da Islândia. O Katla entrou em erupção muitas vezes ao longo da história documentada (em média, a cada várias décadas), e cada uma dessas erupções teve consequências dramáticas para a região.
O maior perigo do Katla não é só a lava ou as cinzas, mas um fenômeno tipicamente islandês: o 'jökulhlaup', uma inundação glacial repentina. Quando o vulcão entra em erupção sob o gelo, o calor derrete enormes quantidades de geleira em pouquíssimo tempo, e essa água é liberada de uma vez numa avalanche colossal de água, gelo e sedimentos que desce arrasando tudo até o mar. Ao longo dos séculos, essas inundações moldaram as vastas planícies de areia preta (os 'sandur', como o Mýrdalssandur) que cercam Vík: a própria paisagem é obra do vulcão.
Por isso, em Vík a convivência com o Katla faz parte do dia a dia. Há planos de evacuação, simulados e um ponto de encontro designado: a igreja de Víkurkirkja, no alto da colina, escolhida justamente porque se acredita que ficaria acima da inundação. A erupção do vizinho Eyjafjallajökull em 2010 — aquela que paralisou o tráfego aéreo da Europa com sua nuvem de cinzas — lembrou ao mundo, e aos moradores da região, o poder dos vulcões islandeses e manteve a atenção voltada para seu poderoso vizinho, o Katla.
A Vík que conhecemos hoje como cidadezinha é, na verdade, uma criação dos séculos XIX e XX. Durante séculos, a população do Mýrdalur viveu espalhada em fazendas, sem um núcleo urbano concentrado. Isso começou a mudar no fim do século XIX, quando Vík se desenvolveu como ponto de comércio costeiro, apesar da enorme dificuldade imposta pela falta de um porto: as mercadorias eram carregadas e descarregadas direto na praia aberta, numa operação arriscada que dependia das condições do mar.
Ao longo do século XX, Vík foi se consolidando como o centro de serviços da região: lojas, uma cooperativa, escola e os serviços básicos de que uma comunidade rural precisava. A melhoria das comunicações — e, sobretudo, a construção da malha rodoviária que culminaria na Ring Road — transformou o seu papel: de difícil ponto de comércio marítimo a parada terrestre fundamental na rota do sul.
A igreja de Víkurkirkja, erguida em 1934 no alto da colina, virou o símbolo da cidade. Sua silhueta — paredes brancas, telhado vermelho pontudo — sobre o verde da colina, com a praia preta e os rochedos de Reynisdrangar ao fundo, é a imagem mais reproduzida de Vík. Mas, como vimos, a localização elevada não é só estética: faz dela o refúgio designado da comunidade diante do Katla, reunindo num só edifício a fé, a identidade e a sobrevivência do povoado.
Nenhuma paisagem islandesa está completa sem a sua lenda, e os rochedos de Reynisdrangar — as agulhas de rocha basáltica que emergem do mar em frente à praia de Reynisfjara, ao lado de Vík — têm a deles, profundamente ligada ao folclore dos trolls (os 'tröll' do imaginário nórdico-islandês). Segundo a lenda mais conhecida, essas rochas eram na verdade dois (ou três) trolls que tentavam arrastar um barco — ou, em outras versões, uma embarcação de três mastros — até a costa durante a noite.
Os trolls, na tradição islandesa, são criaturas da noite: poderosos, mas condenados a virar pedra se a luz do sol os pegar fora das suas cavernas. Nesse caso, os trolls demoraram demais na tarefa e, quando o dia amanheceu, os raios do sol os petrificaram em pleno trabalho, deixando-os para sempre transformados nessas agulhas de rocha que hoje vemos cravadas no mar. A imagem poética de gigantes apanhados pela luz resume bem o espírito de um folclore nascido de paisagens impressionantes e noites longuíssimas.
Essas lendas não são mero enfeite turístico: fazem parte de uma rica tradição oral islandesa que, durante séculos de isolamento, invernos intermináveis e natureza implacável, serviu para explicar o mundo, dar sentido às paisagens e entreter ao pé do fogo. Trolls, 'huldufólk' (o povo oculto, ou elfos) e outros seres ainda habitam a imaginação islandesa, e rochas como as de Reynisdrangar continuam sendo testemunhas de pedra dessas histórias.
Nas últimas décadas, Vík passou por uma transformação tão profunda quanto a de toda a Islândia: o turismo deixou de ser uma atividade marginal e virou um dos principais motores da economia. Depois da crise financeira islandesa de 2008 — que desvalorizou fortemente a moeda e barateou o destino — e, sobretudo, depois da erupção do Eyjafjallajökull em 2010, que colocou a Islândia em todas as telas do mundo, a chegada de visitantes disparou de forma espetacular.
Vík, pela localização privilegiada bem na costa sul e na Rota 1, foi uma das grandes beneficiadas por esse boom. As atrações do entorno — a praia de areia preta de Reynisfjara, o cabo de Dyrhólaey, as cachoeiras de Skógafoss e Seljalandsfoss, as geleiras — viraram paradas quase obrigatórias de qualquer roteiro pela ilha, seja em passeios de um dia saindo de Reykjavík, seja como etapa da volta completa pela Ring Road. A minúscula cidadezinha multiplicou hotéis, restaurantes, lojas e serviços para atender a um fluxo de visitantes muito maior que a sua própria população.
Esse crescimento trouxe prosperidade, mas também desafios típicos do turismo de massa: a pressão sobre paisagens frágeis (como o cânion de Fjaðrárgljúfur, que precisou ter o acesso regulado para proteger a vegetação), a necessidade de reforçar a segurança em lugares perigosos como Reynisfjara e o equilíbrio entre preservar o caráter do lugar e atender tanta gente. Hoje Vík representa bem a Islândia contemporânea: um povoado minúsculo, assentado sobre forças naturais colossais, que aprendeu a viver do assombro que essas paisagens despertam em viajantes do mundo todo.