Húsavík é um daqueles lugares que parecem muito maiores do que são. Esta vila de pescadores da costa norte da Islândia, com apenas uns 2.300 habitantes e casinhas coloridas debruçadas sobre um porto minúsculo, é conhecida no mundo inteiro como a 'capital das baleias da Europa'. Não por caçá-las — essa é outra história, dolorosa e ainda em aberto na Islândia —, mas por observá-las: daqui saiu, em 1995, o primeiro passeio comercial de observação de baleias do país, e desde então o mar diante da baía de Skjálfandi virou um dos melhores lugares do planeta para ver cetáceos.
Na temporada, os velhos barcos de madeira a vela zarpam várias vezes por dia rumo a uma baía onde se alimentam baleias-jubarte, baleias-minke, golfinhos-de-bico-branco e, nos melhores dias, até baleias-azuis, o maior animal que já existiu. O índice de avistamento gira em torno de 97% ao longo das últimas três décadas. De volta à terra firme, o Museu da Baleia, a igreja de madeira de 1907, os banhos geotermais GeoSea pendurados sobre o fiorde e o bar 'Ja Ja Ding Dong' completam uma vila que, além disso, ficou mundialmente famosa pelo filme da Netflix 'Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga' (2020), rodado aqui.
Este guia percorre Húsavík com um olhar prático e honesto: quais baleias aparecem e quando, quanto custa cada passeio e com qual empresa, o que fazer nos dias de tempo ruim, como usar a vila como base para o Círculo do Diamante, e também a contradição incômoda que vale a pena conhecer: enquanto Húsavík vive de mostrar baleias vivas, a Islândia ainda autoriza — com licenças vigentes e uma moratória internacional que não assina — a caça comercial desses animais.
Segundo o Landnámabók (o Livro dos Assentamentos), Húsavík foi o primeiro lugar da Islândia onde um nórdico passou o inverno: por volta do ano 870, o viking sueco Garðar Svavarsson deu a volta na ilha, invernou nesta baía e construiu algumas casas, de onde veio o nome 'Húsavík', 'baía das casas'. Ele é considerado um dos primeiros europeus a pisar na Islândia, antes até de Ingólfur Arnarson em Reykjavík. Durante séculos foi um porto de pesca de bacalhau; no século XX cresceu com a chegada dos barcos a motor e o auge do arenque, e desde 1995 se reinventou por completo com a observação de baleias, que hoje é seu motor econômico e sua identidade. A história completa — de Garðar até a moratória baleeira e o Eurovision — está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Akureyri, the capital of the north; the volcanism of Lake Mývatn and the Krafla Fires; Húsavík, the whale capital, caught between whale watching and the hunting Iceland still allows; and Seyðisfjörður, the eastern fjord where the telegraph cable that connected the island to the world came ashore in 1906.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de Húsavík ficar famosa pelas baleias, foi — segundo a tradição — o primeiro lugar da Islândia onde um nórdico passou um inverno inteiro. A história está registrada no Landnámabók, o 'Livro dos Assentamentos', a crônica medieval que conta a colonização da ilha. Ali se lê que, por volta do ano 870, um navegador sueco chamado Garðar Svavarsson chegou a estas costas, deu a volta completa na Islândia — comprovando assim que era uma ilha — e decidiu passar o inverno numa baía protegida do norte. Ergueu ali algumas casas para enfrentar o frio, e dessas construções nasceu o nome do lugar: Húsavík, literalmente 'a baía das casas'.
O dado tem um peso simbólico enorme. Garðar Svavarsson é considerado por muitos um dos primeiros europeus a se estabelecer, ainda que de forma temporária, em solo islandês, antes até de Ingólfur Arnarson, o colono norueguês que por volta de 874 se instalou de forma permanente em Reykjavík e que a tradição reconhece como o 'primeiro habitante' oficial da Islândia. A diferença é sutil, mas real: Ingólfur ficou e fundou uma linhagem; Garðar só passou o inverno e seguiu viagem. Por isso Húsavík reivindica, com orgulho local e não pouca ironia, ser 'o primeiro assentamento da Islândia', embora o título de primeira colônia permanente pertença à capital.
Disputas de honra à parte, o fato é que a baía de Skjálfandi oferecia o que um colono nórdico precisava: abrigo, pesca farta e água doce. Nos séculos seguintes, na Islândia medieval das sagas e da Comunidade Islandesa, a região continuou sendo um punhado de fazendas espalhadas, dedicadas à agricultura de subsistência e à pesca costeira. Ainda não havia um povoado, e sim uma paisagem de fiordes e campos onde poucas famílias sobreviviam no limite do Círculo Polar Ártico.
Durante boa parte de sua história, Húsavík foi o que eram quase todas as cidadezinhas costeiras da Islândia: um lugar que vivia do mar, e em especial do bacalhau. A pesca era artesanal, feita em barcos a remo abertos que saíam para a baía em condições duríssimas, e o comércio ficou por muito tempo nas mãos do monopólio dinamarquês, que nos séculos XVII e XVIII sufocou a economia islandesa ao obrigar o país a negociar apenas com mercadores da coroa. Húsavík funcionava como um desses pequenos portos comerciais onde se trocava peixe seco por farinha, madeira e produtos importados.
O grande salto veio no século XIX e, sobretudo, no começo do XX. O fim do monopólio comercial dinamarquês (1787) e depois a liberdade de comércio (1855) permitiram que o povoado crescesse como centro de serviços e comércio de toda a região agrícola de Þingeyjarsýsla. Mas o que mudou de verdade a escala foi a chegada da tecnologia: na primeira década do século XX surgiram os primeiros barcos a motor, que multiplicaram o que um punhado de pescadores conseguia capturar. Algumas décadas depois foi construído um porto permanente, e com ele a pesca deu o salto da subsistência para a atividade industrial.
A essa transformação somou-se, como em todo o litoral norte e leste da Islândia, a febre do arenque. Entre o fim do século XIX e meados do XX, enormes cardumes de arenque — 'a prata do mar', como era chamado — atraíram frotas, fábricas de salga e de óleo e uma prosperidade febril aos portos do norte. Embora o epicentro da 'aventura do arenque' islandesa tenha ficado mais ao norte (em Siglufjörður), Húsavík participou desse boom pesqueiro que financiou boa parte da modernização do país. O arenque, porém, era imprevisível: o colapso dos cardumes no fim dos anos 60 atingiu toda a Islândia e obrigou as cidades pesqueiras a se reinventar. Húsavík continuou vivendo do bacalhau e do processamento de pescado, como uma tranquila cidade de trabalho, sem desconfiar que seu futuro chegaria, literalmente, saltando para fora d'água.
O momento que definiu a Húsavík moderna não foi uma batalha nem uma catástrofe, e sim uma ideia simples e meio arriscada: em vez de caçar baleias ou pescar, por que não levar turistas para vê-las vivas? Em 1995, uma família local lançou, a partir do porto de Húsavík, o primeiro passeio comercial de observação de baleias da Islândia. A empresa pioneira foi a North Sailing, que adaptou velhos barcos de pesca de carvalho para levar visitantes à baía de Skjálfandi. A aposta deu certo muito além de qualquer previsão.
A baía se revelou um cenário ideal. Alimentada pela água fria e rica em nutrientes que desce das montanhas e das geleiras, Skjálfandi é uma despensa onde se concentram plâncton e peixes, e com eles as baleias que chegam para se alimentar no verão: jubartes, baleias-minke, golfinhos-de-bico-branco, botos e, nos melhores dias, a colossal baleia-azul. O índice de avistamento chegou a números extraordinários — cerca de 97% ao longo das décadas seguintes —, algo que poucos lugares do mundo conseguem oferecer. A notícia se espalhou, chegaram mais empresas, e o porto pesqueiro se encheu de veleiros com turistas bem agasalhados e câmeras na mão.
Em 1997, apenas dois anos depois da primeira saída, abriu o Museu da Baleia (Hvalasafn), instalado num antigo matadouro reformado, com esqueletos reais de cetáceos pendurados no teto e exposições sobre sua biologia e conservação. Húsavík passou a se chamar de 'capital das baleias da Europa', e o turismo de baleias transformou completamente sua economia: de cidade pesqueira em decadência, virou destino internacional. Hoje, boa parte dos empregos, hotéis, restaurantes e lojas da cidade depende direta ou indiretamente das baleias — vivas. Em 2018 chegou outra joia, os banhos geotermais GeoSea, que usam água do mar aquecida em piscinas de borda infinita suspensas sobre o fiorde, consolidando Húsavík como destino de natureza e bem-estar, e não só de pesca.
Não dá para entender a história de Húsavík sem o seu lado incômodo: enquanto a cidade vive de mostrar baleias vivas, a Islândia é um dos últimos países do mundo que ainda autorizam a caça comercial. Vale contar isso com dados e sem militância, porque é uma tensão real do país.
Em 1982, a Comissão Baleeira Internacional (CBI/IWC) aprovou uma moratória mundial sobre a caça comercial de baleias, que entrou em vigor na temporada 1985-1986 diante do colapso de muitas populações após séculos de caça industrial. A Islândia acatou no início, passou para uma polêmica 'caça científica' e em 1992 chegou a sair da CBI. Em 2002 voltou a entrar, mas com uma reserva expressa à moratória, um recurso legal que lhe permite — segundo sua interpretação — continuar caçando apesar do veto internacional. Desde 2006, a Islândia retomou a caça comercial, focada sobretudo na baleia-fin (ou rorqual-comum, a segunda maior do planeta, classificada como 'vulnerável' pela UICN) para exportar a carne principalmente ao Japão, e em menor escala na baleia-minke para o mercado interno.
O principal ator é a empresa Hvalur hf., comandada pelo empresário Kristján Loftsson. Em dezembro de 2024, o governo islandês lhe concedeu uma licença de cinco anos para caçar até 209 baleias-fin por ano entre 2025 e 2029, decisão muito criticada por organizações de conservação. A atividade, porém, ficou economicamente frágil: a temporada de 2023 terminou com 24 baleias caçadas, em meio a um escândalo provocado por um relatório oficial que documentou agonias prolongadas, e em 2024 e 2025 a caça foi simplesmente cancelada, segundo a própria empresa pela queda no preço da carne no Japão. Em 2026, a Hvalur anunciou a intenção de retomar a caça, enquanto o governo se comprometia a promover uma lei para proibir a caça comercial. Já a caça de baleia-minke voltada ao turismo gastronômico praticamente acabou em 2020.
Húsavík está do outro lado dessa história. O turismo de baleias movimenta muito mais dinheiro e empregos do que a caça, e boa parte da sociedade islandesa — e quase todo o setor de turismo — vê a caça como um anacronismo que prejudica a imagem do país. A cidade virou, sem querer, um símbolo dessa outra Islândia: a que prefere ver as baleias pelo visor de uma câmera, e não pela mira de um arpão.
Em outubro de 2019, uma equipe de Hollywood desembarcou em Húsavík para rodar boa parte de uma comédia da Netflix estrelada por Will Ferrell e Rachel McAdams: 'Eurovision Song Contest: The Story of Fire Saga', lançada em 2020. O filme conta a história de Lars e Sigrit, dois músicos de uma cidadezinha islandesa que sonham em vencer o Festival Eurovisão, e transformou Húsavík — a cidade natal fictícia dos protagonistas — em cenário e quase em personagem. Aparecem o porto, as casinhas coloridas e a igreja de madeira de 1907, onde o personagem de Ferrell toca o sino.
O sucesso foi mundial e teve uma reviravolta inesperada: a música 'Húsavík (My Hometown)', uma balada emocionante sobre voltar para casa, chegou a ser indicada ao Oscar de melhor canção original em 2021. A cidade inteira entrou na campanha com cartazes de 'Húsavík for Oscars', e embora a estatueta não tenha vindo, a exposição foi um presente publicitário impagável. Hoje há referências por toda parte: um bar temático 'Ja Ja Ding Dong' — pela música chiclete que o público do filme pede sem parar à banda — no hotel do porto, e um pequeno museu dedicado ao filme.
A Húsavík de hoje é uma cidade de cerca de 2.300 habitantes que vive do turismo de natureza sem perder sua alma pesqueira. Reúne os passeios para ver baleias e papagaios-do-mar, o Museu da Baleia, os banhos GeoSea, a igreja de madeira e até um curioso Museu da Exploração, que lembra que os astronautas do programa Apollo treinaram nas paisagens lunares do norte da Islândia antes de pisar na Lua. É também uma das melhores bases para percorrer o Círculo do Diamante, com as cachoeiras Goðafoss e Dettifoss e o cânion de Ásbyrgi. Da 'baía das casas' de Garðar Svavarsson à 'capital das baleias da Europa' que quase ganhou um Oscar, Húsavík é a prova de como uma cidadezinha minúscula do Ártico soube se reinventar olhando para o mar.