Os Westfjords são a Islândia que quase ninguém vê: o canto mais remoto, geologicamente mais antigo e menos visitado do país, uma península enorme de fiordes profundos, montanhas de topo plano e estradas de cascalho que despencam sobre o mar. Enquanto a maior parte dos turistas percorre o sul e o Círculo Dourado, aqui, no noroeste, dá para dirigir horas sem cruzar com ninguém, dormir em vilarejos de pescadores com um punhado de casas e sentir de verdade a escala e a solidão do Atlântico Norte. É bom dizer com honestidade: não é destino de fim de semana nem para quem tem pressa, e sim para quem tem tempo, paciência e disposição para dirigir muito.
A recompensa está à altura do esforço. Aqui fica Dynjandi, a 'joia dos Westfjords', uma cachoeira escalonada de uns cem metros que se abre como um véu de noiva. Há as falésias de Látrabjarg, um dos pontos mais ocidentais da Europa, onde milhões de aves fazem ninho e os papagaios-do-mar se deixam fotografar a poucos metros (com um aviso sério: a borda é de turfa mole e desmorona, e já houve quedas fatais). Há a praia avermelhada de Rauðasandur, a reserva selvagem e sem estradas de Hornstrandir, as piscinas termais naturais escondidas na costa e museus tão singulares quanto o da Raposa-do-Ártico em Súðavík ou o da Bruxaria em Hólmavík.
Este guia percorre os Westfjords com olhar prático e realista: o que ver, como chegar (de carro, na balsa Baldur ou de avião até Ísafjörður), como se locomover pelas estradas lentas, quanto custa cada coisa em coroas islandesas com equivalente em euros, onde dormir e comer numa região de serviços escassos e, principalmente, que precauções tomar num lugar de clima traiçoeiro, onde o vento pode arrancar a porta do carro e sair de uma trilha pode custar caro.
Os Westfjords foram um dos primeiros lugares colonizados da Islândia e o cenário de sagas sombrias e belíssimas, como a de Gísli Súrsson, o fora da lei que sobreviveu treze anos fugindo por estes fiordes. Aqui aconteceu, em 1615, o massacre de baleeiros bascos náufragos ('o massacre dos espanhóis'), um episódio brutal cuja ordem de execução só foi formalmente revogada em 2015. Na região de Strandir, a caça às bruxas do século XVII teve a particularidade islandesa de perseguir sobretudo homens. No século XX, a dureza da vida esvaziou boa parte da região: Hornstrandir foi abandonada em 1952 e, em 1995, duas avalanches devastadoras em Súðavík e Flateyri abalaram toda a Islândia e mudaram para sempre a política de prevenção do país. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The land of the sagas and of Snorri Sturluson, of cod and of the great fjords; the Snæfellsnes peninsula with the volcano Jules Verne chose as the doorway to the centre of the Earth, and the remote Westfjords, scene of the 1615 killing of Basque whalers and of the tragic avalanches of 1995.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Os Westfjords foram uma das primeiras regiões da Islândia a serem povoadas. No fim do século IX e no começo do X, colonos noruegueses e celtas das Ilhas Britânicas subiram esses fiordes profundos em busca de terra e, sobretudo, das águas mais ricas em peixe do país. Foi uma colonização dura: vales estreitos entre montanhas de topo plano, invernos longuíssimos e um mar generoso, mas mortal. Dessa época vem um dos relatos mais intensos da literatura medieval islandesa, ambientado justamente nesses fiordes: a 'Saga de Gísli Súrsson' (Gísla saga Súrssonar).
Gísli foi um herói trágico do século X, na região do Dýrafjörður. A saga narra uma espiral de honra, vingança e lealdades rompidas: depois de vingar a morte de um cunhado, Gísli é declarado proscrito (skógarmaður, 'homem da floresta', ou seja, fora da lei e sem proteção). Durante treze anos, ele sobrevive fugindo pelos Westfjords, escondido em cavernas e ajudado por sua fiel esposa Auður, até que seus perseguidores finalmente o encurralam e ele cai lutando. A saga, composta no século XIII, é famosa por seus sonhos proféticos e por retratar o conflito entre o dever de vingança e os laços de sangue. Ainda hoje é possível percorrer os lugares do Dýrafjörður associados à sua história.
Essas sagas não são crônicas exatas, mas fixaram a identidade dos Westfjords como uma terra de gente forte, isolada e calejada pela natureza, um caráter que marcaria sua história nos séculos seguintes.
No outono de 1615, aconteceu nos Westfjords um dos episódios mais sombrios da história da Islândia. Naquele verão, três navios baleeiros bascos (vindos do País Basco espanhol) tinham trabalhado na região, numa época em que os bascos eram pioneiros da caça às baleias no Atlântico Norte. Em setembro, uma tempestade destruiu os navios no Reykjarfjörður: cerca de oitenta homens ficaram náufragos em terra, sem meios de voltar para casa e diante de um inverno islandês.
A convivência com a população local se deteriorou — houve acusações de roubos e saques por parte de alguns náufragos famintos — e a situação acabou em tragédia. O xerife da região, Ari Magnússon de Ögur, reuniu homens armados e, apoiado numa interpretação do antigo código legal islandês de 1281, decretou a sentença de morte contra os bascos, declarando-os foras da lei que podiam ser mortos legalmente. Em dois episódios, em outubro de 1615 e janeiro de 1616, cerca de trinta e dois baleeiros bascos foram assassinados. Outro grupo conseguiu fugir num barco roubado. O caso ficou registrado na 'Crônica verídica' (Sönn frásaga), escrita pelo erudito Jón Guðmundsson, testemunha dos fatos, que condenou o massacre.
O mais impressionante é o longo desdobramento legal do episódio: a ordem que declarava os bascos foras da lei naquela região nunca tinha sido formalmente revogada. Só em 22 de abril de 2015, quatro séculos depois, o comissário do distrito dos Westfjords revogou oficialmente o decreto, e uma estela em memória das vítimas foi erguida em Hólmavík, num ato de reconciliação com a presença de um descendente de um dos baleeiros e de um descendente de um dos agressores. É um fato real, e vale contá-lo com sobriedade: foi o último massacre documentado da história islandesa.
No século XVII, enquanto boa parte da Europa queimava bruxas, os Westfjords — e especialmente a remota região de Strandir, na costa leste — viveram sua própria caça aos feiticeiros, com uma particularidade que a diferencia de quase todo o continente: na Islândia, a grande maioria dos acusados e executados por bruxaria foi de homens, não de mulheres. Das cerca de vinte pessoas queimadas por feitiçaria em toda a Islândia naquele século, quase todas eram homens, e várias morreram nas fogueiras de Strandir entre as décadas de 1650 e 1680.
A magia islandesa de que eram acusados não era o sabá europeu, mas uma tradição popular própria, ligada à palavra escrita e aos livros: os galdrar (feitiços) eram feitos com 'runas mágicas' (galdrastafir), fórmulas rúnicas e símbolos rabiscados em couro ou madeira para atrair sorte, amor, boa pesca ou o mal contra um inimigo. O folclore registrou rituais macabros como as nábrókarbuxur, as 'calças de defunto' supostamente feitas com a pele de um cadáver para atrair riqueza. Numa sociedade pobre, alfabetizada e muito religiosa depois da Reforma luterana, ter um desses símbolos ou um 'livro negro' podia bastar para acabar na fogueira.
Essa história é contada hoje no excelente Museu da Feitiçaria e da Bruxaria de Hólmavík, em Strandir, que trata o tema com rigor histórico e sem sensacionalismo. É um capítulo que, junto com o massacre dos bascos, revela a face mais dura e supersticiosa da vida nesses fiordes isolados, onde o medo, a pobreza e o zelo religioso podiam se tornar mortais.
Durante séculos, a vida nos Westfjords se sustentou na pesca e numa agricultura de subsistência em condições extremas. Mas o século XX, com a modernização da Islândia, atingiu com força especial essa região remota. A mecanização da pesca, a concentração da atividade em poucos portos grandes, a falta de estradas e a dureza do clima empurraram as pessoas a migrar para Reykjavík e para as cidades. Os fiordes mais isolados, sem estradas nem eletricidade, se tornaram insustentáveis.
O caso mais emblemático é o de Hornstrandir, a península mais ao norte dos Westfjords. Seus moradores, que por gerações tinham vivido da pesca, da caça de aves e da coleta de penugem de êider, foram abandonando a região até o esvaziamento total: os últimos habitantes de Hesteyri e das baías do norte partiram em 1952, e nos anos seguintes ficaram desabitadas Grunnavík (1962) e Aðalvík (por volta de 1963). Com as casas fechadas e os campos em silêncio, a natureza retomou o território. Em 1975, Hornstrandir foi declarada reserva natural protegida e hoje é uma das últimas grandes áreas selvagens da Europa, sem estradas nem moradores, reino da raposa-do-ártico e de enormes colônias de aves. Seus povoados abandonados, com túmulos e alicerces no meio do capim, são um testemunho comovente de um modo de vida que desapareceu em apenas uma geração.
Esse esvaziamento marcou o caráter atual dos Westfjords: uma região enorme com pouquíssima população (cerca de 7.000 habitantes no total), onde a paisagem domina e a marca humana é discreta. É, em boa parte, o que a torna tão especial para o viajante de hoje.
O ano de 1995 ficou gravado a ferro e fogo na memória dos Westfjords e de toda a Islândia por duas catástrofes naturais. Na madrugada de 16 de janeiro de 1995, uma grande avalanche de neve desabou sobre a vila pesqueira de Súðavík, soterrando casas enquanto as pessoas dormiam: morreram 14 pessoas, entre elas oito crianças. Poucos meses depois, em 26 de outubro de 1995, outra avalanche arrasou parte da vila de Flateyri, no Önundarfjörður, e deixou 20 mortos. Foram os piores desastres naturais da Islândia moderna e atingiram uma nação pequena, onde todo mundo parecia conhecer alguma vítima.
O impacto foi tão profundo que mudou para sempre a política de prevenção do país. O Estado islandês lançou um enorme programa de defesas contra avalanches: foram construídos muros e diques de contenção acima das vilas em risco (o grande muro em forma de 'A' sobre Flateyri hoje é visível de longe), casas foram transferidas para fora das zonas perigosas e os sistemas de alerta e evacuação foram reforçados. Súðavík, inclusive, reconstruiu sua parte residencial num trecho mais seguro do fiorde. Esses episódios são lembrados com sobriedade nos memoriais das duas vilas e continuam presentes na relação dos Westfjords com sua natureza magnífica, mas perigosa.
Nas últimas décadas, a região também travou uma batalha pelo seu futuro. O projeto hidrelétrico de Hvalárvirkjun, que previa represar os rios da selvagem região de Strandir (em torno do Ófeigsfjörður e suas cachoeiras), colocou em lados opostos quem via nele uma oportunidade de energia e emprego e quem defendia que se trata de uma das últimas grandes áreas intocadas da Europa. A disputa, que reabriu na Islândia o velho debate sobre o valor da natureza intocada, terminou com o projeto congelado. Hoje os Westfjords apostam cada vez mais num turismo responsável como saída econômica, tentando preservar justamente aquilo que os torna únicos: seu caráter remoto, selvagem e ainda quase intacto.