Canais, bicicletas, moinhos e museus: Amsterdã e os Países Baixos são compactos, encantadores e fáceis de percorrer.
Os Países Baixos são o país mais fácil de percorrer da Europa Ocidental. É pequeno e plano, os trens chegam a todo lugar em menos de três horas, quase todo mundo fala inglês com desenvoltura e as cidades são feitas em escala humana. Isso permite algo pouco comum: dormir num lugar só e conhecer meio país em bate-voltas, sem ficar fazendo e desfazendo malas.
O erro mais comum é confundir Amsterdã com o país inteiro. Amsterdã é espetacular e merece seus dias, mas está saturada e é a parte mais cara e menos representativa. A quarenta minutos de trem há cidades com os mesmos canais e sem as multidões: Utrecht, Haarlem, Delft, Leiden. Roterdã é o oposto de todas elas, uma cidade de arquitetura contemporânea erguida do zero depois que um bombardeio a apagou do mapa em 1940. E o sul, em Maastricht, já nem parece holandês.
Há um fio que atravessa toda a viagem: a relação com a água. Boa parte do território está abaixo do nível do mar e só existe porque, ao longo de oitocentos anos, foi sendo conquistada com diques, moinhos e bombas. Os moinhos de Kinderdijk, os pôlderes, as obras do Delta depois da inundação de 1953: não são cartões-postais pitorescos, e sim a infraestrutura que sustenta o país. Entender isso muda bastante o que a gente vê pela janela do trem.
A moeda local é o euro (EUR). Vale levar um pouco de dinheiro em espécie, avisar o banco antes de viajar e conferir a cotação do dia.
Amsterdã Schiphol (AMS) é um dos grandes hubs da Europa e fica a quinze minutos de trem do centro; Eindhoven (EIN) e Roterdã recebem voos low cost. O país é pequeno e a rede da NS chega a todo lugar em menos de três horas: Amsterdã–Roterdã em quarenta minutos, Amsterdã–Maastricht em duas horas e meia. Dá para viajar com o OV-chipkaart ou pagando com cartão contactless na entrada e na saída, e é preciso lembrar de registrar a saída. Os trens internacionais vão a Bruxelas em duas horas e a Paris em pouco mais de três. E a bicicleta aqui não é uma atividade turística: há mais bikes do que habitantes, ciclovias próprias em todas as cidades e dá para cruzar o país por rotas cicláveis sinalizadas.
A primavera é a temporada estrela, e por um motivo concreto: as tulipas. A janela vai do fim de março a meados de maio, quando o Keukenhof abre e os campos de bulbos florescem; abril costuma ser o ponto certo, embora dependa do inverno anterior. É também quando há mais gente e quando a hospedagem em Amsterdã dispara, então é preciso reservar com meses de antecedência. O outro momento forte é 27 de abril, o Dia do Rei, quando o país inteiro se veste de laranja e Amsterdã vira uma festa de rua com mercados de pulgas e barcos nos canais.
O verão é o mais confortável em termos de clima — temperado, com dias muito longos — e o melhor para o litoral, as ilhas e para andar de bicicleta, mas é alta temporada total. Setembro oferece um bom equilíbrio entre clima e menos gente. O inverno é cinzento, com vento, e escurece cedo, mas tem os mercados de Natal e os museus vazios, e é de longe a época mais barata. Em qualquer mês é preciso contar com vento e chuva: é um país plano e exposto ao Mar do Norte, e a chuva aqui vem de lado.
A cozinha local é simples e de inverno: o stamppot, um purê de batata com verduras e linguiça defumada, as croquetes de carne e os bitterballen que se pedem com a cerveja, a sopa grossa de ervilha. Na rua há três coisas para provar de qualquer jeito: o stroopwafel feito na hora, com o caramelo ainda mole; as batatas fritas grossas no cone, que se comem com maionese e não com ketchup; e o arenque cru com cebola e picles, que se come segurando pelo rabo. Os queijos — Gouda, Edam, o envelhecido — são vendidos em mercados onde deixam provar de tudo antes de comprar.
A outra metade da mesa holandesa é indonésia, herança de trezentos anos de colônia. O rijsttafel é um desfile de quinze ou vinte pratinhos para compartilhar e é uma das melhores refeições que se pode fazer no país; os restaurantes indonésios de Amsterdã e Haia são excelentes e é preciso reservar. Para beber, a cerveja clara local e o jenever, o antecessor do gim, que é servido num copinho cheio até a borda, e o primeiro gole se toma sem tirá-lo da mesa. E um costume: a gorjeta não é obrigatória porque o salário já está incluído; arredonda-se a conta se o serviço agradou.
É um dos países mais seguros da Europa e não há áreas a evitar. Os delitos que afetam o viajante são os batedores de carteira na estação central de Amsterdã, nos bondes turísticos e nas aglomerações do bairro da luz vermelha e do Dia do Rei, e o roubo de bicicletas, que é um esporte nacional: se alugar uma, use os dois cadeados que vêm com ela e prenda-a sempre em algo fixo. O risco mais real e mais subestimado é outro: ser atropelado por uma bicicleta por andar distraído pela ciclovia, que é avermelhada e não é calçada. Emergências, 112.
O sistema de saúde é de primeiro nível e o seguro-viagem é imprescindível, porque o atendimento sem cobertura é caro; para entrar no espaço Schengen, exige-se um com cobertura mínima de trinta mil euros. Uma particularidade local que vale conhecer: os médicos holandeses são bem conservadores na hora de receitar, e diante de um incômodo comum a resposta costuma ser repouso e paracetamol antes de um antibiótico, então quem toma medicação de uso contínuo deve levá-la junto com a receita. A água da torneira é de excelente qualidade. Não há vacinas exigidas nem riscos sanitários especiais.
É um país caro, e Amsterdã em particular é uma das cidades mais caras da Europa para dormir. Como referência, e deixando claro que não existe fonte oficial desses preços, uma cama em dormitório de hostel em Amsterdã costuma custar de quarenta e cinco a setenta euros, um hotel de categoria média de cento e cinquenta a duzentos e cinquenta, um prato num café entre quinze e vinte e dois euros e a cerveja entre cinco e sete. A isso é preciso somar a taxa turística, que em Amsterdã está entre as mais altas da Europa, é cobrada como porcentagem sobre a diária e muitas vezes não vem incluída no preço que você viu ao reservar.
A forma mais eficaz de reduzir os gastos é não dormir em Amsterdã. Haarlem, Utrecht, Leiden e até Roterdã ficam a menos de quarenta minutos de trem, custam uma fração e permitem ir à capital todos os dias. Os trens da NS são mais baratos comprados com antecedência e há passes de fim de semana e diários. Se a viagem inclui vários museus, vale fazer as contas do Museumkaart, o passe anual de museus, que com quatro ou cinco visitas já se paga. E a bicicleta, além de ser o jeito natural de se locomover, sai bem mais barata que os bondes.
Os holandeses são diretos a um ponto que pode soar brusco para o ouvido brasileiro: dizem o que pensam sem rodeios e perguntam sem cerimônia, e isso não é agressividade, e sim honestidade, que é um valor central aqui. Ao mesmo tempo, são igualitários e pouco formais: médico e chefe são tratados por você, ninguém ostenta e se destacar demais é malvisto. Pontualidade é regra, tudo se agenda com antecedência — até um café com amigos — e aparecer sem avisar não é costume. E tudo se divide, inclusive num encontro, sem que isso tenha qualquer conotação.
A bicicleta não é só mais um meio de transporte: há mais bicicletas do que habitantes e a infraestrutura é construída em função delas, com faixas próprias, semáforos e estacionamentos com milhares de vagas. O pedestre tem a menor prioridade da cadeia, então é preciso olhar antes de atravessar qualquer coisa vermelha. Sobre os coffeeshops, vale ter claro o cenário real: a cannabis não é legal, e sim tolerada sob condições rígidas, e no centro histórico de Amsterdã é proibido fumá-la em via pública, sob pena de multa. No bairro da luz vermelha, fotografar ou filmar as trabalhadoras é proibido e a regra é aplicada.
A história dos Países Baixos começa com um esclarecimento necessário: o país não se chama "Holanda". Holanda são apenas duas das doze províncias que compõem o reino — a Holanda do Norte, com Amsterdã, e a Holanda do Sul, com Haia e Roterdã —, as mais populosas e visíveis, tão dominantes no comércio e na cultura que o seu nome acabou se confundindo com o do conjunto. O nome correto é Países Baixos (Nederland, "terras baixas"), e ele descreve com exatidão o que o país é: um território plano e anfíbio no grande delta onde os rios Reno, Mosa e Escalda desembocam no mar do Norte, boa parte dele abaixo do nível do mar, arrancado da água metro a metro ao longo de mil anos. Tanto é assim que o próprio governo neerlandês pediu em 2020 que se deixasse de usar "Holanda" como marca do país.
Sobre essa geografia impossível os neerlandeses construíram uma das histórias mais impressionantes da Europa: um povo de camponeses e pescadores que drenou pântanos e ergueu diques, que se rebelou durante oitenta anos contra o império mais poderoso do seu tempo, que inventou na prática uma república burguesa e tolerante quando o resto do continente vivia sob reis absolutos, e que em um único século — o Século de Ouro — se tornou a maior potência comercial, financeira e cultural do planeta, pátria de Rembrandt, Vermeer, Spinoza e da primeira bolsa de valores moderna. Essa mesma epopeia tem o seu lado sombrio: a Companhia das Índias Orientais e o tráfico atlântico de escravizados, um império colonial que se estendeu da Indonésia ao Suriname e ao Caribe, e pelo qual o Estado neerlandês pediu desculpas oficiais em 2022. Percorrer os Países Baixos hoje — dos canais de Amsterdã aos moinhos de Kinderdijk, do tribunal internacional de Haia aos campos de tulipas — é atravessar essa dupla herança: a de um país pequeno que aprendeu a domar o mar e que, para o bem e para o mal, mudou o mundo.
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Estas são as fontes que mais citamos nos guias deste país, com quantas vezes cada uma aparece. Os dados duros — ingressos, horários, exigências, transporte — saem da fonte oficial e levam a data em que os verificamos. As indicações de onde comer ou dormir saem de guias e resenhas, e avisamos isso em cada página.