Delft é uma daquelas cidades pequenas que valem uma viagem inteira. Encaixada entre Haia e Roterdã, no oeste dos Países Baixos, ela guarda um centro histórico de livro: canais serenos ladeados por tílias, casas estreitas de tijolo com suas empenas, pontes em arco e duas grandes igrejas góticas que se avistam de toda a cidade. É a Holanda de cartão-postal, a do Século de Ouro, mas sem as multidões de Amsterdã.
Sua fama se apoia em três pilares. Aqui está enterrado Guilherme de Orange, o pai da pátria neerlandesa, na Nieuwe Kerk, e foi aqui mesmo que ele foi assassinado em 1584, no palácio do Prinsenhof, num episódio que marcou a história do país. Aqui viveu, pintou e morreu Johannes Vermeer, o mestre da luz, e os canais e campanários da cidade aparecem em quadros que hoje estão pendurados nos melhores museus do mundo. E aqui nasceu a louça azul de Delft (Delftware), a cerâmica que imitou a porcelana chinesa e conquistou a Europa, ainda viva na histórica fábrica Royal Delft.
Este guia percorre Delft com um olhar prático e acolhedor: o que ver num dia bem aproveitado, como subir na torre da Nieuwe Kerk, onde fica o túmulo de Vermeer, como funciona a visita à fábrica de louça azul, o que esperar (e o que não esperar) do Vermeer Centrum e como combinar a cidade com Haia ou Roterdã. Um bate-volta perfeito para sentir o Século de Ouro em ritmo humano.
Delft nasceu em torno de um canal escavado à mão (um 'delf', daí o nome) e recebeu direitos de cidade em 1246. Prosperou primeiro com a cerveja e os tecidos e, no século XVI, virou um ponto-chave da Revolta dos Países Baixos contra a coroa espanhola: Guilherme de Orange, líder da rebelião, fez do palácio do Prinsenhof sua residência, e ali foi assassinado a tiros em 1584, no primeiro assassinato de um chefe de Estado da história cometido com arma de fogo. Seu túmulo monumental domina a Nieuwe Kerk e virou o panteão da Casa de Orange. No Século de Ouro, Delft floresceu com o comércio (teve uma das câmaras da Companhia das Índias Orientais), com a pintura — Johannes Vermeer e Carel Fabritius — e com a louça azul que imitava a porcelana chinesa. Em 1654, a explosão do paiol municipal (o 'Trovão de Delft') arrasou parte da cidade e matou Fabritius. Mais tarde viria a Universidade Técnica (TU Delft), hoje uma das melhores do mundo em engenharia. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The urban heart of the Netherlands: Delft, where William of Orange was assassinated and Vermeer painted; The Hague, seat of government and world capital of international law; Rotterdam, flattened in 1940 and rebuilt as a city of the future; and the windmills and polders of Kinderdijk and the tulip fields of Keukenhof.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O nome de Delft já diz tudo: vem do neerlandês antigo 'delf', que significa vala ou canal escavado. A cidade nasceu, literalmente, de um canal cavado a pá na turfa da baixa Holanda, o Oude Delft, em torno do qual foi se formando um povoado por volta dos séculos XI e XII. Numa terra plana, úmida e conquistada à água, esses canais não eram enfeite: serviam para drenar o solo, defender a cidade e, sobretudo, transportar mercadorias. Desde o começo, a água foi a razão de ser de Delft.
Em 15 de abril de 1246, o conde Guilherme II da Holanda concedeu a Delft os direitos de cidade (stadsrechten). Essa carta permitia que ela se governasse sozinha, realizasse feiras e cobrasse pedágios, e marcou o início do seu crescimento. Na Idade Média, Delft prosperou com duas indústrias: a cerveja (chegou a ter centenas de cervejarias que abasteciam boa parte da Holanda) e os tecidos de lã. A cidade se organizou em torno de dois eixos de água, o Oude Delft e o Nieuwe Delft, e da grande praça do mercado, a Markt, onde foram erguidas a Prefeitura e a Nieuwe Kerk.
Em 1536, um incêndio devastador destruiu boa parte da cidade de madeira, que foi reconstruída em tijolo, o material que hoje lhe dá personalidade. Naquela altura, Delft já era uma das principais cidades da Holanda, com muralhas, portões fortificados (dos quais só sobrevive o Oostpoort) e um centro compacto de canais que, surpreendentemente, chegou quase intacto aos nossos dias. Esse traçado medieval é o mesmo por onde caminhamos agora e o mesmo que, um século depois, Vermeer pintaria.
No século XVI, os Países Baixos faziam parte do vasto império dos Habsburgo e eram governados por Filipe II da Espanha, um monarca católico e centralizador. A combinação de impostos esmagadores, perseguição aos protestantes e corte das liberdades locais acendeu uma rebelião que desembocaria na Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), a longa luta pela independência das Províncias Unidas.
O líder dessa revolta foi Guilherme de Orange (Willem van Oranje), chamado 'o Taciturno' (o Calado), o nobre mais rico dos Países Baixos, que passou de homem de confiança do rei a líder da resistência. Para os neerlandeses ele é, até hoje, o 'Vader des Vaderlands', o Pai da Pátria: da sua casa, a de Orange-Nassau, descende a monarquia atual, e do seu lema e das suas cores nasceram os símbolos nacionais (o laranja que pinta o país nas festas vem de 'Oranje').
Delft teve um papel central nessa guerra. Transformada em um dos bastiões da rebelião, a cidade virou, na prática, a capital política da Holanda insurgente. Guilherme de Orange fixou residência ali, no antigo convento de Santa Ágata, um edifício que passou a se chamar Prinsenhof ('a corte do príncipe'). Desse palácio de tijolo, ao lado da Oude Kerk, Guilherme comandou boa parte da resistência contra as tropas espanholas nos anos mais difíceis da guerra. Delft era relativamente segura e leal, e por isso se tornou o quartel-general do homem que Filipe II considerava seu pior inimigo.
Filipe II pôs a cabeça de Guilherme de Orange a prêmio: ofereceu 25.000 escudos de ouro e um título de nobreza a quem o matasse. A isca funcionou. Um jovem católico franco-borgonhês chamado Balthasar Gérard, fervoroso admirador do rei da Espanha, passou meses ganhando a confiança do círculo do príncipe fingindo ser um protestante devoto.
Em 10 de julho de 1584, Guilherme descia a escada principal do Prinsenhof depois do almoço quando Gérard, que o esperava escondido, atirou nele à queima-roupa com duas pistolas carregadas. O príncipe, ferido no peito, desabou e morreu quase na hora; segundo a tradição, suas últimas palavras foram uma súplica pelo seu povo. Foi um dos primeiros magnicídios da história cometidos com uma arma de fogo portátil, um fato que chocou toda a Europa. Na parede daquela escada ainda se conservam hoje, protegidos, os buracos deixados pelas balas: um dos testemunhos históricos mais impressionantes que se podem ver nos Países Baixos.
Balthasar Gérard foi capturado na hora, julgado e executado quatro dias depois na praça Markt de Delft com uma crueldade extrema, típica da época. A morte de Guilherme, longe de apagar a rebelião, a fortaleceu: seu filho Maurício de Nassau continuou a luta, e as Províncias Unidas acabaram consolidando sua independência. Como Breda, a cidade natal da família, estava em mãos espanholas, Guilherme foi sepultado provisoriamente na Nieuwe Kerk de Delft. Aquela solução de emergência acabou se tornando permanente e carregada de simbolismo: a Nieuwe Kerk passou a ser o panteão oficial da Casa de Orange-Nassau. Sob o seu piso, na cripta real, descansam desde então quase todos os reis e rainhas dos Países Baixos, e sobre ela se ergue o monumento funerário de mármore que o escultor Hendrick de Keyser terminou por volta de 1623 em homenagem ao Pai da Pátria.
O século XVII foi o Século de Ouro dos Países Baixos e também o de Delft. A jovem República se tornou a maior potência comercial do mundo, e Delft participou desse auge: teve uma das seis câmaras da Companhia das Índias Orientais (a VOC, a primeira multinacional com ações na bolsa), com sede no Oostindisch Huis, às margens do Oude Delft. Os cidadãos de Delft investiram fortunas na VOC, e dos seus cais zarparam dezenas de navios rumo à Ásia. Com o comércio chegaram a riqueza, as especiarias e as mercadorias exóticas, entre elas a porcelana chinesa.
Essa prosperidade alimentou um florescimento artístico extraordinário. Delft teve uma escola de pintura própria, reunida na Guilda de São Lucas (fundada em 1611), e dela saiu o maior de todos: Johannes Vermeer (1632-1675). Nascido e morto na cidade, mestre absoluto da luz e do silêncio doméstico, Vermeer pintou apenas cerca de 35 obras conhecidas, entre elas 'Moça com Brinco de Pérola', 'A Leiteira' e aquela 'Vista de Delft' que retrata sua cidade do outro lado da água e que Marcel Proust considerou o quadro mais belo do mundo. Viveu com dificuldades financeiras, logo caiu no esquecimento e só foi redescoberto e consagrado no século XIX. Hoje está enterrado na Oude Kerk de Delft.
Outro grande pintor de Delft foi Carel Fabritius, o discípulo mais talentoso de Rembrandt e provável mestre ou inspiração de Vermeer. Sua carreira foi interrompida de repente em 12 de outubro de 1654, o dia do 'Trovão de Delft' (Delftse Donderslag): o paiol municipal, que guardava cerca de 40 toneladas de pólvora num antigo convento do Paardenmarkt, explodiu por acidente. A explosão, ouvida a dezenas de quilômetros, arrasou todo o nordeste da cidade, matou cerca de cem pessoas, feriu milhares e destruiu centenas de casas. Fabritius, que morava perto, morreu aos 32 anos por causa dos ferimentos, e com ele se perdeu grande parte da sua obra. Delft se reconstruiu em poucos anos, desta vez em tijolo e pedra, e continuou crescendo, mas o desastre ficou marcado como a maior tragédia da sua história depois do assassinato de 1584.
A imagem mais universal de Delft é sua cerâmica azul e branca, o 'Delftsblauw' ou louça de Delft. Sua origem está diretamente ligada ao comércio do Século de Ouro. Os navios da VOC traziam da China uma porcelana finíssima, branca com decoração azul (a chamada kraak), que na Europa valia ouro e que só as classes altas podiam bancar. Os oleiros neerlandeses decidiram imitá-la com os recursos locais.
Não conseguiam fazer a verdadeira porcelana (faltava o caulim), mas aperfeiçoaram uma louça de barro coberta com um esmalte branco de estanho, sobre o qual pintavam à mão, em azul-cobalto, cenas chinesas, paisagens holandesas, flores, moinhos e barcos. O resultado, mais barato que a porcelana oriental mas de grande beleza, virou um sucesso absoluto. Quando, em meados do século XVII, as guerras na China interromperam a chegada da porcelana autêntica, a produção de Delft disparou para preencher a lacuna no mercado europeu. A crise da indústria cervejeira local também ajudou: muitas cervejarias vazias, com seus grandes galpões, foram convertidas em oficinas de louça. Por volta de 1700, no auge, havia em Delft mais de 30 fábricas e oficinas, e a 'porcelana de Delft' era exportada para toda a Europa como símbolo de luxo e bom gosto.
No século XVIII, a concorrência da porcelana inglesa e alemã, mais fina e mais barata, foi afundando aos poucos a indústria de Delft. Uma após a outra, as fábricas foram fechando. De todas aquelas do Século de Ouro, só sobreviveu uma, fundada em 1653: De Porceleyne Fles, hoje Royal Delft (Koninklijke Porceleyne Fles), que continua produzindo louça pintada à mão, peça por peça, e mantém viva uma tradição de quase quatro séculos. É o último elo direto com a Delft do ouro e do cobalto.
Depois do esplendor do século XVII, Delft viveu um longo declínio. A República entrou em decadência, o comércio se deslocou para Amsterdã e Roterdã, a indústria da louça se apagou e a cidade ficou à margem das grandes transformações, quase adormecida. Paradoxalmente, essa estagnação foi uma bênção para o seu patrimônio: como não cresceu nem derrubou nada para se modernizar, Delft conservou quase intacto seu centro histórico de canais e casas do Século de Ouro, enquanto outras cidades se transformavam.
O renascimento veio por outro caminho: a ciência. Em 1842, o rei Guilherme II fundou em Delft uma Academia Real para formar os engenheiros civis de que o Estado e as colônias precisavam. Essa instituição foi crescendo até se tornar a Technische Universiteit Delft (TU Delft), hoje a maior universidade técnica dos Países Baixos e uma das melhores do mundo em engenharia, arquitetura e ciência aplicada. A presença de dezenas de milhares de estudantes deu à velha cidade de Vermeer uma energia jovem, internacional e inovadora, que convive com seus canais medievais.
Hoje Delft é uma síntese feliz desses mundos. É, ao mesmo tempo, a cidade-museu do Século de Ouro (com o túmulo de Guilherme de Orange, os passos de Vermeer e a louça azul) e uma vibrante cidade universitária e tecnológica. Seu tamanho humano, seu centro perfeitamente conservado e a proximidade com Haia e Roterdã fazem dela um dos passeios mais agradáveis dos Países Baixos: um lugar onde a história que mudou o rumo de uma nação ainda pode ser tocada nos buracos de bala de uma escada.