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História de Luxemburgo

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Antes da fortaleza: tréveros, romanos e francos

Muito antes de existir o nome "Luxemburgo", estas terras onduladas entre o Mosela e as Ardenas eram habitadas pelos tréveros, um povo celta —com forte influência germânica— que Júlio César subjugou durante a conquista da Gália, em meados do século I a.C. Seu grande centro urbano ficava logo do outro lado da fronteira atual, na futura Augusta Treverorum, a Tréveris romana, uma das cidades mais importantes do Império no norte da Europa e a um passo do atual Grão-Ducado.

Durante os séculos de domínio romano, o território se encheu de estradas, vilas agrícolas e pequenas propriedades rurais. Sobreviveram vestígios notáveis, como os mosaicos romanos que hoje estão expostos em Diekirch. Quando a ordem imperial desmoronou, a partir do século V, quem ocupou o vazio foram os francos, um povo germânico que foi se fixando na região e que daria à Europa sua primeira grande monarquia medieval.

Sob os merovíngios e depois os carolíngios, a região fez parte do coração do império de Carlos Magno. Da divisão desse império, selada no Tratado de Verdun de 843, sairia a longa história das terras "do meio" —a Lotaríngia— disputadas eternamente entre o que viria a ser a França e o que viria a ser a Alemanha. Luxemburgo nasceria, séculos depois, justamente sobre essa costura.

en.wikipedia.org · History of Luxembourgen.wikipedia.org · Treveri

963: o conde Sigfrido e a rocha do Bock

A data de fundação do país é precisa: o ano 963. Naquele ano, o conde Sigfrido (Siegfried), um nobre aparentado com as grandes casas da região, fez uma troca de terras com a abadia de São Maximino de Tréveris e ficou com um promontório rochoso que dominava uma curva do rio Alzette, o rochedo conhecido como Bock. Ali ergueu uma fortaleza que chamou de Lucilinburhuc, palavra do germânico antigo que significa, mais ou menos, "pequena fortaleza". Dessa deformação —Lucilinburhuc, Lützelburg, Luxembourg— saiu o nome do castelo, depois o da cidade e, por fim, o do país inteiro.

A escolha não foi por acaso: o Bock era uma posição defensiva quase perfeita, um esporão cercado pelos barrancos do Alzette e de seu afluente, o Pétrusse. Ao redor do castelo foram se instalando cavaleiros e soldados na parte alta, enquanto artesãos e comerciantes se fixavam embaixo, no vale, junto à água. Assim nasceu a distinção, ainda visível hoje, entre a cidade alta e a cidade baixa —o bairro do Grund—.

No século seguinte, os descendentes de Sigfrido consolidaram o condado de Luxemburgo. Uma cidade de verdade, com muralhas de pedra, só terminou de tomar forma na segunda metade do século XII. Mas a semente já estava plantada: uma linhagem ambiciosa com uma rocha inexpugnável como base de poder.

luxembourg-city.com · Historyen.wikipedia.org · Bock (Luxembourg)

A Casa de Luxemburgo: quatro imperadores e João, o Cego

Entre os séculos XIII e XV, a modesta casa condal de Luxemburgo protagonizou uma das ascensões mais espetaculares da Idade Média europeia. Em 1308, Henrique VII de Luxemburgo foi eleito rei dos Romanos e coroado imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Foi o primeiro de quatro imperadores saídos dessa dinastia, uma conquista impressionante para uma casa de um território tão pequeno.

A figura mais querida dessa época é João, o Cego (Jean l'Aveugle), conde de Luxemburgo e rei da Boêmia, um cavaleiro errante e aventureiro que ficou cego, mas continuou combatendo mesmo assim. Morreu heroicamente em 1346 na batalha de Crécy, lutando do lado francês contra os ingleses; conta-se que pediu para ser levado ao combate com o cavalo amarrado aos dos companheiros. Até hoje é um símbolo nacional e dá nome à grande festa popular da capital, a Schueberfouer, que ele mesmo fundou em 1340.

Seu filho, Carlos IV, foi talvez o maior de todos: imperador e rei da Boêmia, transformou Praga em uma das capitais da Europa, fundou sua universidade e promulgou em 1356 a Bula de Ouro, que fixou por séculos as regras para eleger o imperador. Em 1354, o território foi elevado de condado a ducado. A Casa de Luxemburgo deu também os imperadores Venceslau e Sigismundo, mas se extinguiu pela linha masculina, e o ducado acabou caindo, por herança e compra, nas mãos de uma potência vizinha em ascensão.

en.wikipedia.org · House of Luxembourgen.wikipedia.org · John of Bohemia

Da Borgonha aos Habsburgo: o Luxemburgo espanhol e austríaco

Em 1443, o duque Filipe, o Bom, da Borgonha tomou Luxemburgo à força e o incorporou aos vastos domínios borgonheses, que já reuniam Flandres, Brabante e boa parte dos Países Baixos. Com isso, Luxemburgo deixou de ter vida própria como principado e passou a ser só mais uma peça de um grande conjunto governado de fora, situação que se prolongaria por quase quatro séculos.

Quando a herdeira da Borgonha, Maria, se casou com Maximiliano de Habsburgo, todos esses territórios passaram para a Casa da Áustria. Seu neto, o imperador Carlos V —o mesmo que reinava sobre a Espanha e suas colônias americanas—, reuniu Luxemburgo dentro das Dezessete Províncias dos Países Baixos. Quando, em 1556, Carlos abdicou e dividiu seu império, Luxemburgo ficou do lado espanhol: passou a fazer parte dos Países Baixos espanhóis, governados de Madri por meio de Bruxelas.

Enquanto as províncias do norte se rebelavam e fundavam a República Holandesa protestante, Luxemburgo permaneceu católico e fiel aos Habsburgo. Foi um território de fronteira, castigado pelas guerras entre Espanha e França. Em 1684, as tropas de Luís XIV tomaram a fortaleza, e o grande engenheiro militar Vauban a reforçou e a transformou em uma obra-prima da fortificação. Depois da Guerra de Sucessão Espanhola, em 1714, Luxemburgo passou dos Habsburgo espanhóis para os austríacos, e assim continuou até a chegada da Revolução Francesa.

en.wikipedia.org · Duchy of Luxembourgbritannica.com · History

O Gibraltar do Norte: a fortaleza mais cobiçada da Europa

Nenhuma imagem define melhor Luxemburgo ao longo de sua história do que a de sua fortaleza. Empoleirada sobre os barrancos do Alzette e aperfeiçoada por sucessivas potências —borgonheses, espanhóis, franceses de Vauban, austríacos e, por fim, prussianos—, chegou a ser uma das praças-fortes mais poderosas do mundo. Por isso ganhou o apelido de "Gibraltar do Norte": três anéis de fortificações, vinte e quatro fortes, muralhas colossais e uma rede de galerias subterrâneas escavadas na rocha, as famosas casamatas, que podiam abrigar milhares de soldados com seus canhões, oficinas e depósitos.

Essa defesa formidável fez da cidade um prêmio permanente. Foi sitiada e tomada vez após vez. Em 1795, depois de um cerco e bloqueio que se estendeu de novembro de 1794 a junho de 1795, a fortaleza se rendeu aos exércitos da Revolução Francesa; diz-se que foi um dos cercos mais duros daquelas guerras. Sob Napoleão, Luxemburgo foi anexado à França como o departamento das Forêts.

A fortaleza foi, ao mesmo tempo, a bênção e a maldição do país. Deu-lhe importância estratégica, mas transformou seus habitantes em reféns das guerras alheias e em súditos de guarnições estrangeiras. Seu destino final chegaria no século XIX, quando as grandes potências decidiram que aquela rocha era perigosa demais para continuar de pé.

en.wikipedia.org · Fortress of Luxembourgvdl.lu · History

Um país que encolheu: as três partilhas e o Grão-Ducado

Poucos países do mundo perderam tanto território quanto Luxemburgo. Entre 1659 e 1839, três partilhas sucessivas reduziram o antigo Ducado de cerca de 10.700 quilômetros quadrados aos apenas 2.586 que tem hoje: ficou com menos de um quarto do que tinha sido.

A primeira partilha veio com o Tratado dos Pireneus de 1659, que pôs fim à guerra entre França e Espanha: a França ficou com as fortalezas de Thionville, Montmédy e Stenay e as terras ao redor. A segunda foi a mais decisiva. Após a derrota de Napoleão, o Congresso de Viena de 1815 refez o mapa da Europa e criou o Grão-Ducado de Luxemburgo, cedendo ao mesmo tempo uma faixa oriental à Prússia. A terceira e última veio com o Tratado de Londres de 28 de abril de 1839: a metade ocidental, de língua francesa, foi entregue à Bélgica —que havia se tornado independente em 1830— e virou a atual província belga de Luxemburgo.

Essa amputação de 1839, embora dolorosa, teve uma consequência inesperada e fundamental: ao fixar suas fronteiras definitivas e separá-lo dos vizinhos, deu ao Grão-Ducado, pela primeira vez, um corpo próprio e estável. A verdadeira história de Luxemburgo como país independente começa, na verdade, com o que ele perdeu em 1839.

en.wikipedia.org · Partitions of Luxembourgen.wikipedia.org · Treaty of London (1839)

Neutralidade, o desmonte da fortaleza e a dinastia Nassau

Nascido em 1815, o Grão-Ducado ficou numa posição ambígua: era um Estado com status jurídico próprio, mas ligado por união pessoal a Guilherme I de Orange-Nassau, rei dos Países Baixos, que o governava como uma posse pessoal. Além disso, fazia parte da Confederação Germânica, e uma guarnição prussiana ocupava a fortaleza da capital. Luxemburgo pertencia a dois mundos ao mesmo tempo: dinasticamente holandês, militarmente alemão.

Essa contradição explodiu em 1867 na chamada "crise de Luxemburgo", quando Napoleão III tentou comprar o Grão-Ducado do rei holandês e quase provocou uma guerra com a Prússia. Para desarmar o conflito, a Conferência de Londres de 1867 declarou Luxemburgo Estado perpetuamente neutro, obrigou os prussianos a se retirarem e mandou demolir a grande fortaleza. Desmontá-la levou dezesseis anos de trabalho —até 1883— e custou uma fortuna, mas libertou a cidade de seu espartilho militar e permitiu que ela, finalmente, crescesse.

O último laço com os Países Baixos foi cortado em 1890. Com a morte do rei Guilherme III sem filhos homens, a coroa holandesa passou para sua filha Guilhermina, mas o trono luxemburguês, regido pelo Pacto de Família de Nassau de 1783, que exigia um herdeiro homem, passou para outro ramo da casa: Adolfo de Nassau-Weilburg se tornou Grão-Duque. Pela primeira vez desde a Idade Média, Luxemburgo tinha uma dinastia própria e residente, a mesma que reina até hoje.

en.wikipedia.org · Personal union of the Netherlands and…monarchie.lu · History nassau dynasty

O ferro vermelho: a Minett, a ARBED e a revolução industrial

Em meados do século XIX, Luxemburgo era um país pobre e agrícola, de onde milhares de pessoas emigravam para a América em busca de futuro. Tudo mudou quando se descobriu que o sul do país, na faixa de fronteira com a França, estava assentado sobre uma das maiores jazidas de minério de ferro da Europa: a Minett, um minério avermelhado que tingiu a região e lhe deu seu apelido, as "Terres Rouges", as terras vermelhas.

A partir da década de 1870, com o país integrado à união aduaneira alemã —o Zollverein—, brotaram altos-fornos e siderúrgicas em cidades como Esch-sur-Alzette, Dudelange e Differdange. Em 1911 nasceu a ARBED, uma empresa siderúrgica que chegou a ser gigantesca e que, por quase um século, foi o coração da economia luxemburguesa, sua principal empregadora e seu símbolo. O aço transformou um país camponês em uma potência industrial per capita e atraiu uma onda de imigrantes, sobretudo italianos primeiro e portugueses depois, que mudaram para sempre a composição da sociedade.

Essa prosperidade de aço teve também um custo humano e ambiental pesado, com jornadas exaustivas, acidentes e conflitos operários. Mas cimentou a riqueza do país e criou uma classe trabalhadora combativa. Quando a indústria pesada entrou em crise nos anos 1970, Luxemburgo teve que se reinventar; hoje, da ARBED nasceu o grupo ArcelorMittal, um dos maiores produtores de aço do mundo.

en.wikipedia.org · Steel industry in Luxembourgluxembourg.public.lu · Renaissance dun pays

A Primeira Guerra Mundial e a crise da monarquia

A neutralidade garantida em 1867 não serviu de muita coisa quando estourou a Primeira Guerra Mundial. Em 2 de agosto de 1914, o exército alemão invadiu e ocupou Luxemburgo para usá-lo como passagem rumo à França, em aplicação do Plano Schlieffen. A ocupação se estendeu até 1918. O governo e a jovem Grã-Duquesa Marie-Adélaïde optaram por uma política de acomodação com os ocupantes, na esperança de preservar a independência do país.

Essa atitude custou caríssimo à monarquia. Terminada a guerra, com os aliados vitoriosos e o país cheio de ressentimento, Marie-Adélaïde foi acusada de ter sido condescendente demais com os alemães. Sob forte pressão interna e externa, ela abdicou em janeiro de 1919 em favor da irmã, Charlotte, que reinaria por quase meio século e se tornaria uma figura muito querida.

Em meio a essa crise, houve até tentativas republicanas e pressões para unir o país à Bélgica ou à França. Para resolver a questão, em 1919 foi convocado um referendo: os luxemburgueses votaram esmagadoramente por manter a monarquia com Charlotte e por estreitar laços econômicos. Em 1921, o país assinou uma união econômica com a Bélgica (a UEBL), que amarrou as duas economias durante décadas. Luxemburgo saiu do aperto com a coroa e a independência intactas, mas com uma lição gravada a ferro e fogo sobre a fragilidade de sua neutralidade.

en.wikipedia.org · History of Luxembourgen.wikipedia.org · Marie Adélaïde, Grand Duchess of Luxembourg

A Segunda Guerra Mundial: anexação, resistência e Holocausto

Em 10 de maio de 1940, a Alemanha nazista voltou a invadir Luxemburgo, desta vez com intenções muito diferentes. A Grã-Duquesa Charlotte e seu governo conseguiram fugir e formaram um governo no exílio, primeiro em Londres, de onde a voz da soberana no rádio se tornou um símbolo da resistência. O país foi colocado sob a administração de um Gauleiter, Gustav Simon, com um objetivo explícito: apagar a identidade luxemburguesa e "germanizar" a população, que os nazistas consideravam alemã. Foram proibidos o francês e até os sobrenomes afrancesados, e em 1942 o território foi anexado de fato ao Reich.

Os luxemburgueses responderam com uma resistência notável. O episódio mais famoso foi o censo de outubro de 1941: quando as autoridades perguntaram a cada habitante sua nacionalidade, sua língua materna e sua origem étnica esperando respostas alemãs, a esmagadora maioria respondeu as três vezes "luxemburguês", um plebiscito silencioso contra a anexação. Quando, em agosto de 1942, os ocupantes impuseram o alistamento forçado dos jovens na Wehrmacht, estourou uma greve geral que começou em Wiltz e paralisou o país. A repressão foi brutal: 21 grevistas foram condenados à morte e fuzilados, e centenas de pessoas foram deportadas. Milhares de jovens luxemburgueses foram obrigados a vestir o uniforme alemão e enviados à frente oriental, onde muitos morreram ou desertaram.

A pequena comunidade judaica do país sofreu perseguição e extermínio: a maioria foi obrigada a fugir ou deportada para os campos, e várias centenas foram assassinadas no Holocausto. A guerra voltou com toda a sua violência no inverno de 1944-1945, quando a ofensiva alemã das Ardenas —a Batalha do Bulge— arrasou o norte do país; cidades como Clervaux, Wiltz, Vianden e Diekirch ficaram devastadas e cerca de 500 civis morreram. A libertação definitiva chegou no início de 1945.

en.wikipedia.org · Luxembourg in World War IIen.wikipedia.org · 1942 Luxembourgish general strikeluxembourg.public.lu · Second world war

Fundadores da Europa: Schuman, a CECA e as instituições

A experiência traumática de duas invasões alemãs em trinta anos convenceu Luxemburgo de que a neutralidade já não o protegia. Depois de 1945, o país abandonou esse princípio e mergulhou de cabeça na cooperação internacional: foi membro fundador da ONU, integrou o Benelux junto com a Bélgica e os Países Baixos e, em 1949, entrou para a OTAN, rompendo com mais de oitenta anos de neutralidade declarada.

E então coube a ele um papel de protagonista no nascimento da Europa unida. Robert Schuman, considerado um dos "pais da Europa", nasceu em 1886 em Clausen, um bairro da cidade de Luxemburgo, embora tenha feito sua carreira política na França como ministro das Relações Exteriores. Em 9 de maio de 1950 —data que hoje se celebra como o Dia da Europa— ele lançou a Declaração Schuman, a proposta de colocar o carvão e o aço franco-alemães sob uma autoridade comum para tornar a guerra entre esses países "não apenas impensável, mas materialmente impossível". Dali nasceu em 1951 a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), o primeiro tijolo da atual União Europeia.

Que o projeto nascesse em torno do aço caiu como uma luva para um país siderúrgico, e a cidade de Luxemburgo foi escolhida como sede da Alta Autoridade da CECA. Desde então, o Grão-Ducado se consolidou como uma das três capitais da UE, ao lado de Bruxelas e Estrasburgo: em seu planalto de Kirchberg ficam o Tribunal de Justiça da União Europeia, o Banco Europeu de Investimento, o Tribunal de Contas e o Secretariado do Parlamento Europeu, entre outras instituições.

luxembourg.public.lu · Robert schumanen.wikipedia.org · Robert Schuman

Da crise do aço à praça financeira: o país trilíngue de hoje

A crise mundial da siderurgia nos anos 1970 atingiu em cheio um país que dependia quase totalmente do aço. Em vez de afundar, Luxemburgo fez uma aposta ousada: diversificar e se tornar um centro financeiro internacional. Aproveitou uma legislação favorável —que vinha da lei das sociedades holding de 1929—, uma tributação atraente e sua posição no coração da Europa. Em 1963, foi emitido e listado em sua Bolsa o primeiro eurobônus da história, e a partir daí a praça financeira não parou mais de crescer.

Hoje Luxemburgo é um dos maiores centros de private banking da zona do euro e, sobretudo, a segunda praça mundial de fundos de investimento, atrás apenas dos Estados Unidos, com trilhões de euros sob gestão. Essa transformação o colocou entre os países com maior PIB per capita do planeta, mas também lhe trouxe críticas e controvérsias internacionais por seu papel no planejamento tributário de grandes multinacionais, um debate que continua aberto.

O outro traço que define o Luxemburgo atual é seu caráter multilíngue e cosmopolita. O país é oficialmente trilíngue: o luxemburguês (Lëtzebuergesch), uma língua germânica que é o idioma nacional desde a lei linguística de 1984 e a língua do coração e da vida cotidiana; o francês, usado nas leis e na administração; e o alemão, presente na escola e na imprensa. Some-se a isso que quase metade dos residentes é estrangeira e que, todos os dias, centenas de milhares de trabalhadores fronteiriços cruzam a fronteira vindos da França, da Bélgica e da Alemanha para trabalhar no Grão-Ducado. Poucos lugares condensam tão bem, em tão pouco espaço, a velha encruzilhada europeia transformada em laboratório do continente.

en.wikipedia.org · Economy of Luxembourgen.wikipedia.org · Luxembourgish

🗺️ História por província / estado

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As Ardenas (Éislek)

História de As Ardenas (Éislek) · Luxemburgo

O Éislek, a terra alta do norte

O norte de Luxemburgo, que os luxemburgueses chamam de Éislek (Ösling em alemão, Oesling em francês), é um mundo à parte dentro de um país que já é pequeno. É o prolongamento do planalto das Ardenas que se estende desde a Bélgica: uma paisagem de colinas cobertas de florestas, vales encaixados e rios como o Sûre, o Our e o Clerve, muito diferente das terras férteis e planas do sul, o Gutland.

Historicamente, foi a região mais pobre e isolada do país, de solos rasos e clima duro, onde a vida dependia da agricultura de montanha, da pecuária e da exploração da ardósia. Essa dureza levou muitos de seus habitantes a emigrar no século XIX. Hoje, ao contrário, suas florestas, seus rios e sua população relativamente escassa a transformaram em um destino de natureza, trilhas e turismo tranquilo, pontilhado por alguns dos castelos mais espetaculares da Europa.

en.wikipedia.org · Öslingen.wikipedia.org · Ardennes

Vianden: o castelo dos condes e Victor Hugo

Sobre uma colina que domina o vale do Our ergue-se o castelo de Vianden, um dos conjuntos fortificados medievais maiores e mais bonitos a oeste do Reno. Construído entre os séculos XI e XIV sobre antigas fundações romanas e carolíngias, foi a residência dos poderosos condes de Vianden, aparentados com as grandes casas do Império. Com o tempo caiu em ruínas, mas foi cuidadosamente restaurado no século XX e hoje é o monumento mais visitado do país.

Vianden tem ainda uma ligação célebre com a literatura. O escritor francês Victor Hugo, exilado e apaixonado pelo lugar, visitou-o várias vezes e passou ali alguns meses em 1871; deixou desenhos das ruínas do castelo e páginas de admiração pela cidadezinha. A casa onde se hospedou, junto à ponte sobre o Our, é hoje um pequeno museu dedicado a ele. A cidade, com suas ruas íngremes e seu teleférico de cadeiras que sobe até as alturas, é um dos cartões-postais mais queridos de Luxemburgo.

en.wikipedia.org · Vianden Castleen.wikipedia.org · Vianden

Terra de castelos: Bourscheid, Clervaux e as ruínas do Éislek

Vianden não está sozinho. O norte de Luxemburgo é, simplesmente, terra de castelos, salpicada de fortalezas que testemunham uma Idade Média de senhorios, guerras de fronteira e linhagens rivais. O castelo de Bourscheid, empoleirado sobre um meandro do rio Sûre a mais de 150 metros de altura, é um dos mais imponentes: ruínas medievais de origem milenar com vista de 360 graus sobre o vale.

No extremo norte, o castelo branco de Clervaux domina uma cidadezinha encaixada entre encostas cobertas de florestas. Além do interesse histórico, abriga desde 1994 uma das exposições fotográficas mais famosas do mundo, "The Family of Man", concebida pelo fotógrafo Edward Steichen — nascido em Luxemburgo em 1879 — e inscrita no registro Memória do Mundo da Unesco. Esses castelos, muitos deles parcialmente destruídos nas guerras e depois restaurados, são o fio que costura a identidade histórica do Éislek.

en.wikipedia.org · Bourscheid Castleen.wikipedia.org · The Family of Man

Wiltz e a greve geral de 1942

O norte luxemburguês guarda um dos episódios mais heroicos da resistência contra o nazismo. Em agosto de 1942, quando o ocupante alemão decretou o alistamento forçado dos jovens luxemburgueses na Wehrmacht, a indignação desencadeou uma greve geral que estourou primeiro em Wiltz, no coração das Ardenas, e se espalhou por todo o país, paralisando fábricas, escolas e repartições.

A resposta nazista foi implacável: foi declarado estado de exceção, um tribunal especial condenou à morte 21 grevistas, que foram fuzilados, e centenas de pessoas foram presas e deportadas para campos de concentração. A greve de 1942 — uma das poucas greves gerais abertas contra a ocupação alemã em toda a Europa Ocidental — tornou-se um símbolo da dignidade nacional. Em Wiltz, um monumento nacional à greve lembra as vítimas daqueles dias.

en.wikipedia.org · 1942 Luxembourgish general strikenvdatabase.swarthmore.edu · Luxembourgers general strike against nazi…

A Batalha das Ardenas e a libertação

O inverno de 1944-1945 transformou o Éislek em um campo de batalha. Depois da libertação da maior parte do país pelas tropas americanas em setembro de 1944, Hitler lançou em 16 de dezembro sua última grande ofensiva no oeste, através das Ardenas da Bélgica e de Luxemburgo: a Batalha do Bulge. O norte luxemburguês ficou na linha de frente. Cidades como Clervaux, Wiltz, Vianden e Diekirch sofreram combates ferozes, bombardeios e destruição, e dezenas de milhares de habitantes tiveram que fugir como refugiados; cerca de 500 civis luxemburgueses perderam a vida.

A região mantém essa memória viva. Em Diekirch, o Museu Nacional de História Militar é dedicado sobretudo à Batalha das Ardenas, e em Ettelbruck, entroncamento de comunicações da região, um memorial homenageia o general George Patton, cujo Terceiro Exército libertou definitivamente a região. Cada localidade do Éislek tem sua placa, seu tanque exposto ou seu monumento aos mortos: o norte de Luxemburgo é, em boa medida, um enorme memorial a céu aberto da Segunda Guerra Mundial.

en.wikipedia.org · Battle of the Bulgeluxembourg.public.lu · Battle bulge
📍 Destinos de As Ardenas (Éislek)
ViandenClervauxBourscheidDiekirchEttelbruckWiltz

📚 Bibliografia

  • Ösling — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/%C3%96sling
  • Vianden Castle — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Vianden_Castle
  • Vianden — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Vianden
  • Bourscheid Castle — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Bourscheid_Castle
  • The Family of Man — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/The_Family_of_Man
  • 1942 Luxembourgish general strike — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/1942_Luxembourgish_general_strike
  • Battle of the Bulge — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_the_Bulge
  • Battle of the Bulge in Luxembourg — Luxembourg.public.lu — https://luxembourg.public.lu/en/society-and-culture/history/battle-bulge.html

Cidade de Luxemburgo e arredores

História de Cidade de Luxemburgo e arredores · Luxemburgo

Uma capital nascida de uma rocha

A cidade de Luxemburgo é, literalmente, a origem do país. Tudo começou no ano 963, quando o conde Sigefredo ergueu seu castelo sobre o rochedo do Bock, um esporão rochoso cercado pelos meandros do rio Alzette e de seu afluente, o Pétrusse. A geografia fez o resto: a cidade se organizou em dois níveis, a cidade alta amuralhada sobre os planaltos e a cidade baixa nos vales, uma disposição vertiginosa que até hoje impressiona quem a visita.

Durante séculos, a vida da cidade foi dominada por sua condição de praça-forte. Cada potência que a controlou — borgonheses, espanhóis, franceses, austríacos, prussianos — foi acrescentando anéis de muralhas, baluartes e fortes, até transformá-la em uma das fortalezas mais poderosas da Europa. Essa muralha constante limitou seu crescimento: a cidade só pôde se expandir livremente depois que as fortificações foram demolidas, após 1867. A parte antiga da cidade e suas fortificações foram declaradas Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1994, um reconhecimento a essa paisagem única de desfiladeiros, muralhas e pontes.

luxembourg-city.com · Historywhc.unesco.org

As casamatas: uma cidade dentro da rocha

O mais impressionante da fortaleza de Luxemburgo não está à vista, mas escavado na própria rocha. As casamatas do Bock e do Pétrusse são uma rede de galerias subterrâneas talhada no arenito a partir do século XVIII, primeiro pelos espanhóis e depois aperfeiçoada por austríacos e franceses. Chegaram a somar quilômetros de túneis capazes de abrigar milhares de soldados com seus canhões, cavalos, oficinas, cozinhas e depósitos: uma verdadeira cidade militar debaixo da terra.

Quando a Conferência de Londres de 1867 ordenou o desmantelamento da fortaleza, demolir essas galerias por completo teria colocado em risco metade do centro urbano, então boa parte foi preservada. Essa sorte permitiu que as casamatas prestassem um último serviço inesperado: durante a Segunda Guerra Mundial, funcionaram como abrigos antiaéreos para a população civil, com capacidade para dezenas de milhares de pessoas. Hoje são uma das visitas imperdíveis da cidade e o testemunho mais vivo de seu passado guerreiro.

en.wikipedia.org · Casemates du Bocken.wikipedia.org · Bock (Luxembourg)

O Grund e a cidade baixa, à beira do rio

Ao pé dos penhascos, no fundo do vale do Alzette, se estendem os bairros da cidade baixa: o Grund, Clausen e Pfaffenthal. Foi ali que, desde as origens medievais, se instalaram os artesãos, os curtidores, os cervejeiros e os trabalhadores de ofício, enquanto a nobreza e as guarnições ocupavam a cidade alta. Com suas casas de pedra amontoadas junto à água, suas pontes e suas antigas abadias, o Grund conserva o ar da Luxemburgo popular de outros tempos.

O bairro de Clausen tem um valor especial para a história europeia: ali nasceu, em 1886, Robert Schuman, um dos pais fundadores da União Europeia. Hoje a cidade baixa, antes humilde, é uma das áreas mais pitorescas e animadas da capital, com bares e restaurantes à beira do rio, ligada à cidade alta por um elevador panorâmico escavado na rocha que vence de uma só vez os quase setenta metros de desnível.

en.wikipedia.org · Grund, Luxembourgluxembourg.public.lu · Robert schuman

Kirchberg: da esplanada militar à capital europeia

No planalto de Kirchberg, a nordeste do centro histórico, ergue-se a Luxemburgo do século XXI. Onde antes havia campos e antigos terrenos militares, a partir dos anos 1960 foi sendo construído um bairro de instituições europeias e torres de vidro. Foi a consequência natural de a cidade ter sido escolhida, em 1952, como sede da Alta Autoridade da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, o embrião da atual União Europeia.

Hoje Kirchberg abriga o Tribunal de Justiça da União Europeia, o Banco Europeu de Investimento, o Tribunal de Contas, o Secretariado do Parlamento Europeu e outros escritórios comunitários, além de bancos, o museu de arte moderna Mudam e a sala de concertos Philharmonie. Junto com Bruxelas e Estrasburgo, a cidade de Luxemburgo é uma das três capitais da União, um papel enorme para uma cidade de apenas cerca de 130.000 habitantes.

en.wikipedia.org · Kirchberg, Luxembourgen.wikipedia.org · Luxembourg City

A Gëlle Fra e a memória do século XX

Na praça da Constituição, debruçada sobre o desfiladeiro do Pétrusse, ergue-se o monumento mais querido da capital: a Gëlle Fra, a "dama dourada", uma figura da Vitória sobre um obelisco erguida em 1923 em homenagem aos luxemburgueses mortos como voluntários na Primeira Guerra Mundial. Sua história resume a do país no século XX: durante a ocupação nazista, em 1940, os alemães derrubaram o monumento por considerá-lo um símbolo do patriotismo luxemburguês. A estátua desapareceu por décadas e só foi recuperada e reinstalada em 1985.

A capital guarda muitas outras marcas dessa memória, dos abrigos das casamatas às lembranças da libertação pelas tropas americanas em setembro de 1944. Bem perto, na vizinha Hamm, fica o cemitério militar americano onde repousa o general George Patton, ao lado de milhares de soldados mortos na Batalha das Ardenas, um lugar de peregrinação para entender o que a guerra significou neste canto da Europa.

en.wikipedia.org · Gëlle Fraen.wikipedia.org · Luxembourg American Cemetery and Memorial
📍 Destinos de Cidade de Luxemburgo e arredores
Ciudad De Luxemburgo

📚 Bibliografia

  • History of the city of Luxembourg — Visit Luxembourg City — https://www.luxembourg-city.com/en/about-luxembourg-city/presentation/history
  • City of Luxembourg: its Old Quarters and Fortifications — UNESCO — https://whc.unesco.org/en/list/699/
  • Casemates du Bock — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Casemates_du_Bock
  • Grund, Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Grund,_Luxembourg
  • Kirchberg, Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Kirchberg,_Luxembourg
  • Gëlle Fra — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/G%C3%ABlle_Fra
  • Luxembourg American Cemetery and Memorial — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Luxembourg_American_Cemetery_and_Memorial

Região do Mullerthal (Pequena Suíça)

História de Região do Mullerthal (Pequena Suíça) · Luxemburgo

A Pequena Suíça e suas rochas de arenito

No leste do país, entre o vale do Sûre e o do Mosela, se estende a região do Mullerthal, apelidada de "Pequena Suíça luxemburguesa" por sua paisagem surpreendentemente acidentada para um país sem montanhas de verdade. Não é obra da altitude, mas da geologia: aqui aflora uma espessa camada de arenito de Luxemburgo, uma rocha macia que a água e o tempo esculpiram durante milhões de anos em gargantas estreitas, paredões, cavernas e blocos de formas caprichosas cobertos de musgo e samambaias.

Essas florestas úmidas e essas formações rochosas fizeram do Mullerthal um destino de trilhas famoso em toda a Europa. A famosa Trilha Mullerthal (Mullerthal Trail), com mais de cem quilômetros, serpenteia entre desfiladeiros como o Schiessentümpel, com sua pequena cachoeira e sua ponte de pedra, uma das imagens naturais mais reproduzidas do país. A região mostra o lado verde e tranquilo de Luxemburgo, bem diferente de seus castelos guerreiros ou de suas torres financeiras.

en.wikipedia.org · Mullerthalen.wikipedia.org · Mullerthal Trail

Echternach, a cidade mais antiga do país

Às margens do rio Sûre, na fronteira com a Alemanha, Echternach é a cidade mais antiga de Luxemburgo. Sua origem remonta ao ano 698, quando o monge anglo-saxão Willibrord, evangelizador da região, recebeu terras da aristocrata Irmina de Oeren e fundou ali uma abadia beneditina. A partir desse mosteiro, Willibrord — hoje padroeiro do país — conduziu a cristianização de amplas áreas da Frísia e do noroeste europeu.

A abadia de Echternach tornou-se um centro cultural de primeira linha em plena Alta Idade Média. Seu scriptorium produziu manuscritos iluminados de fama europeia, como o célebre Codex Aureus de Echternach, joias da arte medieval. A cidade conserva a basílica que guarda o túmulo de Willibrord e um centro histórico de ar senhorial. Com os séculos, a abadia perdeu poder — foi dissolvida durante a Revolução Francesa —, mas Echternach nunca deixou de ser o coração espiritual e histórico do leste luxemburguês.

en.wikipedia.org · Echternachen.wikipedia.org · Willibrord

A procissão dançante, patrimônio vivo

Toda terça-feira de Pentecostes, Echternach é palco de uma tradição única no mundo: a procissão dançante ou saltitante (Sprangprëssessioun). Milhares de peregrinos avançam pelas ruas da cidade em direção ao túmulo de São Willibrord, movendo-se ao ritmo de uma melodia repetida, em fileiras unidas por lenços, dando uma espécie de passos saltados para a frente. É uma manifestação de fé popular que remonta à Idade Média e que se manteve viva durante séculos, apesar de guerras e proibições.

Em 2010, a Unesco inscreveu a procissão saltitante de Echternach em sua Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, um reconhecimento à sua antiguidade e à sua vitalidade. Junto com a fortaleza da capital e as fortificações, é um dos grandes emblemas de Luxemburgo nas listas da Unesco e transforma Echternach, uma vez por ano, no centro de uma devoção multitudinária.

ich.unesco.org · Hopping procession of echternach 00392en.wikipedia.org · Dancing procession of Echternach

Beaufort e Larochette: castelos entre as florestas

Como todo Luxemburgo, o Mullerthal também tem seus castelos, só que aqui eles surgem entre rochedos e matas fechadas. Em Beaufort convivem duas fortalezas vizinhas: de um lado, as ruínas de um castelo medieval erguido sobre o arenito a partir do século XI, com suas torres e fossos; de outro, um elegante castelo renascentista construído ao lado no século XVII. O lugar é famoso também por seu licor de groselha-preta, o Cassero, produzido tradicionalmente ali.

Mais a oeste, a cidadezinha de Larochette se encaixa em um vale coberto de florestas, dominado pelas ruínas de um castelo medieval empoleirado sobre um penhasco de arenito. Esses conjuntos, ligados a antigos senhorios locais, foram destruídos e abandonados ao longo dos séculos e depois resgatados como monumentos. Cercados de trilhas, cavernas e formações rochosas, são a maneira que a história encontrou de se debruçar sobre a paisagem do Mullerthal.

en.wikipedia.org · Beaufort Castle, Luxembourgen.wikipedia.org · Larochette

Uma região de fronteira e de natureza

O Mullerthal sempre foi uma terra de fronteira. O rio Sûre, que hoje marca boa parte do limite com a Alemanha, uniu e separou ao mesmo tempo as populações das duas margens, que durante séculos compartilharam língua, comércio e fé. Echternach e a cidade alemã vizinha ficaram ligadas por pontes e pelo vaivém constante de peregrinos, mercadores e, em tempos difíceis, exércitos.

Essa condição de fronteira deixou sua marca nas guerras do século XX, quando o Sûre foi linha de combate durante a ofensiva das Ardenas e muitas localidades sofreram danos. Superada essa fase, a região apostou em seu enorme patrimônio natural: hoje o Mullerthal é um parque de florestas protegidas, trilhas e cidadezinhas tranquilas, um destino onde a história milenar de Echternach convive com o turismo verde e sustentável. É, em pequena escala, a síntese de um país que aprendeu a transformar suas fronteiras de feridas em pontes.

en.wikipedia.org · Saueren.wikipedia.org · Mullerthal
📍 Destinos de Região do Mullerthal (Pequena Suíça)
EchternachMullerthalBeaufortLarochette

📚 Bibliografia

  • Mullerthal — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Mullerthal
  • Mullerthal Trail — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Mullerthal_Trail
  • Echternach — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Echternach
  • Willibrord — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Willibrord
  • Hopping procession of Echternach — UNESCO — https://ich.unesco.org/en/RL/hopping-procession-of-echternach-00392
  • Dancing procession of Echternach — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Dancing_procession_of_Echternach
  • Beaufort Castle, Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Beaufort_Castle,_Luxembourg
  • Larochette — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Larochette

Vale do Mosela e o Sul

História de Vale do Mosela e o Sul · Luxemburgo

O Mosela: vinhedos desde os romanos

No sudeste do país, o rio Mosela desenha a fronteira com a Alemanha e cria a paisagem mais ensolarada e suave de Luxemburgo: encostas cobertas de vinhedos em terraços debruçados sobre a água. A viticultura chegou aqui com os romanos, há quase dois mil anos, e nunca foi embora: é uma das tradições econômicas mais antigas e contínuas do país.

O Mosela luxemburguês é terra de vinhos brancos — Riesling, Pinot gris, Auxerrois, o histórico Elbling — e, sobretudo, de crémant, o espumante elaborado pelo método tradicional que hoje é um dos produtos-estrela do país. Cidadezinhas ribeirinhas como Remich, apelidada de "a pérola do Mosela", e Grevenmacher vivem das vinícolas e das adegas subterrâneas onde o vinho descansa e é degustado. O passeio à beira do rio, as degustações e os cruzeiros fluviais fazem dessa região vinícola um contraponto luminoso aos castelos do norte.

en.wikipedia.org · Moselle (wine region)en.wikipedia.org · Remich

Schengen: onde nasceu a Europa sem fronteiras

No extremo sul do vale do Mosela, no ponto onde Luxemburgo, França e Alemanha se encontram, há um vilarejo de vinhedos cujo nome deu a volta ao mundo: Schengen. Foi ali, em 14 de junho de 1985, a bordo do barco Princesse Marie-Astrid, atracado no rio, que representantes de cinco países assinaram o Acordo de Schengen. Ele lançou as bases para acabar com os controles nas fronteiras internas de boa parte da Europa.

A escolha do lugar não foi por acaso: buscou-se de propósito esse cantinho onde três países se encontram, símbolo da união entre nações que durante séculos tinham guerreado entre si. Daquele acordo nasceu o atual espaço Schengen, por onde hoje centenas de milhões de pessoas circulam livremente sem mostrar o passaporte. O fato de uma ideia dessas levar o nome de um vilarejo de Luxemburgo resume perfeitamente a história do país: a velha terra de fronteiras e fortalezas virou o berço da livre circulação europeia. Hoje Schengen tem um museu europeu dedicado a essa conquista.

en.wikipedia.org · Schengen Agreementen.wikipedia.org · Schengen, Luxembourg

As Terres Rouges: o sul do ferro e do aço

O sul do país, na faixa de fronteira com a França, é um mundo completamente diferente: é o berço industrial de Luxemburgo. Sob o seu solo fica a Minett, a jazida de minério de ferro que, a partir da década de 1870, transformou uma região camponesa no coração siderúrgico do país. O minério avermelhado tingiu a terra e lhe deu o nome: as "Terres Rouges", as terras vermelhas.

Durante um século, os altos-fornos de Esch-sur-Alzette, Dudelange, Differdange e Rumelange ditaram o ritmo da vida. A grande empresa ARBED, fundada em 1911, empregou gerações de operários e atraiu ondas de imigrantes italianos e portugueses que transformaram a sociedade do sul. Foi uma região de sindicatos fortes, de bairros operários, de uma cultura de trabalho e solidariedade muito diferente do resto do Grão-Ducado. Quando a crise mundial do aço chegou nos anos 1970, o sul sofreu como nenhuma outra parte do país com o fechamento das fábricas e a reconversão.

en.wikipedia.org · Steel industry in Luxembourgen.wikipedia.org · Esch sur Alzette

Esch-sur-Alzette e Belval: dos altos-fornos à universidade

Esch-sur-Alzette, a segunda maior cidade do país, é o símbolo dessa reconversão. Coração da siderurgia, teve que se reinventar quando a indústria pesada entrou em declínio. O projeto mais ambicioso surgiu no antigo complexo siderúrgico de Belval, em Esch: em vez de demolir os gigantescos altos-fornos desativados, decidiu-se preservá-los como patrimônio e construir um bairro novo ao redor deles.

Assim nasceu a Cité des Sciences, onde, em volta dos velhos fornos de Belval, se instalou a partir de 2003 a jovem Universidade de Luxemburgo, ao lado de centros de pesquisa, moradias e espaços culturais. A imagem de estudantes e laboratórios à sombra das estruturas enferrujadas da antiga indústria é uma das mais marcantes do país. O reconhecimento veio em 2022, quando Esch-sur-Alzette e sua região mineira foram Capital Europeia da Cultura, uma consagração para uma região que trocou o ferro pelo conhecimento.

en.wikipedia.org · Belval, Luxembourgen.wikipedia.org · Esch sur Alzette

Um sul de imigração e memória operária

Mais do que qualquer outra parte de Luxemburgo, o sul é um caldeirão de culturas. A demanda por mão de obra nas minas e siderúrgicas atraiu, desde o fim do século XIX, dezenas de milhares de trabalhadores estrangeiros: primeiro os italianos, que deixaram uma marca profunda na cultura e na gastronomia locais, e a partir dos anos 1960 os portugueses, hoje a maior comunidade estrangeira do país. Para o viajante brasileiro, ouvir português pelas ruas do sul é uma surpresa e tanto. Essa imigração explica em boa parte por que Luxemburgo é hoje uma sociedade em que quase metade dos moradores nasceu no exterior.

O sul guarda também uma memória operária e política intensa. Foi palco de greves históricas e de fortes tradições sindicais e socialistas, e sofreu em cheio as perseguições durante a ocupação nazista. Museus como o da mina em Rumelange preservam a memória daquele mundo do trabalho debaixo da terra. Entender o sul — seu ferro, sua gente vinda de longe, suas lutas — é entender como um país minúsculo e outrora pobre chegou a se tornar uma das sociedades mais prósperas e diversas da Europa.

en.wikipedia.org · Demographics of Luxembourgen.wikipedia.org · Steel industry in Luxembourg
📍 Destinos de Vale do Mosela e o Sul
Valle Del MoselaRemichEsch Sur Alzette

📚 Bibliografia

  • Moselle (wine region) — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Moselle_(wine_region)
  • Remich — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Remich
  • Schengen Agreement — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Schengen_Agreement
  • Schengen, Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Schengen,_Luxembourg
  • Steel industry in Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Steel_industry_in_Luxembourg
  • Esch-sur-Alzette — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Esch-sur-Alzette
  • Belval, Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Belval,_Luxembourg
  • Demographics of Luxembourg — Wikipedia — https://en.wikipedia.org/wiki/Demographics_of_Luxembourg

📚 Bibliografia

🏛️ A história de outros países de Europa

Quase nada do que aconteceu com Luxemburgo aconteceu sozinho: estas são as histórias ao lado.

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Luxembourg City Ville Haute seen from Rham 2013-08