A Cidade de Luxemburgo é uma das capitais mais surpreendentes e menos previsíveis da Europa. Imagine uma cidade cortada por profundos desfiladeiros verdes: no alto, sobre um promontório rochoso, o centro histórico com seus palácios, igrejas e praças; embaixo, junto aos rios Alzette e Pétrusse, bairros pitorescos de casas antigas e pontes de pedra. Tudo isso envolto pelos restos de uma fortaleza colossal, apelidada durante séculos de 'Gibraltar do Norte', cujas muralhas e galerias escavadas na rocha lhe renderam o título de Patrimônio da Humanidade.
Mas Luxemburgo não é só um cenário histórico. É ao mesmo tempo uma das capitais da União Europeia — sede do Tribunal de Justiça e de outras instituições —, um dos maiores centros financeiros do continente e uma cidade cosmopolita onde convivem dezenas de nacionalidades e se falam vários idiomas. No bairro de Kirchberg, as torres de vidro dos bancos e os prédios europeus dialogam com a vanguarda arquitetônica do museu Mudam e da Filarmônica, enquanto a parte antiga conserva sua alma medieval.
Este guia percorre a capital com um olhar prático e caloroso: as casamatas do Bock, o impressionante Chemin de la Corniche (a 'varanda mais bonita da Europa'), o Palácio Grão-Ducal, a catedral, a Gëlle Fra, os vales do Grund e do Pfaffenthal, além dos museus e do bairro europeu. E algo que você não encontra em quase nenhuma outra capital: aqui o transporte público é totalmente gratuito. Compacta, verde, elegante e surpreendentemente acessível de percorrer, Luxemburgo é uma escapada urbana que quase ninguém espera e pela qual quase todo mundo se apaixona.
A cidade nasceu no ano de 963, quando o conde Sigfrido adquiriu um rochedo sobre o rio Alzette, o Bock, e ergueu ali um pequeno castelo chamado Lucilinburhuc ('pequena fortaleza'), origem do nome da cidade e do país inteiro. Durante mil anos, esse promontório se tornou uma das fortalezas mais formidáveis da Europa, disputada e reforçada sucessivamente por borgonheses, espanhóis, austríacos, franceses (Vauban) e prussianos, até ganhar o apelido de 'Gibraltar do Norte'. Em 1867, o Tratado de Londres declarou a neutralidade do país e ordenou desmantelar boa parte das defesas. Ocupado pela Alemanha nas duas guerras mundiais, Luxemburgo renasceu depois como um Grão-Ducado próspero e como uma das capitais fundadoras da Europa unida. Tudo isso, do castelo de Sigfrido à capital europeia, está contado na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The capital born in 963 on the Bock rock: a thousand years as a fortress, the underground casemates, the Grund district down below by the Alzette, and the Kirchberg plateau turned into a European capital.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Toda a história de Luxemburgo — a cidade e o país inteiro — cabe em um rochedo sobre o rio Alzette. No ano de 963, um conde das Ardenas chamado Sigfrido (Siegfried) trocou umas terras com a abadia de São Maximino de Tréveris para ficar com um promontório rochoso chamado Bock. Ali, em um lugar fácil de defender e difícil de tomar, ele ergueu um pequeno castelo fortificado que aparece nos documentos antigos com o nome de 'Lucilinburhuc', que no germânico da época significava 'pequena fortaleza' ou 'pequeno castelo'.
Desse nome, Lucilinburhuc, derivam tanto 'Luxemburgo' quanto 'Lëtzebuerg', a forma luxemburguesa. Ou seja, o país inteiro deve seu nome àquele castelo minúsculo sobre a rocha. Ao redor da fortaleza foram surgindo um mercado, uma igreja e um povoado, protegidos pelas muralhas. A posição era imbatível: em um cruzamento de rotas comerciais entre o mundo latino e o germânico, no alto de um promontório cercado de barrancos naturais que funcionavam como fosso.
Os descendentes de Sigfrido se tornaram condes de Luxemburgo e, com o tempo, a casa de Luxemburgo chegaria ao topo: vários de seus membros foram imperadores do Sacro Império Romano-Germânico e reis da Boêmia nos séculos XIV e XV, entre eles Henrique VII e o célebre Carlos IV. De um castelo sobre uma rocha ao auge do poder imperial europeu: foi assim que começou a aventura de Luxemburgo.
A mesma posição estratégica que fez nascer Luxemburgo a condenou a ser, durante séculos, uma das praças-fortes mais disputadas da Europa. Seu valor militar era tanto que as grandes potências do continente foram passando a cidade de mão em mão, cada uma reforçando e ampliando suas defesas. Depois dos condes e duques de Luxemburgo, a cidade passou aos duques da Borgonha no século XV e, dali, aos Habsburgo: primeiro ao ramo espanhol (os Países Baixos espanhóis) e depois ao austríaco.
Cada novo dono acrescentou muralhas, bastiões, fortes e galerias. Os espanhóis a fortificaram nos séculos XVI e XVII; os franceses de Luís XIV a tomaram em 1684, e o genial engenheiro militar Vauban redesenhou suas defesas, transformando-a em uma fortaleza de vanguarda; depois voltaram os austríacos, que continuaram a ampliá-la. O resultado foi um sistema defensivo colossal: três cinturões de fortificações, dezenas de fortes e, sobretudo, as casamatas: até 23 quilômetros de galerias, túneis e seteiras escavados na rocha, capazes de abrigar milhares de soldados, canhões, oficinas, cozinhas e até cavalos.
Por ser praticamente inexpugnável, a cidade ganhou o apelido de 'o Gibraltar do Norte'. Nenhuma outra fortaleza continental se comparava a ela. Mas esse poderio militar tinha um preço: Luxemburgo era uma cidade-guarnição, espremida dentro de suas muralhas, cujo destino não era decidido por seus habitantes, e sim pelos tratados e pelas guerras das grandes potências que a controlavam de longe.
O destino moderno de Luxemburgo foi decidido nas grandes conferências diplomáticas do século XIX. Após a queda de Napoleão, o Congresso de Viena de 1815 elevou o território à categoria de Grão-Ducado e o entregou, em união pessoal, ao rei dos Países Baixos, mas ao mesmo tempo o incorporou à Confederação Germânica e permitiu que a Prússia mantivesse uma guarnição na fortaleza. Luxemburgo ficava assim em uma posição ambígua, entre vários mundos.
Em 1839, o Tratado de Londres dividiu o território: a maior parte da zona de língua francesa (a atual província belga de Luxemburgo) passou para a Bélgica, enquanto o restante, de língua luxemburguesa e alemã, permaneceu como o Grão-Ducado que conhecemos hoje. Foi o nascimento efetivo do Luxemburgo moderno, com fronteiras quase definitivas.
O passo decisivo veio em 1867. A ambição da França de anexar o Grão-Ducado e a rivalidade com a Prússia quase provocaram uma guerra europeia (a chamada 'crise luxemburguesa'). Para evitá-la, as potências assinaram um novo Tratado de Londres, que declarou Luxemburgo Estado neutro para sempre, ordenou a retirada da guarnição prussiana e, sobretudo, exigiu o desmantelamento da grande fortaleza. Nos anos seguintes, a maioria das muralhas, bastiões e fortes foi demolida. A cidade, finalmente livre de seu espartilho militar, pôde pela primeira vez em mil anos crescer, respirar e abrir avenidas e parques onde antes havia canhões.
A neutralidade não bastou para livrar Luxemburgo das guerras do século XX. Em agosto de 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, o exército alemão invadiu e ocupou o Grão-Ducado, violando sua neutralidade, e o manteve sob controle militar até o fim do conflito, em 1918. O país recuperou a independência após a guerra e, nas décadas seguintes, consolidou seu regime de monarquia constitucional sob a dinastia de Nassau-Weilburg e a grã-duquesa Carlota.
O golpe mais duro veio na Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1940, a Alemanha nazista invadiu Luxemburgo outra vez. Dessa vez não foi uma simples ocupação militar: o regime nazista anexou o país na prática, proibiu o francês, impôs o alemão e tentou 'germanizar' a população à força, chegando a recrutar jovens luxemburgueses para o exército alemão. A resistência foi notável: em 1941, em um censo que perguntava sobre língua e nacionalidade, a esmagadora maioria dos luxemburgueses respondeu 'luxemburguês', desafiando abertamente os ocupantes. Houve greves, sabotagens e uma repressão dura.
A grã-duquesa Carlota e o governo se exilaram e mantiveram viva a voz do país a partir de Londres. Em 1944, as tropas americanas libertaram a capital, mas o inverno de 1944-45 ainda trouxe a Batalha das Ardenas, a última grande ofensiva alemã, que atingiu com força o norte do país. Quando a guerra terminou, Luxemburgo saiu profundamente marcado, mas com uma identidade nacional mais forte do que nunca e uma determinação clara: nunca mais ficar sozinho diante dos vizinhos.
A lição das duas guerras levou Luxemburgo a apostar de vez na integração europeia. Foi um dos seis países fundadores da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, em 1951, e da Comunidade Econômica Europeia (o embrião da atual União Europeia), em 1957. E não só participou: tornou-se uma das sedes das instituições. A cidade de Luxemburgo abriga o Tribunal de Justiça da União Europeia, o Banco Europeu de Investimento, o Secretariado do Parlamento Europeu, o Tribunal de Contas e outros órgãos, concentrados no moderno planalto de Kirchberg.
Ao mesmo tempo, o pequeno Grão-Ducado passou por uma transformação econômica espetacular. De país siderúrgico, dependente do aço do sul, ele se reinventou como um dos maiores centros financeiros do mundo, sede de milhares de fundos de investimento e bancos internacionais. Hoje Luxemburgo tem uma das maiores rendas per capita do planeta, e sua capital é uma cidade cosmopolita onde quase metade da população é estrangeira e dezenas de nacionalidades e idiomas se cruzam todos os dias. Bem perto dali, no vilarejo de Schengen, às margens do Mosela, foi assinado em 1985 o acordo que aboliu as fronteiras internas de boa parte da Europa: outro símbolo do papel do país na construção europeia.
Em 1994, a Unesco reconheceu o valor excepcional dos antigos bairros e fortificações da cidade, declarando-os Patrimônio da Humanidade. Assim, a capital oferece hoje um contraste único: as casamatas e as muralhas onde o país nasceu no ano de 963 e, a poucos passos, as torres de vidro e a arquitetura de vanguarda de uma das capitais da Europa unida. Da 'pequena fortaleza' de Sigfrido a coração financeiro e institucional do continente, Luxemburgo transformou sua história de praça disputada em uma vocação de ponte entre os povos da Europa.