Remich é o coração turístico do Mosela luxemburguês, uma cidadezinha pequena e charmosa debruçada sobre o rio que, com orgulho, ganhou o apelido de 'a pérola do Mosela'. Aqui a paisagem muda completamente em relação ao resto do país: nada de castelos sobre desfiladeiros nem florestas das Ardenas, e sim um vale largo e luminoso, encostas cobertas de vinhedos em terraços e um rio tranquilo que faz fronteira com a Alemanha. A vida gira em torno da água e do vinho: a longa esplanade à beira do Mosela convida a passear, os barcos de passeio esperam no cais e, debaixo das ruas, escondem-se quilômetros de adegas onde descansa o crémant, o espumante luxemburguês.
Embora seja o menor município de Luxemburgo em área, Remich concentra uma oferta surpreendente: cruzeiros pelo Mosela até Schengen ou Grevenmacher, adegas subterrâneas para visitar e fazer degustação, varandas à beira do rio, ciclovias e trilhas entre vinhedos, e uma tradição vinícola que remonta aos romanos. Sua localização no 'cantinho dos três países' — a um passo da Alemanha e da França, e muito perto da simbólica Schengen — faz dela uma base perfeita para descobrir todo o vale.
Este guia percorre Remich com olhar prático: o calçadão à beira do rio, as vinícolas de crémant como as históricas Caves St Martin, os cruzeiros pelo Mosela, a Rota do Vinho, o que restou da antiga porta medieval e os passeios próximos a Schengen e às cidadezinhas vinícolas. Um bônus que não falta em nenhum destino do país: o transporte público é gratuito, então chegar da capital e circular pelo vale não custa nada. Remich é o lado ensolarado, relaxado e vinícola de Luxemburgo, ideal para uma escapada de boa comida e bom vinho.
Remich é um dos lugares habitados mais antigos de Luxemburgo: nasceu como a vila romana de 'Remacum', um povoado às margens do Mosela por onde passava uma estrada romana e onde já se cultivava a uva. Depois da retirada de Roma no século V, o lugar passou para as mãos dos francos; o rei Pepino, o Breve, doou terras da região a mosteiros beneditinos no século VIII, e no ano 882 os normandos arrasaram o povoado. Na Idade Média, Remich ganhou muralhas (fortificações documentadas desde o ano 952) e conserva daquela época a porta de São Nicolau. As tropas de Luís XIV demoliram as defesas em 1687. A história moderna de Remich é a do vinho e do rio: a chegada da ferrovia e das pontes, a canalização do Mosela e o boom do crémant transformaram a cidadezinha na capital turística do vale. Contamos tudo isso na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The wine-growing southeast along the Moselle, with its vineyards, crémant and the village of Schengen, where the agreement for a Europe without borders was signed in 1985, and the iron and steel south, with the Terres Rouges of Esch-sur-Alzette and the Belval blast furnaces turned into a university.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Remich começa muito antes de Luxemburgo existir. Quando os romanos conquistaram a Gália, o vale do Mosela se tornou uma de suas artérias mais importantes: pelo rio circulavam mercadorias e por suas margens passavam estradas que ligavam a grande cidade de Augusta Treverorum (a atual Tréveris, na Alemanha) ao resto do império. Numa curva tranquila da margem esquerda do rio, onde o vale se alarga e as encostas ficam voltadas para o sol, surgiu um assentamento romano chamado Remacum. Desse nome latino deriva, depois de séculos de evolução, a atual Remich.
Os romanos fizeram aqui o que sabiam fazer de melhor no Mosela: plantar vinhas. A viticultura do vale, que hoje é a marca registrada de Remich e de toda a região, tem raízes naquela época. O clima ameno, a orientação das encostas e o solo calcário se mostraram ideais para a videira, e o vinho do Mosela já era apreciado na mesa da vizinha Tréveris, uma das capitais do império no Ocidente. Ao redor do assentamento se desenvolveram vilas rurais, prensas de vinho e uma vida próspera ligada ao rio e ao comércio.
Quando o poder de Roma desmoronou e as legiões se retiraram da região no século V, Remacum não desapareceu: como tantos lugares do Mosela, manteve sua população e seu nome, que foi se transformando aos poucos. A passagem da Antiguidade para a Idade Média foi aqui uma transição, não uma ruptura: o rio continuou correndo, as vinhas continuaram dando frutos e o pequeno porto continuou sendo um ponto de passagem. Essa continuidade milenar faz de Remich um dos lugares habitados mais antigos do atual Luxemburgo.
Depois da queda de Roma, a região passou para a órbita dos francos, o povo germânico que acabaria dominando boa parte da Europa ocidental sob dinastias como os merovíngios e os carolíngios. Remich, como tantos domínios do vale, passou a integrar o patrimônio da coroa franca. No século VIII, o rei Pepino, o Breve — pai de Carlos Magno — doou domínios da região a comunidades religiosas beneditinas. Os mosteiros se tornaram assim grandes proprietários de vinhedos e guardiões do saber vitivinícola, e boa parte do vinho do Mosela era produzida para abastecer abadias e igrejas.
Mas a Alta Idade Média também trouxe o terror. No ano de 882, em plena época das grandes incursões vikings pelos rios da Europa, os normandos subiram o Mosela e arrasaram o assentamento de Remich. Aqueles guerreiros do norte, que espalharam o pânico desde as costas do Atlântico até o coração do continente aproveitando as vias fluviais, não pouparam os povoados ribeirinhos. A destruição de Remich em 882 é um dos primeiros fatos datados da sua história e dá uma ideia da vulnerabilidade dessas comunidades abertas para o rio.
A resposta a essa insegurança foi, como em toda a Europa, a fortificação. Ao longo da Idade Média, Remich ganhou muralhas e defesas para se proteger tanto dos ataques quanto das frequentes cheias do Mosela. As fortificações da cidade já estão documentadas no ano de 952, o que confirma que, depois do saque normando, o povoado não só foi reconstruído como também foi murado e se consolidou como um núcleo de certa importância à beira do rio.
Durante a Idade Média e a Idade Moderna, Remich cresceu como uma pequena vila vinícola e comercial, com seu porto fluvial, seus mercados e uma vida ligada ao vinho e à passagem de mercadorias pelo Mosela. A cidade mantinha seu recinto murado, com várias portas de acesso, das quais hoje só sobrevive a Porte St-Nicolas (porta de São Nicolau), dedicada ao padroeiro dos pescadores e barqueiros, uma referência à vocação fluvial do lugar. São Nicolau, muito venerado em toda a região, era o protetor natural de uma comunidade que vivia de frente para o rio.
A localização de Remich, porém, tinha um preço: ficar numa terra de fronteiras móveis, disputada durante séculos pelas grandes potências europeias. O Ducado de Luxemburgo passou sucessivamente por mãos borgonhesas, espanholas, austríacas e francesas, e o vale do Mosela ficou repetidas vezes no caminho dos exércitos. Em 1687, no contexto das guerras do rei da França Luís XIV, as tropas francesas demoliram as fortificações de Remich, como fizeram com tantas outras praças da região para enfraquecer as defesas inimigas. A cidade perdeu assim suas muralhas medievais, das quais restaram apenas a lembrança e aquela porta de São Nicolau.
Apesar de guerras, ocupações e cheias, Remich manteve seu caráter de vila vinhateira e seu vínculo com o rio. A videira continuava sendo a base da sua economia, e o Mosela, sua grande via de comunicação. Essa resistência tranquila, essa capacidade de se reconstruir uma vez atrás da outra sem perder sua identidade vinícola, é uma constante na longa história da cidade, da vila romana até a cidade moderna.
A Remich moderna é filha dos séculos XIX e XX, e de três grandes transformações: as pontes, a canalização do rio e o boom do vinho espumante. Durante séculos, atravessar o Mosela para a margem alemã dependeu de barcos; em 1866 foi inaugurada a primeira ponte permanente sobre o rio em Remich, um salto que integrou melhor a cidade às rotas comerciais da região e reforçou seu papel como ponto de cruzamento entre Luxemburgo e Alemanha. Aquela primeira ponte e suas sucessoras — uma delas destruída na Segunda Guerra Mundial e substituída por uma passarela de madeira até a construção da atual, em 1958 — marcaram o desenvolvimento urbano da vila.
A segunda grande mudança foi a canalização do Mosela, concluída na década de 1960. Ao regular a vazão e as eclusas, a canalização finalmente permitiu a navegação o ano inteiro, abriu o rio para os grandes barcos e lançou as bases do turismo fluvial que hoje é um dos pilares de Remich: os cruzeiros de passeio que saem da sua esplanade. O rio domado deixou de ser uma ameaça de cheias para se tornar uma atração.
Mas a revolução que deixou Remich famosa foi a do crémant, o vinho espumante elaborado pelo método tradicional. No começo do século XX, casas pioneiras apostaram em produzir aqui espumantes de qualidade: em 1919 foram fundadas as Caves St Martin, que escavaram na rocha calcária dos arredores da cidade quase um quilômetro de galerias subterrâneas para o amadurecimento dos seus vinhos. Junto com outras vinícolas do vale, colocaram o Mosela luxemburguês no mapa do bom espumante. A denominação Crémant de Luxembourg, reconhecida oficialmente em 1991, consagrou essa tradição e transformou Remich em sua vitrine turística.
A Remich do século XXI transformou sua história e sua paisagem em sua maior riqueza. A menor comuna de Luxemburgo em área — apenas 5,3 km² — e com pouco mais de quatro mil habitantes recebe todo ano muitos visitantes atraídos pelo clima descontraído, pela gastronomia e, sobretudo, pelo vinho. A longa esplanade à beira do Mosela, as vinícolas de crémant, os cruzeiros fluviais e a Rota do Vinho que passa por ela fizeram de Remich o destino turístico por excelência do vale, a 'pérola do Mosela' (Perle vun der Musel).
A cidade preserva com orgulho suas tradições populares, muitas delas ligadas ao ciclo do vinho e das estações. O Carnaval (Fuesend Karneval), com seu desfile e a queima do 'Stréimännchen' — um boneco de palha que simboliza o inverno —, e a fogueira do 'Buergbrennen' marcam o fim do frio; as festas da vindima e do crémant celebram no outono o fruto das vinhas. São costumes que ligam a Remich de hoje a séculos de vida vinhateira às margens do rio.
Há, além disso, uma dimensão simbólica que vai além da cidade. A poucos quilômetros rio acima fica Schengen, onde em 1985 e 1990 foram assinados os acordos que eliminaram as fronteiras internas de boa parte da Europa. Que esse marco da Europa sem fronteiras tenha acontecido justamente aqui, no mesmo vale do Mosela por onde durante séculos passaram exércitos e onde muralhas foram erguidas e derrubadas, tem algo de justiça poética. Remich, que foi vila romana, butim normando, praça murada e fronteira disputada, é hoje uma tranquila cidade do vinho no coração de uma Europa unida, onde o rio que antes separava países agora os une sob um mesmo céu de vinhedos.