Uspallata é uma cidadezinha de montanha no oeste de Mendoza, a cerca de 100 km da capital da província pela RN 7, e a base clássica para explorar a alta montanha: daqui saem os caminhos para o Parque Aconcagua, para Puente del Inca e para a passagem internacional Cristo Redentor rumo ao Chile. Seu vale, cercado de morros coloridos a quase 2.000 metros de altitude, é uma das paisagens mais fotogênicas de todo o corredor andino.
O vale guarda camadas de história pouco comuns: petróglifos de mil anos no cerro Tunduqueral, um bosque de araucárias petrificadas de 230 milhões de anos que Charles Darwin descreveu em 1835, as Bóvedas coloniais onde se fundiam metais e os trilhos abandonados da Ferrovia Transandina. E um detalhe que surpreende todo mundo: aqui foi filmado 'Sete Anos no Tibete' (1997), com Brad Pitt, porque a paisagem é quase idêntica à do Himalaia.
Neste guia você vai encontrar o que ver em Uspallata, quanto custam os ingressos para o Parque Aconcagua e para os sítios históricos, como chegar de Mendoza de ônibus ou de carro, onde dormir e comer de acordo com o seu orçamento e quantos dias vale a pena ficar para aproveitar o vale e a rota de alta montanha.
Uspallata foi fronteira sul do império inca — os petróglifos do cerro Tunduqueral e os tambos do Qhapaq Ñan comprovam isso —, passagem de uma coluna do Exército dos Andes em 1817 e enclave de mineração colonial, como lembram as Bóvedas. Em 1891 chegou a Ferrovia Transandina e, em 1996, Hollywood: aqui foi rodado 'Sete Anos no Tibete', com Brad Pitt.
Ler a história completa ↓The land of sun and good wine: a Huarpe oasis at the foot of Aconcagua, cradle of San Martín's Army of the Andes, rebuilt after the 1861 earthquake and turned into the world capital of Malbec and the high mountains.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Em setembro de 1996, um avião particular pousou em Mendoza com o homem mais famoso de Hollywood a bordo. Brad Pitt vinha passar quatro meses em uma cidadezinha de montanha de 3.000 habitantes que a maioria dos argentinos mal sabia localizar no mapa: Uspallata. O diretor Jean-Jacques Annaud tinha rodado meio mundo atrás de um lugar que pudesse fazer as vezes de Tibete para filmar 'Sete Anos no Tibet' —a China tinha proibido sua entrada por causa do conteúdo político do filme— e o encontrou neste vale de Mendoza a 1.900 metros de altitude, cujos morros áridos e céus de um azul intenso são quase indistinguíveis do Himalaia. A produção trouxe 413 técnicos estrangeiros, 58 monges tibetanos e até 12 iaques; ergueu uma réplica de Lhasa em pleno vale e deixou cerca de 20 milhões de dólares na região. Várias cenas foram rodadas ao pé do cerro Tunduqueral, um local sagrado indígena com petróglifos de mil anos.
A história parece um capricho da globalização, mas na verdade é a última cena de um roteiro que se repete há séculos: Uspallata sempre foi um lugar de passagem entre mundos. Por este vale passaram os caminhos do império inca, as mulas carregadas de prata da época colonial, o exército libertador de San Martín, o primeiro trem que uniu o Atlântico ao Pacífico e, por fim, as câmeras de Hollywood. Poucas cidades tão pequenas acumulam tanta história por metro quadrado.
A história profunda do vale começa muito antes de qualquer império: há cerca de 230 milhões de anos, quando Uspallata era uma floresta de araucárias gigantes. Essa floresta foi soterrada por cinzas vulcânicas e virou pedra. Em março de 1835, um jovem naturalista inglês que atravessava os Andes no lombo de uma mula deu de cara com dezenas de troncos fósseis em pé na encosta e ficou fascinado: era Charles Darwin, em plena viagem do Beagle, e a descoberta do que hoje se chama Bosque de Darwin —meia centena de araucárias petrificadas que ainda se conservam— serviu para ele como evidência de que a cordilheira tinha se erguido do fundo do mar.
Os primeiros habitantes humanos do vale chegaram há milhares de anos. Os povos originários da região —caçadores, coletores e depois agricultores ligados à cultura de Agrelo e aos huarpes— deixaram seu testemunho mais impressionante no cerro Tunduqueral: petróglifos de cerca de mil anos com figuras humanas, animais e máscaras gravadas na rocha, em um local que a arqueologia interpreta como cerimonial.
Por volta do século XV, o império inca estendeu sua fronteira sul até estas latitudes e transformou Uspallata em um nó de sua rede de estradas, o Qhapaq Ñan. No vale se conservam tambos incas —postos de pedra como Ranchillos e Tambillos— que faziam parte do caminho rumo às passagens da cordilheira, integrando o sistema que a UNESCO declarou Patrimônio da Humanidade em 2014. O próprio nome 'Uspallata' tem raiz indígena, e a famosa Puente del Inca, a formação natural de águas termais sobre o rio Las Cuevas, lembra no nome essa presença: a tradição diz que os incas a usavam como passagem e que suas águas curativas já eram conhecidas por eles.
Com a conquista espanhola, o vale somou ao seu papel de corredor uma atividade que marcaria sua paisagem: a mineração. Nos Paramillos de Uspallata, a cerca de 2.800 metros de altitude na pré-cordilheira, foram exploradas a partir do século XVII veias de prata, chumbo e zinco que estão entre as minas mais antigas do atual território argentino. Os jesuítas trabalharam nessas minas até sua expulsão em 1767, e o minério descia ao vale para ser fundido.
O testemunho mais visível dessa época são as Bóvedas de Uspallata: construções singulares de adobe coroadas por cúpulas cônicas, associadas aos antigos fornos de fundição de metais. Sua silhueta, única na arquitetura colonial argentina, virou o símbolo da cidade. A tradição também as liga à luta pela Independência: conta-se que, na época do Exército dos Andes, elas serviram de apoio à fundição de armamentos comandada pelo frei Luis Beltrán, o genial artesão da artilharia de San Martín. Restauradas e transformadas em museu de sítio, hoje são parada obrigatória para entender o passado produtivo do vale.
A mineração nunca sumiu totalmente do horizonte de Uspallata: ainda no século XXI, a possível exploração de cobre na região gera debates acalorados entre o desenvolvimento econômico e a proteção da água e da paisagem, sinal de que a relação do vale com seus metais continua viva.
Em janeiro de 1817, o vale de Uspallata viveu os dias mais importantes de sua história. O general José de San Martín dava início à travessia dos Andes, uma das maiores façanhas logísticas da história militar: cerca de 5.000 homens, milhares de mulas e cavalos cruzando a cordilheira por seis rotas simultâneas para libertar o Chile. Enquanto o grosso do exército marchava pela passagem de Los Patos, ao norte, a coluna do coronel Juan Gregorio de Las Heras —cerca de 800 homens— seguiu pelo caminho de Uspallata, o mais direto, com uma carga preciosa: a artilharia do exército, os canhões fundidos pelo frei Luis Beltrán que não conseguiam passar pelas rotas mais escarpadas.
O avanço não foi tranquilo. No fim de janeiro de 1817, tropas realistas que desceram do Chile se chocaram com as vanguardas patriotas nos combates de Picheuta e Potrerillos, em pleno corredor de Uspallata: foram algumas das primeiras ações de fogo de toda a campanha libertadora. Las Heras saiu vitorioso, garantiu a passagem e, em 8 de fevereiro, se reuniu com o restante do exército do outro lado da cordilheira. Quatro dias depois, a vitória de Chacabuco abria as portas de Santiago.
A paisagem que aqueles soldados viram é praticamente a mesma que o viajante da RN 7 vê hoje: os mesmos morros ocres, o mesmo vento, a mesma imensidão. Por isso a região faz parte dos circuitos da Rota Sanmartiniana, e locais como o posto de guarda de Picheuta —onde sobrevive uma ponte histórica de pedra— mantêm viva a memória dessa façanha.
A segunda revolução que passou por Uspallata chegou sobre trilhos. Em 1887, impulsionada pelos irmãos chilenos Juan e Mateo Clark, começou a partir de Mendoza a construção da Ferrovia Trasandina, um projeto faraônico para unir Buenos Aires a Valparaíso —o Atlântico ao Pacífico— cruzando os Andes a quase 3.200 metros de altitude. Em 22 de fevereiro de 1891 foi inaugurado o primeiro trecho, de Mendoza a Uspallata, e a cidade virou estação-chave do caminho. Depois de duas décadas de obras titânicas, cremalheiras para vencer as subidas e um túnel internacional perfurado sob o cume, a linha completa foi inaugurada em 5 de abril de 1910, em plena comemoração dos centenários da Argentina e do Chile.
Durante décadas, o Trasandino foi uma das grandes aventuras ferroviárias do mundo: passageiros, cargas e correspondência cruzavam a cordilheira em um dia, com paradas em Uspallata, Polvaredas, Punta de Vacas e Puente del Inca, onde um elegante hotel termal —construído no início do século XX e destruído por uma avalanche em 1965— recebia a aristocracia dos dois países. Mas as avalanches, os custos e a concorrência do caminhão foram desgastando o serviço: os trens de passageiros pararam de circular em 1979 e, em 3 de julho de 1984, uma avalanche destruiu parte da via do lado chileno. Ela nunca foi consertada.
Hoje, as estações de pedra e os trilhos enferrujados que se veem ao lado da RN 7 são um dos cartões-postais melancólicos do vale, e de vez em quando renasce o sonho de um corredor bioceânico que volte a unir os dois oceanos passando por Uspallata.
A Uspallata de hoje vive de sua localização, como sempre. A RN 7, um dos corredores internacionais mais movimentados da América do Sul, fez dela a última localidade com serviços antes da alta montanha: é aqui que abastecem os caminhões que vão para o Chile, que param os ônibus Mendoza–Santiago e que se abastecem os montanhistas que sonham com o Aconcágua, o teto das Américas com seus 6.961 metros, cujo parque provincial fica 80 km a oeste. O turismo transformou a cidade em base de passeios: trekking, cavalgadas, rafting no rio Mendoza, travessias 4x4 e o clássico circuito de alta montanha que encadeia Puente del Inca, a laguna de Horcones e o Cristo Redentor dos Andes.
As filmagens de 'Sete Anos no Tibet' deixaram uma marca duradoura na identidade local: até hoje os guias mostram os cenários do filme e a cidade explora com orgulho sua semelhança com o Himalaia. Outras produções continuaram aproveitando essas paisagens, consolidando Uspallata como locação natural de cinema.
Para o viajante, o vale oferece algo cada vez mais raro: camadas de história autêntica —petróglifos, tambos incas, bóvedas coloniais, campos de batalha da Independência, estações de trem fantasmas e sets de Hollywood— em um raio de poucos quilômetros, envoltas em uma das paisagens de montanha mais imponentes da Argentina. Para quem sai do Brasil rumo a Mendoza, Uspallata já não é só um lugar de passagem: é um destino onde a cordilheira conta a sua própria biografia.