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Vale de Uco
🇦🇷 Argentina · Cuyo

Vale de Uco

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📌Província
Mendoza. Região vinícola de altitude ao pé da cordilheira, formada pelos departamentos de Tupungato, Tunuyán e San Carlos, a cerca de 90-100 km ao sul da cidade de Mendoza
📌Cidade-base
Tupungato, Tunuyán e San Carlos são as principais cidades do vale. Muitos viajantes usam a capital, Mendoza, como base; também há lodges e vinícolas-hotel dentro do próprio vale
📌Melhor época
Outono (março-abril) para a vindima e os vinhedos dourados; primavera e verão para clima ameno, céu limpo e vista para o vulcão Tupungato. Dias quentes e noites frescas quase o ano todo
📌Dias sugeridos
2 a 3 dias para aproveitar sem pressa as vinícolas de altitude, a gastronomia, o turismo rural e a paisagem de vinhedos e cordilheira
📌Moeda
Peso argentino (ARS). As vinícolas e os restaurantes de alto padrão costumam aceitar cartão e dólares; vale reservar e consultar os preços atualizados por causa da inflação
📌Como chegar
O mais prático é ir de carro a partir da capital, Mendoza, pela RN 40 (1 h 30 min, 90-100 km), ou contratar passeios de enoturismo com traslado. O aeroporto é o El Plumerillo (MDZ), em Mendoza
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O Vale de Uco é um dos grandes nomes do vinho argentino: uma região de altitude, ao pé da Cordilheira dos Andes e à sombra do imponente vulcão Tupungato (6.570 m), onde o malbec, o chardonnay e o cabernet franc alcançam uma expressão que correu o mundo. É formado por três departamentos de Mendoza — Tupungato, Tunuyán e San Carlos — e fica a cerca de 90 minutos ao sul da cidade de Mendoza, pela mítica Ruta 40.

O que diferencia o Vale de Uco é a altitude: muitos vinhedos ficam entre 900 e 1.500 metros acima do nível do mar, o que garante dias de sol intenso, noites frias e uma amplitude térmica que concentra cor, aromas e frescor na uva. Some a isso a água pura do degelo da cordilheira e uma paisagem de fileiras de videiras que se perdem contra as montanhas nevadas, e você tem o cartão-postal do enoturismo de alto padrão argentino.

Mas o vale não é só vinho. É turismo rural, cavalgadas, gastronomia autoral harmonizada com rótulos da vinícola, cidadezinhas tranquilas como Tupungato e Tunuyán, e lugares carregados de história como El Manzano Histórico, onde se relembra o retorno de San Martín após a campanha libertadora. Vinícolas com arquitetura espetacular, almoços entre vinhedos e o silêncio da montanha: o Vale de Uco é para ser curtido com calma.

📖 História de Vale de Uco

O Vale de Uco deve seu nome a Uco, um cacique huarpe da época da chegada dos exploradores espanhóis, em pleno século XVI. A região foi o extremo mais austral da influência inca antes da conquista e, depois, no século XVII, os jesuítas fundaram o Curato de Uco e iniciaram a evangelização. Em El Manzano Histórico, em Tunuyán, é lembrada a passagem de José de San Martín ao voltar da campanha libertadora. A grande transformação vinícola veio com a imigração europeia do fim do século XIX e, sobretudo, com o boom do enoturismo de altitude nas últimas décadas, que transformou o vale em um destino de fama mundial. A história completa está na nossa página de história.

Ler a história completa ↓

🏛️ Vale de Uco fica em Mendoza

The land of sun and good wine: a Huarpe oasis at the foot of Aconcagua, cradle of San Martín's Army of the Andes, rebuilt after the 1861 earthquake and turned into the world capital of Malbec and the high mountains.

Ler a história de Mendoza →

🗺️ O que ver

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1
Vinícolas de altitude
Dezenas de vinícolas abertas ao turismo, incluindo a eleita o melhor vinhedo do mundo.
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O coração do vale são suas vinícolas de altitude: de nomes de fama mundial como Zuccardi (cuja vinícola Piedra Infinita, em Paraje Altamira, foi eleita o Melhor Vinhedo do Mundo pelo World's Best Vineyards três anos seguidos, 2019-2021), Salentein, Domaine Bousquet, Andeluna ou The Vines, até projetos boutique autorais. Oferecem degustações, almoços harmonizados de vários tempos e passeios entre vinhedos e cordilheira, com arquitetura de design e vista para o vulcão Tupungato. Muitas combinam vinho, gastronomia e arte (como o Espacio Killka, da Salentein).
ℹ️ Reserve com antecedência, principalmente na alta temporada e nos fins de semana. Visita com degustação US$ 35–110 por pessoa, conforme a vinícola e a experiência (faixa segundo sites oficiais das vinícolas e Viator, verificado em julho de 2026).
2
O gigante de 6.570 m que emoldura todos os cartões-postais do vale.
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O vulcão Tupungato, com 6.570 metros — 'mirante das estrelas' na língua huarpe —, é o colosso que domina o horizonte do vale, com suas neves eternas que alimentam os rios Tupungato e Tunuyán. Sua silhueta acompanha cada vinhedo e cada pôr do sol da região. Faz parte do Parque Provincial Tupungato e é um objetivo para o montanhismo de alta dificuldade, além de ser um pano de fundo permanente do enoturismo.
ℹ️ Pode ser contemplado de todo o vale; a subida é só para montanhistas experientes, com guia e autorizações.
3
El Manzano Histórico (Tunuyán)
Local histórico onde se relembra o retorno de San Martín da campanha libertadora.
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Na bacia do Río Grande, cercado de morros ideais para cavalgar, El Manzano Histórico relembra o retorno de José de San Martín após a campanha libertadora. O monumento 'Retorno a la Patria' homenageia essa passagem do Libertador. O entorno natural, que faz parte de um circuito de capelas andinas, é lindo para caminhadas e cavalgadas e combina natureza com memória histórica.
ℹ️ A cerca de 40 km de Tunuyán pela RP 94; acesso livre à área. Leve água e agasalho; o clima de montanha muda rápido.
4
Sede do departamento, cidadezinha tranquila cercada de vinhedos e fazendas.
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Tupungato é a sede do departamento de mesmo nome, uma cidadezinha tranquila cercada de vinhedos e fazendas, com seu marco de fundação jesuíta e várias vinícolas nos arredores (Gualtallary é uma de suas sub-regiões mais prestigiadas). É uma boa base para explorar o norte do vale e reúne serviços básicos, gastronomia e atendimento familiar.
ℹ️ A cerca de 80 km de Mendoza pela RN 40. Boa base para as vinícolas de Gualtallary.
5
Tunuyán e San Carlos
As localidades do centro e do sul do vale, com serviços, vinícolas e vinhedos históricos.
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Tunuyán é a localidade central do vale, com serviços, gastronomia e acesso a vinícolas, fazendas e ao circuito de El Manzano Histórico; é sede da Fiesta de la Tradición Sanmartiniana. San Carlos e La Consulta, no extremo sul, preservam vinhedos históricos, vilarejos rurais e paisagens de chácaras e cordilheira, com profunda tradição vinícola.
ℹ️ Tunuyán e San Carlos ficam na RN 40; as duas têm rodoviária com ônibus intermunicipais saindo de Mendoza.
6
Caminhos do vinho e paisagem de vinhedos
As estradas do vale entre fileiras de videiras, álamos e cordilheira.
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Percorrer os caminhos do vinho do vale, entre fileiras de videiras, álamos e canais de irrigação, com a cordilheira e o Tupungato ao fundo, já é uma experiência por si só. No outono, os vinhedos se tingem de dourado e vermelho com a vindima. As estradas e os mirantes têm acesso livre e podem ser percorridos de carro ou de bicicleta, ligando vinícolas, fazendas e vilarejos.
ℹ️ Acesso livre. Ideal no outono (março-abril); se for degustar vinho, defina um motorista que não vá beber ou faça passeios com traslado.
7
Turismo rural, cavalgadas e aventura
Estâncias e fazendas com cavalgadas, mountain bike, pesca e trekking.
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Além da taça de vinho, o vale oferece turismo rural em estâncias e fazendas: cavalgadas entre morros e vinhedos, mountain bike, pesca em riachos de montanha, trekking e observação de paisagens. É uma forma de viver o vale em contato com seu ambiente natural e rural, ideal para combinar com a experiência de enoturismo.
ℹ️ Cavalgadas a partir de US$ 20–40 por pessoa (faixa segundo estâncias e operadoras locais, verificado em julho de 2026); reserve com antecedência.
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O que ninguém te conta

💵 Preços

Ingressos

TipoPreço
Recorrer los caminos del vino y el paisajeGrátis, estradas e mirantes de acesso livre (fonte: percurso feito pessoalmente, verificado em julho de 2026)
El Manzano Histórico y sitios al aire libreAcesso livre à área histórica e natural; serviços e visitas guiadas à parte (fonte: Mendoza Turismo, verificado em julho de 2026)
Bodega — visita + degustación estándarUS$ 35–65 por pessoa, conforme a vinícola (faixa segundo sites oficiais das vinícolas do vale e Viator, verificado em julho de 2026); confirme e reserve antes de visitar
Bodega premium — cata de alta gama (ej. Zuccardi Piedra Infinita, Salentein Icon Wines)US$ 70–110 por pessoa (faixa segundo sites oficiais da Zuccardi e da Salentein e agregadores como Tangol, verificado em julho de 2026)
Almuerzo maridado entre viñedos (menú de pasos)US$ 80–160 por pessoa, conforme a vinícola e o menu (faixa segundo sites das vinícolas e avaliações do Tripadvisor, verificado em julho de 2026); reserve com antecedência
🔄 atualizado mensalmenteValores oficiais / de referência · confira na hora de comprar

Atividades e passeios

Passeio por vinícolas de altitude com degustações (saindo de Mendoza)
DuraçãoDia inteiro
OperadoraAgências de enoturismo de Mendoza / vinícolas com reserva prévia
Preço
US$ 80–160 por pessoa, dia inteiro com traslado + 2-3 vinícolas; almoço às vezes à parte (faixa segundo Viator e operadoras de Mendoza, verificado em julho de 2026)
Almoço harmonizado entre vinhedos
Duração2 a 3 h
OperadoraRestaurantes de vinícolas (reserva prévia)
Preço
US$ 80–160 por pessoa (faixa segundo restaurantes de vinícolas, verificado em julho de 2026)
Cavalgadas e turismo rural
DuraçãoMeio dia a dia inteiro
OperadoraEstâncias e fazendas do vale
Preço
US$ 20–40 por pessoa (faixa segundo estâncias e operadoras locais, verificado em julho de 2026)
Excursão a El Manzano Histórico
DuraçãoMeio dia
OperadoraAgências receptivas / por conta própria de carro
Preço
US$ 30–60 por pessoa em excursão guiada (faixa segundo agências receptivas de Mendoza, verificado em julho de 2026); grátis por conta própria de carro
Mountain bike e trekking de montanha
DuraçãoMeio dia a dia inteiro
OperadoraOperadoras de turismo de aventura do vale
Preço
US$ 25–50 por pessoa (faixa segundo operadoras de turismo de aventura do vale, verificado em julho de 2026)
🔄 atualizado mensalmenteValores oficiais / de referência · confira na hora de comprar

🚌 Como chegar e distâncias

No destino

Carro próprio ou alugado
DuraçãoMendoza-Vale de Uco ~1 h 30 min
Preço
Combustível, gasolina súper aprox. $1.400–1.600 ARS/litro (fonte: postos YPF, verificado em julho de 2026); aluguel a partir de US$ 40/dia
Observações
A forma mais prática de percorrer as vinícolas, que ficam espalhadas. Se for degustar, defina um motorista que não vá beber ou faça passeios com traslado.
Passeios com traslado saindo de Mendoza
DuraçãoDia inteiro
Preço
US$ 80–160 por pessoa, dia inteiro (faixa segundo Viator e operadoras locais, verificado em julho de 2026)
Observações
A opção mais confortável se você não for dirigir: eles te buscam, percorrem as vinícolas e te levam de volta, com guia bilíngue.
Remís / transfer privado
DuraçãoVariável
Preço
US$ 70–140 por dia, conforme o percurso (faixa segundo agências de transfer de Mendoza, verificado em julho de 2026)
Observações
Útil para circular entre vinícolas ou sair da hospedagem; combine o percurso com antecedência.
Ônibus intermunicipais (até as cidades principais)
DuraçãoConforme o destino
Preço
$3.500–7.000 ARS por trecho saindo de Mendoza (faixa segundo passagens locais, verificado em julho de 2026)
Observações
Há linhas de Mendoza para Tupungato, Tunuyán e San Carlos, mas as vinícolas costumam ficar longe das rodoviárias.
🔄 atualizado mensalmenteValores oficiais / de referência · confira na hora de comprar

Como chegar

Mendoza capital → Vale de Uco (pela RN 40)
Duração~1 h 30 min (90-100 km)
Companhias aéreas / empresas
Carro, transfer ou passeios de enoturismo; ônibus intermunicipais até as cidades principais
Preço médio
Ônibus $3.500–7.000 ARS; passeio de dia inteiro US$ 80–160 por pessoa (faixa segundo agências locais, verificado em julho de 2026)
Buenos Aires → Mendoza (e depois até o vale)
DuraçãoVoo ~1 h 50 min + traslado até o vale
Companhias aéreas / empresas
Voos para El Plumerillo (MDZ) e depois carro/passeio; ou ônibus de longa distância até Mendoza
Preço médio
Voo US$ 70–160 só ida (faixa segundo Google Flights/Aerolíneas Argentinas, verificado em julho de 2026); ônibus $55.000–95.000 ARS
San Rafael → Vale de Uco (pela RN 40)
Companhias aéreas / empresasCarro ou ônibus intermunicipais
DuraçãoConforme a localidade (1,5 a 2,5 h até o sul do vale)
Preço médio
Combustível ou ônibus US$ 7–13 (faixa segundo sites de venda de passagens, verificado em julho de 2026)
🔄 atualizado mensalmenteValores oficiais / de referência · confira na hora de comprar

🏨 Onde dormir

Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.

Alto padrão (vinícolas-hotel, lodges e boutiques)
Preço$$$$$
Opções recomendadas
Lodges de luxo e vinícolas-hotel entre vinhedos (The Vines Resort & Spa, Casa de Uco Vineyards & Wine Resort), com spa, gastronomia autoral e vista para a cordilheira: US$ 300–800+ a diária (faixa segundo Booking/Tripadvisor, verificado em julho de 2026). Um dos destinos de enoturismo mais exclusivos do país.
Padrão médio (pousadas e chalés rurais)
Preço$$$$$
Opções recomendadas
Pousadas, hospedarias e chalés em Tupungato, Tunuyán e zonas rurais: US$ 75–150 a diária (faixa segundo Booking/Tripadvisor, verificado em julho de 2026), com bom custo-benefício e atendimento familiar.
Econômico
Preço$$$$$
Opções recomendadas
Hospedagens e chalés mais simples nas cidades principais: US$ 35–75 a diária (faixa segundo Booking budget, verificado em julho de 2026); muitos viajantes também se hospedam na capital, Mendoza, e vêm passar o dia.

🍴 Onde comer

Alta cocina y maridajes en bodegas
Preço$$$$$
Opções / prato típico
Restaurantes de vinícolas (Piedra Infinita Cocina de Zuccardi, Killka de Salentein etc.) com menus de vários tempos harmonizados: US$ 80–160 por pessoa (faixa segundo sites das vinícolas e Tripadvisor, verificado em julho de 2026). Uma das grandes atrações do vale.
Cocina regional y de finca
Preço$$$$$
Opções / prato típico
Cozinha mendocina e de produtos da estação (cabrito, carnes na chama, verduras da horta, azeites de oliva locais): US$ 22–45 por pessoa (faixa segundo Tripadvisor, verificado em julho de 2026).
Parrillas y comida casera
Preço$$$$$
Opções / prato típico
Parrillas e restaurantes familiares nas cidades principais, com churrasco argentino, empanadas e pratos caseiros: US$ 9–22 por prato principal (faixa segundo avaliações de viajantes, verificado em julho de 2026).

📖 História de Vale de Uco

Origem, formação e o que dizem as fontes.

O melhor vinhedo do mundo fica em um deserto

Em julho de 2019, a academia World's Best Vineyards — um júri internacional de quase 500 especialistas em vinho e viagens — anunciou qual era o melhor vinhedo do mundo para visitar. Não ficava em Bordeaux, nem em Napa, nem na Toscana: ficava em Paraje Altamira, um cantinho de pedras e álamos do Vale de Uco, em Mendoza. A vinícola Zuccardi Valle de Uco, um bunker de concreto e rocha que parece ter brotado do chão, repetiu o título em 2020 e em 2021: três vezes em primeiro lugar, algo que nenhum outro vinhedo do planeta conseguiu até hoje.

O surpreendente é que esse vale consagrado era, até três décadas atrás, um segredo de polichinelo entre pequenos agricultores: terra de maçãs, peras e alho, um deserto de altitude ao pé do vulcão Tupungato, onde pouquíssimos se arriscavam a plantar uvas finas porque as geadas queimavam os brotos. A história de como um oásis agrícola da fronteira sul do império inca acabou virando a meca mundial do malbec de altitude é uma das melhores histórias do vinho moderno — e começa, como quase tudo por aqui, com a água do degelo e com um cacique chamado Uco.

O cacique Uco e a fronteira sul do império inca

O vale leva o nome de um homem: Uco, um cacique huarpe que dominava estas terras quando chegaram os primeiros exploradores espanhóis, em meados do século XVI. Os huarpes eram um povo de agricultores e ceramistas que tinha resolvido o problema essencial de Cuyo — como cultivar em um deserto — com uma rede de canais e valas de irrigação que distribuíam a água dos riachos e do degelo da cordilheira. Essa engenharia da água, herdada e ampliada por cada geração seguinte, é a verdadeira fundadora do oásis: sem os canais de irrigação não teria havido sítios coloniais, nem álamos, nem vinhedos premiados.

Antes dos espanhóis, o vale foi o extremo mais austral da influência do Tawantinsuyu: estima-se que os incas dominaram parcialmente a região entre 1470 e 1535, integrando-a à sua rede de caminhos e tambos que descia pela crista dos Andes. Aliás, boa parte da tecnologia de irrigação que os espanhóis encontraram funcionando tinha marca inca. Por volta de 1551, o explorador Francisco de Villagra, voltando do Peru rumo ao Chile, atravessou Cuyo e deixou os primeiros relatos europeus sobre estas terras e sua gente. O choque desses dois mundos — o oásis indígena e a ambição colonial — abriu a transformação mais longa da história do vale.

Jesuítas, capelas e dois séculos olhando para o Chile

Um dado que surpreende muitos viajantes: durante mais de dois séculos, Mendoza e o Vale de Uco foram, administrativamente, chilenos. Desde a fundação de Mendoza, em 1561, até a criação do Vice-Reino do Rio da Prata, em 1776, toda a região de Cuyo dependeu da Capitania Geral do Chile, do outro lado da cordilheira: as autoridades, o comércio e até os bispos chegavam cruzando os Andes. A vida no vale girava em torno de fazendas de gado, cultivos irrigados e tropas de vacas que engordavam nestes pastos antes de seguir para Santiago.

Nesse mundo de fronteira, os jesuítas se instalaram no século XVII. Em torno do atual marco fundacional de Tupungato, organizaram o Curato de Uco, de onde encararam a evangelização da população huarpe e ergueram os primeiros núcleos estáveis de povoamento. Daquela época sobrevive um rosário de capelas andinas de adobe — como as de La Carrera e dos povoados altos de Tupungato — que hoje fazem parte de roteiros turísticos e religiosos e estão entre as construções mais antigas de Mendoza. Quando a Coroa expulsou os jesuítas da América, em 1767, suas terras e capelas passaram para outras mãos, mas o desenho humano do vale já estava traçado: cidadezinhas, canais de irrigação e montanha.

1823: San Martín volta à pátria pelo Vale de Uco

Em janeiro de 1823, um cavaleiro exausto desceu do Paso del Portillo, a mais de 4.300 metros de altitude, e acampou junto a uma macieira na bacia do rio Grande, no atual departamento de Tunuyán. Era José de San Martín, que voltava à Argentina depois de uma década de campanhas libertadoras pelo Chile e pelo Peru, já sem exército, sem cargos e com a saúde desgastada. Para recebê-lo na cordilheira tinha subido um único homem: o major Manuel de Olazábal, seu antigo oficial de granadeiros, que improvisou um toldo com ponchos sobre os galhos da macieira para que o Libertador descansasse. Essa cena mínima — um herói continental dormindo debaixo de uma árvore frutífera, de volta e quase incógnito — ficou marcada como um dos momentos mais humanos da epopeia de San Martín.

A árvore teve mais sorte que muitos monumentos: a província a declarou monumento histórico em 1938 (decreto 169/38) e o governo nacional fez o mesmo em 2019 (decreto 769/2019). Em 1950, Ano do Libertador, foi inaugurado junto aos seus restos o monumento 'Retorno a la Patria', do escultor Luis Perlotti, inspirado em um quadro de Fidel Roig Matóns, que mostra San Martín e Olazábal em bronze, pedra e travertino. Hoje, El Manzano Histórico é o coração simbólico do vale: uma reserva natural de morros e riachos onde todo verão acontece a travessia dos Andes a cavalo (o Cruce de los Andes) e onde a história argentina pode ser tocada com as mãos.

Imigrantes, maçãs e as primeiras videiras

A videira chegou a Cuyo com os espanhóis no século XVI, mas a indústria do vinho nasceu de verdade com a imigração europeia e a ferrovia. Quando o trem chegou a Mendoza, em 1885, e ligou os vinhedos ao gigantesco mercado de Buenos Aires, pioneiros imigrantes como o italiano Juan Giol, o suíço Bautista Gargantini e o italiano Pascual Toso ergueram vinícolas que chegaram a estar entre as maiores do mundo. Milhares de famílias italianas, espanholas e francesas trouxeram uvas, técnicas e uma cultura do vinho que transformou o oásis mendocino.

Mas atenção: durante quase todo o século XX, essa revolução aconteceu no norte da província, não aqui. O Vale de Uco, mais alto e mais frio, com geadas tardias que queimavam os brotos, ficou como terra de sítios e pomares: maçãs, peras, ameixas, alho e batata. Tunuyán chegou a ser sinônimo de maçã na Argentina — ironia perfeita para a terra do Manzano Histórico — e as uvas cultivadas eram sobretudo variedades comuns para vinhos de mesa. Os velhos parreirais e as fileiras centenárias de La Consulta e San Carlos, que hoje os enólogos veneram como tesouros genéticos do malbec, eram então simples vinhas de pequenos agricultores. O vale esperava, sem saber, que o mundo do vinho descobrisse que seu grande defeito — o frio da altitude — era na verdade seu superpoder.

A revolução da altitude: de uma aposta maluca ao mapa mundial do vinho

A história moderna do vale tem data e lugar: 1992, Gualtallary, Tupungato. Naquele ano, Nicolás Catena Zapata, obcecado em produzir um vinho argentino que competisse com os melhores do mundo, plantou o vinhedo Adrianna a quase 1.500 metros de altitude, onde os agrônomos da época garantiam que a uva jamais amadureceria. A aposta deu o contrário do previsto: o sol intenso do dia, o frio da noite e os solos calcários e pedregosos deram uvas com uma concentração, um frescor e uma mineralidade inéditos. O Adrianna acabou consagrado como um dos grandes vinhedos do planeta — há quem o chame de 'grand cru' da América do Sul — e, atrás de Catena, veio a avalanche.

No fim dos anos 90, o empresário holandês Mijndert Pon fundou a Salentein e trouxe ao vale arquitetura monumental e arte (seu espaço Killka foi inaugurado em 2006); o enólogo francês Michel Rolland reuniu um grupo de investidores de Bordeaux e criou o Clos de los Siete em Vista Flores, com 850 hectares; e famílias mendocinas como os Zuccardi levaram sua aposta em qualidade para os solos pedregosos do sul do vale. Em 2013, Paraje Altamira se tornou uma das primeiras indicações geográficas da Argentina delimitadas por estudo de solos, e em 2016 abriu ali a vinícola Zuccardi Valle de Uco, a dos três títulos mundiais. Hoje o Vale de Uco — sempre vigiado pelo vulcão Tupungato, de 6.570 metros — reúne lodges de luxo, restaurantes premiados e dezenas de vinícolas de design entre Gualtallary, Vista Flores e Altamira. O deserto do cacique Uco levou cinco séculos para revelar sua carta na manga: a altitude.

📚 Bibliografia

  • Wikipedia (ES) — «Valle de Uco»: https://es.wikipedia.org/wiki/Valle_de_Uco
  • Wikipedia (ES) — «Huarpes»: https://es.wikipedia.org/wiki/Huarpes
  • Wikipedia (ES) — «Tupungato»: https://es.wikipedia.org/wiki/Tupungato
  • Wikipedia (ES) — «Corregimiento de Cuyo»: https://es.wikipedia.org/wiki/Corregimiento_de_Cuyo
  • Wikipedia (ES) — «Vitivinicultura en Argentina»: https://es.wikipedia.org/wiki/Vitivinicultura_en_Argentina
  • Municipalidad de Tunuyán — Monumento Retorno a la Patria: https://tunuyan.gov.ar/vivitunuyan/atractivos/monumento-retorno-a-la-patria/
  • El Cuco Digital — El 'Retorno a la Patria' de San Martín, historia del monumento del Manzano: https://elcucodigital.com/archivo/el-retorno-a-la-patria-historia-del-monumento-de-el-manzano/
  • Los Andes — Historias en torno al monumento del Manzano: https://www.losandes.com.ar/historias-en-torno-al-monumento-del-manzano
  • Catena Zapata — Adrianna Vineyard: https://catenazapata.com/es/vineyards/adrianna/
  • Forbes Argentina — Zuccardi, elegido mejor viñedo del mundo por tercera vez consecutiva: https://www.forbesargentina.com/lifestyle/zuccardi-elegido-mejor-vinedo-mundo-tercera-vez-consecutiva-n9411
  • Valle de Uco (WordPress) — Historia de Tupungato: https://valledeuco.wordpress.com/valle-de-uco/tupungato/historia/
  • Argentina Turismo — Historia de Valle de Uco: https://www.argentinaturismo.com.ar/valledeuco/historia.php

❓ Perguntas frequentes

Quanto custa visitar uma vinícola no Vale de Uco?+
Depende da vinícola e da experiência. Uma visita com degustação padrão fica entre US$ 35 e 65 por pessoa; as degustações premium de vinícolas top como Zuccardi (Piedra Infinita) ou Salentein (Icon Wines) podem custar entre US$ 70 e 110 por pessoa, e um almoço harmonizado de vários tempos, entre US$ 80 e 160 (faixa segundo sites oficiais das vinícolas e agregadores como Viator/Tangol, verificado em julho de 2026). Vale reservar com antecedência e confirmar os preços, que são reajustados por causa da inflação.
Como chego ao Vale de Uco?+
O mais prático é ir de carro a partir da cidade de Mendoza pela Ruta 40, a cerca de 90-100 km (por volta de 1 h 30 min). Se você não for dirigir, pode contratar passeios de enoturismo com traslado saindo de Mendoza (US$ 80–160 por pessoa o dia inteiro, faixa segundo Viator e agências locais, verificado em julho de 2026), que percorrem várias vinícolas com guia, ou um transfer privado. Também há ônibus intermunicipais para Tupungato, Tunuyán e San Carlos.
Preciso reservar as vinícolas?+
Sim, vale reservar com antecedência. As visitas, degustações e almoços nas vinícolas do Vale de Uco são feitos com agendamento prévio, principalmente na alta temporada e nos fins de semana. Reserve pelo site ou telefone de cada vinícola, ou deixe a agência do seu passeio organizar o roteiro.
Qual é a melhor época para visitar?+
O outono (março-abril) é mágico: coincide com a vindima e os vinhedos se tingem de dourado e vermelho. A primavera e o verão oferecem dias amenos, céu limpo e boa vista para o Tupungato. Em geral o clima é seco, com dias quentes e noites frescas quase o ano todo. O inverno é mais frio, mas tranquilo.
O que há além das vinícolas?+
Bastante coisa. O vale oferece turismo rural e cavalgadas em estâncias (a partir de uns US$ 20 por pessoa, faixa verificada em julho de 2026), mountain bike e trekking de montanha, gastronomia autoral e locais históricos como El Manzano Histórico (em Tunuyán), ligado ao retorno de San Martín. E, claro, a paisagem: percorrer os caminhos do vinho entre vinhedos e cordilheira já é uma experiência por si só.
Quais vinícolas vale a pena visitar no Vale de Uco?+
Os clássicos imperdíveis são Zuccardi Piedra Infinita (eleita o Melhor Vinhedo do Mundo três anos seguidos, 2019-2021), Salentein com seu espaço de arte Killka, Andeluna e Domaine Bousquet em Gualtallary, e The Vines ou Clos de los Siete em Vista Flores. Um bom dia combina duas ou três vinícolas com um almoço harmonizado. Todas exigem reserva prévia; se quiser degustar sem limites, contrate um passeio com traslado.
Quantos dias são necessários para o Vale do Uco?+
Com um passeio de dia inteiro saindo de Mendoza, você conhece duas ou três vinícolas e almoça entre os vinhedos. Para curtir o vale sem pressa —vinícolas, El Manzano Histórico, cavalgadas e uma noite em lodge ou pousada rural— o ideal são 2 ou 3 dias.

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