Villa Carlos Paz é um dos destinos turísticos mais populares da Argentina e a porta de entrada do Vale de Punilla, nas serras de Córdoba. Fica a uns 36 quilômetros da capital cordobesa e se debruça sobre o lago San Roque, uma grande represa que é o verdadeiro coração da cidade: é ali que acontecem os passeios de catamarã, os esportes náuticos e os pores do sol que a deixaram famosa. É um lugar pensado para descansar em família, com opções para todos os bolsos e uma agenda que não para no verão.
Seu símbolo mais querido é o Reloj Cucú, um relógio gigante em estilo alpino que a cada meia hora e a cada hora cheia solta seu passarinho mecânico para a alegria dos turistas, que não se cansam de fotografá-lo. A esse cartão-postal se somam o Complejo Aerosilla, cujo teleférico sobe até o Cerro de la Cruz — o ponto mais alto da cidade — e oferece uma vista panorâmica do lago e das serras, a avenida Costanera e bairros charmosos como Villa del Lago, na outra margem.
Carlos Paz é, além disso, a capital do teatro de verão argentino: durante a temporada, suas salas lotam com dezenas de espetáculos — comédias, teatro de revista, musicais, humor e peças infantis — que reúnem os grandes nomes do país. Quando o sol se põe, o calçadão e as avenidas do centro viram um fervo de bares, restaurantes, baladas e letreiros luminosos. Lago de dia, palco e festa à noite: essa é a mistura que faz de Carlos Paz um clássico das férias argentinas.
O destino de Villa Carlos Paz foi marcado pela água: o antigo dique San Roque, inaugurado em 1888 e considerado na época uma das maiores obras hidráulicas do mundo (depois substituído pela barragem atual), formou o lago artificial que mudou para sempre a paisagem do vale. Em 1913, Carlos Nicandro Paz — filho de Rudecindo Paz, dono da estância Santa Leocadia — loteou e fundou o povoado que leva seu nome, em 16 de julho daquele ano. O turismo e a ferrovia fizeram a vila crescer até se tornar cidade em 1964, e com os anos chegaram seus símbolos: o Reloj Cucú, o teleférico e a fama de capital do teatro de verão. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The landlocked province of sierras and rivers: Comechingón land founded by Cabrera in 1573, seat of the oldest university in the country and of the great Jesuit legacy, cradle of the University Reform and of the Cordobazo, capital of sierra tourism and of cuarteto.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Em 1889, Gustave Eiffel —que tinha acabado de terminar sua torre em Paris— deixou uma frase que Córdoba repete com orgulho há mais de um século: 'Minha torre e o dique San Roque são as obras mais importantes do mundo neste momento, mas minha torre não é produtiva e o dique, sim'. O dique em questão tinha sido inaugurado em 1888 num vale serrano a 36 quilômetros da cidade de Córdoba e era, na época, uma das maiores obras hidráulicas do planeta: um paredão que domava os rios San Antonio e Cosquín para levar água potável e irrigação à capital da província. Seus criadores foram o engenheiro cordobês Carlos Cassaffousth e o médico, advogado e empresário catalão Juan Bialet Massé, que fabricou a cal hidráulica da obra.
A recompensa que receberam foi uma cela. Em 1892, em meio a uma feroz disputa política interna, o governador Manuel Pizarro mandou processá-los por suposta fraude na qualidade dos materiais, acusando-os de ter construído um dique que ia desabar. Os dois ficaram presos até novembro de 1893, enquanto os jornais anunciavam a catástrofe iminente. O dique nunca caiu: continuou segurando o lago por meio século, até que em 1944 foi substituído pelo paredão atual —mais alto, para ampliar o reservatório—, e sua velha estrutura continua de pé até hoje, reconhecida como monumento à engenharia argentina. Daquele escândalo do século XIX ficou algo mais que uma anedota: ficou o lago San Roque. E às margens desse lago, duas décadas depois, nasceria a cidade de férias mais famosa do interior da Argentina.
As terras onde hoje fica a cidade pertenciam à estância Santa Leocadia, comprada em 1869 por dom Rudecindo Paz. Seu filho, Carlos Nicandro Paz —nascido em Córdoba em 1866—, herdou aqueles campos serranos justamente quando o recém-criado lago mudava o destino deles: o que tinha sido terra de pastagem virava terra com vista para a água. Dom Carlos entendeu o negócio antes de todo mundo. Melhorou as estradas, conseguiu serviços, doou terrenos para a capela e a escola e começou a lotear a estância para veranistas. Em 16 de julho de 1913, a vila foi formalmente fundada e batizada com o nome dele.
O crescimento foi constante. Primeiro chegaram as famílias de Córdoba em férias, de carruagem e nos primeiros automóveis; depois, com a ferrovia no vale de Punilla e a melhoria da estrada até Córdoba, o que era um fiozinho virou enxurrada. Na vila brotaram hotéis, pousadas e casas de fim de semana entre as serras e o lago. Em meados do século XX, Villa Carlos Paz já competia com os grandes destinos turísticos do país, e em 1964 foi elevada oficialmente à categoria de cidade. O vilarejo da estância Santa Leocadia tinha se transformado, em apenas meio século, na capital do turismo serrano argentino.
O emblema de Carlos Paz nasceu de uma das migrações mais curiosas do pós-guerra. Depois da Segunda Guerra Mundial, um grupo de técnicos e engenheiros alemães —vários deles vindos da indústria aeronáutica— se estabeleceu na vila serrana, atraído pela paisagem e pelas oportunidades da Argentina daquela época. Dessa colônia saiu a ideia de construir um relógio cuco monumental, no estilo dos da Floresta Negra, mas em escala gigante: uma torre em estilo alpino de cerca de 7,5 metros de altura, com maquinário projetado artesanalmente por técnicos como Carl Hans Plock.
O Reloj Cucú foi inaugurado em 25 de maio de 1958 e fez sucesso na hora: na época, foi considerado um dos maiores relógios do tipo no mundo, e seu pássaro mecânico —que sai da casinha a cada meia hora— virou a foto obrigatória de milhões de veranistas. A 'cucusa' completou a santíssima trindade dos ícones locais junto com o Cerro de la Cruz e o teleférico de cadeirinhas (a aerosilla), que desde meados dos anos 1950 —foi um dos primeiros da América do Sul— leva os turistas até o mirante mais alto da cidade. Poucas cidades argentinas têm símbolos tão queridos e tão pouco solenes: em Carlos Paz, o cartão-postal fundador é um relógio de brinquedo gigante construído por engenheiros de avião.
A segunda identidade de Carlos Paz foi escrita nos palcos. Desde as últimas décadas do século XX, a cidade foi construindo uma temporada teatral de verão que acabou disputando com Mar del Plata o trono do espetáculo argentino: todo mês de dezembro, as grandes estrelas da televisão e do teatro nacional levam suas peças para as salas da cidade —o Luxor, o Del Lago, o Holiday, o Candilejas, entre outras— e o centro vira um passeio de letreiros iluminados, divulgadores e filas na bilheteria. As programações recentes passam de 60 peças por temporada, entre comédias, teatro de revista, musicais, humor e espetáculos infantis.
O fenômeno transformou a economia e o ritmo da cidade. A noite de Carlos Paz virou um produto em si: sessão de teatro, jantar no calçadão e, para os mais jovens, balada até de madrugada. Os prêmios Carlos —os troféus da temporada local, batizados em homenagem ao fundador— são entregues todo mês de janeiro e viram notícia nacional. Essa convivência entre lago e palco define a Carlos Paz moderna: praia, catamarã e teleférico de dia; luzes, aplausos e madrugada quando o sol se põe sobre o San Roque.
A Carlos Paz do século XXI é uma cidade de mais de 71.000 habitantes (censo de 2022) —a quarta da província de Córdoba— que multiplica sua população a cada verão e aparece, temporada após temporada, entre os destinos mais visitados da Argentina. Seu motor continua sendo o mesmo lago criado por Cassaffousth e Bialet Massé, mas a oferta não parou de crescer: esportes náuticos, parques temáticos e de diversões, a orla renovada, a gastronomia com vista para a água e a ponte José Manuel de la Sota (2018), que cruza o reservatório por cima e acrescentou um cartão-postal moderno à paisagem. A cidade também é porta de entrada para o Vale de Punilla, com Cosquín, La Falda e Capilla del Monte logo ali.
Como todo clássico, ela enfrenta os desafios do próprio sucesso: a pressão imobiliária sobre as serras, a saúde do lago San Roque —cuja eutrofização é um tema ambiental recorrente— e a necessidade de renovar a proposta para as novas gerações, que combinam a peça de teatro dos pais com esportes de aventura e festivais. Mas a essência parece a salvo. Mais de um século depois do loteamento de dom Carlos, a fórmula continua intacta e à vista de qualquer um que caminhe pela orla no fim da tarde: um lago entre serras, um relógio com um pássaro dentro e a certeza, bem argentina, de que as melhores férias da infância sempre foram em Carlos Paz.