Quando terminou a última glaciação, há cerca de onze mil anos, a enorme calota de gelo que cobria a Escandinávia começou a recuar, e a terra que hoje é a Finlândia foi aparecendo pouco a pouco. Os primeiros grupos humanos chegaram logo atrás do degelo: caçadores e pescadores que seguiam as renas e as manadas por uma tundra que mal começava a se cobrir de floresta. O sítio de Susiluola (a "caverna do lobo"), na Ostrobótnia, gerou um debate intenso porque alguns pesquisadores propuseram uma ocupação anterior à última glaciação, mas a datação continua sendo discutida e a maioria dos arqueólogos considera o povoamento pós-glacial, por volta de 9000 a.C., como o ponto de partida seguro.
Durante milênios esses povos viveram da caça, da pesca e da coleta. A cerâmica pente-decorada do Neolítico e, mais tarde, a difusão da metalurgia marcaram etapas de contato com o resto do norte da Europa. A agricultura chegou tarde e aos poucos, porque o clima a tornava difícil: boa parte do país continuou dependendo da caça e da queimada da floresta para plantar (a coivara) até os tempos históricos.
No extremo norte formou-se um povo com língua e cultura próprias: os sámi, tradicionalmente chamados de "lapões", um exônimo que hoje se evita pela carga pejorativa. Os sámi são os únicos povos indígenas reconhecidos como tais dentro da União Europeia. Sua língua pertence, como o finlandês, à família urálica, mas forma um ramo distinto. Viviam da caça da rena selvagem, da pesca e da coleta, e com os séculos desenvolveram o pastoreio de renas que ainda hoje é marca de identidade na Lapônia. A fronteira entre o mundo sámi do norte e o mundo agrário finlandês do sul atravessa toda a história do país.
A partir do século XII, o reino da Suécia foi estendendo seu poder e sua fé para o leste, sobre as terras finlandesas, num processo que a tradição envolveu nas chamadas "cruzadas suecas". Quanto houve de campanha militar organizada e quanto de lenda posterior é tema de debate entre historiadores, mas o resultado é claro: por volta do século XIII, a Finlândia já estava integrada como parte oriental do reino da Suécia, com a Igreja Católica Romana como instituição estruturante. Turku (Åbo em sueco) virou a cidade principal, sede do bispado e centro administrativo, e sua catedral, consagrada no fim do século XIII, continua sendo o templo-mãe da Igreja Luterana finlandesa.
Como terra de fronteira, a Finlândia foi palco recorrente das guerras entre Suécia e Rússia (primeiro Novgorod, depois o czarado de Moscou e o Império Russo). O Tratado de Nöteborg, de 1323, fixou uma primeira linha divisória; os séculos seguintes a deslocaram de novo e de novo, a ferro e fogo.
No século XVI vieram duas mudanças profundas. A Reforma Protestante converteu o reino ao luteranismo, e com ela surgiu o homem que fundou o finlandês escrito: Mikael Agricola, bispo de Turku, que traduziu o Novo Testamento e fixou pela primeira vez a ortografia da língua. Mesmo assim, o sueco continuou sendo por séculos o idioma do governo, da lei, do ensino superior e das classes altas, enquanto o finlandês ficava como língua do campesinato. Essa divisão linguística de classe pesaria enormemente no despertar nacional do século XIX.
O período não foi nada idílico. A "Grande Ira" (Isoviha), a ocupação russa durante a Grande Guerra do Norte no começo do século XVIII, deixou devastação, deportações e fome. E a grande fome de 1695-1697, provocada por anos de colheitas congeladas, matou de inanição e doença uma parcela enorme da população; as estimativas mais aceitas falam em morte de um quarto a um terço dos habitantes, uma das piores catástrofes demográficas da história europeia em termos relativos.
Em 1808-1809, no contexto das guerras napoleônicas, a Rússia invadiu a Finlândia e a tomou da Suécia. Pelo Tratado de Fredrikshamn (1809), o reino sueco cedeu toda a sua metade oriental. Mas o czar Alexandre I não anexou a Finlândia como mais uma província: ele a constituiu como Grão-Ducado da Finlândia, um Estado autônomo do qual ele próprio era o Grão-Duque. Na Dieta de Porvoo, nesse mesmo ano, comprometeu-se a respeitar as leis, a religião luterana e os privilégios herdados da época sueca.
Essa autonomia foi decisiva. A Finlândia manteve seu próprio sistema jurídico, sua administração, sua Igreja e, com o tempo, sua própria moeda, o marco, criado em 1860. Em 1812 a capital foi transferida de Turku para Helsinque, mais perto de São Petersburgo e mais fácil de controlar, e a nova capital foi reconstruída com a grandiosa arquitetura neoclássica de Carl Ludvig Engel, que ainda define seu centro. Em 1827 um incêndio devastou Turku e acelerou a transferência da universidade para Helsinque.
Durante boa parte do século XIX, o regime russo foi relativamente benevolente e permitiu que a Finlândia desenvolvesse instituições que a foram transformando, quase sem querer, em uma nação. Só no fim do século, com a política de russificação, essa autonomia entraria em crise e empurraria os finlandeses para a ideia da independência.
O século XIX finlandês é o século em que um povo camponês sem Estado próprio construiu uma identidade nacional. O lema que resumia o projeto é atribuído ao filósofo e estadista Johan Vilhelm Snellman e ao seu círculo: "Suecos já não somos, russos não queremos ser; sejamos, então, finlandeses". O movimento fenomano impulsionou o finlandês a deixar de ser a língua do campo e a subir ao governo, à escola e à cultura, em disputa com a velha elite de língua sueca.
O acontecimento cultural fundador foi o Kalevala. O médico rural Elias Lönnrot percorreu a Carélia durante anos recolhendo da boca de cantores populares a antiga poesia oral finlandesa e, com esse material, compôs uma epopeia nacional: a primeira versão saiu em 1835 e a definitiva, ampliada, em 1849. O Kalevala deu à Finlândia o que outras nações tinham havia séculos — um poema épico próprio, com heróis como Väinämöinen — e virou símbolo de que o finlandês servia para a alta cultura, e não só para arar a terra. Sua influência foi enorme, da pintura de Akseli Gallen-Kallela à música de Jean Sibelius, cuja obra (Finlandia, a Suíte Karelia) se tornou hino emocional do nacionalismo.
No fim do século, o czar Nicolau II lançou a política de russificação (o Manifesto de Fevereiro de 1899) para cortar a autonomia finlandesa: tentativa de impor o russo, subordinar o exército finlandês e limitar a Dieta. A resposta foi uma resistência cívica em massa e uma grande petição assinada por meio milhão de pessoas. Em 1904, um funcionário finlandês, Eugen Schauman, assassinou o governador-geral russo Bobrikov e se suicidou, num episódio que marcou o clima da época. A pressão desembocou numa reforma histórica: em 1906 a Finlândia adotou um parlamento unicameral eleito por sufrágio universal e foi o primeiro país do mundo a dar às mulheres, ao mesmo tempo, o direito de votar e de ser eleitas.
O colapso do Império Russo em 1917 abriu a porta. Depois da Revolução de Outubro bolchevique, o Parlamento finlandês declarou a independência em 6 de dezembro de 1917, data que hoje é a festa nacional. Em janeiro de 1918, o governo de Lênin, ocupado com a própria revolução, reconheceu o novo Estado.
Mas a independência chegou envolta num conflito interno feroz. A sociedade estava profundamente dividida entre os "vermelhos" — a social-democracia operária, com base nas cidades industriais do sul e apoio da Rússia bolchevique — e os "brancos" — o governo conservador e os proprietários, com apoio da Alemanha imperial e liderança militar de Carl Gustaf Emil Mannerheim. Entre janeiro e maio de 1918 estourou uma guerra civil curta e sangrenta, vencida pelos brancos.
O número de mortos é assustador para um país tão pequeno: cerca de 36.000 a 39.000 pessoas, a imensa maioria não no campo de batalha, mas no terror que veio depois. Houve um terror vermelho e um terror branco, mas o mais letal foi o dos vencedores: milhares de vermelhos foram executados e uns 80.000 foram internados em campos de prisioneiros onde, na primavera e no verão de 1918, morreram de fome e doença entre 12.000 e 13.000 pessoas. A memória dessa guerra — silenciada por décadas, tratada com eufemismos como "guerra de libertação" pelos vencedores — dividiu a sociedade finlandesa por gerações, e só na segunda metade do século XX a historiografia a encarou de frente. Depois de um breve flerte com a ideia de instaurar uma monarquia com um príncipe alemão, a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial fez com que a Finlândia se organizasse finalmente como república, com sua primeira Constituição em 1919.
Em agosto de 1939, o pacto secreto entre a Alemanha nazista e a União Soviética (o pacto Molotov-Ribbentrop) colocou a Finlândia dentro da esfera de influência soviética. Stálin exigiu território e bases; a Finlândia recusou. Em 30 de novembro de 1939 a URSS atacou sem declaração formal de guerra e chegou a instalar um governo fantoche. Começava a Guerra de Inverno.
O que veio depois surpreendeu o mundo. Um exército finlandês pequeno e mal equipado resistiu por mais de três meses a uma potência imensamente superior, aproveitando o terreno, as florestas, o frio extremo e táticas de guerrilha sobre esquis. O Exército Vermelho, enfraquecido pelos expurgos de Stálin, sofreu perdas enormes. Ainda assim, o desequilíbrio era insustentável: pelo Tratado de Paz de Moscou, de março de 1940, a Finlândia manteve a independência, mas cedeu a Carélia e outras áreas, cerca de 10% do seu território, e mais de 400.000 carélios foram evacuados e reassentados no resto do país.
Em busca de recuperar o que tinha perdido, a Finlândia se aliou de fato à Alemanha nazista e, em junho de 1941, quando Hitler invadiu a URSS, lançou a Guerra de Continuação (1941-1944), na qual reconquistou a Carélia e avançou além das fronteiras de 1939. Essa cobeligerância com a Alemanha é a página mais incômoda da história finlandesa, e é preciso dizê-la sem eufemismos: embora a Finlândia tenha mantido seu próprio comando e não tenha adotado as leis raciais nazistas, lutou do mesmo lado que o Terceiro Reich. O governo protegeu a maioria dos seus poucos cidadãos judeus, mas entregou à Gestapo um punhado de refugiados judeus e prisioneiros de guerra soviéticos, fato que a Finlândia reconheceu oficialmente décadas depois. Quando a guerra virou, a Finlândia assinou o armistício de Moscou em setembro de 1944 e teve de expulsar à força as tropas alemãs do norte: foi a Guerra da Lapônia, em que os alemães em retirada arrasaram com terra arrasada boa parte da Lapônia, incluindo Rovaniemi. A Finlândia perdeu cerca de 90.000 soldados nessas guerras e ficou com reparações duríssimas, mas — caso único entre os vizinhos da URSS — nunca foi ocupada nem se tornou comunista.
Terminada a guerra, a Finlândia ficou numa posição geopolítica delicadíssima: fronteiriça com a União Soviética, obrigada a pagar reparações pesadas e a ceder definitivamente a Carélia, mas decidida a preservar sua democracia e sua economia de mercado. A estratégia que definiu esses anos se resume no Tratado de Amizade, Cooperação e Assistência Mútua assinado com a URSS em 1948 e na política do presidente Juho Kusti Paasikivi e de seu sucessor, Urho Kekkonen: uma neutralidade cuidadosa, que evitava provocar Moscou em troca de manter a independência interna.
No Ocidente isso foi batizado, em tom crítico, de "finlandização" (Finnlandisierung): um país formalmente livre que ajustava sua política externa — e às vezes a interna, com autocensura na imprensa e nos livros — para não irritar o vizinho soviético. O termo virou pejorativo, e muitos finlandeses o rejeitam porque simplifica uma realidade mais matizada: graças a esse equilíbrio, a Finlândia manteve eleições livres, imprensa privada, propriedade e liberdades que nenhum país do bloco soviético tinha. Kekkonen governou como presidente durante um quarto de século (1956-1982), uma hegemonia pessoal que hoje também é vista com olhar crítico.
A Finlândia soube aproveitar sua posição intermediária: comerciou tanto com a URSS quanto com o Ocidente, e em 1975 Helsinque sediou a conferência que produziu a Ata Final de Helsinque, pedra angular da distensão da Guerra Fria em matéria de segurança e direitos humanos. Esse número de equilibrista — nem satélite soviético nem membro da OTAN — definiu a Finlândia durante toda a Guerra Fria.
Em poucas décadas, a Finlândia passou de uma sociedade rural e pobre a uma das mais prósperas do mundo. A industrialização do pós-guerra, apoiada na madeira e no papel de suas florestas e depois na metalurgia e na eletrônica, financiou a construção de um estado de bem-estar de estilo nórdico: saúde e educação públicas e universais, aposentadorias, licenças parentais generosas e uma forte redução da desigualdade.
A educação virou marca registrada. A reforma da escola abrangente nos anos 1970 — uma escola pública, gratuita, sem provas de seleção precoces e com professores muito bem formados e respeitados — deu frutos espetaculares: no começo do século XXI, a Finlândia liderou os rankings internacionais do PISA e virou modelo estudado no mundo inteiro.
Nos anos 1990 o país sofreu uma depressão brutal, agravada pelo colapso do comércio com a URSS, com o desemprego passando de 15%. A recuperação veio pelas mãos da tecnologia. A Nokia, uma velha empresa que tinha começado com papel e botas de borracha, se reinventou como gigante mundial da telefonia móvel, chegou a ser por anos a maior fabricante de celulares do planeta e o coração de um boom tecnológico que tirou a Finlândia da crise. A queda posterior da Nokia diante dos smartphones, já na década de 2010, obrigou a reinventar a economia mais uma vez, agora rumo aos videogames (Rovio, Supercell), ao software e às tecnologias limpas. A Finlândia entrou na União Europeia em 1995 e adotou o euro desde o seu nascimento, em 1999-2002, o único país nórdico a fazer isso.
Durante toda a Guerra Fria e as três décadas seguintes, o não alinhamento militar foi quase um dogma da identidade finlandesa. Mesmo depois de entrar na UE em 1995, a Finlândia ficou fora da OTAN, apostando numa defesa nacional forte — mantém o serviço militar obrigatório e uma das maiores artilharias da Europa — e em boas relações com a Rússia, com quem divide uma fronteira de mais de 1.300 quilômetros.
Tudo mudou em 24 de fevereiro de 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia em grande escala. A opinião pública finlandesa, que por anos tinha rejeitado majoritariamente a adesão à OTAN, virou de forma abrupta: em poucas semanas, o apoio à entrada na aliança passou a ser uma maioria contundente. Finlândia e Suécia apresentaram o pedido em conjunto. Depois de superar as objeções da Turquia e da Hungria, a Finlândia se tornou membro pleno da OTAN em 4 de abril de 2023, dobrando de uma tacada só a fronteira terrestre da aliança com a Rússia.
Foi uma virada histórica: o país que tinha feito da neutralidade e do equilíbrio com Moscou o eixo da sua política por oitenta anos abandonou essa doutrina em questão de meses. Em reação, a Rússia anunciou que reforçaria sua presença militar na fronteira, e a relação bilateral — incluindo a fronteira, que a Finlândia fechou em grande parte no fim de 2023 por causa de uma crise migratória que atribuiu a uma manobra russa — chegou ao ponto mais tenso desde a Guerra Fria.
A Finlândia de hoje combina, de um jeito que costuma impressionar os visitantes, prosperidade, igualdade e uma relação quase sagrada com a natureza. Lidera há anos o Relatório Mundial da Felicidade da ONU, tem níveis altíssimos de confiança social e institucional, pouca corrupção e uma desigualdade de gênero que está entre as menores do mundo. Em 2019, Sanna Marin se tornou primeira-ministra aos 34 anos, uma das chefes de governo mais jovens do planeta, à frente de uma coalizão liderada por mulheres.
O país continua sendo profundamente bilíngue na legislação: o finlandês e o sueco são ambos línguas oficiais, embora o sueco seja falado hoje por cerca de 5% da população, concentrada no litoral e em Åland. Os sámi do norte contam desde 1996 com um Parlamento próprio e com direitos culturais e linguísticos reconhecidos, embora persistam reivindicações em aberto sobre terras, pastoreio e o reconhecimento pleno dos abusos históricos da política de assimilação.
O dia a dia gira em torno de coisas que viraram símbolos: a sauna (há mais saunas do que carros), o "direito de todos" (jokamiehenoikeus), que permite caminhar, acampar e colher frutas silvestres em praticamente qualquer floresta, as centenas de milhares de lagos e as casas de veraneio. É um país que saiu da pobreza e da sombra de dois impérios para inventar um modelo próprio, e que hoje olha para sua longa fronteira com a Rússia com a mistura de calma e vigilância que toda a sua história lhe ensinou.
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As ilhas Åland são um arquipélago de milhares de ilhas e ilhotas situado bem na entrada do golfo de Bótnia, a meio caminho entre a Finlândia e a Suécia. Essa posição estratégica, na entrada das rotas marítimas para Estocolmo e para o interior do golfo, marcou toda a sua história. Como o resto da Finlândia, Åland fez parte do reino da Suécia durante séculos e passou para a Rússia em 1809. No século XIX, os russos fortificaram as ilhas com a fortaleza de Bomarsund, que foi destruída pelas frotas britânica e francesa durante a Guerra da Crimeia, em 1854. Por causa desse episódio, as potências impuseram em 1856 a desmilitarização das ilhas, um status que — com nuances — se mantém até hoje.
Quando a Finlândia se tornou independente, em 1917, surgiu um problema: a população de Åland era, e continua sendo, de língua sueca e esmagadoramente favorável a se unir à Suécia, e não à Finlândia. Uma petição assinada pela enorme maioria dos ilhéus pedia a anexação à Suécia, e os dois países entraram em choque pelas ilhas. O conflito foi levado à recém-criada Liga das Nações, que em 1921 emitiu uma decisão célebre: as ilhas continuariam finlandesas, mas a Finlândia deveria garantir a elas ampla autonomia, a proteção de sua língua e cultura suecas e a desmilitarização e neutralidade. É um dos primeiros grandes casos de resolução pacífica de um conflito territorial por um organismo internacional, e costuma ser citado como um raro sucesso da Liga das Nações.
Fruto daquela decisão, Åland tem hoje um grau notável de autogoverno dentro da Finlândia. Tem seu próprio parlamento (o Lagting) e governo, legisla sobre muitas matérias, e o sueco é seu único idioma oficial: a administração, a escola e a vida cotidiana funcionam em sueco, e o finlandês não é obrigatório como no resto do país. As ilhas têm bandeira própria, selos próprios e até seu próprio domínio regional de internet. Existe ainda um "direito de domicílio" (hembygdsrätt) que regula quem pode comprar terras e votar nas ilhas, pensado para proteger o caráter local. Quando a Finlândia entrou na União Europeia, em 1995, Åland entrou com um status especial, negociado à parte, que permite, por exemplo, manter as vendas livres de impostos nas balsas, um pilar da sua economia.
A identidade de Åland é inseparável do mar. Durante séculos, seus habitantes viveram da pesca, da caça de focas, do comércio marítimo e da construção de barcos. No começo do século XX, a companhia de navegação do capitão Gustaf Erikson, com sede na capital, Mariehamn, reuniu uma das últimas grandes frotas de veleiros mercantes do mundo — os grandes windjammers de casco de aço —, que disputavam o transporte de grãos desde a Austrália quando o resto do mundo já usava o vapor. Um daqueles navios, o Pommern, está preservado como museu flutuante em Mariehamn. Hoje a economia alandesa combina esse passado marinheiro com as balsas que cruzam o Báltico, o turismo náutico entre milhares de ilhas e uma forte tradição de navegação a vela.
Em pleno século XXI, Åland continua sendo um território desmilitarizado e neutralizado por tratado internacional: não pode haver fortificações nem tropas nas ilhas, e seus habitantes estão isentos do serviço militar obrigatório que vale no resto da Finlândia. Esse status, herdado de 1856 e confirmado em 1921 e 1940, ganhou nova atualidade após a invasão russa da Ucrânia e a entrada da Finlândia na Otan, em 2023: a desmilitarização de Åland agora convive, não sem debate, com o fato de o país pertencer a uma aliança militar. Com apenas algumas dezenas de milhares de habitantes, as ilhas preservam uma identidade própria, entre a Finlândia e a Suécia, que faz delas um dos cantos mais singulares do norte da Europa.
O norte da Finlândia faz parte de Sápmi, o território ancestral do povo sámi, os únicos indígenas reconhecidos como tais na União Europeia. Os sámis habitaram essas terras muito antes de existirem as fronteiras entre Finlândia, Suécia, Noruega e Rússia, que hoje dividem seu território. Viviam da caça da rena selvagem, da pesca e da coleta, e desenvolveram o pastoreio de renas, que continua sendo central na sua cultura. Falam línguas sámis, da família urálica mas diferentes do finlandês; na Finlândia são faladas três variantes, todas ameaçadas. Durante gerações sofreram políticas de assimilação — escolas onde eram proibidos de falar sua língua, pressão religiosa, marginalização — cujo pleno reconhecimento continua sendo uma reivindicação em aberto. Desde 1996 os sámis finlandeses têm um Parlamento próprio e direitos culturais reconhecidos, embora as disputas por terra e pastoreio continuem.
Às margens do grande lago Inari — sagrado para os sámis e salpicado de ilhas, uma delas antigo local de culto —, o vilarejo de Inari é o centro da vida cultural sámi na Finlândia. Ali fica a sede do Parlamento sámi e o museu Siida, que reúne a história, a natureza e a cultura do norte. Na região convivem três línguas sámis diferentes: o sámi setentrional, o sámi de Inari (falado só aqui e que esteve à beira da extinção antes de um notável esforço de revitalização com "ninhos de língua" para crianças) e o sámi skolt, trazido pela comunidade skolt reassentada depois de perder suas terras na fronteira com a URSS durante as guerras. Inari é hoje o melhor lugar para se aproximar, com respeito, de uma cultura viva e não de um cartão-postal turístico.
Quando, em setembro de 1944, a Finlândia assinou o armistício com a União Soviética, uma das condições era expulsar as tropas alemãs estacionadas no norte. Estourou assim a Guerra da Lapônia (1944-1945), em que o antigo aliado alemão virou inimigo. Na retirada rumo à Noruega, o exército alemão aplicou uma política de terra arrasada e destruiu sistematicamente vilarejos, pontes e estradas: Rovaniemi, a capital da Lapônia, ficou quase totalmente arrasada. Cerca de 100.000 pessoas do norte tiveram de ser evacuadas, muitas para a Suécia. Depois da guerra, Rovaniemi foi reconstruída segundo um plano do arquiteto Alvar Aalto, cujo traçado urbano lembra a silhueta de uma cabeça de rena. Essa destruição e esse renascimento são parte essencial da identidade da Lapônia finlandesa moderna.
Nas últimas décadas, a Lapônia se reinventou como destino turístico de inverno de fama mundial. Rovaniemi, sobre o Círculo Polar Ártico, se promove como a residência oficial do Papai Noel, com uma "vila" que recebe visitantes do mundo inteiro e responde cartas de crianças. Mais ao norte, centros como Levi e Saariselkä oferecem esqui, trenós puxados por huskies e renas, iglus de vidro para dormir sob o céu e, sobretudo, a chance de ver a aurora boreal, visível em muitas noites limpas de inverno. No verão, por outro lado, reina o sol da meia-noite, que não se põe durante semanas. Esse turismo transformou a economia do norte, embora também tenha gerado tensões com as comunidades sámis pelo uso da sua imagem e das suas terras de pastoreio.
Nem todo o norte é tundra: o litoral do golfo de Bótnia tem uma história própria ligada ao mar e ao comércio. Oulu, a maior cidade do norte da Finlândia, foi fundada pelos suecos em 1605 e prosperou durante séculos com a exportação de alcatrão de madeira, indispensável para calafetar os veleiros de meia Europa; os barris de alcatrão do interior desciam pelos rios até o seu porto. Com o declínio do alcatrão, Oulu se reinventou no século XX como polo universitário e tecnológico, um dos centros do auge da Nokia e da pesquisa em telecomunicações. Toda essa faixa litorânea do norte, a Ostrobótnia, tem ainda uma forte identidade camponesa e religiosa e foi berço de movimentos de renovação luterana.
O interior lacustre finlandês, e muito especialmente a Carélia, é a paisagem mítica do país. Foi nas aldeias da Carélia que Elias Lönnrot recolheu, em meados do século XIX, a antiga poesia oral cantada de geração em geração, e com ela compôs o Kalevala, a epopeia nacional publicada em 1835. Esse mundo de lagos, florestas e cantores deu à Finlândia seu imaginário fundador: pintores como Gallen-Kallela e músicos como Sibelius se inspiraram nessas paisagens. A Carélia é também uma região partida pela história: boa parte da Carélia oriental foi cedida à União Soviética depois das guerras de 1939-1944, e centenas de milhares de carelianos foram evacuados para o resto da Finlândia, levando consigo seu dialeto, sua cozinha e sua memória.
Entre dois lagos e sobre as corredeiras do Tammerkoski, Tampere se tornou no século XIX a grande cidade industrial da Finlândia. A energia das corredeiras movia enormes fábricas têxteis e de papel — a maior era a de algodão da Finlayson, fundada por um escocês —, que atraíram milhares de operários. Essa classe trabalhadora concentrada fez de Tampere um bastião do movimento operário e socialista. Na guerra civil de 1918, foi palco de uma das batalhas mais sangrentas: a cidade, nas mãos dos vermelhos, caiu diante dos brancos depois de duríssimos combates urbanos, com milhares de mortos e prisioneiros. Foi também em Tampere que Lenin e Stalin se conheceram, numa conferência bolchevique de 1905. Com o declínio da indústria têxtil, a cidade se reconverteu para a tecnologia, a universidade e a cultura, e hoje se promove como a capital mundial da sauna.
O lago Saimaa é o maior da Finlândia e o quarto da Europa, um imenso labirinto de ilhas, canais e florestas que foi durante séculos via de transporte e fronteira disputada entre a Suécia e a Rússia. Para vigiar essa fronteira oriental, os suecos ergueram em 1475 o castelo de Olavinlinna, em Savonlinna, a fortaleza medieval de pedra mais bem conservada do norte da Europa, sobre uma ilhota cercada de água. Trocou de mãos entre suecos e russos várias vezes. Desde 1912 seus pátios recebem o célebre Festival de Ópera de Savonlinna, um dos grandes eventos culturais do verão finlandês. O Saimaa abriga ainda uma raridade natural: a foca-anelada-do-saimaa, uma subespécie de água doce criticamente ameaçada, da qual restam apenas algumas centenas de exemplares.
A região histórica da Savônia, com Kuopio como centro, é o coração da paisagem de água e floresta que define a imagem da Finlândia. Kuopio, fundada oficialmente em 1775, cresceu como capital regional e sede episcopal da Igreja Ortodoxa finlandesa, tradição herdada do contato com o mundo russo e careliano. Do alto da torre de Puijo, a vista se perde num mosaico de lagos e ilhas. A cozinha de Savo deu pratos emblemáticos como o kalakukko, um pão recheado de peixe, e a cultura local cultiva com humor sua fama de gente maliciosa e que fala por enigmas. Kuopio também se orgulha da maior sauna de fumaça pública do mundo, fiel ao papel central da sauna na vida finlandesa.
Sobre o lago Pielinen, na Carélia do Norte, erguem-se as colinas de Koli, consideradas a paisagem nacional por excelência da Finlândia. No fim do século XIX e início do XX, quando o país buscava símbolos para sua identidade, artistas, escritores e músicos — Gallen-Kallela, Sibelius, Juhani Aho — subiram a esses cumes e os transformaram em emblema do romantismo nacional: a vista de florestas infinitas e água do alto de Ukko-Koli virou quase um ícone patriótico. Hoje a área é parque nacional e protege tanto a natureza quanto essa memória cultural. A região mantém ainda uma forte herança careliana e ortodoxa, com mosteiros como Valamo e Lintula reassentados na Finlândia depois da perda da Carélia oriental.
O sul litorâneo é, literalmente, onde começa a história da Finlândia. Turku (Åbo em sueco) foi, na época sueca, a cidade mais importante do território: sede do bispado desde o século XIII, do governo e da primeira universidade, a Academia Real de Åbo, fundada em 1640. Sua catedral e seu castelo medieval continuam sendo os monumentos mais antigos e venerados do país. Quando, em 1809, a Finlândia passou para a Rússia, Turku era a capital natural, mas o czar a deixou de lado em favor de Helsinque, mais perto de São Petersburgo. O golpe final veio com o grande incêndio de 1827, que arrasou boa parte da cidade de madeira e precipitou a transferência da universidade para a nova capital. Mesmo assim, Turku manteve seu orgulho de cidade-mãe, e seu rio, o Aura, continua sendo sua espinha dorsal.
Helsinque foi fundada pelos suecos em 1550 como rival comercial de Tallinn, mas durante séculos não passou de um povoado. Tudo mudou em 1812, quando o czar a escolheu como capital do Grão-Ducado. A Rússia queria uma capital à sua altura e encomendou a reconstrução ao arquiteto Carl Ludvig Engel, que ergueu o conjunto neoclássico da Praça do Senado — a catedral branca, o palácio do governo, a universidade —, que ainda hoje é o cartão-postal da cidade. Helsinque cresceu como centro administrativo e depois industrial, e de capital de província imperial passou a capital de um país independente em 1917. Em 1952 sediou os Jogos Olímpicos, um símbolo da reinserção do país no mundo depois das guerras, e em 1975 recebeu a conferência que produziu a Ata Final de Helsinque, da Guerra Fria. Sua arquitetura mistura o neoclássico russo, o romantismo nacional do início do século XX e o design funcionalista que deixou Alvar Aalto mundialmente famoso.
Diante de Helsinque, sobre um rosário de ilhas, ergue-se Suomenlinna (Sveaborg em sueco), uma das maiores fortalezas marítimas do mundo. Os suecos começaram a construí-la em 1748 para conter a expansão russa, numa obra colossal para a época. Apesar do tamanho, rendeu-se aos russos em 1808 sem grande resistência, um episódio até hoje discutido, e ficou em mãos russas durante todo o Grão-Ducado. Foi base militar, sofreu bombardeios durante a Guerra da Crimeia e, depois da independência, virou campo de prisioneiros da guerra civil de 1918. Hoje é Patrimônio da Humanidade da Unesco, um bairro habitado e um dos passeios preferidos dos moradores da capital.
O litoral sul é salpicado de pequenas cidades históricas de madeira. Porvoo, às margens do seu rio, é a segunda cidade mais antiga do país e conserva um centro medieval de casinhas vermelhas e armazéns à beira d'água que, segundo a tradição, foram pintados dessa cor para receber a realeza sueca. Foi em Porvoo que se reuniu em 1809 a Dieta em que o czar Alexandre I jurou respeitar as leis finlandesas, um momento fundador da autonomia. Naantali, perto de Turku, nasceu ao redor de um convento medieval e com os séculos virou cidade de veraneio: ali fica Kultaranta, a residência de verão do presidente da República, e o parque temático Moominworld, homenagem aos personagens criados pela escritora finlandesa de língua sueca Tove Jansson.
O litoral sul e sudoeste é o coração da Finlândia de língua sueca. Aqui vive boa parte da minoria finlandesa de língua sueca — cerca de 5% da população do país —, e muitas cidades do litoral mantêm o sueco como língua majoritária e do dia a dia, com placas, escolas e imprensa próprias. Essa dupla identidade vem dos seiscentos anos de domínio sueco e continua viva no mar: o arquipélago que se estende diante de Turku, um labirinto de milhares de ilhas e ilhotas, formou durante séculos uma cultura de pescadores, marinheiros e camponeses ilhéus. A navegação, as balsas e a rota do arquipélago continuam definindo a vida deste litoral, estendido como uma ponte natural entre a Finlândia e a Suécia.
Quase nada do que aconteceu com Finlândia aconteceu sozinho: estas são as histórias ao lado.