Savonlinna é um dos cenários mais românticos da Finlândia: uma pequena cidade espalhada por ilhas no meio do grande lago Saimaa, com um castelo medieval de conto de fadas surgindo direto da água. Esse castelo, Olavinlinna, do século XV, é o mais bem conservado do norte da Europa e o coração da cidade, tanto pela história quanto por ser o palco, todo verão, de um dos festivais de ópera mais prestigiados do mundo.
Localizada bem no coração da região dos lagos, Savonlinna é a porta de entrada para o labirinto de água, ilhas e florestas do Saimaa, o maior lago da Finlândia e um dos mais bonitos da Europa. É um lugar para navegar, se perder entre ilhas, respirar um ar puríssimo e, com sorte, avistar a raríssima foca-anelada-de-saimaa, uma espécie única que só vive nestas águas. A natureza está por toda parte.
Fora da temporada de ópera, Savonlinna é uma cidadezinha tranquila e sossegada; em julho, por outro lado, ela se transforma e fica cheia de amantes da ópera do mundo todo. Este guia percorre o essencial da cidade e do lago: o que ver, como chegar ao leste do país, quanto custam o castelo e o festival, como navegar pelo Saimaa e como aproveitar a visita, pensado principalmente para o luminoso verão finlandês.
Savonlinna nasceu em volta do seu castelo. Em 1475, o regente sueco Erik Axelsson Tott mandou construir a fortaleza de Olavinlinna (Santo Olavo) sobre uma pequena ilha no lago Saimaa, para defender a fronteira oriental do reino da Suécia contra a Rússia de Moscou, em uma área muito disputada. O castelo, um dos mais setentrionais da Europa, resistiu a vários cercos ao longo dos séculos e trocou de mãos entre suecos e russos. A cidade de Savonlinna, fundada oficialmente em 1639, cresceu à sua sombra. Depois de passar para a Rússia e, em seguida, para a Finlândia independente, o castelo perdeu sua função militar e, no século XX, virou o palco do Festival de Ópera de Savonlinna, que deu fama internacional à cidade. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Savonlinna começa com um castelo erguido no fim do mundo conhecido. No final do século XV, a região de Savônia, no leste da atual Finlândia, era uma terra de fronteira disputada entre duas potências: o reino da Suécia, ao qual a Finlândia pertencia, e o Grão-Principado de Moscou, a Rússia em expansão. A fronteira entre os dois, fixada em tratados medievais, atravessava essas florestas e lagos, e era uma zona de insegurança constante, incursões e saques.
Para garantir o domínio sueco sobre a Savônia e defendê-la dos russos, o regente do reino da Suécia, Erik Axelsson Tott, mandou construir em 1475 uma fortaleza sobre uma pequena ilha rochosa no meio do lago Saimaa, num estreito estratégico. Batizou-a de Olofsborg (Olavinlinna em finlandês), em homenagem a Santo Olavo, o rei santo da Noruega, padroeiro dos guerreiros do norte. Sua localização sobre a água a tornava quase inexpugnável e permitia controlar as rotas lacustres.
Olavinlinna foi um dos castelos de pedra mais setentrionais da Europa e uma obra notável para sua época e lugar, construída por mestres vindos de regiões mais ao sul. Com suas muralhas grossas e suas torres circulares, tornou-se o bastião sueco do leste e um símbolo de poder numa terra remota. Ao redor da fortaleza, com o tempo, nasceria a cidade de Savonlinna, cujo nome significa literalmente 'o castelo da Savônia'.
Durante mais de três séculos, Olavinlinna viveu na linha de frente do conflito permanente entre Suécia e Rússia pelo controle do leste da Finlândia. A fortaleza foi sitiada, atacada e disputada inúmeras vezes, e sua história é a dessa fronteira quente. Resistiu a vários cercos russos no século XVI, durante as guerras entre as duas potências, e foi reforçada e modernizada para se adaptar à artilharia de pólvora, com novos bastiões.
O destino da fortaleza mudou com as grandes guerras do século XVIII. Na Grande Guerra do Norte e nos conflitos seguintes, a Rússia foi ganhando terreno às custas da Suécia. Em 1714 os russos ocuparam o castelo, que foi devolvido à Suécia pelo tratado de paz. Mas em 1743, depois de uma nova guerra, a paz de Åbo deslocou a fronteira para o oeste e Olavinlinna, com toda a sua região, passou para as mãos da Rússia. Os russos mantiveram o castelo como praça-forte de fronteira e acrescentaram novas fortificações.
Durante esse período de domínio russo, a fortaleza foi perdendo pouco a pouco sua importância militar, sobretudo quando, após a guerra de 1808-1809, toda a Finlândia passou para a Rússia e se tornou o Grão-Ducado da Finlândia: a fronteira se afastou e Olavinlinna ficou no interior do território russo, sem inimigos à vista. O velho castelo do fim do mundo começava a ficar obsoleto como fortaleza, justamente quando a cidade ao seu redor ia ganhando forma.
Embora a fortaleza seja de 1475, a cidade de Savonlinna propriamente dita foi fundada bem depois. À sombra do castelo havia crescido um povoado de comerciantes, artesãos e pescadores que abasteciam a guarnição e aproveitavam a posição nas rotas lacustres. Em 1639, sob o domínio sueco e por iniciativa do influente governador Per Brahe — uma figura-chave no desenvolvimento da Finlândia —, esse povoado recebeu oficialmente direitos de cidade, e nasceu Savonlinna (Nyslott em sueco, 'castelo novo').
Por muito tempo, Savonlinna foi uma cidade pequena e remota, no coração da região dos lagos, longe dos grandes centros do país. Sua vida girava em torno do lago Saimaa, que era ao mesmo tempo seu meio de comunicação, sua fonte de alimento e sua marca de identidade, e em torno do castelo, que dominava a paisagem. A cidade, espalhada por ilhas ligadas por pontes, tinha um jeito tranquilo e provinciano.
O século XIX trouxe melhorias que a conectaram ao resto do país: o sistema de canais do Saimaa (com o grande canal de Saimaa, inaugurado em 1856, que ligava o lago ao golfo da Finlândia) transformou o lago numa importante via comercial, e mais tarde chegou a ferrovia. Savonlinna começou a atrair também os primeiros turistas e veranistas, seduzidos pela beleza do lago e pelo pitoresco castelo, numa época em que a paisagem do norte entrava na moda. Essa descoberta turística prepararia o caminho para a grande transformação cultural do século XX.
A grande reinvenção de Savonlinna e de seu castelo veio pelas mãos da música. No início do século XX, a célebre soprano finlandesa Aino Ackté, uma das grandes cantoras de ópera de sua época, ficou fascinada pelo pátio do castelo de Olavinlinna e por sua acústica e atmosfera extraordinárias. Convencida de que aquele cenário medieval sobre a água era único para a ópera, organizou em 1912 o primeiro Festival de Ópera de Savonlinna, no pátio da fortaleza.
Esses primeiros festivais, nos anos anteriores e posteriores à Primeira Guerra Mundial, fizeram bastante sucesso, mas foram interrompidos por décadas por causa das convulsões do século: a independência da Finlândia (1917), a guerra civil (1918) e depois as guerras contra a União Soviética. O castelo, enquanto isso, deixou de vez de ter função militar e passou a ser um monumento histórico, restaurado ao longo do século XX para recuperar seu aspecto medieval.
O festival renasceu com força em 1967 e, desde então, acontece todo verão sem interrupção, tendo se tornado um dos festivais de ópera mais prestigiados e importantes do mundo. O pátio do castelo, coberto por uma grande tenda, recebe mais de 2.000 espectadores por apresentação e atrai cantores, orquestras e público do mundo inteiro. A visão de Aino Ackté transformou a remota Savonlinna numa capital internacional da ópera durante o mês de julho.
A Savonlinna contemporânea vive, em boa parte, de seu patrimônio e de sua natureza. O Festival de Ópera é seu grande motor de fama e de economia: todo mês de julho, a cidade se transforma e se enche de amantes da música do mundo inteiro, enquanto no resto do ano mantém seu jeito tranquilo de pequena cidade lacustre do leste da Finlândia. O castelo de Olavinlinna, restaurado e aberto à visitação, é o monumento mais visitado e querido, símbolo da cidade e de séculos de história de fronteira.
Mas Savonlinna também é, cada vez mais, a porta de entrada para o lago Saimaa e sua natureza excepcional. O Saimaa, o maior lago da Finlândia e um dos mais bonitos da Europa, é um imenso labirinto de ilhas e florestas que atrai amantes da natureza, navegadores e viajantes em busca da essência do verão finlandês. A região se tornou um destino de turismo de natureza e bem-estar, com cruzeiros, cabanas à beira d'água (os mökki) e atividades ao ar livre.
Um símbolo une hoje Savonlinna à conservação da natureza: a foca-anelada-de-saimaa, uma espécie única no mundo que só vive neste lago e que ficou isolada depois da última glaciação. Criticamente ameaçada de extinção, com apenas algumas centenas de exemplares, tornou-se emblema do compromisso ambiental da Finlândia e uma atração para os visitantes que sonham em avistá-la. Assim, a cidade que nasceu como fortaleza no fim do mundo é hoje um lugar de cultura, música e natureza pura, um dos cantos mais especiais do leste da Finlândia.