O lago Saimaa não é só um lago: é um mundo de água. Maior lago da Finlândia e quarto maior de água doce da Europa, ele é na verdade um labirinto sem fim de bacias, baías, estreitos e ilhas — cerca de 14.000 — cobertas de floresta, que se estende por todo o sudeste do país. Aqui, a linha entre terra e água se dissolve num quebra-cabeça interminável de penínsulas, canais e espelhos de água puríssima, uma das paisagens mais características e queridas da Finlândia.
O Saimaa é o coração da 'Lakeland' finlandesa, a região dos lagos, e a essência do verão nórdico: chalés de madeira (os lendários mökki) escondidos entre pinheiros à beira d'água, saunas fumegantes junto ao lago, barcos, caiaques, píeres para pular na água fresca e noites em que o sol mal se põe. É um destino para desacelerar, respirar, navegar e se perder entre ilhas, longe da pressa.
O lago guarda ainda um tesouro único: a foca-anelada-de-saimaa, uma espécie que só existe aqui, isolada do mar desde a última glaciação e hoje ameaçada de extinção. Ao redor do Saimaa ficam cidades charmosas — Savonlinna e seu castelo, Lappeenranta, Imatra — e parques nacionais de natureza intocada. Este guia conta o que ver e fazer no grande lago, como chegar e se locomover, quanto custa e como viver a experiência do Saimaa, pensado sobretudo para o luminoso verão.
O lago Saimaa se formou no fim da última glaciação, há cerca de 10.000 anos, quando o recuo do gelo e os movimentos da crosta terrestre deixaram essa enorme rede de bacias de água doce. Nesse isolamento ficou presa a foca-anelada-de-saimaa, que evoluiu como uma espécie única de água doce. Durante séculos, o Saimaa foi a grande via de comunicação do leste da Finlândia: suas águas ligavam povoados, transportavam madeira e mercadorias, e em 1856 foi inaugurado o grande canal de Saimaa, que uniu o lago ao golfo da Finlândia e ao mar Báltico, impulsionando o comércio. A região, na fronteira com a Rússia e ligada à Carélia, viveu de perto as guerras do século XX. Hoje o Saimaa é um destino de natureza e um símbolo da Finlândia dos lagos. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The inland world of forest and water where the Finnish soul was forged: the Karelia of the Kalevala, the industry of Tampere and the thousands of islands of Lake Saimaa.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história do Saimaa começa com o gelo. Há cerca de 10.000 anos, no fim da última glaciação, uma gigantesca calota de gelo cobria toda a Finlândia. Ao recuarem, as geleiras deixaram para trás uma paisagem moldada pelo gelo: bacias escavadas, morenas, cristas de cascalho (os eskers, como o famoso Punkaharju) e uma enorme quantidade de água presa nas depressões do terreno. Assim nasceu a rede de lagos do sudeste finlandês que hoje conhecemos como Saimaa, um labirinto de bacias interligadas.
O processo não foi estático: o terreno, livre do peso do gelo, continuou se elevando (um fenômeno chamado soerguimento isostático, que continua até hoje), e isso modificou a drenagem das águas ao longo de milênios. Em algum momento, o Saimaa ficou separado do mar Báltico e se tornou um sistema fechado de água doce.
Esse isolamento teve uma consequência extraordinária: uma população de focas-aneladas, que vivia no mar, ficou presa no lago quando ele se separou do Báltico. Isoladas durante milhares de anos, essas focas evoluíram até se tornarem uma subespécie própria, a foca-anelada-do-saimaa (Saimaannorppa), que não existe em nenhum outro lugar do mundo. É um dos poucos mamíferos de água doce do seu tipo e, hoje, um símbolo do lago e da conservação da natureza na Finlândia. O Saimaa, portanto, não é só um produto da era glacial: é o lar de um ser vivo que a própria glaciação deixou como legado.
Os seres humanos chegaram às margens do Saimaa muito cedo, acompanhando o recuo do gelo. Em suas margens e penhascos ainda há pinturas rupestres pré-históricas com milhares de anos, como as de Astuvansalmi, que mostram figuras humanas, animais e barcos: testemunho das comunidades de caçadores, pescadores e coletores que viviam do lago e da floresta. Rico em peixes e cercado de florestas generosas, o Saimaa sempre foi um lugar favorável à vida humana.
Com o passar dos séculos, a região ficou ligada à Carélia, a terra que se estende dos dois lados da atual fronteira entre a Finlândia e a Rússia, com cultura, língua e tradições próprias. Foi também uma zona de fronteira disputada entre o mundo sueco-ocidental e o mundo russo-ortodoxo, uma tensão que marcaria sua história durante séculos (e que levou, por exemplo, à construção do castelo de Olavinlinna, em Savonlinna, em 1475).
Para os povos do leste da Finlândia, o Saimaa foi durante séculos a grande via de comunicação. Numa terra de florestas densas e quase sem estradas, a água era a rodovia: pelo lago circulavam pessoas, gado, peles, alcatrão, manteiga e, sobretudo, madeira. Os troncos eram transportados boiando pelas águas até as serrarias e os portos. A vida dos povoados ribeirinhos girava em torno do lago, que era ao mesmo tempo despensa, caminho e fronteira.
O grande salto na história econômica do Saimaa veio no século XIX, quando a Finlândia era um Grão-Ducado autônomo dentro do Império Russo. O lago, apesar do tamanho, tinha um problema: era fechado, sem saída direta para o mar, o que limitava enormemente o comércio de uma região rica em madeira, mas isolada. A solução foi uma grande obra de engenharia: o canal de Saimaa (Saimaan kanava), inaugurado em 1856 após anos de construção.
O canal, com cerca de 43 quilômetros e várias eclusas, ligou o extremo sul do lago Saimaa ao golfo da Finlândia, no Báltico, perto da cidade de Vyborg (na época finlandesa, hoje na Rússia). De repente, a imensa rede de lagos do leste da Finlândia ficou conectada ao mar e às rotas comerciais internacionais. Foi uma revolução para a economia da região: a madeira e outros produtos do interior podiam ser exportados por navio, e floresceram serrarias, indústrias e cidades às margens do lago.
O canal impulsionou o desenvolvimento de cidades como Lappeenranta e Imatra e transformou o Saimaa numa artéria comercial de primeira linha. Também abriu o lago para um turismo pioneiro: já no século XIX, viajantes e aristocratas vinham admirar as corredeiras de Imatra ou a beleza de Punkaharju, atraídos pela paisagem do norte. O Saimaa deixava de ser apenas um lago remoto para se tornar um motor econômico e um destino admirado.
O século XX trouxe à região do Saimaa as convulsões das guerras e da fronteira com a União Soviética. Depois da independência da Finlândia (1917), a parte sul do lago ficou muito perto do grande vizinho do leste. Tudo mudou com a Segunda Guerra Mundial. Na Guerra de Inverno (1939-1940) e na Guerra da Continuação (1941-1944), a Finlândia lutou contra a URSS, e uma das consequências do conflito foi a perda de amplos territórios da Carélia, incluindo a cidade de Vyborg (Viipuri), que tinha sido a segunda cidade da Finlândia e passou para o lado soviético.
Essa nova fronteira cortou o canal de Saimaa: seu trecho final, rumo ao mar, ficou em território soviético. Além disso, mais de 400.000 carelianos finlandeses tiveram que abandonar suas casas nos territórios cedidos e se refugiar no restante da Finlândia, um êxodo enorme que marcou toda uma geração e fortaleceu a cultura careliana na parte da região do Saimaa que continuou finlandesa. A marca da Carélia — sua gastronomia, com os pastéis carelianos; sua música; suas tradições — continua muito viva nas margens finlandesas do lago.
Durante a Guerra Fria, a Finlândia manteve sua independência e sua democracia com uma política de prudência em relação a Moscou. Em 1963, em plena distensão, a URSS concordou em arrendar à Finlândia o trecho soviético do canal de Saimaa, o que permitiu reabri-lo ao tráfego. Assim, durante décadas, a região viveu a curiosa situação de um lago finlandês cuja saída para o mar passava por território da superpotência vizinha, um reflexo da delicada posição geopolítica do país.
Nas últimas décadas, o papel do Saimaa mudou de novo. A indústria madeireira continua presente, mas o lago se tornou, acima de tudo, um grande destino de turismo de natureza e bem-estar, um dos símbolos da 'Lakeland' finlandesa. A combinação de água puríssima, milhares de ilhas cobertas de floresta, chalés de veraneio, saunas e silêncio atrai finlandeses e um número crescente de visitantes internacionais em busca da essência tranquila e natural da Finlândia, longe das grandes cidades.
A conservação da natureza passou a ser central. A foca-anelada-do-saimaa, que chegou a estar à beira da extinção, hoje é o símbolo de um intenso esforço de proteção: foram criados parques nacionais (como Linnansaari e Kolovesi), os apetrechos de pesca que a ameaçam são regulamentados e suas áreas de reprodução são protegidas, inclusive com voluntários que constroem abrigos de neve para os filhotes nos invernos mais amenos. Graças a isso, a população de focas, embora continue muito pequena e frágil, começou a se recuperar lentamente. A foca virou um ícone nacional e uma atração turística responsável.
O Saimaa também olha para o futuro com projetos de sustentabilidade, e sua candidatura e os reconhecimentos como destino de geoturismo (foi nomeado região gastronômica europeia e aspira a maiores reconhecimentos da Unesco por sua geologia e natureza) reforçam seu prestígio. Hoje, o grande lago nascido do gelo, que foi fronteira disputada, via comercial e cenário de guerras, é antes de tudo um santuário de água e floresta: o lugar onde a Finlândia guarda sua relação mais íntima com a natureza e onde uma foca única no mundo continua nadando entre as ilhas.