O Castelo de Bran é, provavelmente, o castelo mais famoso do Leste Europeu e, sem dúvida, o mais visitado da Romênia. Empoleirado sobre uma rocha num desfiladeiro dos Cárpatos, com suas torres, seus telhados pontudos e sua silhueta recortada contra a floresta, parece saído de um romance gótico. E, de certa forma, saiu mesmo: o mundo o conhece como o 'castelo do Drácula', o cenário que a imaginação popular associou ao vampiro criado por Bram Stoker, embora a relação real entre este castelo, o escritor e o príncipe Vlad, o Empalador, seja, como veremos, muito mais tênue do que a lenda espalha.
Além do mito, Bran é um castelo com séculos de história autêntica. Nasceu no século XIV como fortaleza alfandegária e militar na fronteira entre a Transilvânia e a Valáquia, guardando uma passagem estratégica de montanha. Séculos depois, virou a residência favorita da rainha Maria da Romênia, a carismática neta da rainha Vitória, que o restaurou com bom gosto e o encheu de charme. Hoje, suas salas, suas escadas secretas, seu pátio e seu acervo contam tanto a história real do lugar quanto o fenômeno cultural do Drácula.
Este guia percorre o essencial do Castelo de Bran com um olhar prático e honesto: o que você vai ver lá dentro, como separar a história do mito (com o rigor que a figura real de Vlad Tepeș merece), como chegar a partir de Brașov e combinar com Râșnov, quando ir para fugir das multidões e o que mais a região oferece. Bran é uma visita imperdível na Transilvânia, desde que você vá sabendo o que é lenda e o que é história.
O Castelo de Bran foi construído em sua forma atual a partir de 1377, quando o rei Luís I da Hungria autorizou os saxões de Brașov a erguer uma fortaleza de pedra sobre uma rocha que guardava a passagem de Bran, um desfiladeiro estratégico entre a Transilvânia e a Valáquia. Sua função era militar e, principalmente, alfandegária: controlar e cobrar impostos do comércio que atravessava a montanha. Durante séculos foi ponto de defesa contra os otomanos e sede da alfândega. A ligação com Vlad Tepeș ('o Empalador'), o príncipe valáquio do século XV que inspirou o nome do Drácula de Bram Stoker, é fraca e sobretudo comercial: não há provas de que Vlad tenha morado em Bran, embora possa ter passado pela região ou ficado preso brevemente por perto; e Bram Stoker, que nunca visitou a Romênia, descreveu em seu romance (1897) um castelo imaginário que só vagamente lembra Bran. A verdadeira 'era de ouro' do castelo veio no século XX: em 1920, a cidade de Brașov deu o castelo de presente à rainha Maria da Romênia, que o transformou em sua residência favorita e o restaurou com gosto refinado. Depois da abolição da monarquia pelo comunismo (1948), ele foi nacionalizado; em 2006 foi devolvido aos herdeiros da família real (os Habsburgo), que o abriram como museu privado. Hoje é um dos monumentos mais visitados do país, combinando a história real do castelo e da rainha Maria com o apelo turístico do mito do Drácula. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The mountainous heart of Romania, a land of Saxon citadels, castles and minorities: a thousand years inside Hungary and the Habsburg empire before joining Romania in 1918, and the homeland of the Dracula myth.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A origem do Castelo de Bran não tem nada de sobrenatural: é a de uma fortaleza de fronteira. O passo de Bran, um desfiladeiro que atravessa os Cárpatos entre a Transilvânia e a Valáquia, foi durante séculos uma das principais vias de comunicação e comércio entre as duas regiões e, por isso, um ponto que precisava ser controlado. Já em 1211, os Cavaleiros Teutônicos tinham erguido na região uma fortificação de madeira, depois destruída.
O castelo de pedra que conhecemos hoje começou a ser construído em 1377, quando o rei Luís I da Hungria concedeu aos saxões de Brașov o privilégio de erguer uma fortaleza sobre a rocha que domina o passo. Os saxões a financiaram e construíram em troca de certos privilégios comerciais. Sua função era dupla. Era militar, como bastião defensivo contra as incursões, primeiro dos tártaros e depois cada vez mais dos otomanos que pressionavam a partir do sul. E era, sobretudo, alfandegária. Em Bran se controlava o tráfego de mercadorias que cruzava a montanha e se cobravam os impostos e as tarifas, uma fonte de receita bem gorda.
Durante os séculos XV e XVI, o castelo trocou de mãos entre a coroa húngara, os príncipes da Transilvânia e a cidade de Brașov, que o administrou por muito tempo. Foi um posto estratégico nas guerras e tensões da fronteira, guarnecido por soldados e funcionários da alfândega, muito longe da imagem de residência senhorial que às vezes lhe atribuem.
Para entender Bran é preciso falar de Vlad Tepeș, mas com honestidade histórica. Vlad III, príncipe da Valáquia, nasceu por volta de 1431 (provavelmente em Sighișoara) e governou a Valáquia em vários períodos entre 1448 e 1476. Seu apelido, 'Tepeș' ('o Empalador'), e o nome 'Drăculea' ('filho do Dragão') se referem a um personagem muito real e muito bem documentado. O nome vem da Ordem do Dragão, à qual pertencia seu pai, Vlad Dracul.
Vlad foi um governante de uma dureza extrema, mesmo para os padrões brutais de sua época. Usou o empalamento, uma forma de execução especialmente atroz, de maneira sistemática e em massa contra inimigos, criminosos, boiardos rebeldes e prisioneiros otomanos, e as crônicas falam em milhares de vítimas. Essa crueldade é histórica e não deve ser minimizada. Mas sua figura tem outro lado. Para muitos romenos, Vlad é um herói nacional por sua feroz resistência contra a expansão do Império Otomano, ao qual se recusou a pagar tributo. Também é lembrado por impor uma ordem implacável que, segundo a lenda, fez o crime desaparecer de seu principado. Além disso, sua imagem de monstro sanguinário foi ampliada pelos panfletos impressos alemães da época, hostis a ele por motivos políticos e comerciais.
Agora, a relação de Vlad Tepeș com o Castelo de Bran é, sejamos claros, muito fraca. Não há nenhuma prova de que ele tenha morado em Bran nem de que o castelo tenha sido dele. No máximo, pode ter passado pela região em suas campanhas. Segundo uma versão contestada, também pode ter ficado preso por pouco tempo no castelo ou nos arredores depois de ser capturado. Suas residências e fortalezas reais ficavam na Valáquia (como Târgoviște ou a fortaleza de Poenari). A associação de Vlad com Bran veio sobretudo depois, e por causa do turismo.
O outro pilar da lenda é literário, e também vale a pena olhar para ele com lupa. Em 1897, o escritor irlandês Bram Stoker publicou 'Drácula', o romance que fixaria para sempre o arquétipo do vampiro moderno. Para o seu vilão, o conde Drácula, Stoker pegou emprestados o nome e alguns traços do príncipe histórico Vlad Drăculea, sobre quem tinha lido. E ambientou a história na distante e, na época, exótica Transilvânia.
Mas é preciso destacar duas coisas. Primeiro, o conde Drácula do romance é um personagem de pura ficção: um vampiro aristocrata imortal que, tirando o nome, não tem nada a ver com a biografia real de Vlad Tepeș. Segundo, Bram Stoker nunca esteve na Romênia nem na Transilvânia: pesquisou à distância, com livros, mapas e relatos de viajantes. O castelo que ele descreve no romance é um lugar imaginário, no passo de Borgo, no norte da Transilvânia, e a descrição não corresponde a Bran nem a nenhum outro castelo real.
Então, por que Bran virou 'o castelo do Drácula'? Por uma feliz coincidência comercial. De todos os castelos da Transilvânia, Bran é o que mais se parece com a imagem que os leitores, e depois o cinema de Hollywood, criaram do castelo do vampiro: solitário, empoleirado numa rocha, com torres, telhados pontiagudos e um ar gótico e inquietante. O turismo do século XX fez o resto, e Bran adotou (e explorou) um papel para o qual, historicamente, não tinha sido escrito.
A verdadeira era de ouro do Castelo de Bran, a que lhe deu a aparência atual, não tem a ver com vampiros, e sim com uma rainha. Em 1920, depois da união da Transilvânia com a Romênia, a cidade de Brașov deu o castelo de presente à rainha Maria da Romênia em agradecimento por seu papel na construção da 'Grande Romênia'. Maria era neta da rainha Vitória da Inglaterra e do czar Alexandre II da Rússia, uma figura culta, moderna e muito querida. Ela se apaixonou pelo lugar e o transformou em uma de suas residências favoritas.
Entre as décadas de 1920 e 1930, a rainha restaurou o velho castelo alfandegário e o transformou numa aconchegante residência real de montanha, com móveis, tapetes, jardins e um gosto refinado. Bran deixou de ser uma fortaleza militar para se tornar um lar aristocrático cheio de charme. Quando Maria morreu, em 1938, o castelo passou para sua filha, a princesa Ileana, que cuidou dele e chegou a usá-lo como hospital durante a Segunda Guerra Mundial.
Com a chegada do comunismo e a abolição da monarquia, a família real foi obrigada a se exilar e o Estado confiscou o castelo em 1948. Durante décadas ele funcionou como museu estatal, quase sem nenhuma menção à sua verdadeira história real. Depois da queda do regime, num longo processo de restituição de bens, o castelo foi devolvido em 2006 aos herdeiros da família real, os descendentes da princesa Ileana, da casa de Habsburgo. Eles o reabriram como museu privado.
Hoje, o Castelo de Bran é um dos monumentos mais visitados da Romênia. Sua administração sabe combinar com inteligência as duas histórias que o habitam. Uma é a real: a fortaleza medieval de fronteira e, sobretudo, o castelo da rainha Maria. A outra é a lendária, a do mito de Drácula que o deixou famoso no mundo inteiro. Quem visita pode aproveitar as duas sem confundi-las. Dá para ficar com a beleza do lugar e sua história verdadeira, e também com a brincadeira em torno de uma lenda que, mesmo tendo pouco de verdade, já faz parte da cultura popular do planeta.