Existe uma região no extremo norte da Romênia onde o tempo parece ter parado há um século: Maramureș, um vale cercado de montanhas onde ainda se ara a terra com cavalos, os montes de feno são feitos à mão, as mulheres tecem e bordam como antigamente e cada casa se abre por um enorme portão de madeira entalhado com sóis, cordas trançadas e símbolos ancestrais. É uma das últimas regiões verdadeiramente camponesas da Europa, um lugar onde a vida rural tradicional não é um espetáculo para turistas, mas a forma como as pessoas continuam vivendo.
O símbolo de Maramureș são suas igrejas de madeira: templos altíssimos, construídos inteiramente em madeira sem um único prego, com campanários pontiagudos que se erguem acima dos telhados dos vilarejos e afrescos ingênuos no interior. Oito delas são Patrimônio Mundial da Unesco. Mas a região guarda outras duas joias insólitas: o Cemitério Alegre de Săpânța, onde os túmulos coloridos contam com humor e versos a vida dos falecidos, e o trem a vapor Mocănița, que bufa pelo desfiladeiro do Vaser na última ferrovia florestal de bitola estreita ainda em funcionamento na Europa.
Este guia leva você pelo melhor de Maramureș: as igrejas de madeira do vale do Iza, o Cemitério Alegre, o passeio na Mocănița, os vilarejos tradicionais, as oficinas de artesãos e a gastronomia de montanha. Uma viagem à Romênia mais profunda e autêntica, entre portões entalhados, campanários de madeira e um modo de vida que resiste, com dignidade, a desaparecer.
Maramureș é uma das regiões históricas mais antigas e isoladas da Romênia, encaixada entre montanhas que durante séculos a mantiveram à margem das grandes potências. Foi terra de comunidades livres de camponeses, com seus próprios voivodas locais na Idade Média, e foi dali, segundo a tradição, que partiu no século XIV Dragoș para fundar o principado da Moldávia. Seu isolamento explica por que conservou até hoje uma cultura camponesa única na Europa: a arquitetura de madeira, com suas igrejas de campanários altíssimos erguidas entre os séculos XVII e XIX — muitas como resposta à proibição de construir igrejas de pedra sob domínio húngaro —, os portões entalhados, os trajes e os costumes. Oito das igrejas de madeira foram declaradas Patrimônio Mundial da Unesco em 1999. O século XX trouxe a exploração florestal (que deu origem à ferrovia do Vaser) e, no norte, um capítulo trágico: a deportação e o extermínio da numerosa comunidade judaica da região durante o Holocausto. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Romanian north, a refuge of tradition: the painted monasteries of Bucovina, with their sixteenth-century exterior frescoes, and the villages of Maramureș, with their wooden churches and the Merry Cemetery of Săpânța.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Há lugares na Europa que parecem ter ficado deliberadamente para trás no tempo, e Maramureș talvez seja o mais extremo de todos. Neste vale do extremo norte da Romênia, encaixado entre as montanhas dos Cárpatos e colado à fronteira com a Ucrânia, ainda se ara a terra com cavalos, se corta o feno com foice, se levantam as medas de feno à mão e as mulheres tecem e bordam como faziam suas avós. Não é um cenário para turistas nem um museu vivo organizado: é, simplesmente, o jeito como muita gente continua vivendo. Maramureș é uma das últimas regiões autenticamente camponesas do continente.
Se existe um material que define esta terra, é a madeira. De madeira são as casas, os celeiros, os poços, as pontes e, sobretudo, duas coisas que fascinam o viajante: os enormes portões entalhados que marcam a entrada de cada casa — decorados com sóis, cordas trançadas, a árvore da vida e outros símbolos ancestrais — e as igrejas de campanários altíssimos, verdadeiras catedrais de carvalho erguidas sem um único prego. Essa maestria no trabalho com a madeira é fruto de séculos de isolamento e de uma identidade camponesa fortíssima. Para entender por que Maramureș é como é, é preciso voltar muito no tempo, à época em que era uma terra de homens livres.
Cercada de montanhas por quase todos os lados, Maramureș foi durante grande parte da Idade Média um território difícil de dominar, habitado por comunidades de camponeses livres organizados em torno de seus próprios nobres locais, os cnezi e voivodas. Diferentemente de outras regiões, onde a servidão feudal esmagou o campesinato, aqui sobreviveu durante séculos uma notável independência local, com famílias que possuíam e trabalhavam a própria terra. Essa condição de terra de homens livres deixou uma marca profunda no caráter e na cultura da região.
De Maramureș saiu, além disso, um episódio fundador da história romena. Segundo a tradição, no século XIV o voivoda Dragoș partiu destas montanhas para fundar o principado da Moldávia do outro lado dos Cárpatos, e pouco depois Bogdan I, outro nobre de Maramureș, consolidou a independência daquele novo Estado frente ao reino da Hungria. Ou seja, um dos grandes principados históricos romenos nasceu neste vale. Mas, enquanto a Moldávia crescia como Estado, a própria Maramureș foi ficando sob a órbita do Reino da Hungria e, mais tarde, do Império dos Habsburgo, com uma população romena ortodoxa governada por elites húngaras e católicas. Essa tensão religiosa teria uma consequência inesperada e magnífica: as igrejas de madeira.
As igrejas de madeira de Maramureș, com seus campanários altíssimos e pontiagudos que se erguem como agulhas sobre os telhados dos vilarejos, são o símbolo da região e uma das expressões mais originais da arquitetura popular europeia. Foram construídas sobretudo entre os séculos XVII e XIX, em um contexto bem específico: sob o domínio húngaro e dos Habsburgo, os camponeses romenos de rito ortodoxo (e depois greco-católico) eram proibidos ou impedidos de erguer igrejas de pedra, reservadas às confissões dominantes. A resposta das comunidades foi construir seus templos com o material que dominavam à perfeição e que sobrava em suas florestas: a madeira de carvalho.
O resultado foram autênticas catedrais de madeira, montadas por mestres carpinteiros quase sem pregos, com altos telhados de duas águas cobertos de tabuinhas e torres-campanário esbeltíssimas — a da igreja de Șurdești chega a cerca de 54 metros e foi durante muito tempo uma das estruturas de madeira mais altas da Europa. No interior, pintores populares cobriram as paredes com afrescos ingênuos e expressivos: cenas do Gênesis, a vida de Cristo e, sobretudo, impressionantes representações do Juízo Final e do inferno, como as de Poienile Izei, pensadas para infundir temor a Deus nos fiéis. Cada igreja era o coração de sua aldeia. Em 1999, a Unesco reconheceu o valor excepcional de oito dessas igrejas — entre elas Ieud Deal, Poienile Izei, Bârsana, Budești Josani e Șurdești —, inscrevendo-as na lista do Patrimônio Mundial como testemunho único da arquitetura religiosa em madeira de uma comunidade camponesa.
O século XX transformou Maramureș de várias maneiras. Uma delas foi econômica: a exploração das grandes florestas dos Cárpatos. Para tirar a madeira do profundo e selvagem vale do Vaser, aonde as estradas não chegavam, construiu-se nos anos 1930 uma ferrovia florestal de bitola estreita com locomotivas a vapor, a Mocănița. Durante décadas ela foi uma ferramenta de trabalho essencial e, quando a exploração florestal entrou em declínio, em vez de desaparecer, virou atração turística; hoje é a última ferrovia florestal a vapor de bitola estreita que continua funcionando de forma regular na Europa, um pequeno milagre industrial que vai bufando pelo desfiladeiro.
Mas o século XX também deixou em Maramureș uma página trágica que não dá para omitir. A região, e em especial a cidade de Sighetu Marmației, tinha havia séculos uma comunidade judaica numerosa e vibrante, parte essencial da vida econômica e cultural do norte. Em 1940, esta parte da Romênia passou para as mãos da Hungria, aliada da Alemanha nazista. Na primavera de 1944, após a ocupação alemã da Hungria, os judeus de Maramureș foram confinados em guetos e depois deportados de trem para Auschwitz-Birkenau, onde a imensa maioria foi assassinada. Entre os deportados de Sighet estava um adolescente chamado Elie Wiesel, que sobreviveu ao Holocausto, tornou-se um escritor mundialmente conhecido — autor de 'A Noite' — e recebeu o Prêmio Nobel da Paz; sua casa natal hoje é um museu. A comunidade judaica da região, quase completamente exterminada, nunca se recuperou. É uma memória que Maramureș preserva com sobriedade, para que não seja esquecida.
Terminada a Segunda Guerra Mundial, Maramureș voltou para a Romênia, que caiu sob um regime comunista de linha dura. A antiga prisão de Sighetu Marmației se tornou um dos lugares mais sinistros dessa época: entre o fim dos anos 1940 e meados dos anos 50, o regime prendeu ali boa parte da elite política, intelectual e religiosa da Romênia anterior — ex-ministros, acadêmicos, bispos, jornalistas, opositores — em condições atrozes, e muitos morreram entre seus muros. Após a queda do comunismo, aquela cadeia foi transformada no Memorial das Vítimas do Comunismo e da Resistência, um dos grandes museus de memória do Leste Europeu, um percurso sóbrio e arrepiante pelas celas onde uma geração se apagou.
Durante o comunismo, a vida rural tradicional de Maramureș resistiu, em parte graças ao próprio isolamento da região e ao fato de a coletivização agrária ter sido menos completa do que nas planícies. Por isso, quando a Romênia se abriu para o mundo depois de 1989, Maramureș surgiu diante dos viajantes como uma cápsula do tempo: portões entalhados, igrejas de madeira, trajes, música, artesanato e um modo de vida camponês intacto. Hoje a região vive uma tensão conhecida: o turismo traz renda e valoriza o tradicional, mas a modernização, a emigração dos jovens e as casas novas também ameaçam, pouco a pouco, esse patrimônio vivo. Percorrer Maramureș com respeito — lendo os epitáfios coloridos do Cemitério Alegre de Săpânța, entrando em uma igreja de madeira depois de pedir a chave na casa do zelador, dividindo a mesa e a horincă com uma família do vilarejo — é espiar uma forma de vida que no resto da Europa desapareceu há gerações e que aqui, com dignidade e contra o relógio, ainda respira.