De frente para o Mar Negro, no extremo leste da Romênia, ergue-se a cidade mais antiga do país: Constanța, com mais de 2.500 anos de história nas costas. Foi fundada por colonos gregos com o nome de Tomis, foi porto greco-romano, lugar onde o poeta Ovídio passou seu melancólico exílio, e ao longo dos séculos passou por mãos bizantinas, genovesas, otomanas e romenas. Todo esse passado se sente hoje no seu centro histórico debruçado sobre o mar, um cantinho com um charme meio decadente onde convivem ruínas antigas, igrejas, uma mesquita e prédios da Belle Époque.
Seu símbolo é o Cassino, uma joia do art nouveau que se ergue sobre o calçadão como um navio encalhado diante das ondas: durante anos esteve em ruínas, envolto num ar romântico e fantasmagórico, e depois de uma grande restauração voltou a brilhar como o prédio mais fotografado da cidade. Mas Constanța guarda muito mais: um dos maiores mosaicos romanos preservados do mundo, um museu de arqueologia repleto de tesouros greco-romanos, a maior mesquita da Romênia e, logo ali, a grande praia de Mamaia, a principal estância balneária do país no Mar Negro.
Este guia mostra o que ver e fazer em Constanța: o Cassino e o calçadão, o edifício romano com seu mosaico gigante, a mesquita de Carol I, o Museu de História Nacional e Arqueologia com suas estátuas antigas, a cidade velha junto ao porto e as praias de Mamaia. E também como se locomover, onde se hospedar e o que comer nesta cidade portuária onde a Romênia se abre para o mar e a história antiga convive com o agito do litoral.
Constanța é a cidade mais antiga da Romênia. Foi fundada por volta do século VI a.C. por colonos gregos de Mileto com o nome de Tomis, como colônia comercial no litoral do Mar Negro. No ano 8 d.C., o imperador Augusto exilou aqui o poeta romano Ovídio, que morreu em Tomis com saudade de Roma e deixou escritos sobre a dureza e o frio daquele confim do império. Sob Roma, a cidade prosperou como porto: dessa época é o grande edifício com mosaico que ainda se conserva. Mais tarde recebeu o nome de Constantiana em homenagem a uma irmã do imperador Constantino, de onde vem seu nome atual. Passou por mãos bizantinas, foi frequentada pelos genoveses na Idade Média e ficou séculos sob domínio otomano, que deixou sua marca nas mesquitas. Em 1878, após a independência da Romênia, a Dobrogea e Constanța foram integradas ao país, e a cidade se modernizou como grande porto e estância balneária, com o Cassino como emblema daquela Belle Époque. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Romanian east, where the great river meets the sea: the Danube Delta, a wetland protected by Unesco, and Constanța, the old Greek colony of Tomis where the poet Ovid was exiled.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Quando você olha o Mar Negro do calçadão de Constanța, com o Cassino de um lado e o porto do outro, está pisando no solo da cidade mais antiga da Romênia: um lugar habitado sem interrupção há mais de dois mil e quinhentos anos. Sua história começa por volta do século VI a.C., quando navegadores e colonos gregos vindos de Mileto, na Ásia Menor, fundaram nesta costa uma colônia comercial que chamaram de Tomis. Ela fazia parte da grande expansão grega pelas margens do Mar Negro (o Ponto Euxino), um mar que os helenos encheram de cidades-colônia dedicadas ao comércio de trigo, peixe, sal e escravos com os povos do interior.
Tomis prosperou como porto e ponto de troca entre o mundo grego e os getas e outros povos trácios e citas que habitavam a região. A lenda chegou até a ligar estas costas ao mito de Jasão e os argonautas e a Medeia. Durante séculos, a cidade viveu do mar e do comércio, numa terra de fronteira entre a civilização mediterrânea e as estepes do norte. Essa condição de confim, de último posto do mundo conhecido antes das terras 'bárbaras', marcaria sua história e sua fama, e ficaria imortalizada pelo mais ilustre de seus moradores forçados: um poeta romano exilado.
No ano 8 d.C., o imperador Augusto tomou uma decisão que ligaria para sempre o nome de Tomis à literatura universal: exilou na cidade o poeta Públio Ovídio Nasão, um dos maiores escritores de Roma, autor das 'Metamorfoses' e da 'Arte de amar'. Nunca se soube com certeza o motivo exato do exílio — Ovídio falou de 'um poema e um erro' —, mas o resultado foi que o poeta mais refinado da capital do império terminou seus dias naquele confim frio e remoto do Ponto, longe da Roma que amava. De Tomis ele escreveu as 'Tristes' e as 'Pônticas', versos cheios de melancolia em que reclamava do frio, da neve, da língua estranha dos moradores e da distância. Morreu ali por volta do ano 17 ou 18 d.C. Hoje, uma estátua de Ovídio preside a praça principal do centro histórico, que leva seu nome.
Sob o domínio de Roma, Tomis viveu sua época de maior esplendor. Integrada à província da Mésia e depois à Cítia Menor, tornou-se um porto próspero e uma das principais cidades da costa oeste do Mar Negro. Daquela Constanța romana vem um de seus grandes tesouros: o enorme edifício comercial com seu piso de mosaico de quase 2.000 metros quadrados, do século IV d.C., que ligava a cidade alta ao porto e de onde os comerciantes controlavam o tráfego marítimo. Mais tarde a cidade recebeu o nome de Constantiana, em homenagem — segundo a tradição — a uma irmã do imperador Constantino, o Grande, e daí vem seu nome atual, Constanța. Também foi um dos primeiros focos do cristianismo na região.
Com a queda do Império Romano do Ocidente, Tomis-Constantiana passou a fazer parte do Império Bizantino, que controlou essa faixa litorânea durante séculos, embora exposta às ondas de povos que cruzavam o baixo Danúbio: godos, ávaros, eslavos, búlgaros. A cidade conheceu épocas de decadência e de recuperação, sempre marcada por sua condição de fronteira. Na Baixa Idade Média, os mercadores da República de Gênova, que dominavam o comércio do Mar Negro, frequentaram este porto e deixaram sua marca; até hoje um pequeno farol do centro histórico é conhecido como o 'farol genovês', lembrança daquela presença italiana na costa.
A partir do século XV, o avanço do Império Otomano mudou o destino da região. A Dobrogea — a região entre o Danúbio e o Mar Negro onde fica Constanța — ficou sob domínio turco por mais de quatro séculos. Sob os otomanos, a cidade, então conhecida como Köstence, foi um porto modesto, mas a região se povoou de comunidades diversas: turcos, tártaros (que ainda hoje têm presença na área), além de romenos, gregos, armênios e outros. Dessa herança otomana e muçulmana ficaram as mesquitas e uma marca multicultural que faz da Dobrogea uma das regiões mais miscigenadas da Romênia. A Constanța de hoje conserva esse caráter de encruzilhada de culturas e religiões, visível em suas igrejas ortodoxas e armênias, sua sinagoga e sua grande mesquita.
O grande renascimento de Constanța chegou na segunda metade do século XIX e no começo do XX. Em 1878, depois da guerra russo-turca e do Congresso de Berlim, a Dobrogea e sua capital litorânea foram incorporadas ao jovem reino da Romênia, que acabava de conquistar sua independência. Para o novo Estado, Constanța era uma joia estratégica: sua única grande saída para o mar. O governo romeno investiu em modernizar e ampliar o porto, que se tornou o principal do país, e em ligar a cidade ao resto da Romênia por meio da ferrovia e de uma imponente ponte sobre o Danúbio em Cernavodă, obra do engenheiro Anghel Saligny.
Além de porto, Constanța se transformou num elegante balneário da moda, para onde a alta sociedade romena e europeia ia tomar banhos de mar. O símbolo daquela Belle Époque foi o Cassino, inaugurado em 1910 segundo o projeto do arquiteto Daniel Renard: uma construção art nouveau espetacular de frente para o mar, com janelões em forma de concha, que virou o centro da vida social de luxo da cidade e seu emblema. A vizinha Mamaia também começou nessa época sua trajetória como estância balneária. Constanța vivia assim uma segunda era de ouro, desta vez como porta marítima da Romênia moderna e como destino de veraneio aristocrático.
O século XX trouxe luzes e sombras para Constanța. As duas guerras mundiais afetaram a cidade por seu valor estratégico como porto; durante a Segunda Guerra Mundial, a cidade e suas instalações petrolíferas e portuárias foram bombardeadas. Depois veio o longo período comunista, durante o qual o regime desenvolveu enormemente o porto — a ponto de torná-lo um dos maiores do Mar Negro e do sudeste da Europa — e transformou o litoral num grande destino de férias para os trabalhadores do bloco do Leste, com a construção em massa de hotéis e complexos em Mamaia e nos balneários do sul (Eforie, Neptun, Mangalia). Já o Cassino foi perdendo sua função e entrou num longo declínio.
Depois da queda do comunismo em 1989, Constanța continuou sendo o grande porto da Romênia e a capital de seu litoral, ainda que com altos e baixos. Muitos edifícios do centro histórico, incluindo o emblemático Cassino, ficaram abandonados, dando à Península aquele ar romântico e decadente que fascina os visitantes. Nos últimos anos, porém, a cidade começou a recuperar seu patrimônio: o Cassino foi restaurado e voltou a brilhar, e outros edifícios históricos estão sendo reabilitados aos poucos. Hoje Constanța combina seu papel de grande porto industrial e logístico com o de destino turístico que oferece mais de dois mil e quinhentos anos de história — da Tomis grega e romana à cidade moderna —, museus com tesouros antigos, um centro histórico charmoso à beira-mar e, a um passo, as praias de Mamaia. Um lugar onde a Romênia se debruça sobre o Mar Negro e onde o eco do exílio de Ovídio ainda ressoa entre as ondas.