Bucareste é uma capital que desconcerta e conquista. Apelidada um dia de 'pequena Paris' por seus bulevares imponentes, seus prédios Belle Époque e seu próprio Arco do Triunfo, é na verdade uma cidade de contrastes brutais: palácios art nouveau ao lado de blocos comunistas, igrejas ortodoxas escondidas entre torres de vidro e o segundo maior edifício administrativo do mundo — o descomunal Palácio do Parlamento de Ceaușescu — dominando o horizonte. Não é uma cidade de cartão-postal perfeita, e é aí que está o seu charme: é autêntica, viva, contraditória e surpreendentemente divertida.
Capital da Valáquia e depois de toda a Romênia, Bucareste enfrentou incêndios, terremotos, guerras e uma das ditaduras comunistas mais duras da Europa, que arrasou bairros inteiros para erguer seu faraônico Centro Cívico. Dessa ferida ficaram cicatrizes, mas também uma energia especial: um centro histórico (Lipscani) transformado em zona de bares e terraços com uma das melhores vidas noturnas do continente, uma cena gastronômica em alta, cafés lindos como o Cărturești Carusel e uma hospitalidade genuína. Tudo por uma fração do que custa o resto da Europa.
Este guia percorre o essencial de Bucareste com um olhar prático e acolhedor: o que ver sem se perder no tamanho da cidade, como se locomover no seu metrô barato e eficiente, como entender sua história turbulenta, onde dormir e comer muito bem gastando pouco, e como usá-la de base para descobrir a Romênia. Bucareste é o melhor ponto de partida para se apaixonar por um país que ainda passa despercebido no radar turístico: caótica, culta, verde e cheia de vida.
Bucareste nasceu como fortaleza às margens do Dâmbovița e aparece documentada pela primeira vez em 1459, em um documento assinado pelo príncipe Vlad Tepeș (Vlad, o Empalador), o mesmo que inspirou a lenda do Drácula, que a usou como uma de suas residências. Cresceu como corte dos príncipes da Valáquia e em 1659 se tornou sua capital, no lugar de Târgoviște. Durante séculos foi uma encruzilhada entre o Império Otomano, ao qual a Valáquia pagava tributo, os Habsburgo e a Rússia. Em 1862, após a união da Valáquia e da Moldávia, tornou-se capital do novo Estado romeno, e sob os reis Carlos I e Fernando viveu uma época de ouro, afrancesada e elegante (fim do século XIX e início do XX), que lhe rendeu o apelido de 'pequena Paris'. O século XX foi duríssimo: as duas guerras mundiais, um terremoto devastador em 1977 e, sobretudo, a ditadura comunista de Nicolae Ceaușescu, que nos anos 80 demoliu um quinto do centro histórico para construir seu gigantesco Palácio do Parlamento e o Centro Cívico. Em dezembro de 1989, Bucareste foi o epicentro da revolução que derrubou e executou Ceaușescu, pondo fim a mais de quatro décadas de comunismo. Desde então é a capital de uma Romênia democrática, membro da União Europeia desde 2007. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of the Romanian south: Bucharest, the capital born on Wallachian land and marked by the kingdom and by communism, and the Southern Carpathians with the royal castle of Peleș at Sinaia and the Prahova valley.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Diz a lenda que Bucareste deve seu nome a um pastor chamado Bucur, que teria fundado um povoado às margens do rio Dâmbovița e batizado o lugar com seu nome. Daí viria București, 'a cidade de Bucur'. É uma história bonita, mas improvável. Os historiadores acreditam que o nome vem da palavra 'bucurie' (alegria) ou de um antigo dono de terras. O certo é que nesta planície fértil ao sul dos Cárpatos, cortada por rios e florestas, houve povoamentos humanos desde tempos muito antigos, na histórica região da Valáquia.
A primeira menção escrita de Bucareste tem data exata e um protagonista lendário: 20 de setembro de 1459, num documento assinado por Vlad al III-lea, príncipe da Valáquia, mais conhecido como Vlad Țepeș ('o Empalador') ou Vlad Drácula, o mesmo personagem histórico que séculos depois inspiraria o romance de Bram Stoker. Vlad transformou a cidadela de Bucareste em uma de suas residências e fortalezas. Ali foi erguida a Curtea Veche (Corte Velha), o palácio principesco cujas ruínas ainda podem ser visitadas em pleno centro histórico, ao lado da igreja mais antiga da cidade.
Nos séculos XV e XVI, Bucareste foi crescendo como praça comercial e militar estratégica. Sua posição era disputada por ficar entre a corte de Târgoviște, então capital da Valáquia, e as rotas rumo ao Danúbio e ao Império Otomano, ao qual o principado pagava tributo para manter sua autonomia.
Em 1659, Bucareste se tornou oficialmente a capital do principado da Valáquia, no lugar da antiga sede de Târgoviște. A cidade cresceu em torno da corte, dos mosteiros e dos mercados. Seu bairro comercial, Lipscani, ganhou o nome de Leipzig, a cidade alemã de onde chegavam muitas mercadorias, e se encheu de guildas de artesãos e mercadores vindos de toda a Europa e do Oriente.
Foi uma época turbulenta. A Valáquia era um principado autônomo, mas vassalo do Império Otomano, e Bucareste ficou presa por gerações no tabuleiro das três grandes potências que disputavam a região: o Império Otomano, a monarquia dos Habsburgo e a Rússia czarista. A cidade foi ocupada e saqueada várias vezes, e sofreu pestes, incêndios e terremotos. No século XVIII governaram os chamados príncipes fanariotas, nomeados pelo sultão entre as famílias gregas de Constantinopla, um período lembrado pelos impostos sufocantes.
Mesmo assim, Bucareste se consolidou como o maior centro urbano da Romênia histórica. Tinha igrejas ortodoxas em estilo brâncovenesc, como o requintado mosteiro de Stavropoleos (1724), estalagens de comerciantes (hanuri) como o Hanul lui Manuc e uma vida social intensa que misturava o balcânico, o otomano e o europeu. Os viajantes da época a descreviam como uma cidade oriental, de ruas poeirentas e jardins, muito diferente da que viria depois.
O século XIX transformou Bucareste por completo. Em 1859, os principados da Valáquia e da Moldávia se uniram sob um mesmo príncipe, Alexandru Ioan Cuza, e em 1862 Bucareste foi proclamada capital dos Principados Unidos, o embrião da Romênia moderna. Em 1866 subiu ao trono um príncipe alemão, Carol I, da casa de Hohenzollern. Em 1881 ele se proclamou rei do recém-independente Reino da Romênia, depois da guerra que livrou a Valáquia da vassalagem otomana.
Sob Carol I e seu sucessor Fernando, Bucareste viveu sua era de ouro. A elite romena, educada na França, quis transformar sua capital numa 'pequena Paris'. Foram abertos amplos bulevares, erguidos palácios e prédios Belle Époque, e floresceram instituições como o Ateneu Romeno (1888), a deslumbrante sala de concertos financiada em parte por uma vaquinha popular, e o Palácio CEC. Construíram até um Arco do Triunfo inspirado no de Paris. A cidade se encheu de cafés, teatros, chapelarias e automóveis. Era elegante, cosmopolita e afrancesada, e o apelido correu o mundo.
Essa belle époque foi interrompida pela Primeira Guerra Mundial. Entre 1916 e 1918, Bucareste foi ocupada pelas tropas alemãs e austro-húngaras, e a corte se refugiou em Iași. Mas a Romênia saiu da guerra maior do que entrou: em 1918 se formou a Romênia unificada ('România Mare', a Grande Romênia), que incorporou a Transilvânia, a Bessarábia e a Bucovina, e Bucareste virou a capital de um país muito maior.
O século XX foi duríssimo com Bucareste. Na Segunda Guerra Mundial, a Romênia lutou primeiro ao lado do Eixo, sob o regime do marechal Antonescu, e a cidade foi bombardeada pela aviação aliada em 1944 por ser um centro de abastecimento de petróleo para a Alemanha. No mesmo ano, o rei Miguel I deu um golpe que tirou o país da aliança com Hitler e o passou para o lado aliado. O Holocausto também deixou sua marca: em janeiro de 1941, um violento pogrom da Guarda de Ferro contra a comunidade judaica de Bucareste deixou mais de uma centena de mortos, um episódio que a cidade lembra com sobriedade.
Depois da guerra, a ocupação soviética impôs um regime comunista. Em 1947 a monarquia foi abolida e o rei Miguel foi obrigado a abdicar e partir para o exílio. Bucareste virou a capital da República Popular da Romênia, mais tarde República Socialista. Em março de 1977, um terremoto de magnitude 7,2 sacudiu a cidade e matou mais de 1.500 pessoas no país todo, a maioria na capital, derrubando prédios inteiros.
O golpe mais profundo, porém, foi político. O ditador Nicolae Ceaușescu, no poder desde 1965, lançou nos anos 80 um delirante projeto de 'sistematização'. Mandou demolir cerca de um quinto do centro histórico de Bucareste, incluindo bairros inteiros, igrejas, mosteiros e as casas de dezenas de milhares de famílias, para construir um novo Centro Cívico e sua faraônica Casa do Povo (hoje Palácio do Parlamento), o prédio administrativo mais pesado do mundo. Enquanto a população passava frio e fome por causa das exportações destinadas a pagar a dívida externa, Ceaușescu erguia seu monumento à megalomania.
Em dezembro de 1989, Bucareste foi o palco do fim do comunismo romeno. No dia 21 de dezembro, Ceaușescu convocou um comício gigante na sacada do Comitê Central, no centro da cidade, para condenar os protestos que tinham explodido em Timișoara. Mas a multidão, ao vivo na televisão, começou a vaiá-lo. O ditador ficou paralisado e a concentração virou revolta. No dia seguinte, depois de dias de tiroteios na praça da Universidade e em outros pontos da cidade, Ceaușescu e sua esposa Elena fugiram de helicóptero do terraço do prédio. Foram capturados, julgados sumariamente e fuzilados no dia de Natal. A Revolução Romena, a mais sangrenta das que derrubaram o bloco do Leste, deixou mais de mil mortos no país todo, muitos deles em Bucareste, e uma praça da Revolução que hoje guarda seu memorial.
A transição dos anos 90 foi difícil e turbulenta, marcada pela crise econômica e por episódios como as 'mineriadas', em que mineiros levados à capital reprimiram os manifestantes. Mas Bucareste foi se reconstruindo. Em 2004 a Romênia entrou na OTAN e em 2007 na União Europeia, um divisor de águas para a cidade.
Hoje Bucareste é uma capital europeia vibrante e contraditória. Ali convivem os palácios Belle Époque restaurados, os blocos cinzentos da era comunista, as torres de vidro dos escritórios e um centro histórico transformado numa das regiões de bares e terraços mais animadas da Europa. A cena cultural e gastronômica está em plena expansão, a vida noturna é lendária e os preços atraem cada vez mais turistas. A cicatriz do Palácio do Parlamento continua dominando o horizonte, lembrando um passado que a cidade não esconde, enquanto Bucareste se reinventa como uma das grandes capitais do leste do continente.