Se fosse preciso escolher uma única cidade para entender dois mil anos de história inglesa, York seria a candidata perfeita. Neste cantinho do norte da Inglaterra, às margens do rio Ouse, se sobrepõem como camadas de um bolo a fortaleza romana onde um imperador foi proclamado, a capital de um reino viking, a cidade medieval murada, a sede eclesiástica mais importante do norte e a próspera cidade vitoriana da ferrovia e do chocolate. Tudo isso num centro antigo compacto, de pedestres e extraordinariamente bem conservado.
York é a sua catedral gótica — a York Minster, uma das maiores do norte da Europa —, suas muralhas medievais que dá para percorrer a pé, suas vielas tortas como The Shambles, com casas de madeira que quase se tocam por cima da rua, e seus fantasmas: dizem que é uma das cidades mais 'assombradas' da Inglaterra, e os ghost tours fazem parte do folclore local. Mas também é o mundo viking do Jorvik Viking Centre, as locomotivas do National Railway Museum (de graça) e o cheirinho de chocolate deixado pela sua indústria (a Rowntree e a Terry's nasceram aqui).
Este guia percorre York com um olhar prático e acolhedor: o que ver sem pressa, como subir na torre da catedral, como caminhar pelas muralhas, quanto custam as grandes atrações e quais são gratuitas, como chegar de trem a partir de Londres aproveitando as passagens baratas e como curtir o mercado de Natal e os tours de fantasmas. Compacta, histórica e cheia de personalidade, York é uma das escapadas mais redondinhas do Reino Unido.
York nasceu como Eboracum, uma fortaleza e cidade fundada pelos romanos por volta do ano 71 d.C., que chegou a ser a capital da Britânia romana do norte; aqui morreu o imperador Constâncio Cloro, e suas tropas proclamaram imperador o seu filho, Constantino, o Grande, no ano 306. Após a retirada romana, foi um centro anglo-saxão do reino da Nortúmbria, até que, em 866, o 'Grande Exército Pagão' dos vikings dinamarqueses a conquistou e a transformou em Jórvík, capital de um próspero reino viking. A conquista normanda de 1066 trouxe destruição com o brutal 'Harrying of the North' de Guilherme, o Conquistador, e a construção de castelos. Na Idade Média, York floresceu como a segunda cidade do reino e sede do arcebispado; dessa época são suas muralhas, suas igrejas e o início da grande catedral. Um episódio trágico marcou sua história medieval: o massacre da comunidade judaica de York em 1190, na torre do castelo (onde hoje está a Clifford's Tower). Durante a Guerra Civil Inglesa, a cidade sofreu o cerco de 1644, ligado à batalha de Marston Moor. E, no século XIX, a ferrovia e as fábricas de chocolate da Rowntree e da Terry's a transformaram numa cidade industrial. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The land of Viking York and the Industrial Revolution: Manchester and its cotton mills, Liverpool and its links with the slave trade and with the Beatles, the Peterloo massacre and the wild lakes of the Lake District.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de York começa com as legiões romanas. Por volta do ano 71 d.C., o exército romano que avançava rumo ao norte da Britânia ergueu uma fortaleza militar na confluência dos rios Ouse e Foss, um ponto estratégico para controlar o território dos brigantes, o povo celta da região. Deram a ela o nome de Eboracum, de raiz celta, que provavelmente fazia referência a um lugar de teixos. Ao redor do acampamento fortificado cresceu uma cidade civil e, com o tempo, Eboracum se tornou a capital da província da Britânia Inferior e o grande centro do poder romano no norte da ilha.
Sua importância foi tanta que recebeu a visita de imperadores. Septímio Severo comandou daqui suas campanhas contra os povos do norte e morreu na cidade no ano 211. Mas o episódio mais marcante aconteceu quase um século depois. No ano 306, o imperador Constâncio Cloro morreu em Eboracum durante uma campanha, e as tropas ali aquarteladas proclamaram imperador seu filho, Constantino, ali mesmo. Esse Constantino ficaria conhecido depois como Constantino, o Grande, o imperador que legalizou o cristianismo no Império Romano e fundou Constantinopla, mudando o rumo da história do Ocidente. O fato de essa ascensão ao poder ter acontecido em York dá à cidade um lugar único na história europeia, lembrado hoje por uma estátua de bronze do imperador sentado, inaugurada em 1998, em frente à catedral.
Sob a atual York Minster ainda se conservam restos da basílica e do quartel-general da fortaleza romana, que podem ser vistos no museu da Undercroft. Quando o poder romano se retirou da Britânia no início do século V, Eboracum entrou em um período de decadência, mas a cidade não desapareceria: estava destinada a renascer muitas e muitas vezes.
Depois da retirada romana, York ressurgiu como centro do reino anglo-saxão da Nortúmbria, um dos grandes reinos da Inglaterra primitiva. Foi aqui, no ano 627, que o rei Edwin da Nortúmbria se converteu ao cristianismo e foi batizado, e onde se ergueu a primeira igreja de madeira dedicada a São Pedro, embrião da futura catedral. York (então chamada Eoforwic) se transformou em um importante centro religioso e intelectual: no século VIII, sua escola e sua biblioteca eram famosas em toda a Europa, e dali saiu Alcuíno de York, o grande erudito que assessorou Carlos Magno e foi um dos motores do renascimento cultural carolíngio.
Tudo mudou em 1º de novembro de 866. Nesse dia, o 'Grande Exército Pagão' (Great Heathen Army) dos vikings dinamarqueses, aproveitando as disputas internas da Nortúmbria, tomou York quase sem resistência. Os vikings ficaram e adaptaram o nome à sua língua: Jórvík, que costuma ser interpretado como 'baía do javali'. Durante quase um século, York foi a capital de um próspero reino viking, o Reino de Jórvík, governado por reis escandinavos e povoado por colonos dinamarqueses que a transformaram em um grande centro comercial e artesanal, conectado às rotas mercantis do mundo viking, de Dublin até o Báltico.
Graças às condições excepcionais do solo, as escavações arqueológicas de Coppergate, no fim dos anos 70, trouxeram à tona casas, oficinas, ruas e milhares de objetos do dia a dia daquela Jórvík viking, extraordinariamente conservados. Essa descoberta, uma das mais importantes sobre o mundo viking, deu origem ao Jorvik Viking Centre e permitiu reconstruir em detalhes como viviam, comerciavam e morriam os habitantes da York do século X. A era viking terminou em 954, quando o último rei de Jórvík, Érico Machado Sangrento, foi expulso e o reino se integrou definitivamente à Inglaterra unificada, mas a marca nórdica ficou gravada para sempre, inclusive nos nomes de muitas ruas de York, que ainda terminam em '-gate' (de 'gata', rua em nórdico antigo).
A conquista normanda da Inglaterra em 1066 atingiu York em cheio. O norte da Inglaterra, com sua forte herança anglo-escandinava, resistiu ao novo rei, Guilherme, o Conquistador. Diante das revoltas, Guilherme respondeu com uma campanha punitiva implacável entre 1069 e 1070, conhecida como 'Harrying of the North' (a Devastação do Norte): suas tropas arrasaram aldeias, queimaram colheitas, mataram o gado e provocaram uma fome que, segundo as crônicas, causou dezenas de milhares de mortes e deixou boa parte de Yorkshire despovoada durante anos. York foi saqueada e grande parte dela, destruída. Para garantir o controle, os normandos ergueram dois castelos, um de cada lado do rio; o monte de um deles é o que hoje coroa a Clifford's Tower.
A cidade se recuperou lentamente e, ao longo da Idade Média, voltou a florescer até se tornar a segunda cidade mais importante da Inglaterra, depois de Londres. Foi um grande centro eclesiástico — sede do arcebispo de York, a segunda dignidade da Igreja inglesa depois de Canterbury — e ali se iniciou a construção da atual York Minster, erguida ao longo de mais de dois séculos e meio, entre 1220 e 1472.
Mas a história medieval de York também inclui um de seus capítulos mais sombrios e trágicos. Em março de 1190, em um clima de crescente fanatismo e violência antissemita que se espalhava por toda a Inglaterra, a comunidade judaica de York sofreu um ataque atroz. Perseguidos por uma turba, cerca de 150 judeus — homens, mulheres e crianças, embora algumas fontes elevem esse número — buscaram refúgio na torre de madeira do castelo real, no monte onde hoje se ergue a Clifford's Tower. Sitiados, sem possibilidade de fuga e diante da certeza de uma morte violenta ou de uma conversão forçada, muitos optaram por tirar a própria vida; os demais foram assassinados quando a torre pegou fogo. Foi um dos piores massacres de judeus da Inglaterra medieval. O episódio é lembrado hoje com sobriedade por meio de uma placa comemorativa ao pé da Clifford's Tower, em memória das vítimas e como alerta contra o ódio.
Os séculos seguintes trouxeram novas convulsões. A dissolução dos mosteiros ordenada por Henrique VIII no século XVI acabou com instituições religiosas riquíssimas, como a abadia de St Mary, cujas ruínas evocativas ainda podem ser vistas nos Museum Gardens. E, no século XVII, a Guerra Civil Inglesa — o confronto entre os partidários do rei Carlos I e os do Parlamento — colocou York em primeiro plano. A cidade, leal à Coroa, foi sitiada pelos exércitos parlamentaristas em 1644. O cerco foi levantado temporariamente com a chegada do príncipe Ruperto e seus 15.000 homens, mas em 2 de julho de 1644 as forças realistas foram esmagadas na vizinha batalha de Marston Moor, uma das maiores e mais decisivas da guerra. Com a derrota, o cerco foi retomado e York se rendeu em 15 de julho a Sir Thomas Fairfax. Curiosamente, os tesouros da catedral e das igrejas foram respeitados, o que permitiu que seus vitrais medievais sobrevivessem até hoje.
Depois de séculos como elegante cidade georgiana de comércio e vida social, a grande transformação chegou no século XIX com a ferrovia. Graças ao empenho do empresário local George Hudson, apelidado de 'Rei da Ferrovia', York se tornou um dos grandes entroncamentos ferroviários da Inglaterra. O trem não só trouxe viajantes e comércio, como impulsionou uma indústria que marcaria a identidade moderna da cidade: o chocolate.
Duas grandes famílias quacres fizeram de York uma capital do chocolate. Os Rowntree, cuja fábrica (fundada em 1862 por Henry Isaac Rowntree) cresceu até empregar milhares de pessoas e criar marcas mundialmente famosas como KitKat, Aero e Smarties; e os Terry, com seu famoso 'Terry's Chocolate Orange'. Essas empresas não só deram trabalho a boa parte da cidade como, por seus valores quacres, construíram moradias, escolas e espaços para seus operários, deixando uma marca social profunda. A fábrica da Terry's fechou em 2005, com a produção transferida para a Polônia, mas York continua sendo hoje sede da operação local da Nestlé (herdeira da Rowntree) e lar do KitKat, e sua história doce é celebrada em atrações dedicadas ao chocolate.
A York contemporânea soube transformar seu extraordinário acúmulo de história em seu maior trunfo. Ao contrário de muitas cidades inglesas transformadas pela indústria pesada e pela reconstrução do século XX, York manteve intacto seu tecido medieval: o circuito de muralhas mais completo da Inglaterra, o emaranhado de vielas do centro histórico, ruas como The Shambles, com suas casas de madeira do século XIV, e a massa gótica da York Minster dominando tudo. Esse patrimônio fez dela um dos destinos turísticos mais queridos do Reino Unido.
A cidade precisou cuidar desse legado e restaurá-lo. A própria catedral viveu momentos críticos: no século XX, a torre central ameaçava desabar e foi preciso reforçar suas fundações em uma complexa operação de engenharia nos anos 60 e 70; e, em 1984, um incêndio atribuído a um raio destruiu parte do transepto sul, que foi reconstruído. O rio Ouse também lembra periodicamente de sua presença com enchentes que atingem o centro, um desafio constante para uma cidade construída à beira d'água.
Hoje York vive de sua história sem ficar congelada nela. Seus museus — o Jorvik Viking Centre, o National Railway Museum (o maior do mundo no gênero e com entrada gratuita), o York Castle Museum, o Yorkshire Museum — contam cada uma de suas camadas, dos romanos aos vikings, dos normandos à era da ferrovia. Sua fama de cidade 'assombrada' alimenta uma próspera tradição de ghost tours, e seu mercado de Natal, o St Nicholas Fair, atrai multidões todo mês de dezembro. Universitária, gastronômica e feita para andar a pé, York consegue o equilíbrio difícil de ser ao mesmo tempo uma cidade-museu de dois mil anos e um lugar vivo e habitado, onde o passado não é um cartão-postal, mas o próprio chão que se pisa a cada passo.