Cardiff, capital do País de Gales, é daquelas cidades que surpreendem por concentrar tanta coisa em pouco espaço. Bem no centro fica um castelo com quase dois mil anos de história, cercado por um parque enorme; a poucos quarteirões, galerias vitorianas e eduardianas cobertas — as melhores do Reino Unido — escondem cafés, livrarias e lojas independentes; e a uma caminhada do rio está o Principality Stadium, o grande templo do rúgbi galês, encaixado entre prédios como poucos estádios no mundo. Tudo é caminhável, acolhedor e em escala humana.
Mas Cardiff nem sempre foi capital nem cidade grande. Sua história moderna foi escrita pelo carvão: no início do século XX, o porto de Cardiff era o maior exportador de carvão do planeta, e o bairro de Butetown, junto às docas, virou uma das comunidades mais multiculturais e antigas do Reino Unido, a mítica Tiger Bay. Aquela orla portuária, depois de décadas de decadência, hoje é Cardiff Bay: uma baía de água doce com calçadões, restaurantes, o espetacular Wales Millennium Centre e o Senedd, a sede do Parlamento galês, criado com a descentralização (devolution) de 1999.
Este guia percorre Cardiff com um olhar prático e caloroso: o castelo e as galerias, os museus gratuitos (o Museu Nacional, com uma das melhores coleções de impressionistas da Europa, e St Fagans, um museu a céu aberto imperdível), Cardiff Bay, os tours do estádio e os bate-voltas aos castelos de conto de fadas de Caerphilly e Castell Coch. Com a língua galesa em cada placa e um orgulho nacional que se sente no ar nos dias de rúgbi, Cardiff é a melhor porta de entrada para o País de Gales.
Cardiff nasceu como um forte romano (Caerdydd) erguido por volta do século I d.C. às margens do rio Taff, no lugar onde os normandos construíram depois um castelo, no fim do século XI. Durante séculos foi apenas um pequeno porto medieval, até que a Revolução Industrial o transformou: a família Bute financiou as docas e as ferrovias que fizeram de Cardiff o maior porto exportador de carvão do mundo no início do século XX, com o bairro multicultural de Tiger Bay (Butetown) crescendo junto aos diques. O colapso da indústria do carvão afundou o porto, mas Cardiff foi oficialmente nomeada capital do País de Gales em 1955, se reinventou com a revitalização de Cardiff Bay nas décadas de 1990 e 2000 e, com a descentralização de 1999, virou sede do Parlamento galês (o Senedd) e o coração de um renascimento da língua e da cultura galesas. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Debaixo do gramado e das muralhas do castelo de Cardiff, bem no centro da cidade, há quase dois mil anos de história sobrepostos. O primeiro capítulo foi escrito pelos romanos: por volta de meados do século I d.C. (as fontes citam uma data em torno do ano 55), eles ergueram um forte junto ao rio Taff, num ponto estratégico para controlar a região dos silures, a tribo britânica do sul do País de Gales. Na verdade, vários fortes de tamanhos diferentes se sucederam no mesmo lugar ao longo da ocupação romana. É provavelmente dessa origem que vem o nome da cidade: Caerdydd derivaria de 'Caer' (forte) sobre o Taff, embora também já se tenha sugerido que o nome homenageia um general romano.
Depois da retirada romana da Britânia, o lugar ficou em segundo plano durante séculos obscuros, dos quais se sabe pouco. O grande salto veio com a conquista normanda. Por volta de 1081 há menção à passagem de Guilherme, o Conquistador, pela região, e em 1091 o senhor normando Robert FitzHamon começou a construir um castelo de mota e paliçada (motte and bailey), reaproveitando as velhas muralhas romanas. Em torno dessa fortaleza cresceu um pequeno burgo. No século XII o castelo foi reconstruído em pedra, com uma torre de menagem sobre o montículo que até hoje pode ser visitada. Cardiff nascia assim como uma praça-forte normanda na fronteira, a 'Marca de Gales', um território disputado entre os senhores anglo-normandos e os príncipes galeses.
Durante a Idade Média e os primeiros séculos da Idade Moderna, Cardiff não passou de uma modesta vila murada com seu castelo, seu porto fluvial e seu mercado. Recebeu uma carta de vila (borough) e prosperou de forma discreta com o comércio marítimo pelo canal de Bristol, mas nunca foi uma grande cidade. Sua população continuou pequena durante centenas de anos: ainda no fim do século XVIII, mal chegava a alguns poucos milhares de habitantes.
Como o resto do País de Gales, a região viveu as convulsões da revolta de Owain Glyndŵr no início do século XV — a última grande rebelião galesa contra o domínio inglês — e a posterior integração administrativa de Gales ao reino inglês por meio das Leis de União de 1536 e 1543, sob Henrique VIII. Cardiff se tornou a principal cidade do condado de Glamorgan. O castelo passou pelas mãos de diferentes famílias nobres ao longo dos séculos e, em meados do século XVIII, acabou nas mãos de uma família que seria decisiva para o destino da cidade: os Bute, marqueses de origem escocesa. O primeiro marquês de Bute contratou paisagistas e arquitetos da moda para transformar a velha residência numa elegante mansão georgiana e ajardinar seus terrenos. Mas a verdadeira revolução não viria da pedra do castelo, e sim de um mineral negro escondido nas montanhas do norte.
A história da Cardiff moderna é, em grande parte, a história do carvão. Nos vales ao norte da cidade — Rhondda, Cynon, Merthyr Tydfil — a Revolução Industrial revelou uma das jazidas de carvão e ferro mais ricas do planeta. Faltava uma saída para o mar para toda essa produção, e foi aí que entrou a família Bute. Em 1825, o segundo marquês de Bute deu início a uma série arriscada e caríssima de investimentos nas docas de Cardiff, construindo as grandes docas (as Bute Docks) que, ligadas por ferrovia e canal aos vales, transformaram a cidade no grande terminal exportador do carvão galês.
O crescimento foi vertiginoso. Cardiff passou de vilarejo a cidade em poucas décadas; sua população se multiplicou várias vezes ao longo do século XIX. O porto se tornou o maior exportador de carvão do mundo: no auge, em 1913, saíram por suas docas mais de 13 milhões de toneladas de carvão. A riqueza gerada foi imensa. A Coal Exchange (Bolsa do Carvão) de Cardiff, na Mount Stuart Square, era onde se definiam os preços mundiais do carvão, e dizem que ali foi fechado o primeiro contrato de um milhão de libras da história. Os Bute, donos de boa parte das terras, estavam entre os homens mais ricos do mundo.
Com essa fortuna, o terceiro marquês de Bute pôde se dar a um luxo extraordinário: encomendou ao excêntrico arquiteto William Burges a reforma do castelo de Cardiff, transformando seus interiores numa fantasia neogótica de dourados, murais e tetos entalhados, e ergueu também, entre os bosques próximos, o pequeno e deslumbrante Castell Coch. A cidade ganhou ainda um esplêndido centro cívico em Cathays Park, com a Prefeitura e o Museu Nacional, símbolo de uma cidade que queria estar à altura de sua nova importância.
O auge do porto atraiu marinheiros e trabalhadores do mundo inteiro. Junto às docas, no bairro de Butetown, cresceu uma das comunidades multiculturais mais antigas do Reino Unido, conhecida popularmente como Tiger Bay. A partir de meados do século XIX, se estabeleceram ali pessoas de mais de cinquenta países: somalis, iemenitas, cabo-verdianos, caribenhos, gregos, irlandeses, chineses, malteses, marinheiros da África Ocidental e de meio mundo, que chegavam com os navios e muitas vezes acabavam ficando.
Era um bairro pobre e superlotado — as casas eram subdivididas e sublocadas para dar conta dos aluguéis, sobretudo em torno da praça Loudoun Square —, mas também um lugar de enorme vitalidade cultural, com seus clubes, sua música e uma convivência entre origens e religiões pouco comum para a época. Dali saiu, entre outras figuras, a cantora Shirley Bassey, filha daquele caldeirão portuário. Tiger Bay é reconhecida como a comunidade multiétnica mais antiga do País de Gales e uma das primeiras do país.
A memória daquele bairro nem sempre foi tratada com justiça: a comunidade sofreu discriminação e episódios de violência racial, como os distúrbios de 1919 que atingiram vários portos britânicos. E, na segunda metade do século XX, os planos de 'renovação urbana' demoliram boa parte da velha Butetown e dispersaram seus moradores. Hoje, a história de Tiger Bay é reivindicada como uma parte essencial e motivo de orgulho da identidade de Cardiff, e seu legado continua vivo na comunidade de Butetown, junto à baía.
O século XX trouxe primeiro o esplendor e depois o golpe. Depois do pico de 1913, a indústria do carvão entrou numa longa decadência: a concorrência internacional, o petróleo, as guerras e as crises econômicas foram fechando minas e esvaziando as docas. Em meados do século, o porto que tinha sido o maior do mundo em sua especialidade estava em franco declínio, e as docas ficaram semiabandonadas.
E, mesmo assim, em plena crise industrial, Cardiff conquistou um reconhecimento que buscava havia tempos. Em 1955, depois de anos de debate e de uma consulta às autoridades locais galesas (na qual Cardiff superou rivais como Caernarfon e Aberystwyth), a cidade foi proclamada oficialmente capital do País de Gales, a primeira capital reconhecida na história do país. Foi uma mudança simbólica enorme: pela primeira vez Gales tinha uma capital formal, e Cardiff começou a concentrar instituições nacionais.
O grande renascimento físico chegou no fim do século XX. Com a antiga zona portuária degradada, foi lançado um dos maiores projetos de regeneração urbana da Europa. A peça-chave foi o Cardiff Bay Barrage, uma barragem concluída em 2001 que represou os rios Taff e Ely e criou um grande lago de água doce onde antes havia lodo de maré. Nessa nova orla nasceram calçadões, moradias, restaurantes e edifícios emblemáticos como o Wales Millennium Centre, o grande centro de artes do País de Gales, inaugurado em 2004. A velha Tiger Bay virava a moderna Cardiff Bay, não sem polêmica pelo que se perdeu no caminho.
O último grande capítulo da história de Cardiff é político e cultural. Em 1997, um referendo aprovou por uma margem estreitíssima a criação de uma Assembleia Nacional para o País de Gales, dentro do processo de 'devolução' (transferência de poderes) promovido no Reino Unido. Em 1999 foi inaugurada a Assembleia, com sede em Cardiff, que passou a se reunir em Cardiff Bay. Em 2006 foi aberto o edifício do Senedd, projeto do escritório de Richard Rogers: um prédio transparente e aberto, com muita madeira galesa e um teto ondulado, pensado como símbolo de um parlamento próximo das pessoas. Com os anos, a instituição ganhou competências e, em 2020, passou a se chamar Senedd Cymru / Welsh Parliament, com capacidade legislativa própria em muitas áreas.
Cardiff se consolidou assim como uma capital de verdade: sede do governo e do parlamento galeses, da mídia pública (a BBC no País de Gales, a S4C, o canal em língua galesa), de instituições culturais e do esporte nacional, com o rúgbi como grande paixão coletiva no Principality Stadium. A cidade também foi, durante anos, um importante centro de produção de TV, famosa por ser a base de séries como Doctor Who.
Ao mesmo tempo, o País de Gales viveu um notável renascimento de sua língua. O galês (Cymraeg), uma das línguas celtas mais faladas, vinha perdendo espaço havia gerações, mas políticas de incentivo, a educação bilíngue, a mídia em galês e a meta declarada de chegar a um milhão de falantes o revitalizaram. Em Cardiff, uma cidade tradicionalmente mais anglófona, o idioma está cada vez mais visível: escolas galesas, placas bilíngues por toda parte e um orgulho crescente pela identidade própria. De forte romano a porto carvoeiro do mundo, de Tiger Bay a capital com parlamento, Cardiff resume em poucos quilômetros a história inteira do País de Gales.