Poucos passeios a partir de Londres são tão redondos quanto Windsor. A pouco mais de meia hora da capital, essa charmosa cidade de Berkshire é dominada por uma silhueta imponente: a do Castelo de Windsor, o castelo habitado mais antigo e maior do mundo, residência dos reis e rainhas da Inglaterra desde a época de Guilherme, o Conquistador, há mais de nove séculos. Vê-lo recortado sobre o rio Tâmisa, com suas torres e muralhas, é uma daquelas imagens que resumem a história britânica num só olhar.
Mas Windsor é muito mais do que o castelo. É uma cidade de ruas de paralelepípedo e casas georgianas, de pubs antiquíssimos e lojinhas charmosas, cortada pelo majestoso Long Walk, uma avenida arborizada de quase cinco quilômetros que liga o castelo ao Windsor Great Park. Do outro lado do rio, uma ponte de pedestres leva a Eton, lar do célebre Eton College, onde estudaram primeiros-ministros e príncipes. E, para as famílias, a Legoland Windsor transforma a visita numa aventura para os pequenos.
Este guia percorre Windsor com um olhar prático e acolhedor: como chegar a partir de Londres e de Heathrow, o que ver dentro e fora do castelo, quando acontece a troca da guarda, como aproveitar o Great Park e o Tâmisa, e onde comer e dormir. Seja como escapada de meio dia, seja como parada tranquila numa viagem mais longa pela Inglaterra, Windsor oferece uma dose concentrada de história real, elegância e interior inglês.
A história de Windsor está ligada de forma indissociável ao seu castelo. Por volta de 1070, pouco depois da conquista normanda da Inglaterra, Guilherme, o Conquistador, escolheu uma colina sobre o Tâmisa para erguer uma das fortalezas com que cercava e protegia Londres: assim nasceu o Castelo de Windsor, no início uma construção de madeira com o clássico desenho normando de motte and bailey. Ao longo dos séculos, sucessivos monarcas o reconstruíram em pedra e o ampliaram: Henrique II ergueu a Torre Redonda, Eduardo III o transformou num palácio gótico e fundou ali a Ordem da Jarreteira (a ordem de cavalaria mais antiga do país), e Eduardo IV deu início à esplêndida Capela de São Jorge. O núcleo urbano de 'New Windsor' cresceu ao pé da fortaleza, enquanto a aldeia original ('Old Windsor') ficou um pouco mais ao sul. No século XIX, a rainha Vitória e o príncipe Albert fizeram de Windsor seu lar preferido, e o lugar ficou associado para sempre à monarquia: a própria Casa Real britânica adotou o nome 'Windsor' em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, para soar mais inglesa e menos alemã. O castelo já foi cenário de casamentos reais, funerais de Estado e da vida cotidiana da família real, e continua sendo uma residência oficial em pleno uso. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Windsor começa com a conquista normanda da Inglaterra. Depois de vencer a batalha de Hastings em 1066, Guilherme, o Conquistador, precisava garantir o controle sobre o novo reino e, principalmente, proteger Londres. Para isso, mandou construir um anel de fortalezas ao redor da capital, a um dia de viagem umas das outras. Por volta de 1070, escolheu uma colina de giz sobre o rio Tâmisa, num ponto estratégico que dominava o rio e a rota para o oeste, para erguer o que viria a ser o Castelo de Windsor.
A primeira construção seguia o modelo normando clássico de motte and bailey: um monte artificial de terra (a motte) coroado por uma torre de madeira, cercado por pátios murados (os baileys). Sua função era puramente militar e defensiva. O castelo foi pensado para vigiar o acesso fluvial a Londres e servir de refúgio e base de operações da nova nobreza normanda numa terra recém-conquistada e ainda não totalmente pacificada.
A escolha do local foi tão acertada que o castelo nunca deixou de ser usado. O nome 'Windsor' vem do antigo povoado saxão de Windlesora (interpretado como 'margem do cabrestante' ou 'margem com cais'), situado um pouco mais ao sul, onde hoje fica Old Windsor. Quando o castelo e o núcleo urbano cresceram ao lado da fortaleza, essa nova povoação passou a se chamar New Windsor, enquanto a aldeia original manteve o nome de Old Windsor. Assim, sobre aquela primitiva fortaleza de madeira do século XI está o castelo habitado mais antigo do mundo.
Durante os séculos XII e XIII, os reis ingleses foram transformando a fortaleza de madeira num castelo de pedra. Henrique II, no fim do século XII, reconstruiu as muralhas em pedra e ergueu sobre a motte central a Torre Redonda (Round Tower), que continua sendo o coração e a imagem mais conhecida do castelo. O conjunto ficou organizado em três grandes pátios ou 'wards' (superior, médio e inferior), que até hoje estruturam a visita. O castelo resistiu a cercos, como o dos barões rebeldes durante o reinado do rei João, na época da Magna Carta (1215).
O grande salto de fortaleza para residência palaciana veio com Eduardo III, no século XIV. Nascido no próprio castelo, esse monarca empreendeu uma das obras mais caras da Inglaterra medieval, transformando Windsor num suntuoso palácio gótico digno da corte. Mas sua contribuição mais duradoura foi de outra natureza: em 1348, fundou ali a Ordem da Jarreteira (Order of the Garter), a ordem de cavalaria mais antiga e prestigiosa do Reino Unido, inspirada nas lendas do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda.
A Ordem da Jarreteira, com seu famoso lema em francês 'Honi soit qui mal y pense' ('Envergonhado seja quem pensar mal disso'), ligou para sempre o castelo à cavalaria e ao esplendor da coroa. Windsor virou palco de torneios, cerimônias e celebrações reais. Mais tarde, Eduardo IV iniciaria a construção da magnífica Capela de São Jorge, sede espiritual da ordem, concluída por seus sucessores já em pleno gótico perpendicular: um dos pontos altos da arquitetura inglesa.
O século XVII trouxe a Windsor episódios dramáticos da história britânica. Durante a guerra civil inglesa (1642-1651), que opôs os partidários do rei aos do Parlamento, o castelo foi tomado pelas forças parlamentares e usado como quartel-general e também como prisão. O próprio rei Carlos I ficou confinado em Windsor antes de seu julgamento e, depois de sua execução em 1649, seu corpo foi levado em segredo e sepultado na Capela de São Jorge, sem a pompa que caberia a um monarca.
Com a restauração da monarquia em 1660, o rei Carlos II quis devolver a Windsor seu esplendor e rivalizar com os grandes palácios europeus, especialmente com o Versalhes de Luís XIV. Encomendou uma ambiciosa reforma dos apartamentos de Estado em estilo barroco, com tetos pintados por artistas como Antonio Verrio e entalhes do célebre Grinling Gibbons. Também traçou o majestoso Long Walk, a avenida arborizada de quase cinco quilômetros que se estende do castelo até o Great Park, concebida como uma grande perspectiva cerimonial.
Nos séculos seguintes, o castelo continuou evoluindo. Jorge III e, sobretudo, Jorge IV, no início do século XIX, encomendaram ao arquiteto Jeffry Wyatville uma transformação profunda que deu ao castelo boa parte de seu aspecto romântico e 'medievalizante' atual: a Torre Redonda foi elevada para ficar mais imponente, as fachadas foram unificadas e reforçou-se essa imagem de castelo de conto de fadas que hoje domina a cidade. Windsor passava assim de fortaleza medieval e palácio barroco a símbolo monumental da monarquia britânica.
Se houve um reinado que ligou emocionalmente a monarquia a Windsor, foi o da rainha Vitória (1837-1901). Ao lado do marido, o príncipe Alberto, Vitória transformou o castelo num de seus lares preferidos, onde passava longas temporadas e recebia as grandes personalidades da época. Windsor foi palco da vida familiar do casal real e da educação de seus muitos filhos, num momento em que a monarquia britânica reforçava sua imagem como modelo de vida familiar.
A morte do príncipe Alberto, em 1861, marcou profundamente esse vínculo. Arrasada pela perda, Vitória entrou num luto rigoroso e prolongado que a manteve afastada da vida pública por anos, boa parte deles recolhida em Windsor, o que lhe rendeu o apelido de 'a viúva de Windsor'. Em homenagem ao marido, foram erguidos na região monumentos como o Royal Mausoleum de Frogmore, nos terrenos do castelo, onde os dois estão enterrados juntos.
Durante a era vitoriana, além disso, a chegada da ferrovia aproximou Windsor de Londres e do resto do país: em 1849 foram inauguradas as linhas que ligavam a cidade à capital, o que facilitou tanto os deslocamentos da corte quanto, com o tempo, a chegada de visitantes. Windsor se consolidou assim, já no século XIX, como residência real emblemática e como destino turístico, uma dupla condição que mantém até hoje.
Um dos episódios mais curiosos e reveladores da história de Windsor aconteceu em plena Primeira Guerra Mundial. A família real britânica pertencia, pela linha paterna, à dinastia de Saxe-Coburgo-Gota, de clara origem alemã. Em meio à guerra contra a Alemanha, esse sobrenome germânico era politicamente insustentável e alimentava um sentimento antimonárquico. Por isso, em 1917, o rei Jorge V decidiu mudar o nome da Casa real e adotar um inequivocamente inglês: pegou o do castelo mais emblemático da coroa e proclamou o nascimento da Casa de Windsor.
Desde então, 'Windsor' não designa apenas a cidade e o castelo, mas a própria dinastia reinante no Reino Unido. É um dos poucos casos em que uma cidade deu nome a toda uma casa real. Ao longo do século XX, o castelo continuou sendo residência e refúgio: durante a Segunda Guerra Mundial, as então princesas Elizabeth e Margaret passaram boa parte do conflito em Windsor, a salvo dos bombardeios sobre Londres.
O século XX também trouxe um episódio dramático: em 20 de novembro de 1992, um grande incêndio devastou parte do castelo, danificando seriamente várias salas históricas. A restauração, que durou cinco anos e terminou em 1997, foi uma obra gigantesca que devolveu o esplendor aos apartamentos atingidos. Já no século XXI, Windsor foi palco de casamentos reais de enorme repercussão, como o do príncipe Harry com Meghan Markle na Capela de São Jorge em 2018, e virou local de descanso da rainha Elizabeth II, falecida em 2022, que repousa junto à família na mesma capela. Quase mil anos depois de Guilherme, o Conquistador, Windsor continua sendo o coração vivo da monarquia britânica.