Existe um lugar onde o Danúbio, depois de percorrer meia Europa, faz sua curva mais bonita: a Curva do Danúbio, o Dunakanyar. E no coração dessa curva, empoleirada no alto de um morro entre bosques, ergue-se a Cidadela de Visegrád, de onde se contempla uma das vistas panorâmicas mais célebres de toda a Hungria. O grande rio, largo e prateado, faz a curva aos pés do visitante entre montanhas, com a ilha de Szentendre lá embaixo e os vilarejos espalhados pelas duas margens. Não é exagero dizer que é um dos mirantes mais bonitos do país.
Mas Visegrád não é só paisagem: é história real, no sentido mais literal. Aqui, no século XIV, os reis Anjou da Hungria estabeleceram sua residência e ergueram um magnífico palácio renascentista às margens do rio, protegido por um castelo no alto e pela maciça Torre de Salomão junto à água. Em 1335, Visegrád sediou uma cúpula histórica entre os reis da Hungria, da Boêmia e da Polônia, um encontro tão lembrado que deu nome, seis séculos depois, ao atual 'Grupo de Visegrád', que reúne esses países da Europa Central.
Este guia percorre Visegrád com um olhar prático e acolhedor: como chegar facilmente a partir de Budapeste de ônibus, barco ou trem com balsa, por que a subida à Cidadela é imperdível pelas vistas da Curva do Danúbio, o que ver no palácio real e na Torre de Salomão, onde comer e como combiná-la com Szentendre e Esztergom. É um destino ideal para um bate-volta que mistura natureza, história medieval e uma das paisagens fluviais mais memoráveis da Europa Central.
Visegrád guarda uma das histórias mais nobres da Hungria. Na época romana, houve aqui um forte de fronteira do limes do Danúbio. O nome atual, de raiz eslava ('castelo alto'), aparece após o assentamento de povos eslavos e, mais tarde, magiares. Sua grande época chegou na Idade Média: depois da devastadora invasão mongol de 1241-1242, o rei Béla IV mandou construir um poderoso sistema de fortificações, com o castelo da colina (a Cidadela), a Torre de Salomão junto ao rio e muralhas que os ligavam. No século XIV, o rei Carlos I de Anjou (Károly Róbert) transferiu para cá a corte real e transformou Visegrád na capital do reino. Em 1335 aconteceu o célebre Congresso de Visegrád, uma cúpula entre Carlos I da Hungria, João da Boêmia e Casimiro III da Polônia para resolver disputas e incentivar o comércio. Sob o rei Matias Corvino, no século XV, o palácio real foi ampliado e embelezado no estilo do Renascimento italiano, até se tornar uma residência suntuosa admirada em toda a Europa. A ocupação otomana no século XVI e as guerras posteriores arruinaram o conjunto, e o palácio ficou soterrado e esquecido durante séculos, até que as escavações do século XX o trouxeram de volta à luz. Hoje Visegrád conserva seu castelo, sua torre e os restos restaurados daquele palácio, e seu nome continua vivo na política europeia por meio do Grupo de Visegrád. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Hungary: Budapest, born from the union of Buda, Pest and Óbuda over the old Roman Aquincum, and the great bend of the Danube, with Esztergom, cradle of the Christian kingdom, and Visegrád, seat of the Renaissance court of Matthias Corvinus.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história do lugar que hoje chamamos de Visegrád começa muito antes dos reis medievais. Na Antiguidade, esta região do Danúbio fazia parte da fronteira (o limes) do Império Romano, que acompanhava o rio separando a província da Panônia dos territórios bárbaros do outro lado. Os romanos ergueram aqui fortins e postos de vigilância para controlar a passagem do Danúbio, aproveitando a posição estratégica oferecida pela curva do rio entre as montanhas.
Depois da queda do poder romano e da passagem de diversos povos pela região durante a época das migrações, populações eslavas se estabeleceram na área. É dessa presença eslava que vem o nome atual: 'Visegrád' é uma palavra de raiz eslava que significa algo como 'castelo alto' ou 'cidade alta' (vyšе = alto, grad = castelo/cidade), uma descrição literal da fortaleza empoleirada no morro que dominaria o lugar durante séculos.
Quando os magiares (húngaros) se fixaram na bacia dos Cárpatos no fim do século IX e o Reino da Hungria se formou por volta do ano 1000, Visegrád foi integrada ao novo Estado. A região manteve sua importância estratégica pelo controle do Danúbio, uma das grandes vias de comunicação da Europa Central, o que prepararia sua chegada à linha de frente da história húngara nos séculos seguintes.
O momento que deu forma à Visegrád medieval veio depois de uma catástrofe. Em 1241-1242, a grande invasão mongol devastou a Hungria: as hordas de Batu Khan derrotaram o exército real na batalha de Mohi e arrasaram boa parte do país, deixando cidades incendiadas e populações dizimadas. O rei Béla IV, que mal conseguiu escapar, tirou uma lição amarga da tragédia: a Hungria precisava de um sistema de fortalezas de pedra capazes de resistir a cercos, em vez das defesas de terra e madeira que tinham se mostrado inúteis diante dos mongóis.
Dentro desse grande programa de fortificação do reino, Visegrád se tornou uma das praças-fortes-chave. Aproveitando sua posição dominante sobre o Danúbio, ergueu-se ali um poderoso conjunto defensivo em três níveis: o castelo no topo do morro (a Cidadela, ou Fellegvár), um 'castelo da água' junto ao rio com a maciça Torre de Salomão e uma linha de muralhas que descia pela encosta ligando as duas fortalezas. Era um sistema escalonado, pensado para controlar o rio e resistir a qualquer ataque.
A solidez dessas fortificações deu a Visegrád enorme prestígio e segurança. Tanto que a Cidadela chegou a guardar, em diferentes momentos, a Santa Coroa da Hungria, a coroa de coroação dos reis e o maior símbolo do Estado. Essa segurança e a beleza do entorno seriam, poucas décadas depois, os argumentos que convenceriam um rei a instalar ali sua corte.
O grande salto histórico de Visegrád veio no século XIV, pelas mãos da dinastia Anjou. Depois de um período de disputas pelo trono húngaro, Carlos I da Hungria (Károly Róbert, da casa de Anjou) se impôs e consolidou seu poder. Em busca de uma sede segura e bem localizada para sua corte, longe dos nobres rebeldes, o rei escolheu Visegrád e, por volta de 1320-1330, transferiu para lá a residência real. A pequena localidade do Danúbio se tornou assim, durante boa parte do século XIV, a capital do Reino da Hungria.
Visegrád viveu então sua época de maior esplendor político. Ao pé do morro fortificado, à beira do rio, desenvolveu-se uma corte real com seu palácio, e a cidade se encheu da movimentação típica de um centro de governo: nobres, embaixadores, mercadores e artesãos. A segurança das fortalezas, a beleza do entorno e a posição estratégica sobre o Danúbio faziam de Visegrád um lugar ideal para a realeza.
Essa condição de capital real explica o episódio mais célebre de sua história, o Congresso de Visegrád de 1335, e lançou as bases para que, décadas mais tarde, os reis — em especial Matias Corvino — transformassem o palácio em uma das residências mais suntuosas da Europa. Embora com o tempo a corte tenha se mudado para Buda, Visegrád manteve seu prestígio como sede real e lugar de guarda da coroa.
O acontecimento que deu fama internacional e duradoura a Visegrád ocorreu no outono de 1335. Naquele ano, o rei Carlos I da Hungria convocou em sua corte de Visegrád uma cúpula de soberanos da Europa Central: compareceram o rei João I da Boêmia (João de Luxemburgo) e o rei Casimiro III da Polônia, além de outros príncipes e representantes. Durante semanas, os monarcas e suas comitivas se reuniram no palácio real para negociar.
O Congresso de Visegrád tinha objetivos bem concretos: resolver disputas territoriais e dinásticas entre os três reinos (especialmente em torno da Polônia, da Boêmia e da questão do trono), firmar alianças e, com grande destaque, estabelecer novas rotas comerciais que permitissem aos mercadores da região escapar do monopólio e das altas tarifas de Viena, abrindo um eixo de comércio entre Hungria, Polônia e Boêmia que beneficiasse as três coroas. A cúpula também foi uma demonstração de magnificência diplomática, com banquetes e cerimônias que exibiam o poder da corte húngara.
O curioso é que esse encontro medieval voltou à atualidade seis séculos depois. Em 1991, após a queda do comunismo, os líderes da Hungria, da Polônia e da Tchecoslováquia se reuniram justamente em Visegrád para fundar uma aliança de cooperação regional, e escolheram esse nome histórico em homenagem à cúpula de 1335. Nasceu assim o 'Grupo de Visegrád' (hoje formado por Hungria, Polônia, Tchéquia e Eslováquia), que mantém viva na política europeia contemporânea a memória daquele encontro de reis às margens do Danúbio.
Se os Anjou fizeram de Visegrád uma capital, foi a dinastia seguinte que a transformou numa joia do Renascimento. Ao longo do século XV, e muito especialmente durante o reinado de Matias Corvino (Mátyás Hunyadi, rei a partir de 1458), o palácio real de Visegrád foi ampliado, reformado e embelezado até se tornar uma das residências mais esplêndidas da Europa.
Matias Corvino, um monarca culto e ambicioso, foi um dos grandes introdutores do Renascimento italiano na Hungria. Trouxe artistas, arquitetos e artesãos da Itália, e sua esposa, Beatriz de Nápoles, reforçou essa influência. Em Visegrád, o palácio se encheu de pátios com galerias, jardins suspensos, salões decorados e, sobretudo, magníficas fontes de mármore vermelho, como a célebre fonte de Hércules e a fonte dos leões, verdadeiras obras de arte. Os cronistas e embaixadores da época, como o legado papal, ficaram deslumbrados e descreveram o palácio como um 'paraíso terrestre'.
Era um palácio gigantesco para a época, com centenas de cômodos, que combinava a função de residência real com a de palco da magnificência do rei. Visegrád se tornou assim um símbolo do refinamento da corte húngara do Renascimento, à altura das cortes mais brilhantes da Europa. Esse esplendor, porém, estava prestes a enfrentar sua maior ameaça: o avanço do Império Otomano sobre a Hungria.
O esplendor de Visegrád foi interrompido pelo avanço otomano. Depois da catastrófica derrota húngara na batalha de Mohács (1526), o Império Otomano se expandiu por grande parte da Hungria. Visegrád, com seu castelo e seu palácio, caiu sob domínio turco em meados do século XVI e passou a ser uma praça de fronteira disputada entre otomanos e Habsburgo. As guerras, os cercos e o abandono foram arruinando aos poucos as fortalezas e, sobretudo, o magnífico palácio real.
Depois da expulsão dos turcos, no fim do século XVII, Visegrád tinha virado um conjunto de ruínas. Com o tempo, os deslizamentos da encosta, a erosão e a vegetação foram cobrindo os restos do palácio renascentista, a ponto de sua localização exata se perder. Durante o século XVIII e boa parte do XIX, o palácio de Matias Corvino, tão admirado pelos embaixadores, era considerado quase uma lenda: duvidava-se até de que tivesse existido do jeito que as crônicas descreviam.
A grande redescoberta veio no século XX. A partir das escavações arqueológicas iniciadas na década de 1930 e continuadas ao longo do século, os pesquisadores trouxeram à luz os pátios, as escadarias, os muros e os restos das célebres fontes do palácio real, confirmando seu antigo esplendor. Os trabalhos de escavação e restauração transformaram Visegrád em um dos grandes sítios arqueológicos medievais da Hungria. Hoje, o visitante pode percorrer o palácio recuperado, subir à Cidadela e à Torre de Salomão e contemplar a mesma curva do Danúbio que encantou os reis, enquanto o nome da cidade continua ecoando na Europa do século XXI por meio do Grupo de Visegrád.