Tem cidades que a gente ama à primeira vista, e Budapeste é uma delas. A capital húngara se espalha pelas duas margens do Danúbio numa sucessão de cúpulas, pontes, colinas e fachadas imponentes que, no fim da tarde, se acendem com uma luz dourada que justifica de sobra o apelido: a 'Pérola do Danúbio'. De um lado, a Buda histórica sobe pelas colinas com o bairro do Castelo, o Bastião dos Pescadores e a igreja de Matias; do outro, a Peste agitada reúne o imponente Parlamento, os grandes bulevares, os cafés de outros tempos e a vida noturna. Todo esse conjunto, às margens do rio, é Patrimônio Mundial da Unesco desde 1987.
Mas Budapeste não é só arquitetura imperial. É a cidade das termas por excelência: sobre fontes que brotam do subsolo foram erguidos palácios da água como o Széchenyi, onde moradores e viajantes relaxam em piscinas fumegantes mesmo em pleno inverno. É a cidade dos 'ruin bars', aqueles bares instalados em prédios em ruínas do antigo bairro judeu que viraram lenda da noite europeia. E é a cidade dos cafés históricos, dos mercados cobertos, do goulash e do vinho húngaro, onde a herança do Império Austro-Húngaro convive com uma energia jovem e criativa.
Este guia percorre o essencial de Budapeste com um olhar prático e acolhedor: como organizar os dias entre Buda e Peste, quais termas escolher, como se locomover no histórico metrô e nos bondes, onde ver o melhor pôr do sol sobre o Danúbio e como escapar para a Curva do rio. Budapeste é uma das capitais mais bonitas, acessíveis e gostosas de curtir da Europa, e deixa quase todo mundo com vontade de voltar.
A história de Budapeste começa muito antes de a cidade ter esse nome. Na margem de Buda, os romanos fundaram Aquincum, capital da província da Panônia, cujas ruínas ainda podem ser visitadas. Depois da chegada das tribos magiares à bacia dos Cárpatos no fim do século IX e da fundação do reino cristão da Hungria por Santo Estêvão por volta do ano 1000, a região foi ganhando importância. No século XIII, após a devastadora invasão mongol de 1241-1242, o rei Béla IV mandou fortificar a colina de Buda, que se tornou residência real. Os séculos seguintes trouxeram o esplendor do rei Matias Corvino no século XV, a longa ocupação otomana (de 1541 a 1686, época da qual restam os banhos turcos) e depois o domínio dos Habsburgo. O grande salto veio em 1873, quando as cidades de Buda, Óbuda e Peste se uniram numa só: Budapeste, que floresceu como segunda capital do Império Austro-Húngaro. Dessa época dourada, em torno do milênio da Hungria (1896), são muitos de seus monumentos: o Parlamento, a avenida Andrássy, a praça dos Heróis e o metrô M1. O século XX foi duro: as duas guerras mundiais, a destruição das pontes e do bairro do Castelo, o Holocausto que dizimou a comunidade judaica e, depois, as décadas comunistas, marcadas pela revolta de 1956 contra a ocupação soviética. Com a queda da Cortina de Ferro em 1989, Budapeste voltou a se abrir para o mundo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The historic heart of Hungary: Budapest, born from the union of Buda, Pest and Óbuda over the old Roman Aquincum, and the great bend of the Danube, with Esztergom, cradle of the Christian kingdom, and Visegrád, seat of the Renaissance court of Matthias Corvinus.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existir Budapeste, a vida já pulsava nessas duas margens do Danúbio. A margem direita, onde hoje fica Buda e sobretudo o bairro de Óbuda, foi na Antiguidade o local de Aquincum, uma importante cidade da província romana da Panônia. Fundada por volta do século I depois de Cristo, Aquincum chegou a ser capital da Panônia Inferior e um ponto militar e comercial-chave na fronteira (o 'limes') do Império sobre o Danúbio, com acampamento de legião, cidade civil, termas, anfiteatros e um aqueduto. Ainda hoje dá para visitar suas ruínas e seu museu no norte da cidade, prova de que o gosto húngaro pelas águas termais tem raízes, literalmente, na época romana.
Depois da queda de Roma, a região virou terra de passagem de povos: hunos, ostrogodos, lombardos e ávaros se sucederam na planície panônica. A grande virada veio no fim do século IX, quando as tribos magiares, lideradas segundo a tradição por Árpád, atravessaram os Cárpatos e se fixaram na bacia dos Cárpatos por volta de 895-896, no que a história húngara chama de 'conquista da pátria' (honfoglalás). Daqueles magiares pagãos, convertidos ao cristianismo sob o rei Santo Estêvão por volta do ano 1000, nasceria o Reino da Hungria.
Durante a Idade Média, nessas margens cresceram vários núcleos distintos que só muito mais tarde se uniriam: Buda, no alto de sua colina na margem direita; Óbuda, a 'velha Buda', ao norte; e Pest, a cidade comercial e plana da margem esquerda. Eram, ainda, três cidades separadas, cada uma com seu próprio destino.
A invasão dos mongóis em 1241-1242 arrasou boa parte da Hungria e deixou uma lição amarga: as cidades precisavam de muralhas e de posições defensáveis. Por isso, depois da retirada dos mongóis, o rei Béla IV promoveu a fortificação da colina de Buda, onde foram erguidos um castelo real e uma cidade murada. Ao longo dos séculos seguintes, Buda foi ganhando peso até se tornar uma das residências e capitais do Reino da Hungria, enquanto Pest crescia como cidade mercantil na outra margem.
O auge do esplendor chegou no século XV, durante o reinado de Matias Corvino (Mátyás Hunyadi, rei entre 1458 e 1490). Sob seu governo, Buda se transformou em um dos grandes centros do Renascimento ao norte dos Alpes: o rei, casado com Beatriz de Nápoles, atraiu humanistas, artistas e arquitetos italianos, ampliou o palácio real e reuniu a célebre Biblioteca Corviniana, uma das coleções de manuscritos mais importantes da Europa de seu tempo. A Hungria de Matias era uma potência regional, e sua corte em Buda brilhava com luz própria.
Esse esplendor, porém, seria frágil. Após a morte de Matias, o reino entrou numa fase de fraqueza interna justamente quando, vinda do sul, crescia uma ameaça imparável: o Império Otomano, que avançava rumo ao coração da Europa Central.
O colapso veio em 1526, na catastrófica batalha de Mohács, em que o exército húngaro foi aniquilado pelo sultão Solimão, o Magnífico, e o rei Luís II morreu durante a fuga. A Hungria ficou dividida e, em 1541, os otomanos tomaram Buda, que virou sede de um paxalato (província) otomano. Durante quase um século e meio, Buda e Pest fizeram parte do Império Otomano, em sua fronteira europeia mais avançada.
A marca turca, embora às vezes seja idealizada, foi real e ainda é visível. Os otomanos, grandes adeptos do banho ritual, construíram banhos termais que continuam funcionando hoje, como o Király e o Rudas, com suas cúpulas perfuradas por claraboias. Transformaram igrejas em mesquitas, ergueram 'türbe' (mausoléus) como o do dervixe Gül Baba, na colina das rosas de Buda, hoje local de peregrinação, e deixaram uma mistura cultural muito particular numa cidade de fronteira entre dois mundos.
A reconquista cristã foi longa e sangrenta. Após o fracasso do segundo cerco otomano a Viena, em 1683, as forças da Liga Santa, lideradas pelos Habsburgo, partiram para a ofensiva. Em 1686, depois de um cerco duríssimo, um exército internacional reconquistou Buda. A cidade ficou devastada e quase despovoada, mas uma nova era começava: a da Hungria dos Habsburgo.
O século XIX foi o século do despertar húngaro. Sob o domínio dos Habsburgo, cresceu um poderoso movimento nacional que reivindicava língua, instituições e autonomia próprias. Esse impulso desembocou na Revolução de 1848-1849, liderada por figuras como Lajos Kossuth e o poeta Sándor Petőfi, finalmente esmagada com ajuda russa, mas que deixou acesa a chama do nacionalismo húngaro.
A solução política veio em 1867 com o 'Compromisso' (Ausgleich), que criou a monarquia dual da Áustria-Hungria: a Hungria recuperava um amplo autogoverno, com parlamento próprio, e os Habsburgo eram ao mesmo tempo imperadores da Áustria e reis da Hungria. Para Pest, Buda e Óbuda, até então cidades separadas, essa nova era de prosperidade e orgulho nacional pedia uma grande capital à altura do reino.
Assim, em 17 de novembro de 1873, as três cidades foram oficialmente unificadas em uma só: Budapeste. A nova metrópole viveu então uma explosão de crescimento que coincidiu com as comemorações do Milênio, em 1896, que celebravam os mil anos da chegada dos magiares. Dessa época de ouro vêm muitos dos símbolos da cidade: o monumental Parlamento às margens do Danúbio, a Avenida Andrássy com seus palacetes, a primeira linha de metrô da Europa continental (1896), a Praça dos Heróis, os grandes banhos e as pontes que finalmente costuraram as duas margens, a começar pela icônica Ponte das Correntes, inaugurada em 1849.
O século XX foi duríssimo para Budapeste e para a Hungria. A derrota na Primeira Guerra Mundial e o Tratado de Trianon (1920) mutilaram o país, que perdeu dois terços de seu território e boa parte de sua população húngara, uma ferida nacional que dói até hoje. No período entreguerras, sob o regente Miklós Horthy, Budapeste continuou sendo uma capital vibrante, mas a guinada política levou o país a se aliar à Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial.
O episódio mais trágico foi o Holocausto: Budapeste tinha uma das maiores comunidades judaicas da Europa, e em 1944 dezenas de milhares de judeus húngaros foram deportados e assassinados ou executados às margens do Danúbio (é o que lembra o comovente memorial dos Sapatos às margens do Danúbio). O cerco de Budapeste, entre o fim de 1944 e fevereiro de 1945, quando o Exército Vermelho expulsou as forças alemãs e húngaras, deixou a cidade em ruínas: todas as pontes sobre o Danúbio foram explodidas e o Bairro do Castelo ficou devastado.
Depois da guerra veio o regime comunista alinhado à União Soviética. Em 1956 estourou o Levante Húngaro, uma revolução popular contra o regime stalinista que começou em Budapeste e foi esmagada pelos tanques soviéticos, com milhares de mortos e uma enorme onda de exilados. Após anos de repressão e, depois, do chamado 'comunismo goulash', relativamente mais brando, de János Kádár, o regime desmoronou em 1989-1990. A Hungria recuperou a democracia, retirou as cercas de arame farpado da fronteira com a Áustria (um gesto-chave na queda da Cortina de Ferro) e Budapeste renasceu como uma das capitais mais bonitas e visitadas da Europa.
A beleza de Budapeste não é só impressão de quem a visita: ela é reconhecida pela humanidade inteira. Em 1987, a Unesco inscreveu em sua lista de Patrimônio Mundial as margens do Danúbio e o Bairro do Castelo de Buda, ampliando mais tarde a proteção para incluir a Avenida Andrássy e seu entorno. O conjunto reúne mais de dois mil anos de história e algumas das paisagens urbanas mais espetaculares da Europa: o panorama do Danúbio com o Parlamento neogótico, o Bastião dos Pescadores, a Igreja de Matias, a Cidadela no monte Gellért e as grandes pontes iluminadas ao anoitecer.
A cidade que hoje recebe milhões de viajantes combina esse patrimônio monumental com uma vida cultural intensa: a tradição dos banhos termais (Széchenyi, Gellért, Rudas, Király), os famosos 'ruin bars', ou bares em ruínas, do antigo bairro judeu, uma cena gastronômica em plena efervescência, festivais de música e uma vida noturna que a transformaram em um dos destinos preferidos da Europa Central.
Budapeste é também a grande porta de entrada para a Hungria e a região: daqui saem os passeios para a Curva do Danúbio (Szentendre, Visegrád, Esztergom), o lago Balaton, as regiões vinícolas de Eger e Tokaj e a grande planície do leste. Capital de um país pequeno com uma história imensa, a 'Pérola do Danúbio' resume como nenhuma outra cidade o cruzamento de povos, impérios e culturas que a Hungria sempre foi.