St. Louis, às margens do rio Mississippi, no estado do Missouri, é uma das cidades históricas mais importantes do Meio-Oeste americano. Conhecida como o 'Portal do Oeste' (Gateway to the West), foi no século XIX o grande ponto de partida dos pioneiros que se lançavam a colonizar o oeste americano. Hoje, seu símbolo indiscutível é o Gateway Arch, o elegante arco de aço inoxidável de 192 metros, o monumento do tipo mais alto do mundo, que domina a margem do rio.
Para o viajante, St. Louis oferece uma quantidade surpreendente de atrações, muitas delas gratuitas. O enorme Forest Park, maior que o Central Park de Nova York, abriga um zoológico, um museu de arte e um museu de história com entrada livre, herança da Exposição Universal de 1904. A cidade também é uma capital da cerveja (lar histórico da Anheuser-Busch), tem uma rica tradição de blues e ragtime, uma famosa cena de churrasco e costelinhas, e bairros cheios de personalidade como The Hill (italiano) e Soulard.
Este guia percorre o essencial de St. Louis com um olhar prático: o icônico Gateway Arch e seu museu, o legado da Exposição de 1904 no Forest Park, a cervejaria Anheuser-Busch, a catedral de mosaicos, a gastronomia local e como se locomover por uma cidade acessível, com muitas das suas melhores atrações sem custo de entrada.
Fundada em 1764 por comerciantes franceses de peles e batizada em homenagem ao rei Luís IX da França, St. Louis passou aos Estados Unidos com a Compra da Louisiana em 1803 e se tornou o grande ponto de partida rumo ao oeste, base da expedição de Lewis e Clark. Prosperou com o comércio fluvial do Mississippi e, em 1904, sediou uma célebre Exposição Universal e os Jogos Olímpicos, que deixaram uma marca profunda na cidade.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
St. Louis foi fundada em 1764 pelos comerciantes franceses Pierre Laclède e seu enteado Auguste Chouteau, que montaram um entreposto de comércio de peles na margem oeste do rio Mississippi, num ponto estratégico perto da confluência com o rio Missouri. A cidade recebeu esse nome em homenagem ao rei Luís IX da França (São Luís), canonizado no século XIII. Na época, a região fazia parte da Luisiana francesa, mas logo passou nominalmente para o controle espanhol após os acordos da Guerra dos Sete Anos.
O povoado prosperou graças ao lucrativo comércio de peles com os povos indígenas e à sua localização privilegiada na rede fluvial. Em 1803, a França (que tinha recuperado o território das mãos dos espanhóis) vendeu toda a Luisiana aos Estados Unidos na histórica Compra da Luisiana, que dobrou o tamanho do jovem país. St. Louis passou assim para as mãos americanas e virou a porta de entrada para os imensos territórios do oeste recém-adquiridos.
Foi da região de St. Louis que partiu, em 1804, a expedição de Lewis e Clark, enviada pelo presidente Thomas Jefferson para explorar e mapear as novas terras até o oceano Pacífico. Esse papel fundador como ponto de partida rumo ao desconhecido marcou a identidade de St. Louis como a 'Porta do Oeste'.
Muito antes da chegada dos franceses, a região onde hoje fica St. Louis foi o coração de uma das civilizações mais avançadas da América pré-colombiana ao norte do México: a cultura do Mississippi, cujo centro cerimonial e político, Cahokia, ficava logo do outro lado do rio, no que hoje é o estado de Illinois. No seu auge, mais ou menos entre os anos 1050 e 1200 d.C., Cahokia chegou a ter uma população estimada entre 10.000 e 20.000 habitantes, o que a colocava entre as maiores cidades do mundo naquela época, comparável a Londres ou Paris de então.
Cahokia se destacava por seus monumentais montes de terra (mounds), construídos à mão ao longo de gerações para fins cerimoniais, funerários e residenciais. O maior deles, Monks Mound, tem uma base maior que a da Grande Pirâmide de Gizé e continua de pé até hoje, protegido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco (Cahokia Mounds). A própria St. Louis, antes da urbanização moderna, tinha tantos montes que chegou a ganhar o apelido de 'Mound City', embora a maioria tenha sido destruída pelo crescimento urbano do século XIX.
Por motivos ainda debatidos pelos arqueólogos — possíveis secas, esgotamento de recursos, conflitos internos —, Cahokia entrou em decadência e foi abandonada por volta do século XIV, muito antes da chegada dos europeus. Quando os franceses fundaram St. Louis em 1764, a região era habitada por povos como os osage, mas o grande centro urbano pré-colombiano já não existia. Hoje, Cahokia Mounds, a poucos minutos do centro de St. Louis, lembra que a região foi berço de uma civilização indígena monumental muito antes de qualquer presença europeia.
Durante o século XIX, St. Louis viveu um crescimento explosivo, impulsionado por seu papel de grande ponto de partida da expansão para o oeste e de entroncamento do comércio fluvial. Milhares de pioneiros, colonos, garimpeiros e aventureiros passavam pela cidade para se abastecer antes de cruzar o Mississippi e se embrenhar na fronteira, por rotas como a Trilha do Oregon ou a Trilha de Santa Fé. St. Louis virou um movimentado centro de comércio, abastecimento e transporte.
A era dos barcos a vapor transformou o rio Mississippi numa grande artéria comercial, e St. Louis prosperou como porto fluvial-chave, ligando o norte industrial ao sul algodoeiro e ao oeste em expansão. A cidade também recebeu levas de imigrantes europeus, principalmente alemães e irlandeses, que trouxeram sua cultura, sua mão de obra e, no caso dos alemães, uma forte tradição cervejeira que daria origem a empresas como a Anheuser-Busch.
No fim do século, St. Louis era uma das maiores cidades dos Estados Unidos. A chegada da ferrovia e a construção da ponte Eads sobre o Mississippi (1874), uma façanha da engenharia, reforçaram sua importância. A cidade chegava ao auge do seu poder econômico e demográfico, posicionando-se como uma das grandes metrópoles do país às vésperas do novo século.
O ano de 1904 foi um dos mais marcantes da história de St. Louis. A cidade sediou a Louisiana Purchase Exposition, uma colossal Exposição Universal que comemorava o centenário da Compra da Luisiana e atraiu milhões de visitantes do mundo inteiro. No mesmo ano, St. Louis recebeu os Jogos Olímpicos, os primeiros realizados nos Estados Unidos. A feira, montada no Forest Park, deixou um legado duradouro na cidade, tanto em infraestrutura cultural (museus e instituições que existem até hoje) quanto no imaginário popular, e alimentou lendas como a origem da casquinha de sorvete e outras novidades gastronômicas.
Na primeira metade do século XX, St. Louis continuou entre as grandes cidades industriais do país. Porém, como muitas outras cidades do Meio-Oeste, a partir de meados do século sofreu um forte declínio: a suburbanização, a perda de indústrias e de população e os problemas urbanos esvaziaram boa parte da área central. A população caiu bastante desde o seu pico.
Em 1965 foi concluído o Gateway Arch, projetado por Eero Saarinen, que se tornou o símbolo definitivo da cidade e um monumento ao seu papel histórico como Porta do Oeste. Nas últimas décadas, St. Louis vem trabalhando para revitalizar o centro, a orla do rio e os bairros históricos, apoiando-se no seu rico patrimônio, na oferta cultural gratuita e na sua identidade como cidade da cerveja, do blues e dos pioneiros.
A segunda metade do século XX foi dura para St. Louis. Como muitas cidades industriais do chamado 'Rust Belt' (o cinturão industrial em decadência do norte e do meio-oeste), a cidade sofreu uma fuga em massa de moradores e de indústrias para os subúrbios e outras regiões do país: chegou a perder mais da metade dos habitantes desde o pico de 1950, um fenômeno conhecido como 'white flight' que, junto com políticas habitacionais discriminatórias (como o redlining), aprofundou a segregação racial e econômica entre a área central, de maioria negra e empobrecida, e os subúrbios.
Essas tensões históricas voltaram com força em 2014, quando o assassinato do jovem negro Michael Brown por um policial em Ferguson, um subúrbio da região metropolitana de St. Louis, desencadeou protestos em massa e colocou a região no centro de um debate nacional sobre violência policial e racismo estrutural nos Estados Unidos, contribuindo para o surgimento do movimento Black Lives Matter. O episódio expôs de forma dramática as profundas desigualdades raciais e econômicas que a cidade carregava desde o século XX.
Ao mesmo tempo, desde o começo do século XXI St. Louis vem promovendo diversos esforços de revitalização: a renovação da orla do rio e do entorno do Gateway Arch (com uma grande reforma concluída por volta de 2018), a recuperação de bairros históricos como Soulard e do próprio centro, e o aproveitamento do seu patrimônio cultural gratuito (Forest Park, seus museus) como atrativo turístico. A cidade ainda enfrenta desafios de despovoamento e desigualdade, mas também afirma com orgulho sua identidade como berço do blues e do ragtime, capital da cerveja e ponto de partida histórico da nação rumo ao oeste.