Santa Fe é a capital do Novo México e a capital estadual mais antiga dos Estados Unidos, fundada pelos espanhóis em 1610. A quase 2.200 metros de altitude, ao pé das montanhas Sangre de Cristo, é uma cidade única no país: os prédios de adobe cor de terra, a praça central de origem colonial e a mistura das culturas indígena, hispânica e anglo-americana dão a ela uma identidade que não se parece com a de nenhuma outra cidade americana.
Conhecida como 'a Cidade Diferente', Santa Fe é uma potência artística: tem uma das maiores concentrações de galerias e museus do país, com a famosa Canyon Road repleta de arte, o Museu Georgia O'Keeffe e um forte legado de arte indígena e do sudoeste. Somam-se a isso uma gastronomia própria baseada no chile vermelho e verde do Novo México, mercados, festivais e os pueblos vizinhos (comunidades indígenas) com séculos de história.
Este guia percorre o essencial de Santa Fe com um olhar prático: o que ver na praça histórica e nos museus, como explorar a Canyon Road e a cena artística, onde provar a cozinha novo-mexicana, quais pueblos e sítios históricos visitar nos arredores e quando ir. Santa Fe é um destino para caminhar sem pressa, ver arte, comer chile e mergulhar em uma das histórias coloniais mais antigas e vivas do país.
O vale era habitado por povos indígenas muito antes da chegada dos espanhóis, que fundaram a vila de Santa Fe por volta de 1610 como capital da província do Novo México, no extremo norte da Nova Espanha. Em 1680, a Revolta Pueblo expulsou os espanhóis, que reconquistaram a cidade em 1692. Depois passou a ser mexicana (1821), foi o ponto final do Caminho de Santa Fe e tornou-se americana entre 1846 e 1848. Essa longa história indígena, hispânica e anglo-americana define o seu caráter. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The 'Land of Enchantment': millennia-old cradle of the Pueblo peoples, the Navajo and the Apache, the oldest Hispanic heritage in the country, setting of the successful Pueblo Revolt of 1680, of the art of Santa Fe and of the atomic age born at Los Alamos.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Em 1680, enquanto os colonos ingleses mal começavam a criar raízes na costa leste, Santa Fe já era havia setenta anos a capital de uma província espanhola remota e áspera. Naquele ano aconteceu algo quase único na história da América: os povos indígenas se rebelaram, sitiaram a cidade e expulsaram os espanhóis por mais de uma década. Santa Fe é, assim, uma cidade de recordes e paradoxos (a capital estadual mais antiga dos Estados Unidos, palco da rebelião indígena mais bem-sucedida do continente), e sua história começa muito antes dos turistas e das galerias de arte.
Quando os espanhóis chegaram ao norte do Novo México, o vale do rio Santa Fe já era habitado havia séculos por povos indígenas, com aldeias ao longo dos rios. Nesse território, o governador dom Pedro de Peralta fundou por volta de 1610 a vila de Santa Fe, cujo nome completo era 'La Villa Real de la Santa Fe de San Francisco de Asís', como capital da província do Novo México, no extremo norte do vice-reino da Nova Espanha.
Isso faz de Santa Fe a capital estadual mais antiga dos Estados Unidos e uma das cidades de fundação europeia mais antigas do país, anterior a muitas das colônias inglesas da costa leste. A vila foi organizada em torno de uma praça central, seguindo o modelo urbano espanhol. Essa praça era o ponto final do Camino Real de Tierra Adentro, a longa rota que a ligava à Cidade do México.
Nesse mesmo período foi erguido o Palácio dos Governadores, sede do governo colonial, considerado o edifício público em uso contínuo mais antigo dos Estados Unidos. A colônia era remota, dura e dependente do comércio pelo Camino Real. A convivência entre colonos espanhóis, missionários franciscanos e os povos indígenas foi marcada pela evangelização forçada e pela exploração do trabalho nativo, tensões que logo explodiriam em uma das rebeliões indígenas mais bem-sucedidas da história americana.
O episódio mais dramático da história colonial de Santa Fe foi a Revolta Pueblo (Pueblo Revolt) de 1680. Cansados da imposição religiosa, dos castigos e do trabalho forçado, os povos indígenas do Novo México se uniram em uma insurreição coordenada sob a liderança de um líder espiritual conhecido como Popé (Po'pay), do pueblo de Ohkay Owingeh. Foi uma rebelião notável pelo sucesso e pelo alcance: raramente os povos originários conseguiram uma vitória tão completa contra os colonizadores europeus.
Os rebeldes sitiaram Santa Fe, cortaram a água e obrigaram os espanhóis a fugir para o sul, rumo à região de El Paso. Por mais de uma década, os pueblos retomaram o controle de seu território e da própria capital, onde chegaram a transformar o Palácio dos Governadores. Foi um dos poucos períodos em que um território colonizado voltou às mãos indígenas.
A reconquista espanhola veio em 1692, liderada por dom Diego de Vargas, que retomou Santa Fe em parte por negociação e em parte pela força. A cidade voltou a ser capital colonial, mas a experiência de 1680 mudou as coisas: a administração espanhola passou a ser um pouco mais tolerante com as práticas indígenas. Aquele choque, e a convivência que veio depois entre o espanhol e o pueblo, é uma das raízes da identidade mestiça e multicultural que define Santa Fe até hoje. A 'Fiesta de Santa Fe' comemora todos os anos, não sem polêmica, a reconquista de 1692.
Quando o México conquistou a independência da Espanha, em 1821, Santa Fe passou a fazer parte do novo país e, naquele mesmo ano, começou um dos capítulos mais célebres de sua história comercial: a Trilha de Santa Fe (Santa Fe Trail). Essa lendária rota de carroças ligava a cidade ao Missouri, no leste dos Estados Unidos, e transformou Santa Fe em um movimentado ponto de comércio internacional, onde se trocavam mercadorias entre o mundo mexicano e o anglo-americano. A praça era o destino final das caravanas.
O domínio mexicano durou pouco. Durante a guerra entre os Estados Unidos e o México, as tropas americanas ocuparam Santa Fe em 1846 praticamente sem resistência e, com o Tratado de Guadalupe Hidalgo de 1848, o Novo México passou à soberania americana. Santa Fe continuou como capital, primeiro do Território do Novo México e, a partir de 1912, do novo estado do Novo México, o 47º da União.
A segunda metade do século XIX trouxe mudanças: a chegada da ferrovia (que passou perto, mas não pelo centro), a influência do arcebispo Jean-Baptiste Lamy, que impulsionou a construção da catedral de estilo europeu, e a presença anglo-americana cada vez maior. Mas, diferentemente de outras cidades do oeste, Santa Fe não se 'americanizou' por completo: manteve sua praça, seu adobe e sua mistura hispano-indígena. No início do século XX, isso a tornaria um ímã para artistas e, mais tarde, um dos destinos culturais mais singulares do país.
No início do século XX, Santa Fe tomou uma decisão que definiria seu futuro: em vez de modernizar sua aparência, escolheu se reinventar a partir da própria herança. A cidade promoveu deliberadamente o chamado 'Pueblo Revival' ou 'estilo Santa Fe', uma estética arquitetônica inspirada no adobe dos pueblos indígenas e das missões espanholas, que com o tempo passou a ser regulada por lei no centro histórico. É por isso que quase todos os prédios exibem aquela inconfundível cor de terra.
Essa aposta na identidade e na paisagem atraiu uma colônia de artistas e escritores. Pintores fascinados pela luz e pelas paisagens do deserto, como Georgia O'Keeffe (que se instalaria no norte do Novo México e captaria como ninguém suas formas e cores), ajudaram a construir a fama de Santa Fe como capital da arte do sudoeste. A vizinha colônia de Taos seguiu um caminho parecido.
Ao longo do século XX e até hoje, Santa Fe se consolidou como uma potência cultural muito maior do que o seu tamanho sugere: tem um dos maiores mercados de arte dos Estados Unidos, dezenas de galerias (Canyon Road), grandes museus, uma ópera ao ar livre de prestígio internacional e eventos como o Santa Fe Indian Market, o maior de arte indígena do país. Capital antiga, cidade de adobe, encruzilhada de três culturas e meca da arte: Santa Fe é um daqueles lugares onde a história não é cenário, e sim a própria substância da vida cotidiana.