Brno é a grande cidade que quase ninguém tem no radar e que surpreende todo mundo que desce do trem. Capital da Morávia e segunda maior cidade da Tchéquia, é o oposto da Praga de cartão-postal: uma cidade universitária, jovem, com pátios escondidos, cervejarias lotadas e uma densidade de história e arquitetura que não acaba nunca. Num passeio, você vai de uma catedral gótica a uma fortaleza que foi a prisão mais temida do Império Austríaco, de um ossuário com dezenas de milhares de esqueletos a uma villa funcionalista que mudou a história da arquitetura mundial.
Porque Brno guarda tesouros de primeira linha. A Villa Tugendhat, obra-prima de Mies van der Rohe de 1930, é Patrimônio da Unesco e uma das casas mais influentes do século XX (e precisa ser reservada com dois meses de antecedência). A fortaleza de Špilberk, no alto da colina, foi o calabouço onde o império trancava seus inimigos, entre eles os patriotas italianos do Risorgimento. O ossuário de São Tiago é o segundo maior da Europa, depois das catacumbas de Paris. E numa abadia de Brno Velho, um monge chamado Gregor Mendel cultivou ervilhas e, sem saber direito, fundou a genética.
Este guia percorre Brno com um olhar prático e curioso: o que ver no centro histórico, como reservar a Villa Tugendhat a tempo, por que os sinos da catedral tocam o meio-dia às onze, onde está o crocodilo pendurado na Antiga Prefeitura, como se locomover de bonde e que passeios fazer a Austerlitz ou aos vinhedos. Brno é mais barata, mais autêntica e mais tranquila que Praga, com uma cena gastronômica e de cafés em plena ascensão. Um destino perfeito para quem quer uma Tchéquia com menos multidões e mais vida real.
Brno cresceu na Idade Média em torno de um cruzamento de rotas comerciais e de um castelo, e em 1243 recebeu direitos de cidade real. Durante séculos foi praça-forte dos Habsburgo: sua fortaleza de Špilberk resistiu ao cerco sueco de 1645 durante a Guerra dos Trinta Anos e, mais tarde, tornou-se a prisão mais dura do Império Austríaco, onde foram presos carbonários italianos como Silvio Pellico. A 20 km da cidade, em Austerlitz (hoje Slavkov u Brna), Napoleão venceu em 1805 a 'batalha dos Três Imperadores'. No século XIX, Brno se industrializou tanto com o setor têxtil que foi apelidada de 'a Manchester da Morávia'. Na abadia de São Tomás, o monge Gregor Mendel realizou entre 1856 e 1863 seus experimentos com ervilhas que fundaram a genética, embora seu valor só tenha sido reconhecido em 1900. Entre as guerras, Brno foi a capital do funcionalismo arquitetônico, com a Villa Tugendhat (1930) como símbolo. A ocupação nazista destruiu a comunidade judaica e, em 1945, a expulsão da população de língua alemã resultou na trágica 'marcha da morte de Brno'. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The other Czech land: cradle of Great Moravia and of Cyril and Methodius, with Olomouc and its old archbishopric, Brno and Mendel's garden, Renaissance Telč, the southern vineyards and the designed landscape of Lednice-Valtice.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Brno nasceu onde tinha que nascer: num cruzamento de caminhos entre a Boêmia, a Áustria e a Hungria, no ponto onde se encontram os rios Svratka e Svitava, uma passagem obrigatória para o comércio da Europa Central. Já havia assentamentos na Antiguidade e no início da Idade Média, mas a Brno histórica se consolidou como vila medieval em torno de um mercado e de um castelo. Em 1243 recebeu o privilégio de cidade real, um estatuto que lhe dava autonomia e direitos e que marcou o começo de sua ascensão como uma das principais cidades da Morávia, em rivalidade e complemento com Olomouc.
No alto de uma colina que domina a cidade, o rei Přemysl Otakar II mandou erguer no século XIII o castelo de Špilberk, que com o passar dos séculos se transformaria numa imponente fortaleza. Aos pés do castelo, a cidade murada cresceu com suas igrejas góticas — São Tiago, São Pedro e São Paulo na colina de Petrov —, suas praças de mercado como o Zelný trh (o mercado das verduras) e suas casas de mercadores. Brno ganhou fama de praça-forte, capaz de resistir a cercos, uma reputação que seria posta à prova da forma mais dramática no século XVII.
Durante a Idade Média e o início da Era Moderna, Brno foi uma cidade de artesãos, comerciantes e ordens religiosas, com uma população mista de tchecos, alemães e uma comunidade judaica. Essa convivência de línguas e culturas, típica das cidades da Europa Central, seria uma marca registrada de Brno até bem dentro do século XX — e também a origem de algumas de suas páginas mais luminosas e das mais sombrias.
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) colocou Brno no mapa da história militar europeia. Em 1645, já perto do fim da guerra, o exército sueco do general Lennart Torstensson, que havia arrasado boa parte das terras tchecas, sitiou Brno. A cidade, defendida por uma guarnição pequena sob o comando de Raduit de Souches e pelos próprios moradores, resistiu durante meses a um cerco duríssimo. No fim, os suecos, incapazes de tomá-la, se retiraram. Desse episódio nasceu a lenda mais querida de Brno: dizem que Torstensson havia prometido levantar o cerco se não conquistasse a cidade antes do meio-dia de 15 de agosto, e que os defensores tocaram os sinos do meio-dia uma hora antes, às onze, para enganá-lo. Desde então, em lembrança da façanha, os sinos da catedral de Petrov anunciam o meio-dia às onze, todos os dias. Muitos dos mortos daqueles anos de guerra e das epidemias que vieram com ela foram parar no enorme ossuário que hoje se conserva sob a igreja de São Tiago, o segundo maior da Europa.
O prestígio militar do Špilberk o transformou, no século XVIII, em algo mais sinistro. Em 1783 o imperador José II converteu a fortaleza em prisão para os criminosos mais perigosos e os inimigos políticos de toda a monarquia dos Habsburgo. O Špilberk passou a ser conhecido como o calabouço mais duro do Império Austríaco, um lugar temido em toda a Europa. Em suas casamatas úmidas e escuras foram presos criminosos comuns, como o lendário bandido Václav Babinský, mas sobretudo presos políticos.
Entre eles, os mais célebres foram os carbonários italianos, membros das sociedades secretas que lutavam pela liberdade e pela unificação da Itália contra o domínio austríaco. O mais famoso foi o escritor Silvio Pellico, preso no Špilberk durante anos; ao sair, escreveu 'Le mie prigioni' ('Minhas prisões'), um relato comovente do seu cativeiro que virou sucesso europeu e uma denúncia contra a opressão austríaca — a ponto de se dizer que fez mais mal à Áustria do que uma batalha perdida. Napoleão, ao passar pela região, havia mandado desmantelar parte das fortificações; a função de prisão, porém, sobreviveu até o século XX.
Em 2 de dezembro de 1805, a uns vinte quilômetros a leste de Brno, nos campos de Austerlitz — hoje a cidade tcheca de Slavkov u Brna —, Napoleão conquistou aquela que muitos consideram sua vitória mais brilhante. A batalha de Austerlitz, conhecida como 'a batalha dos Três Imperadores' porque no campo estavam as coroas da França, da Áustria e da Rússia, colocou frente a frente a Grande Armée napoleônica e os exércitos combinados do imperador austríaco Francisco I e do czar Alexandre I da Rússia. Com uma manobra de mestre, Napoleão atraiu o inimigo para uma armadilha e o esmagou, selando o fim da Terceira Coligação. Napoleão instalou seu quartel-general em Brno antes e depois da batalha, e a memória de Austerlitz — com seu monumento da Mohyla míru, o Túmulo da Paz — segue viva na região, que todo ano revive a batalha com recriações históricas.
O século XIX transformou Brno de outra maneira, menos sangrenta mas igualmente profunda: a industrialização. A cidade se tornou o grande centro têxtil do Império Austro-Húngaro, especializado em lã, com dezenas de fábricas e chaminés que tomaram conta dos bairros. A produção de Brno era exportada para o mundo inteiro, e a cidade ganhou o apelido de 'a Manchester da Morávia', em referência ao berço inglês da Revolução Industrial. Empresários e barões têxteis — muitos deles da comunidade de língua alemã e judaica — fizeram fortunas, e Brno se encheu de fábricas, operários, ferrovias e uma nova burguesia industrial. Até os anos 1930 foi um dos motores da economia tcheca.
Esse auge industrial e comercial trouxe dinheiro, gente e ambição, e preparou o terreno para que Brno se tornasse, já no século XX, um laboratório de modernidade arquitetônica. Mas antes, no jardim tranquilo de um mosteiro da cidade, um monge tinha feito em silêncio uma das descobertas científicas mais importantes da história.
Na abadia agostiniana de São Tomás, na Velha Brno, vivia em meados do século XIX um monge chamado Gregor Johann Mendel (1822-1884). Entre 1856 e 1863, na horta do mosteiro, Mendel cultivou e cruzou milhares de pés de ervilha, anotando com paciência meticulosa como características como a cor, a forma ou a altura passavam de uma geração para outra. Desses experimentos ele deduziu as leis matemáticas da hereditariedade — as que hoje chamamos de leis de Mendel —, lançando sem querer as bases da genética moderna.
Mendel apresentou e publicou seus resultados em 1865 e 1866 diante da sociedade de naturalistas de Brno, mas o mundo científico não entendeu o alcance do que ele tinha descoberto. Eleito abade do convento, passou a se dedicar às tarefas religiosas, à meteorologia e à apicultura, e morreu em 1884 sem reconhecimento. Só em 1900, dezesseis anos depois de sua morte, três botânicos redescobriram suas leis de forma independente e lhe devolveram o lugar que era seu: o de pai da genética. Hoje a abadia abriga o Museu Mendel, e sua história é a de um gênio humilde e incompreendido cuja semente germinou meio século depois.
No período entreguerras, a próspera Brno industrial se tornou uma das capitais mundiais do funcionalismo, a corrente da arquitetura moderna que buscava a beleza na função e na economia de meios. A cidade se encheu de edifícios de linhas limpas, e seu grande símbolo foi a Villa Tugendhat, projetada pelo arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe e construída entre 1929 e 1930 para o casal de industriais judeus Greta e Fritz Tugendhat. Com sua planta livre, suas paredes de vidro que desaparecem e seus materiais nobres, a casa revolucionou a arquitetura residencial e virou um ícone do Movimento Moderno; em 2001 foi declarada Patrimônio Mundial pela Unesco. Naqueles anos Brno, já capital administrativa da Morávia dentro da nova Tchecoslováquia surgida em 1918, era uma cidade moderna, próspera e cosmopolita, com tchecos, alemães e uma vibrante comunidade judaica.
A ocupação nazista, que começou em 1939 com a criação do Protetorado da Boêmia e Morávia, quebrou para sempre essa convivência. A comunidade judaica de Brno, numerosa e enraizada havia séculos, foi perseguida, espoliada e, em sua imensa maioria, deportada para os campos de extermínio e assassinada no Holocausto. Os Tugendhat, judeus, já tinham precisado fugir em 1938; a casa foi confiscada e usada pela Gestapo. A guerra também deixou destruição física: os bombardeios e os combates de 1944-1945 danificaram parte da cidade, até que o Exército Vermelho a libertou em abril de 1945.
O fim da guerra trouxe uma nova tragédia, desta vez para a população de língua alemã. No clima de vingança e de expulsão dos alemães que se seguiu à derrota nazista em toda a Tchecoslováquia, no fim de maio de 1945 várias dezenas de milhares de moradores de língua alemã de Brno — em sua maioria mulheres, idosos e crianças, já que muitos homens estavam presos ou mortos — foram obrigados a deixar a cidade a pé e marchar uns cinquenta quilômetros rumo ao sul, em direção à fronteira austríaca. No que ficou conhecido como a 'marcha da morte de Brno', muitos morreram de exaustão, fome e doença no caminho e no campo de trânsito de Pohořelice. O número de vítimas foi muito debatido: as contagens mais rigorosas, baseadas nos registros de óbito, apontam cerca de 650 mortos em território tcheco, bem abaixo das estimativas mais altas que circularam durante décadas. Foi um dos episódios mais sombrios do pós-guerra tchecoslovaco, hoje lembrado com atos de memória e reconciliação.
Sob o regime comunista (1948-1989), Brno continuou sendo uma cidade industrial e de feiras — seu centro de exposições é um dos mais importantes da Europa Central —, e muitas de suas fábricas têxteis entraram em declínio. A Revolução de Veludo de 1989 trouxe a democracia de volta, e em 1992 a Villa Tugendhat voltou à história como um dos cenários onde se negociou a separação pacífica da Tchéquia e da Eslováquia, concretizada em 1993.
A Brno de hoje é uma cidade de uns 380.000 habitantes, a segunda maior do país, jovem e universitária (com dezenas de milhares de estudantes), com uma economia voltada para tecnologia, pesquisa e serviços. Recuperou e restaurou seus tesouros — a Villa Tugendhat reabriu em 2012, e o ossuário de São Tiago foi aberto ao público no mesmo ano —, desenvolveu uma cena de cafés e gastronomia muito animada e se apoia em seus vinhedos morávios e no circuito de Masaryk, que em 2025 recuperou o Grande Prêmio de motociclismo. Menos turística e mais autêntica que Praga, Brno oferece uma Tchéquia de história densa, arquitetura moderna e vida real.