Há cidades que parecem pequenas e, no entanto, guardam uma história enorme. Kutná Hora é uma delas. A pouco mais de uma hora de Praga, esta cidadezinha de ruas de paralelepípedo e casas góticas foi, nos séculos XIII e XIV, uma das cidades mais ricas e populosas da Boêmia, rival direta da capital. O segredo? A prata. Sob suas ruas estava uma das jazidas de prata mais importantes da Europa medieval, e dessas minas saía a moeda — o famoso 'groschen de Praga' — que sustentou todo o reino.
Essa riqueza deixou um patrimônio extraordinário, que hoje é Patrimônio Mundial da Unesco. A catedral de Santa Bárbara, dedicada justamente à padroeira dos mineiros, é uma obra-prima do gótico tardio, com suas abóbadas de nervuras estreladas e seus arcobotantes que parecem renda de pedra. Nos arredores, no bairro de Sedlec, fica um dos lugares mais impactantes do país: o Ossário, uma capela decorada com os ossos de dezenas de milhares de pessoas, incluindo um lustre feito inteiramente de restos humanos.
Este guia percorre Kutná Hora com calma e carinho: como chegar a partir de Praga, como combinar o ossário de Sedlec com o centro, quais ingressos vale a pena comprar, onde comer e por que vale a pena, se você puder, dormir na cidade para vivê-la sem as multidões. É um dos passeios mais recomendáveis de toda a Tchéquia e uma forma diferente de entender o passado medieval do coração da Europa.
Kutná Hora nasceu no fim do século XIII em torno da descoberta de ricas jazidas de prata. A exploração atraiu mineiros alemães e boêmios, e o lugar cresceu numa velocidade impressionante. Em 1300, o rei Venceslau II promulgou o Ius regale montanorum (um código de mineração pioneiro) e unificou a cunhagem do reino na Corte Italiana (Vlašský dvůr) de Kutná Hora, onde se cunhou o groschen de Praga (Pražský groš), uma das moedas de prata mais prestigiadas da Europa. A cidade chegou a ser a segunda mais importante da Boêmia, depois de Praga, e financiou a construção de igrejas e palácios. No século XV, foi palco das guerras hussitas. Sua catedral de Santa Bárbara, iniciada por volta de 1388 e inspirada em parte na oficina de Peter Parler (o arquiteto da catedral de São Vito, em Praga), simboliza o orgulho dos mineiros. O esgotamento dos veios e, sobretudo, a Guerra dos Trinta Anos no século XVII marcaram a decadência: as minas fecharam e a casa da moeda deixou de funcionar em 1727. O extraordinário ossário de Sedlec, numa capela do antigo mosteiro cisterciense, foi decorado com milhares de ossos a partir do fim do século XVIII pelo entalhador František Rint. Em 1995, o centro histórico de Kutná Hora com a catedral de Santa Bárbara e a igreja da Assunção da Virgem Maria de Sedlec foi inscrito na lista do Patrimônio Mundial da Unesco. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The political and spiritual heart of Czechia: the imperial Prague of Charles IV, the city of Jan Hus and of the defenestrations, Kafka's old Jewish ghetto, the stage of 1968 and of the Velvet Revolution, and the medieval silver of Kutná Hora.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Kutná Hora está escrita, literalmente, em prata. Até o século XIII, a região era apenas uma paisagem de florestas e pequenas aldeias em torno do mosteiro cisterciense de Sedlec, fundado em 1142. Tudo mudou quando, no fim daquele século, foram descobertos ricos filões de prata nessas colinas. A notícia se espalhou como fogo pela Europa Central e desencadeou uma verdadeira 'febre da prata': mineiros, comerciantes e aventureiros, muitos deles de língua alemã, chegaram em massa para tentar a sorte.
Em poucas décadas, ao redor dos poços de mineração cresceu um povoado desordenado e cheio de vida, que acabou virando cidade. O próprio nome, Kutná Hora, faz referência a essa atividade: 'hora' significa 'montanha' ou 'monte' em tcheco, mas também remete ao trabalho nas minas, e 'kutná' está ligado à palavra para o hábito com capuz dos monges ou, segundo outras interpretações, ao ato de escavar (kutat). A cidade nasceu, então, da terra revirada e da riqueza que escondia sob os pés.
A exploração era extraordinariamente intensa: acredita-se que as minas de Kutná Hora chegaram a produzir uma parcela enorme de toda a prata da Europa em seu auge. Essa abundância transformou rapidamente a cidade em um centro econômico de primeira linha dentro do reino da Boêmia, capaz de financiar igrejas, palácios e obras monumentais, e de atrair a atenção direta da coroa.
O grande salto de Kutná Hora veio pelas mãos do rei Venceslau II da Boêmia. No ano de 1300, o monarca tomou duas decisões que mudariam a história econômica do reino e fariam de Kutná Hora o seu coração monetário. A primeira foi promulgar o Ius regale montanorum, um código de mineração completíssimo que regulava a propriedade, a exploração das minas, os direitos dos mineiros e a participação da coroa. Era uma das legislações de mineração mais avançadas da Europa da época e serviu de modelo em outros países.
A segunda decisão foi centralizar toda a cunhagem de moedas do reino em Kutná Hora, em um edifício que passaria a se chamar Corte Italiana (Vlašský dvůr). O nome se deve aos especialistas em cunhagem vindos de Florença ('os italianos'), a quem o rei confiou a reforma. Ali começou a ser cunhado o grosso de Praga (Pražský groš), uma sólida moeda de prata que se tornou uma das divisas mais respeitadas da Europa Central durante séculos, aceita em mercados muito distantes.
A Corte Italiana foi, ao mesmo tempo, casa da moeda e residência real. A riqueza da prata e o controle da moeda deram a Kutná Hora um enorme poder político: a cidade se tornou a segunda da Boêmia, depois de Praga, e seus assuntos interessavam diretamente ao rei. A prata de Kutná Hora financiou boa parte da coroa boêmia e transformou a região em uma das mais prósperas do continente.
Durante os séculos XIV e XV, Kutná Hora viveu sua época de ouro. Era uma cidade rica, populosa e orgulhosa, que em muitos aspectos rivalizava com a própria Praga. Os burgueses enriquecidos com a prata ergueram casas de pedra, fundaram instituições e financiaram obras de arte. O símbolo máximo desse orgulho foi a construção da catedral de Santa Bárbara, dedicada à padroeira dos mineiros, cujas obras começaram por volta de 1388.
Não era por acaso que os moradores de Kutná Hora queriam uma catedral à altura da de São Vito, em Praga. Na verdade, a direção da obra esteve ligada à oficina de Peter Parler, o mesmo grande mestre de São Vito, e mais tarde atuaram arquitetos do calibre de Matěj Rejsek e Benedikt Ried, autor das espetaculares abóbadas de nervuras. A catedral foi, durante séculos, uma declaração de poder e devoção de uma cidade que vivia da prata e que se confiava a Santa Bárbara para se proteger dos perigos da mina.
Kutná Hora também foi palco da história política e religiosa da Boêmia. No século XV, durante as guerras hussitas que abalaram o reino, a cidade — de maioria católica e com forte população de origem alemã — enfrentou os hussitas, e a região viveu episódios muito violentos. As tensões religiosas, as guerras e as primeiras dificuldades nas minas começaram a anunciar que aquela prosperidade não seria eterna.
Como toda riqueza baseada em um recurso natural, a de Kutná Hora tinha limite. Ao longo do século XVI, os veios de prata mais acessíveis começaram a se esgotar, e extrair o metal ficou cada vez mais difícil e caro: era preciso cavar a profundidades enormes, lutar contra a inundação das galerias e enfrentar problemas técnicos para os quais a época não tinha solução. A produção de prata, antes fabulosa, foi caindo de forma irreversível.
A isso se somaram as catástrofes históricas. A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que devastou boa parte da Europa Central e especialmente as terras tchecas, atingiu duramente Kutná Hora com saques, epidemias e crise econômica. A cidade, que tinha sido a segunda da Boêmia, foi perdendo população, importância e esplendor. A casa da moeda real, que durante séculos havia cunhado a moeda do reino na Corte Italiana, finalmente encerrou suas atividades: a produção de moedas terminou em 1727.
Kutná Hora se tornou, assim, uma cidade provinciana que vivia à sombra de seu passado glorioso. Paradoxalmente, essa decadência ajudou a preservar seu patrimônio: sem o dinamismo econômico para demolir e reconstruir, a cidade conservou seu traçado medieval, suas igrejas góticas e suas casas históricas quase intactos. O que foi uma desgraça econômica virou, séculos depois, seu maior tesouro turístico e cultural.
Um dos capítulos mais singulares da história de Kutná Hora não foi escrito com prata, e sim com ossos. Tudo começou em 1278, quando Henrique (Jindřich), abade do mosteiro cisterciense de Sedlec, foi enviado à Terra Santa e, segundo a tradição, trouxe de volta um punhado de terra do Gólgota, o monte da crucificação em Jerusalém. O abade espalhou essa terra sagrada sobre o cemitério do mosteiro, o que transformou o local em um dos lugares mais cobiçados para ser enterrado em toda a Europa Central.
Nos séculos seguintes, as grandes epidemias de peste negra (sobretudo a do século XIV) e as guerras hussitas do século XV encheram esse cemitério com dezenas de milhares de corpos. O espaço ficou pequeno, e os ossos exumados para abrir lugar a novos sepultamentos foram se acumulando em uma capela. Durante muito tempo, esses restos ficaram simplesmente empilhados, formando montanhas de ossos.
A transformação em obra de arte veio no século XIX. Por volta de 1870, a família Schwarzenberg, proprietária do lugar, encarregou o entalhador František Rint de organizar e decorar o ossário. Com os restos de 40.000 a 70.000 pessoas, Rint criou as composições que hoje impressionam o visitante: guirlandas de crânios, pirâmides de ossos, o brasão dos Schwarzenberg e, principalmente, um grande lustre que, dizem, inclui pelo menos um exemplar de cada osso do corpo humano. O próprio Rint deixou sua assinatura feita com ossos. O resultado é um memento mori arrepiante, que se tornou um dos lugares mais visitados da República Tcheca.
O reconhecimento definitivo do valor de Kutná Hora veio em 1995, quando a Unesco incluiu em sua lista de Patrimônio Mundial o sítio formado pelo centro histórico da cidade, junto com a catedral de Santa Bárbara e a igreja (catedral) da Assunção da Virgem Maria em Sedlec. A distinção reconhece o conjunto excepcionalmente bem conservado de uma cidade mineira medieval que foi, em seu auge, uma das mais ricas da Europa, e o extraordinário patrimônio gótico que essa riqueza tornou possível.
A inscrição valorizou especialmente a catedral de Santa Bárbara, obra-prima do gótico tardio centro-europeu, e a igreja da Assunção de Sedlec, magnífico exemplo do singular estilo 'gótico barroco' do arquiteto Jan Blažej Santini-Aichel, que a reconstruiu no início do século XVIII respeitando as formas góticas originais. O traçado urbano medieval, as casas históricas e os vestígios da mineração completam uma paisagem urbana de altíssimo valor.
Hoje, Kutná Hora é um dos bate-voltas preferidos a partir de Praga, da qual fica a pouco mais de uma hora de trem. Todo ano recebe multidões que vêm, sobretudo, ver o famoso Ossário de Sedlec e a catedral de Santa Bárbara. A cidade soube preservar seu caráter: fora dos horários de pico das excursões, suas ruas de paralelepípedo, suas praças e seus cantinhos recuperam a calma de uma cidadezinha histórica que guarda, em cada pedra, a memória da prata que um dia a fez rival da capital do reino.