St. John's é uma das cidades mais singulares e cativantes do Canadá: a cidade mais oriental da América do Norte, debruçada sobre o Atlântico no extremo da ilha de Terra Nova, e uma das mais antigas de origem europeia do continente. Ela sobe pelas colinas que cercam um porto natural protegido, cuja entrada é um desfiladeiro estreito chamado The Narrows, guardado lá do alto por Signal Hill. Suas casas de cores intensas — a célebre Jellybean Row — e seu clima de cidade do interior grande a tornam inconfundível.
O que encanta em St. John's, além da paisagem, é a cultura. Isolada durante séculos em sua ilha, Terra Nova desenvolveu uma identidade própria, de raiz majoritariamente irlandesa e inglesa, com um sotaque característico, uma rica tradição musical (muita música celta) e um humor caloroso e autoirônico. A hospitalidade do povo é lendária, e a George Street, uma ruazinha lotada de pubs, se gaba de ter uma das maiores concentrações de bares por metro quadrado da América do Norte.
Este guia percorre St. John's com um olhar prático e acolhedor: como subir a Signal Hill e chegar a Cape Spear (o ponto mais oriental do continente), quando ver icebergs e baleias, quais bairros explorar, onde ouvir música ao vivo e comer peixe, e como aproveitar a cidade como base para a península de Avalon. É um destino para quem busca natureza atlântica selvagem, história marítima e uma das culturas locais mais calorosas e peculiares de todo o Canadá.
As águas em frente a Terra Nova, os Grand Banks, eram um dos pesqueiros de bacalhau mais ricos do mundo, e isso definiu a história de St. John's desde o início. A região era território de povos indígenas, entre eles os beothuk (hoje extintos) e, mais tarde, os mi'kmaq. Os vikings chegaram a Terra Nova por volta do ano 1000 (em L'Anse aux Meadows), mas a St. John's europeia nasce da pesca: ao longo do século XVI, pescadores portugueses, espanhóis, franceses e ingleses frequentavam seu porto natural, considerado um dos assentamentos de origem europeia mais antigos da América do Norte. Em 1583, Sir Humphrey Gilbert reivindicou formalmente Terra Nova para a Coroa inglesa em St. John's, no que costuma ser citado como o início do Império Britânico ultramarino. Durante séculos, a cidade e a ilha viveram do bacalhau e foram palco da rivalidade entre Inglaterra e França, com ataques, ocupações e a batalha de Signal Hill (1762), o último confronto da Guerra dos Sete Anos na América do Norte. Signal Hill teve papel fundamental nas comunicações marítimas, e foi ali, em 1901, que Guglielmo Marconi recebeu o primeiro sinal de rádio transatlântico da história. Terra Nova foi colônia e depois domínio britânico com governo próprio, e só em 1949 se uniu ao Canadá como sua décima província, a última a ser incorporada. A crise do bacalhau e a moratória da pesca de 1992 atingiram duramente sua economia tradicional, que com o tempo se voltou para o petróleo offshore, os serviços e o turismo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The easternmost province and the last to join Canada: land of the Beothuk and the Inuit, of the first Viking settlement in the Americas, of the epic of the cod and of the geological peaks of Gros Morne.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existir qualquer cidade, a ilha de Terra Nova era habitada por povos indígenas. O mais associado à ilha são os beothuk, um povo que vivia da caça, da pesca e da coleta, e que costumava cobrir o corpo e os objetos com ocre vermelho (o que pode ter dado origem, segundo algumas teorias, ao apelido 'peles-vermelhas' aplicado aos povos americanos). Tragicamente, os beothuk se extinguiram como povo no começo do século XIX, pressionados pela colonização europeia, pelas doenças e pela perda de seus territórios. Mais tarde, os mi'kmaq também se instalaram em partes da ilha.
Terra Nova tem ainda a honra de abrigar o assentamento europeu mais antigo conhecido da América: por volta do ano 1000, os vikings (nórdicos) chegaram a L'Anse aux Meadows, no extremo norte da ilha, onde montaram um acampamento. Aquele contato foi passageiro e não teve continuidade, mas confirma que os europeus pisaram em Terra Nova meio milênio antes de Colombo.
O que de fato atraiu os europeus em massa, porém, não foi a conquista, e sim o peixe. Diante de Terra Nova ficam os Grandes Bancos (Grand Banks), uma vasta plataforma submarina que era uma das áreas de pesca de bacalhau mais ricas do mundo. A fama dessas águas, capazes de alimentar a Europa com bacalhau salgado, seria o verdadeiro motor da história de St. John's.
O nascimento de St. John's está diretamente ligado ao bacalhau. Ao longo do século XVI, seu excelente porto natural — protegido por colinas e com uma entrada estreita e fácil de defender, The Narrows — virou parada habitual das frotas pesqueiras europeias que trabalhavam nos Grandes Bancos: pescadores portugueses, espanhóis, franceses e, sobretudo, ingleses, que chegavam no verão, secavam e salgavam o bacalhau em terra e voltavam para a Europa. Pela sua antiguidade como ponto de parada e assentamento sazonal, St. John's é considerada um dos assentamentos de origem europeia mais antigos da América do Norte.
Uma data-chave na sua história é 1583. Naquele ano, o navegador e aventureiro inglês Sir Humphrey Gilbert chegou ao porto de St. John's e, em nome da rainha Elizabeth I da Inglaterra, reivindicou formalmente Terra Nova para a Coroa inglesa. Esse ato costuma ser citado como um dos momentos fundadores do Império Britânico ultramarino: a primeira possessão inglesa proclamada do outro lado do Atlântico. Gilbert morreria pouco depois, na viagem de volta, quando seu navio afundou.
Durante muito tempo, as autoridades inglesas viram Terra Nova mais como uma estação de pesca do que como uma colônia a ser povoada, e chegaram a tentar desestimular o assentamento permanente para reservar o litoral à pesca migratória. Mesmo assim, uma população residente foi se fixando aos poucos ao redor do porto, lançando as bases da futura cidade.
Como tantos lugares do Atlântico Norte, St. John's e Terra Nova foram palco da longa rivalidade entre Inglaterra e França pelo controle da América do Norte e, sobretudo, de suas áreas de pesca. O porto mudou de mãos e sofreu ataques várias vezes ao longo dos séculos XVII e XVIII. Para defendê-lo, os britânicos fortificaram a entrada do porto e as elevações ao redor, em especial Signal Hill, a colina que domina The Narrows e de onde se sinalizava com bandeiras a aproximação dos navios (daí o nome).
O episódio militar mais lembrado aconteceu em 1762, no contexto final da Guerra dos Sete Anos. Naquele ano, uma força francesa conseguiu tomar St. John's, mas os britânicos reagiram e, na batalha de Signal Hill, recuperaram a cidade. Essa batalha tem um valor histórico especial: é considerada o último confronto da Guerra dos Sete Anos em solo norte-americano, o conflito que selou o predomínio britânico no continente.
Signal Hill continuou tendo um papel central na vida da cidade como posto de sinais e comunicações marítimas. Sua importância estratégica e sua posição elevada sobre o Atlântico fariam dela, décadas depois, o cenário de um marco de alcance mundial que não teria nada a ver com a guerra.
Em 12 de dezembro de 1901, Signal Hill foi palco de um dos grandes marcos da história das comunicações. O inventor italiano Guglielmo Marconi, pioneiro da radiotelegrafia, havia instalado no alto da colina uma estação receptora, com uma antena sustentada por pipas para captar sinais através do Atlântico. Naquele dia, Marconi anunciou ter recebido em Signal Hill o primeiro sinal de rádio transatlântico da história: três pontos em código Morse (a letra 'S') enviados de uma potente estação transmissora em Poldhu, na Cornualha, Inglaterra, a mais de 3.000 quilômetros de distância.
A façanha foi extraordinária e, para muitos, surpreendente: acreditava-se que as ondas de rádio, por viajarem em linha reta, não conseguiriam vencer a curvatura da Terra a uma distância dessas (mais tarde se entenderia que a ionosfera refletia as ondas e permitia essa propagação). A recepção de Marconi demonstrou que a comunicação sem fio através dos oceanos era possível, inaugurando a era das telecomunicações globais.
Não é por acaso que o marco aconteceu em St. John's: por ser o ponto habitado mais oriental da América do Norte, era o lugar do continente mais próximo da Europa, ideal para estender a 'ponte' radioelétrica sobre o Atlântico. Hoje, uma placa e exposições na Cabot Tower de Signal Hill lembram aquele momento que mudou o mundo.
Durante séculos, Terra Nova seguiu um caminho histórico diferente do resto do que hoje é o Canadá. Foi colônia britânica e, já no século XX, alcançou o status de domínio, com governo responsável próprio e St. John's como capital: na prática, uma nação quase independente dentro do Império Britânico, separada do Domínio do Canadá. Sua economia continuava dependendo em grande parte do bacalhau e de um punhado de recursos, o que a deixava vulnerável.
A Grande Depressão dos anos 1930 atingiu Terra Nova em cheio: o território mergulhou numa grave crise financeira e chegou à falência. Sem condições de se sustentar, em 1934 Terra Nova suspendeu seu autogoverno e voltou a ser administrada diretamente por uma comissão nomeada por Londres, perdendo a democracia que havia conquistado. St. John's, além disso, teve um papel relevante nas duas guerras mundiais como base atlântica estratégica (na Segunda Guerra Mundial, seu porto e arredores foram importantes para a Batalha do Atlântico — daí os bunkers de Cape Spear).
A grande decisão veio depois da guerra. Em referendos realizados em 1948, os habitantes de Terra Nova tiveram de escolher entre recuperar o autogoverno, continuar sob a comissão ou se unir ao Canadá. Por uma margem apertada venceu a união com o Canadá, impulsionada em boa parte por Joey Smallwood. Assim, em 31 de março de 1949, Terra Nova e Labrador se tornou a décima e última província a se incorporar à Confederação Canadense, com St. John's como capital. Foi o fim de séculos de história separada e o início de sua fase como parte do Canadá.
Durante quase cinco séculos, a vida de St. John's e de toda Terra Nova girou em torno do bacalhau dos Grandes Bancos. Mas esse recurso aparentemente inesgotável acabou se esgotando. A pesca industrial, com frotas cada vez mais eficientes e navios-fábrica de arrasto, superexplorou as áreas de pesca ao longo do século XX, até que as populações de bacalhau entraram em colapso. Em 1992, o governo canadense decretou uma moratória da pesca do bacalhau do norte, proibindo praticamente sua captura para tentar salvar a espécie.
O impacto foi devastador: de um dia para o outro, dezenas de milhares de pessoas perderam o emprego, na maior demissão em massa da história do Canadá, e comunidades pesqueiras inteiras ficaram sem o sustento de séculos. Foi um golpe não só econômico, mas também de identidade, para uma sociedade construída sobre a pesca. A população rural da ilha diminuiu e muitos terra-novenses emigraram para outras províncias em busca de trabalho.
St. John's, como capital, soube se reinventar. A economia se voltou para o petróleo e o gás offshore dos Grandes Bancos (com grandes campos como Hibernia), os serviços, a administração pública, a Memorial University, a tecnologia e, cada vez mais, o turismo. Hoje a cidade combina sua profunda herança marítima e irlandesa-inglesa com uma vida cultural e gastronômica vibrante. Suas casas coloridas, sua música, seu humor e sua hospitalidade lendária — junto com as baleias, os icebergs e as paisagens do Atlântico — fizeram dela um dos destinos mais queridos e singulares do Canadá: a cidade mais oriental do continente, orgulhosa de seu caráter inconfundível.