Regina, capital da província de Saskatchewan, surge no meio da imensa planície das pradarias canadenses, sob o enorme céu aberto que define esta região. É uma cidade jovem que surpreende pelo seu grande parque central, o Wascana Centre, um dos maiores parques urbanos da América do Norte, organizado em torno de um lago artificial e do imponente edifício legislativo provincial. Se você está procurando o que ver em Regina em um ou dois dias, quase tudo o que é essencial fica a poucos passos desse parque.
Regina é também a casa histórica da Real Polícia Montada do Canadá (RCMP), a mítica 'Polícia Montada' de casacas vermelhas: aqui fica a sua única academia de treinamento (a 'Depot' Division) e o RCMP Heritage Centre, que conta a sua história e organiza em julho as célebres Sunset Ceremonies, gratuitas e ao ar livre. A cidade combina o papel de capital administrativa com museus de primeira linha, galerias de arte e uma paixão quase religiosa pelo seu time de futebol canadense, os Saskatchewan Roughriders.
Este guia responde o que um viajante procura antes de vir: o que ver em Regina, quanto custam as entradas dos museus, como chegar a partir de Saskatoon ou de avião, quando acontecem as Sunset Ceremonies e quantos dias vale a pena ficar. Regina é uma porta de entrada tranquila e acessível para conhecer o Saskatchewan profundo, de horizontes infinitos e céus espetaculares.
O lugar onde hoje fica Regina era conhecido pelos povos indígenas e pelos caçadores métis como um local onde se amontoavam ossos de bisão (daí o seu antigo nome, 'Pile o' Bones'). Em 1882 foi escolhida como capital dos Territórios do Noroeste e rebatizada Regina ('rainha' em latim) em homenagem à rainha Vitória. Foi palco, em 1885, do julgamento e da execução do líder métis Louis Riel. Em 1905 tornou-se capital da nova província de Saskatchewan. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province of the wheat prairies: Cree, Saulteaux and Métis land, home of the last great refuge of the bison, birthplace of Canadian medicare and of the biggest skies in Canada, with the only prairie protected as a national park.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A capital de Saskatchewan nasceu com um nome que ninguém colocaria hoje num folheto turístico: Pile o' Bones, 'a pilha de ossos'. Antes de virar cidade, este ponto da imensa pradaria era conhecido pelos povos cree e pelos caçadores métis pelos enormes acúmulos de ossos de bisão empilhados junto a um riacho. Depois das grandes caçadas, os esqueletos ficavam amontoados em montes de vários metros de altura; em cree, o lugar se chamava 'oskana kâ-asastêki', que os colonos deformaram para 'Wascana' e traduziram como Pile of Bones. Esse nome, e esses ossos, eram o testemunho silencioso do fim de um modo de vida ancestral das planícies.
A situação mudou em 1882, quando a ferrovia da Canadian Pacific avançava para o oeste e se decidiu instalar aqui a capital dos Territórios do Noroeste. A escolha do local, em plena planície aberta, sem um rio importante, sem árvores e sem um bom abastecimento de água, gerou fortes polêmicas, mas atendia a interesses ligados à ferrovia e à política da época (o vice-governador Edgar Dewdney tinha terras perto do traçado escolhido). Para dar mais dignidade ao novo povoado, a princesa Louise — esposa do governador-geral e, simbolicamente, madrinha da cidade — propôs rebatizá-lo de Regina, 'rainha' em latim, em homenagem à mãe, a rainha Vitória, soberana do Império Britânico.
Assim, um lugar associado aos ossos de bisão e ao fim de um modo de vida ancestral das pradarias passou a levar o nome da rainha e a se tornar, em apenas algumas décadas, o centro administrativo de um vasto território em plena transformação.
Regina ocupa um lugar dramático na história canadense por sua relação com Louis Riel, líder dos métis. Depois da Rebelião do Noroeste de 1885, Riel foi capturado, julgado em Regina e condenado à morte. Sua execução na forca, nesse mesmo ano, na cidade, foi um acontecimento profundamente polêmico que dividiu o país entre anglófonos e francófonos e deixou uma ferida que ainda ecoa na memória do Canadá. Hoje Riel é reconhecido como uma figura fundamental na defesa dos direitos dos métis e das minorias.
A cidade também está ligada desde muito cedo à North-West Mounted Police, antecessora da atual Real Polícia Montada do Canadá (RCMP). Essa força foi criada no século XIX para impor a ordem, fazer cumprir a lei e administrar as relações com os povos indígenas no vasto e mutável Oeste canadense. Regina se tornou uma sede-chave da corporação e, com o tempo, passou a abrigar sua academia de treinamento (a 'Depot' Division), onde se formam todos os seus cadetes.
A figura do policial montado de casaca vermelha, associada à conquista e à administração do Oeste, virou um dos símbolos nacionais do Canadá, e Regina, como seu lar histórico, preserva e celebra esse legado em seu museu e na cerimônia do Sunset Retreat.
Em 1905, com a criação das novas províncias de Saskatchewan e Alberta a partir dos Territórios do Noroeste, Regina foi confirmada como capital de Saskatchewan. A cidade então partiu para grandes obras à altura do novo status, entre elas a construção do majestoso edifício legislativo, inaugurado em 1912, e a transformação do modesto riacho Wascana em um lago artificial e um grande parque que viraria o Wascana Centre, hoje um dos maiores parques urbanos da América do Norte.
Regina viveu intensamente as reviravoltas das pradarias no século XX: a prosperidade agrícola do trigo, que atraiu milhares de colonos; os duríssimos anos de seca e poeira da Grande Depressão (que castigou Saskatchewan como poucas regiões); e episódios de convulsão social como o Regina Riot de 1º de julho de 1935, quando o 'On-to-Ottawa Trek' — uma marcha de desempregados que viajavam de Vancouver rumo à capital para protestar — foi barrado em Regina e terminou num confronto violento com a polícia que deixou dois mortos e dezenas de feridos.
Hoje Regina é uma capital provincial tranquila e funcional, centro administrativo, educacional e cultural de Saskatchewan, com a Universidade de Regina e uma economia ligada ao agronegócio, à energia e aos serviços. Combina seu grande parque e seus museus com o orgulho da Polícia Montada e uma paixão intensa pelo futebol canadense. Sob o imenso céu das pradarias, é uma das melhores portas de entrada para conhecer a identidade desta província agrícola do coração do Canadá.
No domingo, 30 de junho de 1912, enquanto muitas famílias voltavam para casa depois de um passeio pelo lago Wascana numa tarde quente, o céu ao sul de Regina ficou de um verde doentio. Por volta das 16h50, um tornado gigantesco tocou o solo ao sul da cidade e avançou em linha reta entre o lago Wascana e a Victoria Avenue, atravessando o bairro residencial, o centro comercial, a estação de trem e os depósitos, até o norte da cidade. Durou poucos minutos, mas foram os minutos mais terríveis da história de Regina.
O que ficou conhecido como Regina Cyclone deixou 28 mortos e cerca de 300 feridos e continua sendo, mais de um século depois, o tornado mais mortal já registrado na história do Canadá. Os ventos, estimados em cerca de 400 km/h (equivalentes a um F4 na escala Fujita), destruíram umas 500 construções, muitas delas recém-terminadas na jovem capital, arrasaram 200 casas e deixaram cerca de 2.500 pessoas desabrigadas. Os prejuízos foram calculados em 1,2 milhão de dólares da época (dezenas de milhões em valores atuais), uma cifra enorme para uma cidade que mal passava dos 30.000 habitantes.
O notável é o que veio depois. Regina se endividou pesadamente para se reconstruir em tempo recorde e, em poucos anos, apagou quase todas as cicatrizes do desastre. A cidade levou décadas para terminar de pagar aquela dívida da reconstrução, mas deu a volta por cima. O ciclone de 1912 ficou gravado na memória coletiva da província como o dia em que a fúria do céu das pradarias se abateu sobre a capital, e como uma lição precoce da resiliência que define o caráter de Saskatchewan.
A identidade de Regina e de Saskatchewan é moldada pela agricultura. Durante décadas, a província foi o grande celeiro do Canadá, e o trigo definiu sua economia, sua demografia e seu caráter. No começo do século XX, uma intensa onda migratória — ucranianos, alemães, escandinavos, britânicos e muitos outros — povoou as pradarias atraída pela promessa de terras para cultivo, dando à região sua mistura cultural característica, visível ainda hoje nas igrejas, na gastronomia e nos festivais.
Saskatchewan também foi berço de inovações sociais que marcaram o país inteiro. Sob a liderança de Tommy Douglas, premiê da província a partir de 1944, Saskatchewan implantou o primeiro sistema de saúde público e universal (medicare) da América do Norte — algo parecido com o que o SUS representa para os brasileiros —, um modelo que depois se estenderia a todo o Canadá. Regina, como capital, foi o centro político dessas transformações que mudaram a vida dos canadenses.
No lado cultural e emocional, poucas coisas unem tanto Regina quanto os Saskatchewan Roughriders, o time de futebol canadense cuja torcida, a 'Rider Nation', é lendária em todo o país pela fidelidade e pela paixão, sempre vestida de verde. Junto com o orgulho da Polícia Montada, o grande céu aberto das pradarias e o Wascana Centre, os Roughriders fazem parte da alma de uma cidade que, longe dos grandes centros, construiu uma identidade própria e cativante no coração do Canadá.