Tournai é uma daquelas cidades que surpreendem por guardar tanto e ser tão pouco conhecida. Uma das cidades mais antigas da Bélgica, às margens do Escalda e a um passo da França, foi nada menos que o berço da monarquia franca: aqui Quilderico I teve sua capital e aqui nasceu, provavelmente, seu filho Clóvis, o primeiro grande rei dos francos. Vinte séculos de história deixaram em Tournai um patrimônio extraordinário, coroado por duas joias que a Unesco inscreveu no Patrimônio Mundial.
A primeira é a catedral de Notre-Dame, um colosso imponente de pedra que combina um corpo românico com um coro gótico e, sobretudo, um inconfundível perfil de cinco torres que a torna única na Europa. A segunda é o campanário (beffroi), o mais antigo da Bélgica, símbolo das liberdades da cidade e mirante sobre os telhados. Ao redor, uma Grand-Place triangular, igrejas, museus, casas românicas entre as mais antigas do Ocidente e a pitoresca Ponte dos Buracos sobre o rio completam uma cidade de densidade histórica impressionante.
Este guia percorre Tournai com um olhar prático e caloroso: a catedral de cinco torres e seu tesouro, a subida ao campanário, a Grand-Place, a Ponte dos Buracos e os museus, além de como chegar a partir de Bruxelas ou Lille e como se locomover por esta cidade em escala humana. Pouco turística e muito autêntica, Tournai é uma escapada perfeita para quem quer descobrir a Bélgica profunda e milenar longe das multidões.
Tournai (a romana Turnacum) já era um importante povoado às margens do Escalda na época romana, sobre a grande estrada que ligava Colônia a Boulogne. No século V tornou-se a capital dos francos sálios: aqui reinou Quilderico I, cujo túmulo espetacular foi descoberto em 1653, e aqui se liga a origem da dinastia merovíngia de seu filho Clóvis. Na Idade Média foi uma cidade rica e muitas vezes ligada ao reino da França (foi a única cidade da atual Bélgica que pertenceu por muito tempo à coroa francesa), famosa por suas tapeçarias e por sua pedreira. Sua catedral de cinco torres e seu campanário, o mais antigo do país, são Patrimônio da Unesco. Bombardeada em 1940, foi reconstruída. Tudo isso está contado na nossa página de história.
Ler a história completa ↓French-speaking Belgium in the south: the old prince-bishopric of Liège, Merovingian Tournai, fortified Namur, the forests of the Ardennes and the industrial heartland of coal and steel, cradle of Walloon folklore and of Adolphe Sax.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Tournai é uma das cidades mais antigas da Bélgica, e sua história remonta à época romana. Com o nome de Turnacum, foi um assentamento às margens do rio Escalda (Escaut), num ponto em que a grande estrada romana que ligava Colônia a Boulogne-sur-Mer — uma das artérias do noroeste do Império — atravessava o rio. Essa combinação de via terrestre e via fluvial fez de Turnacum um polo de comunicações e de comércio, e a cidade prosperou sob Roma como centro administrativo da região.
Durante os séculos de domínio romano, Turnacum foi um município com seus edifícios, suas oficinas e sua população galo-romana, integrada à província da Gália Bélgica. Foram encontrados vestígios e necrópoles dessa época que comprovam sua importância. Quando, nos séculos III e IV, a pressão dos povos germânicos e as crises do Império abalaram a fronteira do Reno, Turnacum, como outras cidades do norte da Gália, foi fortificada e se tornou um ponto de defesa e uma base militar romana.
Foi justamente nesse contexto do fim do Império, com os romanos cada vez mais dependentes de povos germânicos aliados (foederati) para defender suas fronteiras, que Tournai viveria sua hora mais gloriosa. Porque no século V, quando o poder romano desmoronava no Ocidente, a velha Turnacum se tornou a capital de um povo que estava prestes a mudar a história da Europa: os francos.
No século V, enquanto o Império Romano do Ocidente agonizava, os francos sálios — um povo germânico estabelecido no norte da Gália — tinham em Tournai o centro do seu poder. Ali reinou Quilderico I (morto por volta de 481/482), rei dos francos sálios e figura-chave da nascente dinastia merovíngia. Quilderico foi ao mesmo tempo um chefe germânico e um aliado militar dos últimos romanos, um homem dividido entre dois mundos, e de Tournai governou e lutou numa Gália em plena transformação.
Seu filho, nascido e criado nesse ambiente, foi Clóvis I, um dos personagens fundamentais da história europeia. Clóvis unificou sob seu comando os diferentes reinos francos, estendeu seu domínio sobre boa parte da Gália, derrotou outros povos e, de forma decisiva, converteu-se ao cristianismo católico (seu batismo em Reims é um marco fundador), lançando as bases do que, com os séculos, seria o reino da França. Por isso Tournai reivindica com orgulho ser um dos berços da monarquia franca e, de certo modo, da França.
A prova mais espetacular desse passado veio à tona muitos séculos depois, em 1653, quando o túmulo de Quilderico I foi descoberto por acaso em Tournai. Ele guardava um fabuloso enxoval funerário: armas, joias, um anel com seu nome e centenas de pequenas abelhas de ouro que enfeitavam seu manto (abelhas que, com o tempo, inspirariam a simbologia imperial de Napoleão). Foi uma das descobertas arqueológicas mais importantes da Alta Idade Média europeia. Boa parte do tesouro, levado para Paris, foi roubada e derretida no século XIX, mas a descoberta consagrou para sempre Tournai como a cidade das origens merovíngias.
Na Idade Média, Tournai voltou a florescer. Tornou-se um importante centro religioso, sede de um bispado influente, e uma próspera cidade de artesãos e mercadores. Duas atividades lhe deram fama e riqueza: a extração de sua famosa pedra azul-acinzentada (a 'pierre de Tournai'), muito valorizada na construção e na escultura e exportada para todo o noroeste da Europa; e, sobretudo, a fabricação de tapeçarias. Entre os séculos XV e XVI, as oficinas de tapeçaria de Tournai estavam entre as mais célebres da Europa, e suas obras, de grande qualidade, decoraram palácios e igrejas de todo o continente.
Politicamente, Tournai teve um destino singular que a distingue de todas as outras cidades da atual Bélgica: durante boa parte da Idade Média pertenceu diretamente à coroa da França, como uma espécie de enclave francês cercado de terras do Império (Flandres, Hainaut). Foi, de fato, a única cidade do atual território belga que pertenceu por muito tempo ao reino da França. Os reis franceses a valorizavam e a protegiam, e a cidade foi fiel à flor-de-lis. Esse vínculo deixou marcas em sua cultura e sua identidade.
Como praça cobiçada, Tournai foi disputada e sitiada. No século XVI mudou de mãos: foi tomada pelos ingleses de Henrique VIII (que a ocuparam por alguns anos) e depois integrada, com o resto da região, aos Países Baixos de Carlos V e da monarquia espanhola. Durante as guerras de religião e de independência dos Países Baixos, em 1581, Tournai viveu um célebre cerco em que se destacou Christine de Lalaing, princesa de Épinoy, que comandou heroicamente a defesa da cidade e cuja estátua hoje preside a Grand-Place. A época de esplendor medieval, porém, ia ficando para trás, e Tournai teria pela frente novos donos e novas guerras.
Durante os séculos XVII e XVIII, Tournai acompanhou o agitado destino dos Países Baixos do Sul, disputados entre as grandes potências. Foi tomada pelos exércitos de Luís XIV da França, que a fortificou (o engenheiro Vauban trabalhou em suas defesas), e depois passou de novo, ao sabor dos tratados, para as mãos dos Habsburgo austríacos. Em seus arredores foram travadas batalhas das grandes guerras europeias, como a de Fontenoy (1745), perto da cidade. Com a Revolução Francesa e Napoleão, Tournai voltou a ser francesa; após a queda do imperador, foi integrada ao Reino Unido dos Países Baixos e, a partir de 1830, à nova Bélgica.
O século XIX trouxe a Tournai uma época de estabilidade e de certo desenvolvimento, com a indústria (a pedra, a porcelana de Tournai, muito apreciada, os têxteis) e a ferrovia. A cidade conservava seu extraordinário patrimônio medieval — a catedral das cinco torres, o campanário, as casas românicas — como testemunho de sua longa e rica história.
O século XX, por outro lado, lhe deu um golpe terrível. Em maio de 1940, no início da invasão alemã da Bélgica na Segunda Guerra Mundial, Tournai foi intensamente bombardeada. O centro histórico sofreu enormes destruições: bairros inteiros foram arrasados, e muitos edifícios antigos, incluindo boa parte do entorno da Grand-Place, foram consumidos pelas chamas. Como Ypres ou Dinant antes dela, Tournai teve de reconstruir seu coração histórico no pós-guerra, recuperando na medida do possível sua fisionomia tradicional, embora muita coisa tenha se perdido para sempre.
A Tournai atual, com cerca de 70.000 habitantes, é uma cidade discreta e muitas vezes ignorada pelo turismo internacional, que costuma se concentrar em Bruges, Gante ou Bruxelas. E, no entanto, poucas cidades belgas guardam uma densidade histórica comparável: vinte séculos de passado, da Turnacum romana à capital merovíngia, da cidade francesa das tapeçarias à praça-forte disputada por toda a Europa.
Dois de seus monumentos foram reconhecidos pela Unesco como Patrimônio Mundial: a catedral de Notre-Dame, com seu inconfundível perfil de cinco torres e sua mistura de românico e gótico, e o campanário, o mais antigo da Bélgica e símbolo das liberdades cívicas medievais. Somam-se a eles as casas românicas mais antigas do Ocidente, a pitoresca Ponte dos Buracos (Pont des Trous) sobre o Escalda, uma Grand-Place triangular e uma notável coleção de museus, entre eles um Museu de Belas Artes instalado no único edifício de museu construído segundo os projetos de Victor Horta, o mestre do Art Nouveau.
Nas últimas décadas a cidade passou por importantes obras de restauração — a catedral, danificada por um tornado em 2007, ficou longos anos em reforma — e revitalizou seus cais do Escalda, apostando na valorização de seu patrimônio. A proximidade com Lille e com a fronteira francesa a mantém conectada à vibrante metrópole do norte da França. Tournai é, enfim, um tesouro discreto: uma cidade milenar, berço de reis francos e de tapeçarias célebres, que espera o viajante curioso disposto a descobrir a Bélgica mais antiga e autêntica, longe das multidões.