Antuérpia é a grande cidade de Flandres: portuária, cosmopolita, com um passado de esplendor comercial e um presente vibrante de moda, design e arte. No século XVI, foi a cidade mais rica e dinâmica da Europa, a grande metrópole do comércio mundial, e essa grandeza deixou uma catedral gótica colossal, praças imponentes e o legado de seu filho mais ilustre, o pintor Peter Paul Rubens, cujas obras-primas ainda estão penduradas em suas igrejas.
Mas Antuérpia não vive só do passado. É a capital mundial do diamante (pelo seu bairro do diamante passa a maior parte das pedras do mundo), uma das capitais europeias da moda (a mítica escola que formou os 'Seis de Antuérpia') e uma cidade de arquitetura surpreendente, da Estação Central, considerada uma das mais bonitas do mundo, ao moderno museu MAS à beira do rio. Tudo com uma energia urbana, meio rebelde e muito orgulhosa, bem diferente da das vizinhas de cartão-postal.
Este guia percorre o essencial de Antuérpia com um olhar prático e acolhedor: a Catedral de Nossa Senhora e os Rubens, a Grote Markt com a fonte de Brabo, a deslumbrante Estação Central, o bairro do diamante, o museu Plantin-Moretus da imprensa, o MAS e seu terraço panorâmico, o castelo Het Steen e a cena da moda. Uma cidade grande e autêntica que combina, como poucas, alta cultura e vida contemporânea.
Antuérpia deve seu nome a uma lenda: o gigante Druon Antigoon cobrava pedágio dos barcos do Escalda e cortava a mão de quem não pagava, até que o herói romano Sílvio Brabo o venceu, cortou a mão dele e a jogou no rio; daí 'hand werpen' (jogar a mão), que teria dado origem a 'Antwerpen' (embora a origem real do nome seja provavelmente 'aanwerp', terra conquistada ao rio). A cidade cresceu como porto sobre o Escalda e viveu sua era de ouro no século XVI, quando, após a decadência de Bruges, se tornou a maior metrópole comercial e financeira do mundo, com a primeira bolsa moderna e mercadores do planeta inteiro. Esse esplendor foi interrompido pelas guerras de religião e pela revolta dos Países Baixos: em 1585, após um cerco, Antuérpia foi reconquistada pela Espanha, e o fechamento do Escalda pelos holandeses do norte sufocou seu comércio por quase dois séculos. A reabertura do rio e a Revolução Industrial a ressuscitaram como grande porto no século XIX. Foi também a cidade de Rubens, o grande mestre barroco, no século XVII. Hoje é a segunda cidade da Bélgica, capital do diamante e da moda. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The great historic cities of Flanders —Bruges, Ghent, Antwerp and Mechelen— were, in the Middle Ages and the Renaissance, among the richest in Europe, the cradle of the Flemish Primitives, of great trade and of the art of Van Eyck and Rubens.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucas cidades têm um mito de origem tão sangrento e tão gráfico quanto Antuérpia. Conta a lenda que, em tempos remotos, um gigante chamado Druon Antigoon dominava o rio Escalda (Schelde) e cobrava pedágio de todos os barcos que passavam; de quem se recusava a pagar, ele cortava uma mão e a jogava no rio. Até que um jovem herói romano, Sílvio Brabo, enfrentou o gigante, venceu-o, cortou a mão dele e a lançou no Escalda. Desse gesto, 'hand werpen' ('jogar a mão'), teria nascido o nome 'Antwerpen'. A fonte de Brabo, na Grote Markt, imortaliza a cena, e a mão é hoje um símbolo onipresente da cidade, até nos seus doces típicos, os 'Antwerpse handjes' (mãozinhas de Antuérpia).
A etimologia real é menos espetacular: 'Antwerpen' provavelmente deriva de 'aanwerp' ou 'aanwarp', que designava um terreno aluvial conquistado ao rio, um banco de areia ou promontório junto à água. Afinal, como toda a história da cidade, seu nome está ligado ao Escalda, o largo rio que a conecta ao Mar do Norte e que seria a fonte de toda a sua grandeza.
As origens do povoado remontam à Alta Idade Média, com um primeiro núcleo fortificado junto ao rio, em torno do lugar onde hoje fica o castelo Het Steen. Sob os senhores locais e depois integrada ao ducado de Brabante, Antuérpia foi crescendo lentamente como porto e centro comercial ao longo dos séculos medievais, à sombra da então todo-poderosa Bruges. Sua grande hora, porém, ainda estava por vir, e seria deslumbrante.
O século XVI foi o século de Antuérpia. Quando o braço de mar que ligava Bruges ao oceano assoreou e aquela grande cidade entrou em decadência, Antuérpia, situada às margens do navegável Escalda, herdou e superou seu papel, tornando-se a maior metrópole comercial e financeira do mundo. No seu auge, por volta de meados do século, foi o centro nevrálgico do comércio europeu e de boa parte do comércio mundial: pelo seu porto passavam as especiarias das Índias que chegavam via Portugal, os metais preciosos da América, os tecidos ingleses, o cobre e a prata da Europa Central, o vinho, o açúcar e mil outras mercadorias.
Antuérpia se encheu de mercadores, banqueiros e agentes de todas as nações: portugueses, espanhóis, italianos, alemães, ingleses. Em 1531 foi construída uma nova Bolsa (a Beurs de Antuérpia), considerada a primeira bolsa de valores moderna projetada especificamente para esse fim, modelo para as de Londres e Amsterdã. A cidade também se tornou um grande centro cultural, da imprensa (a editora Plantin-Moretus, hoje Patrimônio da Unesco, imprimia obras que circulavam por toda a Europa) e da arte. Calcula-se que Antuérpia chegou a ter cerca de 100.000 habitantes, um número colossal para a época, e era uma das cidades mais ricas, populosas e cosmopolitas do planeta.
Esse esplendor deixou sua marca na arquitetura: a majestosa Prefeitura renascentista (1565), as casas das guildas da Grote Markt, a colossal catedral de Nossa Senhora, com a torre mais alta dos Países Baixos. Era a Antuérpia dourada, a 'metrópole do mundo', uma encruzilhada onde confluíam o dinheiro, as mercadorias, as ideias e a arte da Europa do Renascimento.
A grandeza de Antuérpia desmoronou tão rápido quanto havia chegado, arrasada pelas guerras de religião e pela revolta dos Países Baixos contra o domínio da coroa espanhola de Filipe II. Em 1576, em meio ao conflito, tropas espanholas amotinadas por falta de pagamento saquearam brutalmente a cidade num episódio conhecido como a 'Fúria Espanhola' (Spaanse Furie): durante vários dias de pilhagem, incêndios e massacres, milhares de pessoas morreram e uma parte enorme da riqueza acumulada foi destruída. Foi um golpe devastador.
Antuérpia então aderiu à rebelião e se tornou, por um tempo, uma das principais cidades protestantes dos Países Baixos revoltosos. Mas em 1585, depois de um longo e célebre cerco comandado pelo grande general espanhol Alexandre Farnésio, duque de Parma, a cidade capitulou e foi reconquistada para a coroa espanhola e para o catolicismo. Os protestantes tiveram de escolher entre se converter ou ir embora, e dezenas de milhares de habitantes, entre eles muitos dos comerciantes, artesãos e mentes mais qualificadas, emigraram para o norte, sobretudo para Amsterdã, levando consigo seu capital, seus contatos e seu conhecimento.
O golpe definitivo foi geopolítico. As Províncias Unidas do norte (a futura Holanda), já independentes na prática, controlavam a foz do Escalda e o fecharam à navegação, bloqueando o acesso de Antuérpia ao mar. Esse fechamento do rio, que se manteria em diferentes graus por mais de dois séculos, estrangulou o comércio da cidade e transferiu seu papel de grande metrópole mundial para Amsterdã, que graças a isso viveu seu próprio Século de Ouro. Antuérpia, que tinha sido a cidade mais rica do mundo, entrou numa longa e melancólica decadência.
Embora o comércio estivesse em declínio por causa do fechamento do Escalda, Antuérpia viveu no século XVII um extraordinário florescimento artístico que compensou em parte sua decadência econômica. A cidade, de novo firmemente católica sob o domínio dos arquiduques Alberto e Isabel, tornou-se um dos grandes centros da arte barroca europeia, e essa idade de ouro da pintura tem um nome acima de todos: Peter Paul Rubens (1577-1640).
Rubens foi muito mais que um pintor: foi o grande mestre do barroco flamengo, um artista de fama e sucesso internacionais, um erudito humanista e até um diplomata a serviço das cortes europeias. Formado na Itália, montou em Antuérpia um enorme ateliê que funcionava como uma verdadeira 'fábrica' de obras de arte, com numerosos assistentes e discípulos, para dar conta das encomendas que chegavam de toda a Europa: retábulos religiosos, cenas mitológicas, retratos, alegorias. Sua pintura, exuberante, dinâmica, sensual e de cores intensas, definiu o gosto da sua época. Sua casa-ateliê, a Rubenshuis, e sobretudo suas grandes obras na catedral de Nossa Senhora ('A Descida da Cruz', 'A Elevação da Cruz') continuam sendo paradas obrigatórias.
Ao seu redor brilhou toda uma escola: Antoon van Dyck, que viria a ser pintor da corte inglesa; Jacob Jordaens; os Brueghel daquela geração; e o projeto das grandes igrejas barrocas, como a de São Carlos Borromeu. Antuérpia continuava sendo, apesar de tudo, uma capital da arte, da imprensa e da cultura. Mas a vitalidade econômica não voltava: durante os séculos XVII e XVIII, sob domínio espanhol e depois austríaco, a cidade definhou comercialmente, à espera de que alguém devolvesse ao Escalda seu papel de grande via para o mar.
O renascimento de Antuérpia chegou com a era moderna. A ocupação francesa napoleônica, no início do século XIX, teve uma consequência decisiva: Napoleão, consciente do valor estratégico da cidade diante da Inglaterra, mandou reativar o porto e construir as primeiras docas modernas (chegou a chamar Antuérpia de 'uma pistola apontada para o coração da Inglaterra'). Depois da independência da Bélgica em 1830 e da reabertura definitiva do Escalda à navegação (mediante o pagamento de uma taxa de passagem aos Países Baixos, abolida em 1863), o porto de Antuérpia ressurgiu com força durante a Revolução Industrial, até se tornar novamente um dos maiores portos da Europa e do mundo, motor econômico da cidade até hoje.
Esse renascimento se materializou em obras monumentais como a espetacular Estação Central (1905), 'a catedral ferroviária', símbolo da confiança e da prosperidade da época. Paralelamente, Antuérpia consolidou outra de suas grandes marcas de identidade: o diamante. A cidade, com uma tradição de lapidação desde o século XV e uma importante comunidade judaica especializada no setor, tornou-se a capital mundial da lapidação e do comércio de diamantes, papel que mantém até hoje.
O século XX trouxe as cicatrizes das duas guerras mundiais e da ocupação alemã, com a deportação e o extermínio de grande parte da comunidade judaica da cidade durante o Holocausto. Na segunda metade do século e no XXI, Antuérpia se reinventou mais uma vez, agora como capital da criatividade: nos anos 80, um grupo de estilistas conhecido como os 'Seis de Antuérpia' (com Dries Van Noten e Ann Demeulemeester à frente) colocou a cidade no mapa mundial da moda de vanguarda, e desde então Antuérpia é sinônimo de design, moda e arte contemporânea, com museus como o MAS e o renovado KMSKA. Portuária, diamantífera, artística e antenada com a moda, a Antuérpia de hoje continua olhando para o mundo a partir do seu rio, como nos seus tempos de glória.