Dinant é, provavelmente, a cidadezinha mais fotogênica da Bélgica. Imagine uma fileira de casas apertadas numa faixa estreita de terra, presas entre um enorme penhasco de rocha cinza e o rio Mosa. Lá em cima, no alto do precipício, uma cidadela vigia o vale. Lá embaixo, à beira d'água, ergue-se a colegiada de Notre-Dame com sua inconfundível cúpula em forma de bulbo. E pelo rio deslizam barcos e caiaques. É uma daquelas cenas que parecem perfeitas demais para ser de verdade.
Mas Dinant é mais do que um cenário espetacular. É a terra natal de Adolphe Sax, o gênio que no século XIX inventou o saxofone, e a cidade o homenageia por toda parte, com saxofones gigantes coloridos enfeitando a ponte sobre o Mosa. É terra de cerveja de abadia (a famosa Leffe nasceu aqui) e de um biscoito duro e tradicional, a couque de Dinant. E é a base perfeita para a aventura ao ar livre nas Ardenas: descer de caiaque o sinuoso rio Lesse, explorar grutas subterrâneas ou percorrer de barco o vale do Mosa.
Este guia percorre Dinant com um olhar prático e acolhedor: como subir à cidadela e o que ver lá, a colegiada, a casa de Adolphe Sax, o cais do Mosa, o caiaque no Lesse e as grutas dos arredores, além de como chegar de Namur ou de Bruxelas e como combinar a visita com o resto da Valônia. Seja para passar umas horas, seja para ficar e explorar as Ardenas, Dinant deixa uma das imagens mais bonitas de toda uma viagem pela Bélgica.
Dinant cresceu à beira do Mosa desde a Antiguidade graças à sua posição estratégica e à sua indústria de cobre e latão trabalhado, a célebre 'dinanderie', que lhe deu fama e riqueza na Idade Média. Essa prosperidade, e a rivalidade com a vizinha Bouvignes, também a transformaram em alvo: em 1466, Carlos, o Temerário, da Borgonha, saqueou e arrasou brutalmente a cidade. Praça-forte disputada durante séculos pelo seu valor estratégico sobre o rio, Dinant viveu seu episódio mais trágico em agosto de 1914, quando as tropas alemãs, ao invadir a Bélgica, executaram centenas de civis e incendiaram a cidade. No século XIX, Adolphe Sax, inventor do saxofone, havia nascido aqui. Tudo isso, do cobre medieval ao massacre de 1914 e ao saxofone, está contado na nossa página de história.
Ler a história completa ↓French-speaking Belgium in the south: the old prince-bishopric of Liège, Merovingian Tournai, fortified Namur, the forests of the Ardennes and the industrial heartland of coal and steel, cradle of Walloon folklore and of Adolphe Sax.
Ler a história de Wallonia and the Ardennes →Saem de Namur, a 23 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Dinant nasceu de um capricho da geografia: uma faixa estreita de terra às margens do Mosa (Meuse), espremida contra um paredão de rocha. Um lugar desconfortável para morar, mas privilegiado para o comércio, porque o rio era uma grande via de transporte e a cidade ficava num cruzamento de caminhos entre o mundo germânico e o francês. Ocupada desde a Antiguidade e ligada na Idade Média ao poderoso principado-bispado de Liège, Dinant logo encontrou a fonte da sua fortuna: o metal.
Pelo Mosa chegava o cobre (trazido das minas da região de Aachen e do vale do Mosa), e os artesãos de Dinant o trabalhavam com uma maestria que ficou famosa em toda a Europa. Fabricavam objetos de latão e de cobre lavrado (pias batismais, atris, candelabros, louças, caldeirões) com tanta qualidade e fama que a arte de trabalhar o cobre batido passou a se chamar 'dinanderie', por causa do nome da cidade. Essa palavra sobrevive até hoje em vários idiomas para designar a ourivesaria em cobre e latão.
Graças à dinanderie, Dinant se tornou uma cidade próspera e bem conectada, membro da Hansa (a liga de cidades comerciais), com seus mercadores vendendo por toda a Europa. Mas a riqueza atrai inveja e rivalidade. Bem em frente, do outro lado do rio, ficava a cidade de Bouvignes, concorrente e muitas vezes inimiga. E sobre Dinant pairava a sombra de um vizinho muito mais perigoso: o duque da Borgonha.
No século XV, os duques da Borgonha estavam construindo um Estado poderoso, que unia boa parte dos atuais Países Baixos e da Bélgica. Dinant, por outro lado, fazia parte do principado-bispado de Liège, que resistia teimosamente a cair sob o domínio borgonhês. A cidade, rebelde e orgulhosa, aderiu às revoltas dos liegenses contra a Borgonha, e seus habitantes chegaram a fazer ofensas graves ao conde de Charolais, o herdeiro borgonhês: o futuro Carlos, o Temerário.
A vingança foi terrível. Em 1466, Filipe, o Bom, e seu filho Carlos cercaram Dinant. A cidade caiu depois de uma breve resistência, e o que veio em seguida foi um dos massacres mais brutais da Baixa Idade Média. As tropas borgonhesas saquearam Dinant por completo e a incendiaram até os alicerces. Segundo as crônicas, centenas de habitantes foram amarrados de dois em dois e jogados no Mosa para morrerem afogados. A cidade ficou arrasada, sua população dizimada e sua próspera indústria do cobre, destruída.
Dinant levou gerações para se recuperar e nunca mais alcançou o esplendor da dinanderie medieval. O saque de 1466 ficou gravado na memória da cidade como o primeiro de uma série de desastres. Afinal, por causa da sua localização estratégica sobre o Mosa, Dinant estava condenada a ser, de novo e de novo, praça-forte disputada e campo de batalha. A rocha que a protegia era a mesma que a transformava em alvo militar.
Nos séculos seguintes, Dinant acompanhou o destino das terras do Mosa e passou de mão em mão ao ritmo das guerras europeias: os franceses de Luís XIV a tomaram e fortificaram, depois veio o domínio dos Habsburgo austríacos, em seguida a França revolucionária e napoleônica e, após a queda de Napoleão, o Reino Unido dos Países Baixos. Foram os holandeses que, no século XIX, reconstruíram a imponente cidadela que hoje coroa o paredão de rocha, para controlar a passagem do rio. Em 1830, com a independência da Bélgica, Dinant passou a fazer parte do novo país.
No meio dessa história militar, a cidade deu ao mundo um de seus filhos mais geniais. Em 1814 nasceu em Dinant Adolphe Sax, filho de um fabricante de instrumentos musicais. Formado na oficina do pai e depois em Bruxelas e Paris, Sax foi um inventor prodigioso, que aperfeiçoou e criou vários instrumentos de sopro. Sua obra-prima, patenteada por volta de 1846, foi o saxofone: um instrumento de metal com palheta, que combinava a potência dos metais com a agilidade das madeiras e que, embora tenha demorado a se firmar, acabaria revolucionando a música, sobretudo com a chegada do jazz no século XX.
Adolphe Sax viveu e trabalhou em Paris, onde teve sucessos e também batalhas judiciais amargas com fabricantes rivais que contestavam suas patentes, e morreu lá em 1894, não sem dificuldades financeiras. Mas sua cidade natal nunca o esqueceu. Hoje Dinant homenageia Sax por toda parte: no espaço dedicado à sua vida, nas estátuas e, principalmente, nos grandes saxofones coloridos que enfeitam a ponte sobre o Mosa. O inventor do saxofone é o embaixador mais querido da cidade.
O episódio mais trágico da história moderna de Dinant aconteceu nos primeiros dias da Primeira Guerra Mundial. Em agosto de 1914, o exército alemão invadiu a Bélgica neutra em seu avanço rumo à França. Ao chegar ao Mosa, as tropas encontraram resistência, e em Dinant houve combates entre alemães e franceses pelo controle das pontes e da cidade. Nesse clima de guerra e nervosismo aconteceu uma das piores atrocidades da invasão da Bélgica.
Convencidos (sem razão) de que os civis atiravam contra eles (o mito dos 'franco-atiradores' ou francs-tireurs, que serviu de pretexto para inúmeras represálias alemãs na Bélgica em 1914), os soldados alemães se voltaram com fúria contra a população de Dinant. Em 23 de agosto de 1914, tropas do exército alemão executaram sumariamente centenas de civis (homens, mulheres, idosos e crianças), reunidos e fuzilados em grupos em diferentes pontos da cidade. Os números costumam indicar cerca de 674 habitantes assassinados, numa população de poucos milhares. Além disso, a cidade foi saqueada e incendiada, e boa parte dela ficou em ruínas.
O massacre de Dinant foi um dos mais sangrentos cometidos contra civis belgas em agosto de 1914, ao lado dos de Lovaina, Aarschot, Andenne e Tamines, fatos que chocaram a opinião pública internacional e alimentaram a propaganda aliada sobre o 'estupro da Bélgica'. Reconstruída mais uma vez depois da guerra, Dinant guarda a memória daqueles dias trágicos em monumentos e placas espalhados pela cidade. Foi, de novo, uma comunidade que precisou renascer das cinzas.
Depois das feridas do século XX (ao massacre de 1914 se somaram novos combates e danos em 1940 e na ofensiva das Ardenas de 1944-45), Dinant reconstruiu mais uma vez sua estreita fileira de casas entre a rocha e a água e encontrou sua vocação definitiva no turismo. Hoje, com cerca de 14.000 habitantes, a pequena cidade vive em grande parte da sua beleza espetacular e da sua condição de porta de entrada das Ardenas.
Sua localização única (a colegiada com cúpula em forma de bulbo ao pé do paredão, a cidadela recortada contra o céu, o rio deslizando entre as muralhas de rocha) fez dela um dos cartões-postais mais reproduzidos da Bélgica e um passeio clássico a partir de Namur e de Bruxelas. Ao encanto da paisagem somam-se o patrimônio (a cidadela, a colegiada), a cultura (o legado de Adolphe Sax, onipresente) e, acima de tudo, a natureza e a aventura: os cruzeiros pelo Mosa, a descida de caiaque pelo sinuoso rio Lesse, as grutas de estalactites e as trilhas pelas florestas das Ardenas.
Dinant também é terra de tradições gastronômicas, como a couque de Dinant (um biscoito duro de farinha e mel, mais para admirar do que para comer) e a cerveja de abadia, ligada ao vizinho mosteiro de Leffe. Todo verão, a cidade se enche de visitantes que sobem até a cidadela, tiram fotos ao lado dos saxofones da ponte e navegam pelo rio. Da próspera cidade medieval do cobre, arrasada por Carlos, o Temerário, e pelo exército alemão em 1914, sobreviveu uma joia do Mosa que, contra todas as expectativas, transformou sua história dramática e sua geografia impossível no seu maior tesouro.