Bruxelas é uma capital que confunde de cara e acaba conquistando. Não tem o cartão-postal imediato de Bruges nem o glamour de Paris, mas esconde uma das praças mais bonitas do mundo, a Grand Place, um porta-joias dourado de casas de guildas barrocas que deslumbra de dia e, sobretudo, iluminada à noite. Ao seu redor se estende uma cidade de contrastes: surrealista e pragmática, monárquica e europeia, senhorial e boêmia, capital da Bélgica e, na prática, capital da União Europeia.
É também a cidade do bem viver ao estilo belga: a pátria do chocolate e dos pralinés, de mais de mil cervejas, dos mexilhões com batata frita (moules-frites), dos waffles e de um humor absurdo que se materializa no Manneken Pis, o menininho de bronze que faz xixi impassível desde o século XVII, e na arte de René Magritte, que tem aqui seu grande museu. É o berço dos quadrinhos europeus, de Tintim aos Smurfs, com murais espalhados por toda a cidade.
Este guia percorre o essencial de Bruxelas com um olhar prático e acolhedor: a Grand Place e as galerias cobertas, os grandes museus de arte, o Atomium herdado da Expo 58, o bairro europeu, o Sablon dos antiquários e o popular Marolles, além de como se locomover de metrô e bonde e quais bate-voltas valem a pena. Uma cidade para curtir sem pressa, entre uma cerveja de abadia e um cone de batata frita.
Bruxelas nasceu por volta do ano 979 como um povoado numa ilha do rio Senne, na rota comercial entre Colônia e as cidades flamengas. Seu nome deriva do antigo neerlandês 'Broekzele', o 'povoado no pântano'. Cresceu como cidade de guildas e comerciantes sob os duques de Brabante e, no século XV, tornou-se uma das residências dos duques da Borgonha, alcançando grande esplendor. Passou depois para a órbita dos Habsburgo e do Império Espanhol: foi aqui que Carlos V abdicou, em 1555. Em 1695, as tropas de Luís XIV da França bombardearam a cidade e destruíram a Grand Place, que as guildas reconstruíram em poucos anos com o suntuoso barroco que admiramos hoje. Depois dos períodos austríaco, francês e holandês, Bruxelas foi palco da revolução de 1830 que deu origem à Bélgica independente, da qual se tornou capital. O século XX a consolidou como sede de instituições internacionais: a Expo 58 (com seu Atomium) marcou sua modernização e, desde então, ela se firmou como capital da União Europeia. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The political centre of Belgium and of Europe: Brussels, bilingual capital and seat of the European Union; Leuven, with one of the oldest universities on the continent; and Waterloo, where Napoleon fell. All within the old duchy of Brabant.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Bruxelas guarda sua origem no próprio nome. A explicação mais aceita diz que ele vem do antigo neerlandês 'Broekzele' ou 'Bruocsella', que significa mais ou menos 'povoado no pântano' (de 'broek', brejo ou terreno alagadiço, e 'sella', povoado). E faz sentido: a cidade nasceu numa área baixa e úmida, numa ilha às margens do rio Senne (Zenne), um afluente que hoje corre quase todo canalizado debaixo do centro, mas que durante séculos foi sua razão de existir.
A tradição situa a fundação por volta do ano 979, quando Carlos da Baixa Lotaríngia teria erguido uma fortificação na ilha de Saint-Géry, no Senne. A localização não foi por acaso: Bruxelas ficava na rota comercial terrestre que ligava as prósperas cidades de Flandres (Bruges, Gante) a Colônia e ao Reno. Esse cruzamento de caminhos, somado ao rio navegável, transformou o pequeno porto fluvial em um centro de comércio e de trocas.
Nos séculos XI e XII, sob os condes de Lovaina, que depois se tornariam duques de Brabante, Bruxelas cresceu como cidade mercantil e artesanal, famosa por seus tecidos de luxo e suas tapeçarias. Foram erguidas as primeiras muralhas (um primeiro recinto do século XIII, do qual ainda restam vestígios como a Torre Negra, perto de Sainte-Catherine), e a cidade se organizou em torno de guildas poderosas. O comércio, a indústria têxtil e a posição estratégica construíram uma prosperidade que, séculos depois, atrairia as cortes mais brilhantes da Europa.
O grande salto de Bruxelas veio no século XV, quando a cidade passou para a órbita dos duques da Borgonha. Sob Filipe, o Bom, e seus sucessores, ela virou uma das residências favoritas de uma corte que era, na época, uma das mais ricas e refinadas da Europa. Na colina do Coudenberg foi erguido um imponente palácio ducal, e Bruxelas floresceu como centro de arte, tapeçaria, ourivesaria e poder político, superando até antigas rivais flamengas.
Por herança, o ducado de Brabante e os Países Baixos borgonheses passaram para a Casa de Habsburgo. Assim, Bruxelas se tornou uma das capitais do vasto império de Carlos V (Carlos I da Espanha), que foi criado nos Países Baixos e tinha a cidade entre seus centros de governo. Foi aqui, no palácio do Coudenberg, que aconteceu em 1555 um dos episódios mais célebres da história europeia: a abdicação de Carlos V, que dividiu seu império entre o filho, Filipe II (Espanha e Países Baixos), e o irmão, Fernando (o Império).
Esse mesmo palácio do Coudenberg, palco de tanta história, foi destruído por um incêndio em 1731, e suas ruínas ficaram enterradas sob a atual Praça Real (Place Royale); hoje dá para visitá-las em um sítio arqueológico subterrâneo. O período Habsburgo também trouxe tensões religiosas e políticas que levariam à revolta dos Países Baixos contra Filipe II. Bruxelas, ao contrário das províncias do norte que formariam a Holanda, continuou sob domínio católico e espanhol (os chamados Países Baixos espanhóis), com a cidade como capital administrativa.
O acontecimento que moldou a imagem mais famosa de Bruxelas foi, paradoxalmente, uma catástrofe. Em agosto de 1695, durante a Guerra dos Nove Anos, as tropas de Luís XIV da França, comandadas pelo marechal De Villeroy, bombardearam a cidade por três dias a partir dos arredores. Foi um castigo desproporcional, em represália a ataques aliados contra portos franceses. Os canhões e o fogo arrasaram o coração de Bruxelas: estima-se que milhares de edifícios tenham queimado, e a Grand Place, então o mercado e o centro cívico, com suas casas de madeira e as sedes das guildas, ficou devastada.
Mesmo assim, a resposta da cidade foi extraordinária. Em apenas quatro anos, as poderosas guildas reconstruíram suas casas ao redor da praça, agora em pedra e com uma ambição estética sem precedentes. Cada corporação (os padeiros, os cervejeiros, os alfaiates, os arqueiros) disputou para erguer a fachada mais suntuosa, com frontões barrocos, esculturas, colunas e muitos detalhes dourados. O resultado foi o conjunto harmonioso e espetacular que admiramos hoje, um dos exemplos mais completos de arquitetura barroca urbana da Europa, declarado Patrimônio Mundial pela Unesco em 1998.
A Prefeitura gótica, do século XV, com sua torre de 96 metros, tinha sobrevivido em parte ao bombardeio e presidiu a reconstrução. Assim, a Grand Place resume em um só espaço a história de Bruxelas: a altiva torre municipal do poder comunal medieval e as opulentas casas das guildas do renascimento barroco depois da destruição. Que a maior beleza da cidade tenha nascido de sua maior desgraça é, talvez, bem típico do espírito resiliente e meio surrealista desta capital.
Depois do domínio espanhol e, em seguida, austríaco dos Países Baixos meridionais, e de um intervalo sob a França revolucionária e napoleônica, o Congresso de Viena de 1815 uniu os territórios do norte e do sul em um único Reino Unido dos Países Baixos, sob o rei Guilherme I de Orange. Mas a união entre o norte protestante e de língua neerlandesa e o sul majoritariamente católico e em boa parte francófono foi tensa desde o início, por motivos religiosos, políticos, linguísticos e econômicos.
A explosão aconteceu em Bruxelas. Na noite de 25 de agosto de 1830, depois de uma apresentação da ópera 'A Muda de Portici' no Teatro da Moeda (La Monnaie / De Munt), cujo tema patriótico inflamou os ânimos, o público saiu às ruas e deflagrou uma insurreição. Os combates de rua se concentraram em torno do parque de Bruxelas, onde os revolucionários resistiram às tropas neerlandesas. A revolução venceu e foi proclamada a independência da Bélgica.
Um Congresso Nacional redigiu uma constituição liberal avançada para a época e ofereceu o trono ao príncipe Leopoldo de Saxe-Coburgo, que em 1831 se tornou Leopoldo I, primeiro rei dos belgas. Bruxelas foi escolhida como capital do novo Estado. Ao longo do século XIX, a cidade se transformou profundamente: o poluído rio Senne foi canalizado e foram abertos grandes bulevares no estilo parisiense; ergueram-se o colossal Palácio da Justiça e, no reinado de Leopoldo II, monumentos como o Parque do Cinquentenário. A riqueza dessa época também esteve ligada, de forma sombria, à brutal exploração colonial do Congo por Leopoldo II, um capítulo que a Bélgica hoje revisita de maneira crítica.
O século XX foi intenso para Bruxelas. Durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, a cidade foi ocupada pelas tropas alemãs, embora tenha sofrido menos destruição física do que outras regiões da Bélgica. A comunidade judaica de Bruxelas foi perseguida e deportada durante a ocupação nazista, em sua maioria pelo campo de trânsito de Mechelen (Malines) rumo a Auschwitz. A cidade foi libertada em setembro de 1944.
O grande marco do pós-guerra foi a Exposição Universal de 1958, a Expo 58, a primeira exposição internacional depois do conflito. Foi uma enorme vitrine do otimismo tecnológico e da reconstrução, e deixou para a cidade seu símbolo moderno mais reconhecível: o Atomium, a gigantesca célula de um cristal de ferro projetada por André Waterkeyn, pensada como emblema da era atômica e do progresso pacífico. A Expo modernizou a infraestrutura, atraiu milhões de visitantes e projetou Bruxelas para o mundo.
Ao mesmo tempo, a cidade foi assumindo o papel que a define até hoje: o de capital da construção europeia. Desde os anos 1950, Bruxelas passou a receber as instituições da Comunidade e depois da União Europeia. Hoje é sede da Comissão Europeia (o edifício Berlaymont), do Conselho da UE e de boa parte da atividade do Parlamento Europeu, além da sede da OTAN. Esse bairro europeu, em torno da praça Schuman, convive com a Bruxelas histórica e com uma realidade social complexa: uma cidade oficialmente bilíngue francês-neerlandês, profundamente cosmopolita e multicultural, com grandes comunidades de origem magrebina, subsaariana, turca e do resto do mundo. Capital de um país federal complicado e capital de fato da Europa, a Bruxelas de hoje continua sendo, como em sua origem, um cruzamento de caminhos e culturas.