Liège é uma cidade que fica no coração. A 'cidade ardente' (la Cité ardente), como é chamada, é calorosa, operária, agitada e profundamente orgulhosa de si mesma, com um jeito aberto e hospitaleiro que a diferencia das impecáveis cidades flamengas. Às margens do Mosa, no leste da Valônia e a um passo da Alemanha, foi durante quase mil anos a capital de um principado-bispado independente, e essa história de poder e independência se sente em seus palácios, suas igrejas e sua forte identidade.
É uma cidade de contrastes fascinantes: uma espetacular estação de trem futurista assinada por Santiago Calatrava e, a poucos minutos, um centro histórico de ruelas íngremes; a vertiginosa escadaria da Montagne de Bueren, com seus 374 degraus, e o burburinho dominical do mercado de La Batte, o mais antigo e mais longo da Bélgica, que se estende por quilômetros à beira do rio. É terra do waffle de Liège — mais denso, doce e caramelizado que o de Bruxelas —, das almôndegas à moda de Liège e de uma vida noturna e cultural intensa, alimentada por sua universidade.
Este guia percorre Liège com um olhar prático e caloroso: o que ver no centro histórico e nas colinas, como subir a Montagne de Bueren, quando e onde aproveitar o mercado de La Batte, os grandes museus, a estação de Calatrava, e como chegar e se locomover nesta cidade grande e cheia de ladeiras. Menos turística que Bruges ou Gante, Liège recompensa quem a visita com autenticidade, boa comida e o jeito simples e acolhedor de seus moradores.
Liège deve sua origem a um crime: o assassinato do bispo Lamberto por volta do ano 705, que a transformou em local de peregrinação e sede episcopal. Na Idade Média tornou-se a capital de um principado-bispado que, governado por seus bispos, manteve-se independente durante quase mil anos dentro do Sacro Império, sem fazer parte dos Países Baixos borgonheses ou espanhóis. Cidade rebelde, seus moradores protagonizaram célebres revoltas contra seus senhores. A Revolução Francesa acabou com o principado em 1789-1795. No século XIX, Liège foi um dos berços da Revolução Industrial no continente, com o carvão e o aço. Em 1914, seu cinturão de fortes ofereceu uma resistência heroica à invasão alemã. Tudo isso, do bispo Lamberto à cidade industrial, está contado na nossa página de história.
Ler a história completa ↓French-speaking Belgium in the south: the old prince-bishopric of Liège, Merovingian Tournai, fortified Namur, the forests of the Ardennes and the industrial heartland of coal and steel, cradle of Walloon folklore and of Adolphe Sax.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Poucas cidades podem dizer que nasceram de um crime. Liège pode. Por volta do ano 705, num lugar modesto às margens do Mosa, onde havia uma vila e uma pequena comunidade, foi assassinado Lamberto, bispo de Maastricht. As circunstâncias da morte dele se misturam com a lenda (fala-se de vinganças e de conflitos com a corte franca), mas o certo é que seu martírio logo o transformou em santo, e o lugar onde morreu, em destino de peregrinação.
Poucas décadas depois, seu sucessor, santo Humberto, transferiu a sede episcopal de Maastricht para esse lugar para homenagear Lamberto e ergueu uma igreja sobre o túmulo dele. Ao redor desse santuário começou a crescer uma cidade. O que antes era um povoado à beira do rio virou, graças às relíquias do bispo mártir e à sede episcopal, um centro religioso cada vez mais importante. São Lamberto se tornou o padroeiro da cidade, e sobre o local do seu martírio se ergueriam, com os séculos, a grande catedral de São Lamberto (hoje desaparecida) e o coração de Liège: a praça que ainda leva seu nome.
Assim, de um jeito singular, uma cidade importante da Europa nasceu não de um porto, de uma fortaleza ou de um cruzamento comercial, mas do sangue de um bispo e da devoção que ele despertou. Essa origem eclesiástica marcaria seu destino: Liège não seria governada por condes ou duques leigos, como suas vizinhas, mas pelos próprios bispos, transformados em príncipes. Estava nascendo um dos Estados mais peculiares da Europa medieval.
No começo do século XI, um bispo excepcional, Notger, recebeu do imperador do Sacro Império não só a autoridade religiosa sobre sua diocese, mas também o poder temporal sobre um território: nascia o principado-bispado de Liège, um Estado governado pelo bispo, que era ao mesmo tempo pastor de almas e príncipe soberano, vassalo do imperador. Notger fortificou e embelezou a cidade a tal ponto que se dizia que 'Liège deve a Notger, e Notger a Cristo'. A cidade se encheu de igrejas e colegiadas e virou um grande polo de cultura, com escolas famosas em toda a Europa: chamavam-na de 'a Atenas do Norte'.
O principado-bispado tinha uma característica que o tornava único: permaneceu independente por quase oitocentos anos, sem nunca se integrar aos Países Baixos borgonheses, espanhóis ou austríacos que cercavam seu território. Enquanto Flandres, Brabante ou Namur passavam para as mãos da Borgonha e depois dos Habsburgo, Liège continuou sendo um Estado eclesiástico soberano dentro do Sacro Império, com leis, moeda e instituições próprias.
Mas governar Liège não era fácil. Seus habitantes eram famosos pelo espírito rebelde e pelo apego às liberdades comunais, simbolizadas pelo 'Perron', a coluna da praça do Mercado. Vez após vez, o povo e as corporações de ofício se levantaram contra o poder dos bispos e da nobreza, em revoltas sangrentas. A mais trágica aconteceu em 1468, quando Carlos, o Temerário, da Borgonha, cansado da rebeldia liegense, tomou e saqueou brutalmente a cidade, incendiando-a quase por completo como castigo. Liège se reconstruiu, como sempre, e seguiu seu caminho independente, orgulhosa e indisciplinada, por mais três séculos.
O espírito rebelde de Liège encontrou sua hora no século XVIII, embalado pelas ideias do Iluminismo. Em 1789, o mesmo ano em que estourava a Revolução Francesa, os liegenses fizeram a sua própria revolução. Cansado do governo do príncipe-bispo e exigindo liberdades e direitos, o povo se levantou, tomou a prefeitura e obrigou o bispo a fugir. A Revolução Liegense proclamou princípios de soberania popular muito avançados para a época, em sintonia com o que acontecia na França.
A reação não demorou: as tropas do Sacro Império restauraram o príncipe-bispo à força em 1791. Mas a restauração durou pouco. A expansão da França revolucionária varreu a velha ordem europeia, e depois das campanhas dos exércitos franceses o principado-bispado de Liège foi definitivamente abolido e anexado à França em 1795. Assim terminava, depois de quase oitocentos anos, um dos Estados mais singulares e longevos da Europa. A grande catedral de São Lamberto, símbolo do poder episcopal, foi demolida pelos revolucionários: hoje só resta a lembrança dela na praça Saint-Lambert.
Após a queda de Napoleão, Liège foi integrada, como o resto da atual Bélgica, primeiro ao Reino Unido dos Países Baixos e, a partir da revolução de 1830, à nova Bélgica independente. A cidade, com sua identidade forte e sua tradição industrial e operária, se tornaria um dos grandes bastiões do novo país e um motor da sua economia. Mas, antes de tudo, ela seria protagonista de uma das maiores transformações da história: a Revolução Industrial.
Liège está assentada sobre carvão, e esse carvão mudou seu destino. Já na Idade Média as minas da região eram exploradas, e a cidade tinha uma antiga tradição metalúrgica e de fabricação de armas. Mas no século XIX Liège se tornou um dos primeiros polos da Revolução Industrial na Europa continental, um lugar onde as novas técnicas britânicas do ferro, do carvão e do vapor se firmaram muito cedo. Uma figura-chave foi o inglês John Cockerill, que no começo do século instalou em Seraing, ao lado de Liège, um dos maiores complexos siderúrgicos da Europa, integrando minas, altos-fornos e fábricas.
Por mais de um século, o vale do Mosa ao redor de Liège foi uma paisagem de minas de carvão, altos-fornos, laminadoras e oficinas, com uma grande classe operária e um forte movimento sindical e socialista. A indústria de armas liegense (a Fabrique Nationale, FN, de Herstal) ficou famosa no mundo inteiro. Liège era uma potência industrial, barulhenta e enfumaçada, a 'cidade ardente' também por causa dos seus fornos, e esse passado forjou seu caráter operário, combativo e solidário.
Esse poderio teve um preço no século XX. Em agosto de 1914, no início da Primeira Guerra Mundial, o cinturão de doze fortes que cercava Liège se tornou o primeiro grande obstáculo da invasão alemã da Bélgica. A resistência da 'posição fortificada de Liège', embora tenha acabado cedendo diante da artilharia pesada alemã, atrasou o avanço inimigo e deu tempo aos Aliados, um gesto que rendeu à cidade uma condecoração. Já a segunda metade do século trouxe o lento e doloroso declínio da indústria pesada: fechamento de minas e fábricas, desemprego e reconversão, um processo duro que marcou toda a região da Valônia.
Superado o trauma da desindustrialização, a Liège do século XXI buscou se reinventar. A cidade apostou nos serviços, na logística (seu aeroporto de cargas está entre os maiores da Europa), na universidade, na cultura e no turismo, enquanto recupera seu patrimônio e seus bairros. O grande símbolo dessa modernização é a espetacular estação Liège-Guillemins, inaugurada em 2009, uma obra-prima de aço e vidro do arquiteto Santiago Calatrava que virou a nova imagem da cidade e a porta de entrada dos trens de alta velocidade rumo à Alemanha.
Hoje Liège, com mais de 190.000 habitantes na cidade e cerca de 600.000 na região metropolitana, é a terceira maior aglomeração da Bélgica e a grande metrópole do leste francófono. Conserva um patrimônio riquíssimo, que conta seus mil anos de história: o Palácio dos Príncipes-Bispos com seus pátios com arcadas, as igrejas e seus tesouros de arte mosana (como as famosas pias batismais de São Bartolomeu), os museus do Grand Curtius e de La Boverie. E mantém vivas suas tradições: a feira dominical de La Batte, a mais antiga do país; o folclore do bairro de Outremeuse com seu boneco Tchantchès; a memória do escritor Georges Simenon, filho da cidade e criador do comissário Maigret.
Mas, acima de tudo, Liège conserva sua alma: calorosa, acolhedora, combativa e orgulhosa. Seus moradores defendem com humor e carinho sua identidade de 'Principauté' e seu caráter diferente, e recebem o visitante com uma simplicidade e um jeito descontraído que surpreendem quem chega das cidades flamengas, mais certinhas. Do sangue de um bispo mártir à 'Atenas do Norte', do principado independente ao berço industrial do continente, Liège é uma cidade que viveu muito e carrega isso com dignidade: a Cité ardente, sempre ardente.