Encravada entre montanhas e lagos, às margens do enorme Nahuel Huapi e dentro do parque nacional mais antigo da Argentina, San Carlos de Bariloche é a capital indiscutível do turismo patagônico. É chamada de 'Suíça argentina' por seus bosques, pela arquitetura de pedra e madeira de inspiração alpina e, claro, pela tradição chocolateira. É um destino para o ano todo: no inverno se cobre de neve para esquiar no Cerro Catedral e no verão explode em verde para o trekking, a navegação e as praias de lago.
O coração da cidade é o Centro Cívico, um conjunto de edifícios de pedra e troncos de frente para o lago que virou o cartão-postal de Bariloche, e a rua Mitre, onde se concentram as lendárias chocolaterias. A partir dali, tudo convida a sair para a montanha: o Circuito Chico contornando o lago entre cerros e bosques, o mirante do Cerro Campanario (eleito uma das melhores vistas do mundo), o icônico Hotel Llao Llao e a península de mesmo nome, e os píeres de onde saem os barcos para Isla Victoria e o Bosque de Arrayanes.
Mas Bariloche é muito mais do que o centro. É esqui de nível internacional no Cerro Catedral, é a confeitaria giratória do Cerro Otto, é o pitoresco vilarejo de Colonia Suiza com seu curanto patagônico, são as cervejarias artesanais e o cordeiro assado na brasa, e são as estradas que levam ao cerro Tronador, a Puerto Blest e à floresta valdiviana. Natureza imponente, história de pioneiros europeus e uma infraestrutura turística madura: não é à toa que Bariloche é, para muita gente, a melhor porta de entrada para a Patagônia.
Vim passar o dia desde San Martín de los Andes em 2015, na minha primeira viagem à Patagônia. O Nahuel Huapi, o centro, uns sanduíches. E uma foto com um cachorro São Bernardo que hoje eu não publicaria: esses cachorros passam o dia no sol posando, e não estão bem.
Ler a minha experiência completa →Muito antes da cidade, a região do Nahuel Huapi era habitada por povos originários: tehuelches, puelches, poyas, pehuenches e, mais tarde, comunidades mapuches, que deram nome ao lago ('Nahuel Huapi' significa, em mapudungun, algo como 'ilha do tigre' ou 'ilha da onça'). No século XVII chegaram missionários jesuítas, que fundaram missões efêmeras na região. A presença originária foi brutalmente interrompida no fim do século XIX com a Conquista do Deserto: em abril de 1881, tropas argentinas chegaram ao Nahuel Huapi, incorporando o território ao Estado nacional. Por volta de 1895, o comerciante de origem alemã Carlos Wiederhold instalou às margens do lago um armazém de secos e molhados, 'La Alemana', que se tornou o embrião do povoado. Em 3 de maio de 1902 foi reconhecida oficialmente a fundação do povoado de San Carlos de Bariloche, nome que mistura o de Wiederhold ('San Carlos') com o topônimo 'Vuriloche' (uma passagem na cordilheira). No começo do século XX chegaram imigrantes suíços, alemães, austríacos e italianos que povoaram a região, fundaram Colonia Suiza e trouxeram a fruticultura, a pecuária, o trabalho com madeira, o chocolate e uma arquitetura alpina que marcou a identidade do lugar. O grande salto veio com o Estado: em 1934 foi criado o Parque Nacional Nahuel Huapi (com base na doação de terras que o perito Francisco P. Moreno havia feito em 1903), e a Direção de Parques Nacionais, presidida por Exequiel Bustillo, tocou uma enorme obra de infraestrutura. Nesse mesmo ano chegou a ferrovia, pondo fim ao isolamento, e em 1940 foi inaugurado o Centro Cívico. Com o esqui no Cerro Catedral e figuras pioneiras como Otto Meiling, Bariloche se consolidou como destino turístico de primeira linha. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The province that crosses Patagonia from the cordillera to the sea: Tehuelche and Mapuche land, land of Carmen de Patagones and the Conquest of the Desert, of the apples of the Alto Valle, of Bariloche and the Nahuel Huapi, and of the beaches of Las Grutas.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes dos chocolates da rua Mitre e das pistas do Cerro Catedral, o Nahuel Huapi foi, por mais de 10.000 anos, território de povos canoeiros que cruzavam o lago e a cordilheira por rotas de que hoje ninguém se lembra. Depois do último período glacial, diferentes grupos — tehuelches, puelches, poyas, pehuenches e, mais tarde, comunidades de cultura mapuche — percorreram estes bosques, lagos e vales da cordilheira, vivendo da caça, da pesca, da coleta e, em alguns setores mais propícios, de cultivos como a batata, a fava e a quinoa. O lago, suas ilhas e as passagens de montanha eram rotas naturais de circulação e de troca entre os dois lados da cordilheira.
Do povo mapuche vem o nome mais famoso da região: 'Nahuel Huapi', palavra do mapudungun que costuma ser traduzida como 'ilha do tigre' ou 'ilha da onça' (de 'nahuel', tigre ou onça-pintada, e 'huapi', ilha). Originalmente, muitas dessas comunidades eram canoeiras e fluviais; só adotaram o cavalo em massa — trazido pelos europeus — já em pleno período colonial, o que transformou sua mobilidade e sua economia.
No século XVII, missionários jesuítas tentaram fundar missões às margens do lago para evangelizar os povos da região, em empreitadas que duraram pouco e acabaram abandonadas. Durante boa parte da época colonial, a região do Nahuel Huapi ficou fora do domínio efetivo da coroa e, depois, do Estado argentino: era um território indígena, distante e de difícil acesso, que manteve sua autonomia até o fim do século XIX.
O destino da região mudou drasticamente no fim do século XIX com a Conquista do Deserto, a campanha militar com que o Estado argentino submeteu e incorporou os territórios indígenas do Pampa e da Patagônia. No contexto dessas operações, uma brigada comandada pelo tenente-coronel Rufino Ortega chegou às margens do lago Nahuel Huapi em abril de 1881, levando a presença militar e estatal até o coração da cordilheira.
Para os povos originários, aquela campanha foi uma tragédia: a morte de milhares de pessoas, o deslocamento forçado, a perda de seus territórios e a ruptura de seu modo de vida. A memória dessa violência fundadora convive hoje com o relato turístico de Bariloche e é parte inescapável da história da região.
Uma figura-chave daqueles anos foi o perito Francisco Pascasio Moreno, explorador, naturalista e especialista nas disputas de fronteira com o Chile. Moreno percorreu a Patagônia, criou vínculos com as sociedades indígenas e mapeou a região. Em reconhecimento a seus serviços, o Estado lhe concedeu terras na área do Nahuel Huapi e, em 1903, ele doou ao Estado nacional uma área de cerca de três léguas ao redor de Puerto Blest, com a condição de que fosse preservada como parque público para o desfrute das gerações futuras. Aquele gesto seria a semente do primeiro parque nacional argentino.
Com o território já incorporado ao Estado, começou a fase dos pioneiros. Por volta de 1895, o comerciante de origem alemã Carlos Wiederhold — vindo do sul do Chile — abriu às margens do lago um armazém de secos e molhados conhecido como 'La Alemana', que abastecia moradores dos dois lados da cordilheira e se tornou o núcleo comercial em torno do qual cresceu o futuro povoado. O comércio de fronteira e o transporte pelo lago foram, nesses primeiros anos, o motor da comunidade nascente.
Em 3 de maio de 1902 ficou estabelecida oficialmente a fundação do povoado de San Carlos de Bariloche, data que a cidade comemora como seu aniversário. O nome junta duas raízes: 'San Carlos', ligado a Carlos Wiederhold, e 'Bariloche', derivado de 'Vuriloche', palavra que designava uma antiga passagem da cordilheira usada pelos povos originários e pelos missionários ('Vuriloche' costuma ser associado a 'gente do outro lado da montanha').
Nas primeiras décadas do século XX, o povoado foi crescendo com a chegada de imigrantes europeus — suíços, alemães, austríacos, italianos, além de criollos e chilenos — que se dedicaram à pecuária, à fruticultura, ao trabalho com madeira, aos ofícios e ao comércio. Essa população diversa, unida pelo espírito de trabalho e pelo isolamento compartilhado, foi a que forjou o caráter pioneiro de Bariloche e lançou as bases de sua identidade.
A marca que hoje faz Bariloche ser chamada de 'Suíça argentina' nasceu com a chegada de imigrantes europeus no começo do século XX. Suíços, alemães e austríacos — muitos deles vindos de regiões de montanha — encontraram nestes bosques, lagos e picos uma paisagem familiar, parecida com a de suas terras de origem, e se instalaram para trabalhar a terra e desenvolver ofícios.
Um dos símbolos dessa corrente foi a fundação da Colonia Suiza, um assentamento agrícola no que hoje é o Circuito Chico, povoado por colonos suíços e, com o tempo, também por alemães e italianos. Ali se desenvolveram a fruticultura, a pecuária, a produção de queijos e doces, e costumes que continuam vivos, como o curanto — uma comida ancestral cozida debaixo da terra, entre pedras quentes — que até hoje é preparado para os visitantes.
Essa imigração deixou uma marca profunda na arquitetura, na gastronomia e na cultura local. As construções de madeira e pedra em estilo alpino, as casas de chá, a confeitaria centro-europeia e, muito especialmente, a tradição chocolateira têm raízes nesses colonos. Em meados do século XX, imigrantes italianos como Aldo Fenoglio impulsionaram a produção de chocolate no estilo europeu, dando origem à fama chocolateira da rua Mitre, que dura até hoje. Desse cruzamento de origens nasceu a identidade 'europeia' e de montanha que distingue Bariloche.
O grande salto de Bariloche, de povoado isolado a destino turístico nacional, veio pelas mãos do Estado na década de 1930. A partir da doação de terras que Francisco P. Moreno havia feito em 1903 — que deu origem ao 'Parque Nacional del Sud' —, em 1934 uma lei nacional criou o Parque Nacional Nahuel Huapi, o mais antigo da Argentina, junto com a Dirección de Parques Nacionales.
À frente dessa Dirección, seu primeiro presidente, Exequiel Bustillo, promoveu um ambicioso plano de infraestrutura para valorizar a região e atrair turistas. Nesse mesmo ano, 1934, o trem finalmente chegou, pondo fim ao longo isolamento do povoado e ligando-o de forma regular ao resto do país. Estradas, hotéis, refúgios de montanha e atracadouros transformaram o território. A obra mais emblemática foi o Centro Cívico: projetado pelo arquiteto Ernesto de Estrada e inaugurado em 17 de março de 1940, esse conjunto de prédios públicos de pedra e madeira, em estilo pitoresco alpino-patagônico e disposto em forma de 'U' de frente para o lago, virou o cartão-postal definitivo da cidade e foi declarado Monumento Histórico Nacional em 1987.
Ao mesmo tempo, figuras pioneiras do montanhismo e dos esportes de inverno deram impulso a outra das grandes vocações de Bariloche: o esqui. O alemão Otto Meiling, que chegou em 1930, fundou escolas e fabricou os primeiros esquis; e a então Dirección de Parques chamou especialistas como o austríaco Hans Nöbl para estudar a viabilidade de um grande centro de esqui, que acabou sendo instalado no Cerro Catedral. Com tudo isso, em meados do século XX Bariloche já era 'a Suíça argentina': um destino consolidado de montanha, lago e neve, que combina natureza impressionante, herança europeia e história de pioneiros, e que hoje é a principal porta de entrada para o turismo na Patagônia andina.