Camarones é uma cidadezinha litorânea pequena e tranquila da província de Chubut, no golfo San Jorge, na costa atlântica da Patagônia, entre Trelew e Comodoro Rivadavia. Com clima sereno e jeito de vila de pescadores, conserva o charme das cidadezinhas do litoral patagônico, com sua baía, suas casas baixas e sua ligação com o mar. É a base de acesso ao Parque Interjurisdiccional Marino Costero Patagonia Austral, uma área protegida de grande riqueza natural.
Sua principal atração é a natureza marinha: perto de Camarones fica Cabo Dos Bahías, onde vive uma importante colônia de pinguins-de-magalhães, além de guanacos, maras e outros animais da Patagônia, e um litoral de ilhas e golfos protegido pelo parque marinho. Camarones também tem uma curiosidade histórica: foi a cidadezinha onde Juan Domingo Perón passou parte da infância, o que lhe garante um lugar na memória do país.
Este guia percorre o essencial de Camarones com um olhar prático: a cidadezinha e sua baía, Cabo Dos Bahías e sua colônia de pinguins, o Parque Interjurisdiccional Marino Costero Patagonia Austral, a pesca e a gastronomia do mar, a vila fantasma vizinha de Cabo Raso, onde se hospedar e comer, e como chegar. É um destino de litoral patagônico autêntico, ideal para quem busca fauna marinha, tranquilidade e paisagens de mar longe dos roteiros mais lotados.
Camarones é um antigo povoado litorâneo de Chubut, fundado oficialmente em 1900 e historicamente ligado à pesca, à criação de ovelhas e ao embarque de lã em seu porto, que foi um dos mais importantes da região no começo do século XX. Também é conhecido por ter sido a cidadezinha onde Juan Domingo Perón passou parte da infância, na estância da família na região. Hoje é a porta de entrada para o Parque Interjurisdiccional Marino Costero Patagonia Austral e para a colônia de pinguins de Cabo Dos Bahías. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The heart of Atlantic and Andean Patagonia: Tehuelche and Mapuche land, setting of the only large Welsh colony in the Americas, cradle of Argentine oil at Comodoro Rivadavia, home to the whales of Península Valdés and to the thousand-year-old forest of Los Alerces.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Quase cem anos antes de Buenos Aires existir como cidade, já houve uma tentativa espanhola de fundar uma cidade nesta costa da Patagônia. Era o ano de 1535 quando o capitão Simón de Alcazaba y Sotomayor desembarcou em Caleta Hornos, apenas 28 quilômetros ao sul do que hoje é Camarones, e ali fundou o Puerto de los Leones: provavelmente a primeira fundação espanhola em todo o atual território argentino, anterior até mesmo à primeira fundação de Buenos Aires por Pedro de Mendoza (1536). É um fato que surpreende qualquer pessoa que visite este povoado pequeno e tranquilo, hoje alheio às grandes narrativas de fundação do país: aqui existiu, por pouco tempo, o primeiro assentamento espanhol da Argentina.
O sonho de Alcazaba durou pouco. O rigor do clima patagônico, a escassez de recursos e os conflitos internos entre os próprios expedicionários (incluindo um motim que acabou com a vida do próprio capitão) forçaram o abandono do assentamento apenas alguns meses depois da fundação. A costa do golfo San Jorge voltou a ficar nas mãos de seus habitantes originários, os tehuelches, caçadores-coletores adaptados à imensidão patagônica que conheciam o território muito antes de qualquer vela europeia aparecer no horizonte.
O nome 'Camarones' chegaria séculos depois, e sua origem é mais simples do que muita gente imagina: antigamente, nesta baía protegida do golfo San Jorge, havia em abundância uma espécie característica de camarões (camarones, em espanhol), que os navegadores de passagem identificaram como marca registrada do lugar. Essa mesma baía, protegida do vento e das correntes abertas do Atlântico, seria, séculos mais tarde, o motivo pelo qual um povoado de verdade acabaria se instalando aqui e não em outro ponto da costa.
Quase quatro séculos depois do efêmero Puerto de los Leones, a baía de Camarones voltou a chamar a atenção, desta vez para ficar. A partir de cerca de 1890, navegadores e comerciantes começaram a usar esta baía natural, protegida do vento e das ondas abertas do Atlântico, como porto para carregar e descarregar lã, couro e outros produtos das estâncias do interior de Chubut. A Patagônia vivia então o auge da criação de ovelhas: enormes extensões de estepe se encheram de rebanhos, e toda essa lã precisava de um ponto de embarque para os mercados do outro lado do oceano.
Em 10 de outubro de 1900 foi determinado formalmente o traçado urbano de Camarones, com uma planta de 200 quarteirões, e essa é a data reconhecida hoje como a fundação oficial do povoado. A partir daí, Camarones se firmou rapidamente como um porto de lã de peso regional: em 1909 foi criada ali a primeira Sociedade Rural da Patagônia, e a chamada 'lã tipo Camarones' chegou a ganhar reconhecimento internacional pela qualidade, sendo cotada nos mercados de lã da Europa.
Em torno dessa atividade portuária se desenvolveu o povoado como é conhecido hoje: casas baixas, um comércio incipiente e uma comunidade que combinava a vida do porto com a do campo, em um dos cantos mais austrais e selvagens da costa atlântica argentina. Com o passar das décadas, as mudanças no transporte (o predomínio das rodovias e de portos de maior calado, como Comodoro Rivadavia) fizeram Camarones perder protagonismo como ponto de exportação, mas o povoado nunca perdeu sua identidade litorânea, forjada no calor daqueles anos de bonança da lã.
Camarones ocupa um lugar singular na memória argentina por sua ligação com Juan Domingo Perón, uma das figuras mais influentes da história do país. Durante a infância dele, a família Perón se estabeleceu na Patagônia, na região de Camarones e arredores, ligada à atividade rural da área. O futuro presidente passou ali parte de seus primeiros anos, no ambiente rústico e formador da estepe e do litoral de Chubut.
Essa experiência patagônica precoce (o contato com o campo, o cavalo, a vida austera do sul) faz parte da narrativa sobre as origens de Perón, e Camarones a reivindica como parte de sua identidade e de seu patrimônio histórico. Hoje ela é lembrada no Museo de la Familia Perón, instalado em uma casa ligada à história da família. Para um povoado pequeno e afastado da costa patagônica, ter sido cenário da infância de quem depois seria três vezes presidente da Argentina é motivo de orgulho e mais uma atração para o visitante interessado na história argentina.
Como tantas grandes tradições patagônicas, a Fiesta Nacional del Salmón de Camarones não nasceu de um plano turístico nem de uma decisão oficial, mas de um grupo de amigos com vontade de compartilhar a paixão pela pesca. Era 1981 quando, na Semana Santa daquele ano, um grupo de pescadores e moradores organizou em Caleta Sara, a uns 28 quilômetros de Camarones, a primeira edição do que então era apenas um encontro informal: uma forma de destacar e celebrar o ofício de um povoado de pescadores, com varas, barcos e barracas montadas à beira-mar.
Nos primeiros anos, até mais ou menos 1987, o festival se manteve nesse formato caseiro, com moradores e visitantes que chegavam em seus próprios veículos, carregados de barracas, barcos e equipamentos de pesca, para passar o fim de semana competindo pela melhor captura. O boca a boca fez o resto: a festa foi crescendo a cada edição, até que em 1990 o governo nacional a reconheceu oficialmente como Festa Nacional, somando mais um título à crescente identidade pesqueira do povoado.
Hoje a Fiesta Nacional del Salmón, que em sua edição de 2026 chegou à 43ª edição com o lema 'Sé parte de la historia' ('Faça parte da história'), reúne mais de cinquenta embarcações que competem em jornadas de pesca de mais de seis horas, em busca da maior captura para levar o prêmio. Ela acontece entre fevereiro e março, enche o povoado de movimento, música e frutos do mar, e é, de longe, o evento que mais atrai gente a este canto afastado do golfo San Jorge ao longo do ano. Para Camarones, que passou de efêmero forte espanhol a próspero porto de lã e hoje é a porta de entrada de uma das reservas de fauna marinha mais importantes do país, a festa é a prova de que sua ligação com o mar nunca deixou de ser o coração de sua identidade.
Ao longo do século XX, as mudanças no transporte e na economia fizeram Camarones perder seu antigo papel de porto exportador de lã. O povoado entrou em uma fase mais tranquila, sustentado pela pesca, pela criação de ovelhas e pela vida no litoral, mantendo sua escala pequena e seu caráter isolado. O que parecia uma desvantagem (a distância dos grandes circuitos) acabou se transformando, com o tempo, em sua maior virtude: um litoral patagônico quase intocado, de enorme riqueza natural.
O reconhecimento desse valor veio com a proteção do seu entorno. Em 2008 foi criado o Parque Interjurisdiccional Marino Costero Patagonia Austral, a primeira área protegida marinho-costeira desse tipo na Argentina, administrada em conjunto pela Administración de Parques Nacionales e pela província de Chubut, que protege um trecho do golfo San Jorge com suas ilhas, ilhotas e colônias de aves marinhas, lobos-marinhos e pinguins. Soma-se a isso a Área Natural Protegida Cabo Dos Bahías, com sua enorme pinguineira de pinguins-de-magalhães e sua fauna de estepe.
Assim, o velho porto de lã se reinventou como destino de turismo de natureza e conservação. Memória histórica (a lã, o porto, a infância de Perón) e biodiversidade marinha se combinam hoje neste canto sossegado do golfo San Jorge, que atrai quem busca fauna, silêncio e paisagens de mar longe dos roteiros de massa.