Dresden é uma daquelas cidades que parecem cenário de ópera: cúpulas barrocas, palácios de pedra dourada, torres e campanários recortados contra o céu, tudo refletido nas águas tranquilas do Elba. Não é à toa que a chamam de 'Florença do Elba'. Durante séculos foi a residência dos príncipes-eleitores da Saxônia, que, com sua paixão pela arte e pelo luxo — encarnada sobretudo em Augusto, o Forte —, transformaram a cidade em um dos grandes centros do barroco europeu, repleta de palácios, igrejas e coleções de arte de fama mundial.
Mas a história de Dresden é também a história de uma ferida e de uma ressurreição. Em fevereiro de 1945, nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, os bombardeios aliados arrasaram o centro histórico e deixaram a cidade reduzida a escombros. Por décadas, as ruínas da Frauenkirche foram um monumento ao horror da guerra. Depois da reunificação alemã, essa igreja emblemática foi reconstruída pedra por pedra, e com ela todo o coração barroco da cidade: hoje, passear pela Altstadt restaurada é testemunhar um dos renascimentos urbanos mais comoventes da Europa.
Este guia percorre Dresden com um olhar prático e caloroso: quais palácios e museus não perder, como aproveitar o terraço do Elba e o bairro boêmio de Neustadt, como se locomover de bonde e como combinar a cidade com a natureza espetacular da Suíça Saxônica. Dresden oferece arte, história, memória e beleza na mesma medida, e deixa em quem a visita a sensação de ter estado em um lugar que soube renascer das próprias cinzas.
Dresden nasceu como um povoado eslavo às margens do Elba e é mencionada pela primeira vez em 1206. Passou às mãos da casa de Wettin, que a transformou em sua residência e, com o tempo, em capital do eleitorado da Saxônia. Sua grande época de esplendor chegou nos séculos XVII e XVIII, sobretudo sob Augusto II, 'o Forte', príncipe-eleitor da Saxônia e rei da Polônia, grande mecenas que fez de Dresden uma capital barroca de primeira linha: mandou construir o palácio Zwinger, impulsionou as grandes coleções de arte e atraiu artistas, arquitetos e artesãos de toda a Europa. No século XVIII também foi erguida a Frauenkirche, com sua célebre cúpula de pedra. A cidade ficou famosa por sua porcelana (a vizinha Meissen foi a primeira da Europa) e por seus tesouros, reunidos em coleções como a Abóbada Verde. Nos séculos XIX e XX, Dresden cresceu como centro industrial, cultural e artístico. Em 13 e 14 de fevereiro de 1945, na reta final da Segunda Guerra Mundial, os bombardeios aliados destruíram quase por completo o centro histórico e causaram dezenas de milhares de mortes, em um dos episódios mais controversos da guerra. Na época da RDA, parte do centro foi reconstruída e outra parte ficou em ruínas como lembrança. Após a reunificação de 1990, começou a reconstrução fiel da Altstadt; a Frauenkirche, símbolo da cidade, foi reconstruída pedra por pedra e reinaugurada em 2005, tornando-se emblema de reconciliação. O vale do Elba de Dresden foi Patrimônio da Unesco entre 2004 e 2009 (perdeu o título por causa da construção de uma ponte). Hoje Dresden é uma próspera capital cultural. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Prussian heart of Germany: Berlin, capital of the Reich and of the Republic; Potsdam and the Hohenzollern palaces; Dresden, the Florence on the Elbe flattened in 1945; and Leipzig, birthplace of the peaceful demonstrations that helped bring down the Wall in 1989.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser a deslumbrante capital barroca que conhecemos, Dresden nasceu como um modesto povoado de pescadores eslavos às margens do rio Elba. O próprio nome da cidade revela essa origem: 'Dresden' vem do sórbio antigo 'Drežďany', que costuma ser traduzido como 'o povo da floresta ribeirinha' ou 'os habitantes da floresta aluvial'. Os sórbios, um povo eslavo ocidental, habitavam essa região da bacia do Elba muito antes da expansão germânica para o leste.
A primeira menção documental a Dresden como cidade é de 1206, quando ela aparece citada em um documento do margrave Dietrich de Meissen. A localização era estratégica: um vau sobre o Elba, em um ponto onde dava para atravessar o rio e onde rotas comerciais se encontravam. Por volta de 1216, ela já aparece com o status de cidade ('civitas'). Essa posição às margens do grande rio foi, durante séculos, a chave do seu crescimento e da sua importância comercial.
Ao longo da Idade Média, Dresden ficou sob o domínio da Casa de Wettin, a dinastia que marcaria o seu destino nos séculos seguintes. Em 1485, depois da chamada Divisão de Leipzig, que repartiu os territórios dos Wettin, Dresden se tornou residência da linha albertina da dinastia. Essa ascensão a sede da corte foi o primeiro passo da sua transformação: de vila fluvial a capital principesca.
Desde o fim do século XV, Dresden foi a residência dos duques (e depois eleitores) da Saxônia da linha albertina dos Wettin. Essa condição de capital de um Estado próspero, no coração da Europa Central, lançou as bases do seu esplendor posterior. A cidade cresceu em torno do castelo (Residenzschloss) e foi ganhando muralhas, igrejas e edifícios de governo.
No século XVI, a Saxônia também teve um papel central na Reforma Protestante. A região foi o berço do luteranismo, e Dresden adotou a fé reformada. A corte saxã se consolidou como uma das mais importantes do Sacro Império Romano-Germânico, e os eleitores da Saxônia chegaram a ter um peso político considerável, já que faziam parte do colégio que elegia o imperador.
O grande salto cultural e artístico, porém, viria no barroco, pelas mãos de um dos governantes mais célebres da história alemã: Augusto, o Forte. Mas, antes disso, Dresden já tinha acumulado riqueza, prestígio e uma tradição de mecenato da corte que, em poucas décadas, a transformariam em uma das cidades mais bonitas da Europa.
O período mais glorioso de Dresden está ligado para sempre a Augusto II da Saxônia, chamado 'Augusto, o Forte' (Augustus der Starke), eleitor da Saxônia e, a partir de 1697, também rei da Polônia. Ambicioso, refinado e amante do luxo, Augusto sonhou em transformar sua capital em uma metrópole cultural à altura das grandes cortes europeias, e dedicou recursos enormes para embelezá-la.
Sob o seu reinado e o de seu filho Augusto III, Dresden viveu uma explosão artística sem precedentes. Foram erguidos o Zwinger, aquele palácio-jardim barroco de galerias e pavilhões que é uma das obras-primas do barroco europeu; o Residenzschloss foi reconstruído; as coleções de arte que hoje enchem museus inteiros foram ampliadas; e foi desenvolvida a famosa porcelana de Meissen, a primeira porcelana de pasta dura fabricada na Europa, nascida nas oficinas que Augusto patrocinou. A cidade se encheu de palácios, igrejas e obras de arte, a ponto de merecer o apelido de 'a Florença do Elba'.
Um dos símbolos dessa época é a Frauenkirche (Igreja de Nossa Senhora), uma monumental igreja luterana coroada por uma colossal cúpula de pedra, construída entre 1726 e 1743. A sua silhueta, junto com a da Hofkirche católica e a do castelo, definiu para sempre o perfil inconfundível de Dresden sobre o Elba. A cidade barroca ficou imortalizada nas famosas vedute (vistas urbanas) pintadas pelo artista Canaletto (Bernardo Bellotto) em meados do século XVIII.
O episódio mais trágico e conhecido da história de Dresden aconteceu nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, a aviação aliada (a Royal Air Force britânica e a United States Army Air Forces) lançou uma série de bombardeios maciços sobre a cidade. As bombas incendiárias provocaram uma tempestade de fogo que arrasou o centro histórico barroco e matou dezenas de milhares de pessoas (as estimativas mais rigorosas falam em cerca de 25.000 vítimas, depois de anos de números muito exagerados).
A Frauenkirche, que tinha resistido ao calor do incêndio durante dois dias, acabou desabando em 15 de fevereiro, quando seus pilares de arenito, enfraquecidos pelas altíssimas temperaturas, cederam. O Zwinger, o castelo, a ópera Semperoper e praticamente todo o coração histórico da 'Florença do Elba' viraram ruínas. Pela sua magnitude e pelo pouco valor militar da cidade naquele momento da guerra, o bombardeio de Dresden se tornou um dos episódios mais discutidos e dolorosos do conflito.
No pós-guerra, as ruínas da Frauenkirche foram mantidas de propósito como monumento contra a guerra, enquanto Dresden ficava na zona de ocupação soviética e, a partir de 1949, passava a fazer parte da República Democrática Alemã (RDA). A reconstrução da cidade sob o regime comunista priorizou a moradia e os edifícios funcionais, embora alguns monumentos emblemáticos, como o Zwinger e a Semperoper, tenham sido reconstruídos com paciência.
Durante as quatro décadas da República Democrática Alemã, Dresden foi uma importante cidade industrial e cultural do Estado socialista. O regime reconstruiu parte do patrimônio (a ópera Semperoper reabriu em 1985, exatamente quarenta anos depois da sua destruição) e ergueu novos bairros de prédios pré-fabricados, mas as ruínas da Frauenkirche continuaram de pé como lembrança.
A cidade tinha uma particularidade geográfica curiosa: encaixada no vale do Elba, uma parte de Dresden não recebia o sinal da televisão ocidental, o que lhe rendeu o apelido irônico de 'Tal der Ahnungslosen' (o 'vale dos que não sabem de nada' ou 'vale dos ignorantes'). Mesmo assim, Dresden foi um dos focos das manifestações pacíficas que, no outono de 1989, contribuíram para a queda do regime comunista e do Muro de Berlim.
Depois da reunificação alemã de 1990, Dresden voltou a ser a capital do estado federado (Land) da Saxônia e embarcou em uma das reconstruções patrimoniais mais espetaculares da Europa. O símbolo desse renascimento foi a Frauenkirche: reconstruída pedra por pedra entre 1994 e 2005, reaproveitando milhares de blocos originais recuperados dos escombros (que se destacam pela cor mais escura na fachada), ela voltou a coroar o perfil da cidade. Hoje, a igreja reconstruída é um símbolo mundial de reconciliação e esperança.
A Dresden reconstruída depois da reunificação recuperou por completo a sua condição de grande capital cultural da Alemanha. Seus museus — reunidos nas Staatliche Kunstsammlungen Dresden, as Coleções Estatais de Arte — guardam tesouros como a 'Madona Sistina' de Rafael, na Gemäldegalerie Alte Meister do Zwinger, e a deslumbrante Grünes Gewölbe (Abóbada Verde), uma das câmaras do tesouro mais ricas da Europa, com as joias e os objetos preciosos acumulados pelos eleitores saxões.
Em 2004, a Unesco incluiu na lista do Patrimônio Mundial o 'Vale do Elba de Dresden', reconhecendo o conjunto da paisagem cultural ao longo do rio, com seus palácios, jardins, prados e a silhueta barroca da cidade. Em 2009, porém, a cidade protagonizou um caso excepcional: a Unesco retirou esse título de Patrimônio Mundial depois da construção da ponte Waldschlösschen sobre o Elba, que, na sua avaliação, rompia a integridade da paisagem protegida. Assim, Dresden se tornou um dos pouquíssimos lugares do mundo que perderam a condição de Patrimônio Mundial.
Polêmicas à parte, Dresden continua sendo uma das cidades mais visitadas e queridas da Alemanha, um lugar onde o esplendor barroco renascido convive com a memória da destruição e da reconstrução. Passear pela Brühlsche Terrasse — o 'balcão da Europa' — olhando o Elba, com a Frauenkirche e o Zwinger às costas, é entender por que Dresden continua sendo chamada de Florença do Elba.