Heidelberg é o cartão-postal do Romantismo alemão transformado em cidade: um castelo avermelhado em ruínas despontando entre florestas, um rio que reflete os telhados do centro histórico, uma ponte de pedra e uma universidade que funciona desde 1386, a mais antiga da Alemanha. Poetas e pintores do século XIX a transformaram em símbolo da beleza melancólica, e desde então ela atrai viajantes em busca dessa mistura de história, natureza e vida estudantil. Ao contrário de quase todas as cidades alemãs, Heidelberg saiu intacta da Segunda Guerra Mundial, então o que se vê é autêntico.
A cidade é compacta e gostosa de caminhar. Da longa Hauptstrasse de pedestres se sobe de funicular até o castelo, se atravessa a Ponte Velha para a outra margem do Neckar e se sobe ao Philosophenweg, a trilha de onde se tem a vista clássica de Heidelberg. No caminho aparecem a praça do Mercado com sua igreja gótica, as antigas faculdades da universidade e até uma curiosa prisão de estudantes coberta de grafites de outra época. Tudo cabe em um ou dois dias, mas dá vontade de ficar mais.
Este guia percorre Heidelberg com um olhar prático e acolhedor: como chegar de Frankfurt ou Mannheim, como funciona o funicular até o castelo (e por que o castelo está em ruínas de propósito), quais ingressos vale a pena comprar, quando evitar as multidões de excursionistas e por que vale a pena dormir uma noite. Uma cidade pequena, mas daquelas que marcam.
Heidelberg cresceu à sombra de seu castelo como capital do Palatinado Eleitoral, um dos territórios mais poderosos do Sacro Império, cujos príncipes-eleitores fundaram aqui, em 1386, a universidade mais antiga da Alemanha. A cidade viveu seu esplendor renascentista e foi um centro do protestantismo, até que as guerras a atingiram com força: em 1622 sua célebre Biblioteca Palatina foi levada para o Vaticano, e entre 1689 e 1693 as tropas de Luís XIV da França arrasaram a cidade e o castelo na Guerra de Sucessão do Palatinado. O castelo nunca foi totalmente reconstruído, e sua ruína se tornou o grande ícone do Romantismo alemão do século XIX. Heidelberg escapou dos bombardeios da Segunda Guerra Mundial e depois foi sede do exército americano na Europa durante décadas. Hoje é uma cidade universitária cheia de vida e uma das mais visitadas da Alemanha. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Germany of Romanticism: Heidelberg and its centuries-old university on the banks of the Neckar, with the ruined castle that poets fell in love with; and Rothenburg ob der Tauber, the best preserved medieval free imperial city, jewel of the Romantic Road.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O vale do Neckar é habitado desde tempos muito remotos: perto de Heidelberg, na localidade de Mauer, apareceu em 1907 a mandíbula do chamado Homo heidelbergensis, um hominídeo de centenas de milhares de anos que leva o nome da cidade. Muito depois, celtas e romanos ocuparam estas margens; os romanos ergueram um forte e uma ponte sobre o Neckar. Mas a Heidelberg que conhecemos nasce na Idade Média, à sombra de um castelo.
A cidade é mencionada pela primeira vez em documentos por volta de 1196. Cresceu espremida entre o rio e a colina, no ponto onde o vale arborizado se abre para a planície do Reno, uma localização estratégica para controlar a passagem. A partir do século XIII, Heidelberg foi a residência dos condes palatinos do Reno, uma das grandes dinastias do Sacro Império Romano-Germânico.
O salto decisivo veio em 1356 com a Bula de Ouro do imperador Carlos IV, o documento que fixou as regras para eleger o imperador. A Bula concedeu aos condes palatinos a dignidade de príncipes eleitores: ou seja, eles passaram a fazer parte do seleto grupo de sete príncipes com direito a eleger o imperador. O território que governavam a partir de Heidelberg foi chamado de Palatinado Eleitoral (Kurpfalz), e sua capital se tornou um dos centros de poder mais importantes do Império. A palavra 'Palatinado' vem do cargo palatino desses príncipes, encarregados originalmente de administrar os domínios imperiais.
Em 1386, o príncipe eleitor Roberto I fundou a Universidade de Heidelberg, a mais antiga da Alemanha e uma das primeiras do Sacro Império. Nasceu com as quatro faculdades clássicas — Teologia, Direito, Filosofia e Medicina — e transformou a cidade em um polo intelectual que atraía estudiosos de toda a Europa. Esse caráter universitário, que já dura mais de seis séculos, continua definindo Heidelberg até hoje.
Os séculos XV e XVI foram sua época de ouro. Os eleitores embelezaram o castelo com alas renascentistas de uma beleza excepcional: o Ottheinrichsbau, mandado construir pelo eleitor Oto Henrique em meados do século XVI, e o Friedrichsbau, erguido entre 1601 e 1607 por Frederico IV, com estátuas dos antepassados da casa palatina. O castelo deixou de ser uma fortaleza para se tornar um palácio suntuoso, um dos conjuntos renascentistas mais admirados ao norte dos Alpes.
Heidelberg também foi um bastião do protestantismo. Em 1563, sob o eleitor Frederico III, foi redigido aqui o Catecismo de Heidelberg, um dos textos fundamentais do calvinismo reformado, difundido por toda a Europa. A cidade se tornou um centro do pensamento reformado e um ator nas tensões religiosas que acabariam em guerra.
O momento mais brilhante e mais frágil chegou com o eleitor Frederico V, casado com Isabel Stuart, filha do rei da Inglaterra. Para ela, mandou projetar por volta de 1610 o Hortus Palatinus, um jardim fabuloso em terraços ao lado do castelo, obra do engenheiro Salomon de Caus, que os contemporâneos chamaram de 'a oitava maravilha do mundo'. Mas a ambição política de Frederico V foi sua ruína: em 1619 ele aceitou a coroa da Boêmia oferecida pelos protestantes rebeldes, desafiando o imperador. Reinou apenas um inverno — por isso entrou para a história como o 'Rei de Inverno' — antes de ser derrotado, e arrastou o Palatinado para a catástrofe da Guerra dos Trinta Anos.
A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) atingiu Heidelberg com força. Em 1622, depois de um cerco de dois meses, as tropas católicas do general Tilly tomaram a cidade. Como espólio, levaram o maior tesouro de Heidelberg: a Bibliotheca Palatina, a célebre biblioteca de manuscritos e livros reunida na igreja do Espírito Santo, considerada uma das mais ricas da Europa. Ela foi dada de presente ao papa Gregório XV e transferida para Roma em 1623, onde em grande parte permanece: hoje faz parte da Biblioteca Apostólica Vaticana. Foi uma perda cultural enorme para a cidade.
Mas o pior veio no fim daquele século. Na Guerra de Sucessão do Palatinado, também chamada de Guerra dos Nove Anos (1688-1697), o rei Luís XIV da França reivindicou direitos sobre o Palatinado e lançou seus exércitos sobre a região com uma política deliberada de terra arrasada. As tropas francesas destruíram Heidelberg e seu castelo em 2 de março de 1689, incendiando a cidade e explodindo parte das torres. E como o castelo ainda conservava estruturas de pé, os franceses voltaram e o arrasaram com minas em 23 de maio de 1693, deixando-o nas ruínas que vemos hoje.
Houve tentativas de reconstrução no século XVIII, mas o azar não deu trégua: em 1764, dois raios caíram sobre a ala do castelo que estava sendo restaurada e provocaram um incêndio que pôs a perder todo o trabalho. O eleitor Carlos Teodoro, que além disso já havia transferido sua corte para Mannheim, interpretou o episódio quase como um sinal e desistiu da ideia. O castelo ficou como uma ruína majestosa sobre a colina, e a cidade, empobrecida, foi reconstruída em estilo barroco sobre seus alicerces medievais: por isso o centro histórico atual tem essa beleza barroca uniforme do século XVIII.
O que foi uma desgraça militar se transformou, um século depois, na maior atração de Heidelberg. No início do século XIX, o movimento romântico alemão encontrou na cidade e em seu castelo em ruínas a imagem perfeita de seus ideais: a melancolia do tempo que passa, a força da natureza reconquistando a pedra, a nostalgia de um passado medieval numa Alemanha ainda dividida em dezenas de estados. A ruína, coberta de hera e aberta para o céu, dizia mais aos românticos do que qualquer palácio intacto.
Heidelberg se tornou o berço de um círculo literário, o chamado Romantismo de Heidelberg (Heidelberger Romantik). Entre 1805 e 1808, os poetas Achim von Arnim e Clemens Brentano publicaram aqui 'Des Knaben Wunderhorn' ('A trompa mágica do menino'), uma célebre coletânea de canções e poemas populares alemães que marcou a cultura do país. Pintores como Carl Philipp Fohr e poetas como Joseph von Eichendorff e Friedrich Hölderlin cantaram a beleza do vale e do castelo. A cidade virou sinônimo do Romantismo alemão e de uma certa ideia sentimental da Alemanha.
Um personagem foi fundamental para salvar a ruína: o nobre francês Charles de Graimberg, que a partir de 1810 se instalou como guardião voluntário do castelo, desenhou-o e gravou-o inúmeras vezes para divulgar sua imagem, e impediu que os moradores continuassem usando suas pedras como pedreira. Graças a ele, a ruína foi preservada em vez de desaparecer. Em 1890, uma comissão de especialistas concluiu que reconstruir o castelo por completo era impossível e decidiu conservar a ruína, restaurando apenas o Friedrichsbau. Essa decisão consagrou Heidelberg para sempre como 'a ruína romântica' por excelência.
O turismo chegou cedo. O escritor americano Mark Twain dedicou páginas entusiasmadas a Heidelberg em 'Um vagabundo no exterior' (1880), e a cidade ficou famosa no mundo anglo-saxão. A opereta 'O príncipe estudante' (The Student Prince), ambientada nas tavernas universitárias de Heidelberg, deixou-a ainda mais popular. A cidade, salva da reconstrução, vivia de sua lenda romântica.
Heidelberg não ficou alheia ao lado mais sombrio do século XX. A universidade, orgulho da cidade, deixou-se nazificar depois de 1933: professores judeus e dissidentes foram expulsos, livros foram queimados e sobre o frontão da Nova Universidade chegou-se a gravar um lema alinhado à ideologia do regime. A comunidade judaica da cidade foi perseguida e deportada; em 1940, centenas de judeus de Heidelberg e da região foram enviados ao campo de internamento de Gurs, na França, antessala do extermínio. Esses fatos são lembrados hoje com sobriedade em placas e memoriais.
No entanto, diferentemente de quase todas as cidades alemãs, Heidelberg saiu fisicamente intacta da Segunda Guerra Mundial. Não foi bombardeada de forma sistemática: não era um centro industrial nem um entroncamento ferroviário importante, então não representava um alvo militar prioritário. Circula a ideia popular de que os Aliados a pouparam para usá-la depois como quartel, mas os historiadores apontam que o principal motivo foi simplesmente seu baixo valor estratégico. Em 30 de março de 1945, as tropas americanas entraram na cidade, que se rendeu praticamente sem resistência; os alemães tinham explodido as pontes sobre o Neckar, incluindo parte da Ponte Velha, que depois foi reconstruída.
Por ter ficado intacta e na zona de ocupação americana, Heidelberg se tornou por décadas a sede do quartel-general do exército dos Estados Unidos na Europa (USAREUR), instalado sobretudo nos antigos quartéis rebatizados de Campbell Barracks. Milhares de militares americanos e suas famílias viveram aqui durante a Guerra Fria, até que o comando se retirou na década de 2010. A presença americana deixou uma marca particular na vida da cidade.
A universidade, reaberta em 1945 pelas mãos de professores antinazistas como Karl Jaspers e Alfred Weber, recuperou seu prestígio e voltou a ser uma das mais importantes da Europa, com vários prêmios Nobel entre seus membros. Hoje Heidelberg é uma cidade universitária vibrante, um importante polo científico e médico e um dos destinos turísticos mais visitados da Alemanha. Seu centro histórico autêntico, seu castelo romântico e seu rio continuam atraindo viajantes do mundo todo em busca da Alemanha dos contos de fadas, aquela que a guerra, milagrosamente, não apagou.