Hamburgo é uma cidade de água. Tem mais pontes que Veneza, Amsterdã e Londres juntas, dizem seus moradores com orgulho, e é fácil acreditar: o rio Elba, o porto imenso, os dois lagos do Alster em pleno centro e uma rede de canais (os 'Fleete') desenham uma cidade onde quase sempre há um reflexo por perto. É a segunda cidade da Alemanha, e seu grande porto a faz olhar para fora, para o mar do Norte e para o mundo inteiro. Não é à toa que a chamam de 'das Tor zur Welt', a porta para o mundo.
Mas Hamburgo é muito mais que um porto industrial. É uma cidade elegante e verde, de ar nórdico e comerciante, com um orgulho hanseático que aparece na sua sobriedade e na sua riqueza. É a Speicherstadt, o maior complexo de armazéns portuários do mundo construído sobre estacas, hoje Patrimônio da Unesco; é a Elbphilharmonie, essa onda de vidro sobre um velho armazém que virou o novo símbolo da cidade; e é também St. Pauli e a Reeperbahn, o bairro boêmio mais famoso da Alemanha, onde os Beatles tocaram antes de virar lenda.
Este guia percorre o essencial de Hamburgo com um olhar prático e caloroso: como curtir o porto e a Speicherstadt, subir na Elbphilharmonie, passear pelos lagos do Alster, sair à noite em St. Pauli e se locomover com tranquilidade no seu excelente transporte público. Hamburgo não tem a fama turística de outras capitais europeias, e justamente por isso surpreende: é uma cidade para viver, aberta, com alma de mar e uma qualidade de vida que se sente assim que você chega.
Hamburgo nasceu por volta do ano 808, quando Carlos Magno mandou erguer uma fortaleza, o Hammaburg, num terreno entre os rios Elba e Alster, para defender a fronteira norte de seu império contra eslavos e vikings. Desse castelo de barro vem o nome da cidade. Seu destino ficou marcado pela água e pelo comércio: em 1189, segundo a tradição, o imperador Frederico Barbarossa teria concedido a ela privilégios de porto franco sobre o Elba, data que a cidade comemora todo ano no aniversário do seu porto. Durante a Baixa Idade Média, Hamburgo se tornou uma das grandes cidades da Liga Hanseática, a poderosa aliança de cidades comerciais do norte da Europa, e em 1510 foi reconhecida como cidade livre imperial. Esse passado de autonomia e comércio explica seu título de 'Cidade Livre e Hanseática'. O grande incêndio de 1842 arrasou boa parte do centro e obrigou a uma enorme reconstrução. No fim do século XIX e começo do XX, com o império alemão, o porto viveu sua época de ouro e a Speicherstadt foi construída. A Segunda Guerra Mundial atingiu Hamburgo com força: a 'Operação Gomorra', de 1943, foi um dos bombardeios mais devastadores da guerra, com uma tempestade de fogo que destruiu bairros inteiros e deixou dezenas de milhares de mortos. O pós-guerra trouxe a reconstrução e, nas últimas décadas, a transformação da sua orla portuária com a HafenCity e a Elbphilharmonie. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Hamburgo nasceu como uma fortaleza de fronteira. Por volta do ano 808, nos tempos de Carlos Magno, foi erguido sobre um promontório entre os rios Elba e Alster um castelo de barro e paliçada conhecido como Hammaburg, destinado a defender o limite nordeste do Império franco contra saxões, eslavos (os obotritas) e, mais tarde, os vikings. Desse castelo vem o nome da cidade: a raiz 'Hamma' se referiria a um terreno arborizado ou a uma curva do rio, e 'burg' significa fortaleza. As escavações arqueológicas no atual bairro da Domplatz confirmaram a existência dessa primeira fortificação carolíngia.
No ano 831, o imperador Luís, o Piedoso, transformou Hamburgo em sede de um arcebispado missionário encarregado de evangelizar o norte da Europa e a Escandinávia, tendo Ansgar, o 'apóstolo do Norte', como primeiro arcebispo. No entanto, a frágil cidade foi arrasada em 845 por uma frota viking, e o arcebispado teve que se unir ao de Bremen. Nos séculos seguintes, Hamburgo foi reconstruída e destruída várias vezes, num território disputado e exposto às incursões vindas do Báltico e do mar do Norte.
O destino da cidade foi marcado desde o início pela água e pelo comércio. Sua posição sobre o baixo Elba, perto da foz no mar do Norte, fazia dela um ponto natural de troca entre o interior germânico e as rotas marítimas do Atlântico e do Báltico. Essa vocação portuária seria, ao longo dos mil anos seguintes, o motor de toda a sua história.
A grande virada na história de Hamburgo chegou, segundo a tradição, em 7 de maio de 1189, quando o imperador Frederico I Barba Ruiva teria concedido à cidade importantes privilégios comerciais: isenção de alfândega no Elba até o mar do Norte e liberdade de navegação. Embora os historiadores discutam a autenticidade da carta original (alguns a consideram uma falsificação posterior baseada em privilégios reais), essa data ficou consagrada como o nascimento do porto de Hamburgo, e a cidade a comemora todo ano no 'Hafengeburtstag' (Aniversário do Porto), uma das maiores festas portuárias do mundo.
Com esses privilégios, Hamburgo se lançou ao comércio marítimo. Ao longo dos séculos XIII e XIV, integrou-se à Liga Hanseática (Hanse), a poderosa confederação de cidades mercantis do norte da Europa que dominou o comércio do Báltico e do mar do Norte. Hamburgo, ao lado de Lübeck e Bremen, tornou-se uma de suas praças mais importantes: exportava cerveja, tecidos e manufaturas, e importava peixe, sal, peles e matérias-primas da Escandinávia, da Rússia, de Flandres e da Inglaterra. A cidade acumulou riqueza e desenvolveu uma classe de mercadores-patrícios que governavam com notável autonomia.
Em 1510, o imperador Maximiliano I reconheceu Hamburgo como cidade livre imperial (Freie Reichsstadt), um status que a colocava diretamente sob a autoridade do imperador e lhe garantia o autogoverno. Desse passado de cidade livre e comerciante vem o seu título oficial, que ela mantém até hoje: 'Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo' (Freie und Hansestadt Hamburg). O orgulho hanseático — sóbrio, mercantil, independente — ficou gravado no caráter da cidade.
Depois do declínio da Liga Hanseática na Idade Moderna, Hamburgo não entrou em decadência: pelo contrário, soube se reinventar como centro do comércio mundial. Nos séculos XVI e XVII, a cidade acolheu refugiados religiosos — protestantes holandeses, judeus sefarditas, huguenotes franceses — que trouxeram capital, contatos e conhecimento comercial. Em 1558 foi fundada a sua Bolsa, uma das mais antigas da Alemanha. Hamburgo já não comerciava apenas com o Báltico, mas também com o Atlântico, as Índias e a América, importando açúcar, café, tabaco e especiarias.
A cidade conseguiu manter sua neutralidade e independência durante boa parte das guerras europeias, embora tenha sofrido a ocupação napoleônica entre 1806 e 1814, que arruinou temporariamente o seu comércio. Após a queda de Napoleão e a criação da Confederação Germânica em 1815, Hamburgo manteve seu status de cidade-estado livre, uma raridade que conservaria inclusive dentro dos futuros Estados alemães.
Em maio de 1842, uma catástrofe transformou a cidade: o Grande Incêndio de Hamburgo ardeu durante três dias e meio, destruiu cerca de um terço do centro histórico — milhares de moradias, igrejas como a de São Nicolau e a prefeitura — e deixou dezenas de milhares de pessoas desabrigadas. A reconstrução, longe de afundar a cidade, foi a oportunidade de modernizá-la: foram abertas ruas mais largas, construídos novos canais e erguido, décadas depois, o imponente Rathaus neorrenascentista inaugurado em 1897. A Hamburgo monumental que vemos hoje nasceu, em boa medida, das cinzas daquele incêndio.
O século XIX foi a era de ouro do porto de Hamburgo. Com a Revolução Industrial, a expansão do comércio transatlântico e, a partir de 1871, a integração ao Império Alemão, a cidade se tornou a grande 'porta para o mundo' (Tor zur Welt) da Alemanha. Pelos seus cais passavam as mercadorias do comércio colonial e, sobretudo, milhões de pessoas: entre meados do século XIX e o início do XX, Hamburgo foi um dos principais portos de emigração da Europa, de onde partiram rumo à América — inclusive ao Brasil — vários milhões de emigrantes alemães e da Europa central e oriental, muitos deles passando pelas instalações de BallinStadt.
Em 1888, Hamburgo entrou plenamente na união aduaneira alemã (Zollverein), o que obrigou a criar uma grande zona franca portuária para armazenar mercadorias sem pagar tarifas. Assim nasceu, entre 1883 e 1927, a Speicherstadt: o maior complexo de armazéns do mundo construído sobre estacas de carvalho, uma cidade de armazéns neogóticos de tijolo vermelho cortada por canais, onde se guardavam café, chá, especiarias, cacau, tabaco e tapetes. Junto com o vizinho Kontorhausviertel — o bairro dos edifícios de escritórios comerciais, com a espetacular Chilehaus em forma de proa de navio —, a Speicherstadt foi declarada Patrimônio Mundial da Unesco em 2015.
A prosperidade portuária conviveu, no entanto, com duras desigualdades sociais e com tragédias sanitárias: em 1892, uma epidemia de cólera ligada à água do porto causou mais de 8.000 mortes e obrigou a reformar o abastecimento de água e o saneamento da cidade. Hamburgo entrou no século XX como uma metrópole industrial, comercial e operária, próspera e desigual ao mesmo tempo.
O século XX trouxe a Hamburgo, como a toda a Alemanha, os anos mais sombrios da sua história. Depois da Primeira Guerra Mundial e da instável República de Weimar, a ascensão do nazismo em 1933 atingiu também a cidade livre: opositores e sindicalistas foram perseguidos e, sobretudo, a comunidade judaica, uma das mais antigas e enraizadas da Alemanha. Muitos judeus de Hamburgo foram expulsos, despojados de seus bens e, por fim, deportados e assassinados no Holocausto. O campo de concentração de Neuengamme, nos arredores da cidade, foi um dos maiores do noroeste alemão.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Hamburgo, por causa do seu porto e da sua indústria, foi um dos principais alvos dos bombardeios aliados. Em julho e agosto de 1943, a 'Operação Gomorra' — uma série de ataques maciços da RAF britânica e da USAAF americana — provocou uma gigantesca tempestade de fogo (Feuersturm) que arrasou bairros inteiros, sobretudo no leste da cidade. Estima-se que entre 34.000 e 40.000 pessoas morreram em poucos dias e que centenas de milhares ficaram desabrigadas. Foi um dos bombardeios mais devastadores de toda a guerra, e deixou uma ferida profunda na memória da cidade. A torre em ruínas da igreja de São Nicolau (Mahnmal St. Nikolai) é preservada hoje como memorial contra a guerra.
Após a rendição de 1945, Hamburgo ficou na zona de ocupação britânica e viveu um difícil pós-guerra de escombros, racionamento e reconstrução. Mas o seu porto voltou a funcionar, e a cidade logo recuperou seu papel econômico. Na nova República Federal da Alemanha, Hamburgo manteve seu histórico status de cidade-estado, tornando-se um dos dezesseis Länder do país.
Na segunda metade do século XX, Hamburgo se consolidou como uma das cidades mais prósperas da Alemanha: grande porto, centro de mídia (é sede de importantes jornais e editoras), polo industrial (com a fábrica da Airbus em Finkenwerder) e cidade de serviços e comércio. Também foi palco de momentos culturais decisivos: no início dos anos 60, nos clubes do bairro de St. Pauli e da Reeperbahn, uma jovem banda de Liverpool chamada The Beatles tocou centenas de horas e se formou como grupo antes de alcançar a fama mundial.
A cidade também sofreu catástrofes naturais, como a grande enchente do mar do Norte de fevereiro de 1962, que rompeu diques, inundou amplas áreas e causou mais de 300 mortes; a gestão daquela crise lançou a carreira política do futuro chanceler Helmut Schmidt, hamburguês e filho ilustre da cidade. Depois da tragédia, Hamburgo reforçou suas defesas contra as marés, hoje fundamentais para uma cidade tão ligada à água.
Desde o fim do século XX e o início do XXI, Hamburgo empreendeu a maior transformação urbana da sua história recente: a HafenCity, um bairro inteiro erguido sobre antigos terrenos portuários à beira do Elba, considerado um dos maiores projetos de desenvolvimento urbano da Europa. Seu emblema é a Elbphilharmonie ('Elphi'), a espetacular sala de concertos em forma de onda de vidro pousada sobre um velho armazém, obra do escritório Herzog & de Meuron, inaugurada em 2017 depois de anos de obras e polêmicas pelo seu custo. Transformada de imediato no novo símbolo da cidade, a Elbphilharmonie resume o espírito da Hamburgo atual: uma velha metrópole portuária, hanseática e aberta ao mundo, que continua reinventando sua relação com a água.