Leipzig é uma daquelas cidades alemãs que conquistam sem fazer alarde. Durante muito tempo ficou à sombra de Berlim e de Dresden, mas hoje é um dos destinos mais vibrantes do leste do país: uma cidade de música, feiras, livros e revoluções pacíficas, que combina um centro histórico compacto e elegante com uma das cenas culturais alternativas mais interessantes da Alemanha. Não é à toa que a apelidaram de 'Hypezig'.
Aqui viveu e trabalhou Johann Sebastian Bach, que foi por quase três décadas o cantor da igreja de São Tomé, onde estão seus restos mortais. Pelas ruas da cidade também passaram Mendelssohn, Schumann, Wagner (que nasceu aqui) e Goethe, que ambientou uma cena do 'Fausto' na taverna Auerbachs Keller. E foi na igreja de São Nicolau que, no outono de 1989, as orações pela paz e as manifestações das segundas-feiras acenderam a faísca da revolução pacífica que pôs fim à RDA.
Este guia percorre Leipzig com um olhar prático e acolhedor: como seguir os passos de Bach, onde sentir o pulso da revolução de 1989, quais galerias comerciais e cafés históricos visitar, como subir ao colossal Monumento à Batalha das Nações e como aproveitar a cena criativa de bairros como Plagwitz e da antiga fiação Spinnerei. Uma cidade ideal para combinar história, música e vida contemporânea em poucos dias.
Leipzig nasceu como um povoado eslavo sorábio cujo nome deriva de 'Lipsk', 'o lugar das tílias'. Mencionada pela primeira vez por volta de 1015 pelo cronista Thietmar de Merseburgo, recebeu privilégios de cidade e de mercado no começo do século XII. Sua localização no cruzamento de duas grandes rotas comerciais medievais — a Via Regia e a Via Imperii — a transformou numa cidade de feiras famosa em toda a Europa: a Leipziger Messe é uma das feiras comerciais mais antigas do mundo. A essa vocação comercial logo se somou a do livro e da imprensa: durante séculos, Leipzig foi a capital alemã do mercado editorial e dos livreiros. Em 1409 foi fundada sua universidade, uma das mais antigas da Alemanha, onde estudaram nomes como Goethe e Nietzsche. Na música, a cidade chegou à glória com Johann Sebastian Bach, cantor da Thomaskirche entre 1723 e 1750, e com a orquestra da Gewandhaus e o Conservatório fundado por Mendelssohn. Em 1813, seus arredores foram palco da Batalha das Nações, a maior batalha das guerras napoleônicas, homenageada com um monumento colossal. Depois da Segunda Guerra Mundial, Leipzig ficou na RDA. Em 1989, as orações pela paz na Nikolaikirche e as gigantescas manifestações das segundas-feiras ('Montagsdemonstrationen') fizeram dela o berço da revolução pacífica que precipitou a queda do Muro e a reunificação alemã. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Prussian heart of Germany: Berlin, capital of the Reich and of the Republic; Potsdam and the Hohenzollern palaces; Dresden, the Florence on the Elbe flattened in 1945; and Leipzig, birthplace of the peaceful demonstrations that helped bring down the Wall in 1989.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Como tantas cidades do leste da Alemanha, Leipzig tem raízes eslavas. O nome deriva do sorábio 'Lipsk' (ou 'Lipsko'), relacionado à palavra eslava para tília ('lipa'): Leipzig seria, assim, 'o lugar das tílias'. A região era habitada pelos sorábios, um povo eslavo ocidental, antes da expansão germânica medieval para o leste do Elba e do Saale.
A primeira menção escrita a Leipzig aparece por volta do ano 1015, na crônica do bispo Thietmar de Merseburgo, que cita a 'urbs Libzi'. Na época, era um pequeno povoado fortificado. O que marcaria seu destino, porém, era sua localização geográfica privilegiada: Leipzig ficava no cruzamento de duas das grandes rotas comerciais da Europa medieval, a Via Regia (que ia de oeste a leste, da Renânia à Silésia e à Polônia) e a Via Imperii (que ia de norte a sul, do Báltico à Itália).
Esse cruzamento de caminhos transformou Leipzig em um ponto natural de trocas. No século XII, por volta de 1165, o margrave Oto de Meissen concedeu à cidade direitos urbanos e de mercado, lançando as bases de sua vocação comercial. O que tinha nascido como um povoado eslavo junto às tílias estava destinado a se tornar uma das grandes cidades de feiras da Europa.
Desde a Idade Média, a identidade de Leipzig girou em torno de suas feiras comerciais. Graças aos privilégios reais e imperiais que recebeu ao longo dos séculos — especialmente o de feira imperial, que obrigava os comerciantes de uma ampla região a oferecer suas mercadorias em Leipzig —, a Leipziger Messe se tornou uma das feiras mais importantes da Europa e atraía mercadores de todo o continente. Essa tradição de feiras, com séculos de história, continua viva hoje no moderno centro de exposições da cidade.
À vocação comercial somou-se a do livro. Durante séculos, Leipzig foi a capital alemã da impressão, da edição e do comércio de livros, sede de inúmeras editoras e da Bolsa Alemã do Livro. Ainda hoje abriga a Feira do Livro de Leipzig (Leipziger Buchmesse), uma das mais importantes do país, e a Biblioteca Nacional Alemã tem aqui uma de suas sedes.
A cultura ganhou outro pilar em 1409, quando foi fundada a Universidade de Leipzig, uma das mais antigas da Alemanha (entre as que continuam funcionando, só Heidelberg é mais antiga). Por suas salas de aula passaram nomes como Gottfried Wilhelm Leibniz, Johann Wolfgang von Goethe — que a imortalizou no 'Fausto' e chamou Leipzig de 'uma pequena Paris' — e Friedrich Nietzsche. Comércio, livros e saber se entrelaçaram e deram à cidade um perfil culto e cosmopolita pouco comum.
Se tem uma coisa que deu fama universal a Leipzig, é a música. A cidade é, antes de tudo, a cidade de Johann Sebastian Bach. O grande compositor se mudou para Leipzig em 1723 para ser cantor (Thomaskantor) da igreja de São Tomás, cargo que ocupou até morrer, em 1750. Nesses 27 anos, compôs boa parte de sua obra sacra — cantatas, motetos e, provavelmente, suas grandes paixões — para os cultos das igrejas da cidade, à frente do coro de São Tomás. Seus restos mortais repousam hoje na própria Thomaskirche, que virou lugar de peregrinação musical.
O legado continuou crescendo. No século XIX, Felix Mendelssohn regeu a Orquestra da Gewandhaus — uma das orquestras civis mais antigas do mundo, fundada em 1743 — e a colocou no primeiro time da Europa; além disso, fundou em Leipzig, em 1843, o primeiro conservatório de música da Alemanha. A cidade também foi palco da vida de Robert e Clara Schumann e berço de Richard Wagner, que nasceu aqui em 1813.
Essa densidade musical fez de Leipzig um centro da cultura europeia. E a tradição segue bem viva: o coro de meninos de São Tomás (Thomanerchor) tem oito séculos de história, a Gewandhausorchester se apresenta regularmente em sua sala de acústica excelente, e a cidade presta homenagem a Bach com festivais, museus e concertos que atraem amantes da música do mundo todo.
Em outubro de 1813, os campos ao redor de Leipzig foram palco de um dos acontecimentos militares mais colossais do século XIX: a Batalha das Nações (Völkerschlacht bei Leipzig), travada entre 16 e 19 de outubro. Nela, os exércitos da coalizão formada por Rússia, Prússia, Áustria e Suécia enfrentaram o exército de Napoleão Bonaparte e seus aliados.
Foi a maior batalha das guerras napoleônicas e, pelo número de combatentes envolvidos (mais de meio milhão de soldados de muitas nações, daí o nome 'batalha das nações'), uma das maiores da história europeia até a Primeira Guerra Mundial. A derrota de Napoleão em Leipzig foi decisiva: obrigou-o a recuar para o outro lado do Reno, marcou o começo do fim de seu domínio sobre a Europa e abriu caminho para sua primeira abdicação, em 1814.
Um século depois, em 1913, Leipzig celebrou o centenário da batalha inaugurando o Völkerschlachtdenkmal (Monumento à Batalha das Nações), uma estrutura colossal de concreto e pedra com cerca de 91 metros de altura, uma das construções comemorativas mais imponentes da Europa. Sua estética monumental e solene faz da visita uma experiência impactante, e da plataforma superior se avista a cidade inteira. O monumento lembra não só a vitória, mas também o enorme custo humano daquela batalha.
Depois da Segunda Guerra Mundial, Leipzig ficou na zona de ocupação soviética e, a partir de 1949, passou a fazer parte da República Democrática Alemã (RDA). Continuou sendo uma importante cidade industrial e de feiras do Estado socialista e manteve viva sua tradição de feiras internacionais, que serviam de janela para o comércio com o Ocidente. Mas, como toda a RDA, vivia sob um regime de partido único, com vigilância da polícia secreta (a Stasi) e restrições à liberdade.
Foi justamente em Leipzig que a pressão por mudança encontrou seu canal mais decisivo. Desde 1982, a igreja de São Nicolau (Nikolaikirche) recebia toda segunda-feira as 'Friedensgebete' (orações pela paz). Ao longo de 1989, num contexto de descontentamento crescente e de êxodo de cidadãos para o Ocidente, esses encontros começaram a transbordar da igreja e a se transformar em manifestações públicas: as 'Montagsdemonstrationen' (manifestações de segunda-feira).
O ponto culminante chegou em 9 de outubro de 1989. Apesar do medo de uma repressão sangrenta — temia-se que o regime reagisse como a China tinha feito na Praça Tiananmen poucos meses antes —, cerca de 70.000 pessoas marcharam pacificamente pelo anel viário do centro de Leipzig gritando 'Wir sind das Volk' ('Nós somos o povo'). As forças de segurança não intervieram, e aquele dia é considerado um ponto sem volta. As manifestações cresceram até reunir centenas de milhares de pessoas, e um mês depois caía o Muro de Berlim. Por isso Leipzig é conhecida como 'Heldenstadt', a 'cidade dos heróis' da revolução pacífica.
Com a reunificação alemã de 1990, Leipzig passou por uma transição difícil, mas que acabou dando certo. O fim da economia planificada levou ao fechamento de muitas fábricas e a uma forte queda populacional nos anos 1990, com bairros industriais esvaziados e prédios deteriorados. Mas essa mesma decadência abriu oportunidades inesperadas.
Os amplos espaços industriais abandonados e os aluguéis baratos atraíram artistas, criativos e jovens. A antiga fiação de algodão (Spinnerei) e outros complexos fabris foram transformados em ateliês, galerias e espaços culturais. A chamada 'Nova Escola de Leipzig', com pintores como Neo Rauch, colocou a cidade no mapa da arte contemporânea mundial. Bairros como Plagwitz e a Südvorstadt floresceram como polos de vida alternativa. Essa efervescência rendeu à cidade o apelido de 'Hypezig' e fez de Leipzig uma das cidades que mais cresceram na Alemanha no século XXI.
Hoje Leipzig combina várias almas: a do esplendor comercial e das feiras de séculos, a do grande patrimônio musical de Bach e Mendelssohn, a da memória da revolução pacífica de 1989 e a de uma cena cultural jovem e vibrante. É uma cidade que soube se reinventar, recuperou sua população e seu prestígio e hoje está entre os destinos mais interessantes e dinâmicos do leste alemão.