Colônia é uma das cidades mais antigas e alegres da Alemanha. Fundada pelos romanos há quase dois mil anos às margens do Reno, hoje é uma metrópole aberta, tolerante e agitada, famosa acima de tudo por três coisas: sua colossal catedral gótica — uma das maiores do mundo —, seu carnaval transbordante e sua cerveja própria, a Kölsch, servida em copinhos de 0,2 litro que o garçom repõe sem parar. É uma cidade que leva a vida com humor e calor humano, bem diferente do resto da Alemanha.
O símbolo absoluto de Colônia é o Kölner Dom, a catedral: duas torres gêmeas de 157 metros que se erguem bem ao lado da estação de trem e dominam todo o horizonte. Começada em 1248 e terminada só em 1880, guarda em seu interior o relicário dos Reis Magos, a própria razão de sua existência. Ao redor pulsa uma cidade de museus de primeira linha — o Museum Ludwig de arte moderna, o Romano-Germânico, o do Chocolate —, doze igrejas românicas espalhadas pelo centro, um calçadão animadíssimo à beira do Reno e dezenas de Brauhäuser onde provar a Kölsch entre risadas.
Este guia percorre Colônia com um olhar prático e acolhedor: como visitar a catedral e subir na torre, quais museus escolher, onde e como beber Kölsch seguindo suas regras curiosas, quando acontece o carnaval e como se locomover pela cidade. Vale saber algo importante: Colônia ficou quase arrasada pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial, e boa parte do seu centro histórico é uma reconstrução cuidadosa. Mas isso não tira nem um grama do charme de uma cidade que renasceu das ruínas e hoje é pura vida às margens do Reno.
Colônia nasceu como cidade romana. No ano 50 d.C., o imperador Cláudio elevou à categoria de colônia o assentamento às margens do Reno a pedido de sua esposa Agripina Menor, que tinha nascido ali, e deu a ele o nome de Colonia Claudia Ara Agrippinensium (daí 'Colônia', e em alemão 'Köln'). Foi capital da província da Germânia Inferior e uma próspera cidade romana, com muralhas, templos e aqueduto. Na Idade Média, tornou-se uma das maiores e mais ricas cidades do Sacro Império, sede de um poderoso arcebispado cujos titulares eram, além disso, príncipes-eleitores do Império. Em 1164, o arcebispo Rainaldo de Dassel trouxe de Milão as relíquias dos Reis Magos, que transformaram Colônia em um dos grandes centros de peregrinação da Europa; para abrigá-las, começou-se a construir, em 1248, a gigantesca catedral gótica, cujas obras foram interrompidas durante séculos e só terminaram em 1880. Cidade livre imperial desde o século XV, Colônia também viveu episódios sombrios, como a expulsão de sua comunidade judaica em 1424. No século XX, a Segunda Guerra Mundial a atingiu em cheio: os bombardeios aliados — começando pelo primeiro ataque de mil aviões, em maio de 1942 — destruíram cerca de 90% do centro histórico. A cidade foi reconstruída no pós-guerra e hoje é um grande polo cultural, econômico e festivo do oeste alemão. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The Rhineland heart of Germany: Cologne, a Roman colony and city of archbishops with its Gothic cathedral; the Rhine valley of castles and legends; Frankfurt, city of imperial coronations and today the financial capital; and the Ruhr basin, the country's industrial forge.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Colônia é, antes de tudo, uma cidade romana, e o próprio nome entrega isso. Por volta do ano 38 a.C., o general romano Agripa assentou na margem esquerda do Reno uma tribo germânica aliada, os úbios, que fundaram um povoado chamado Oppidum Ubiorum. Ali, algumas décadas depois, nasceu uma mulher que mudaria a história do lugar: Agripina, a Jovem, bisneta do imperador Augusto, irmã de Calígula e futura esposa do imperador Cláudio.
Já imperatriz, Agripina conseguiu que sua cidade natal fosse elevada à categoria de colônia romana. No ano 50 d.C., o imperador Cláudio lhe concedeu esse status e deu a ela um nome solene: Colonia Claudia Ara Agrippinensium (a 'colônia de Cláudio e do altar dos agripinenses'). Desse nome latino — Colonia — derivam tanto o português 'Colônia' quanto o alemão 'Köln'. Foi uma das poucas cidades do Império a levar o nome de uma mulher.
Colônia se tornou a capital da província da Germânia Inferior e uma das cidades mais importantes do norte do Império: teve muralhas, templos, fórum, um porto fluvial, termas e um aqueduto que trazia água do Eifel, a mais de 90 quilômetros. Foi também residência de governadores e base militar-chave diante das tribos germânicas do outro lado do Reno. Daquele esplendor romano ainda restam trechos da muralha, a Torre Romana (Römerturm), fragmentos do aqueduto e o magnífico mosaico de Dionísio, hoje no Museu Romano-Germânico. Quase dois mil anos depois, Colônia continua sendo, em seus alicerces, uma cidade romana.
Depois da queda do Império Romano, Colônia passou para as mãos dos francos e, com o tempo, virou uma das grandes cidades do mundo medieval. A chave do seu poder foi a Igreja: Colônia era sede de um arcebispado que remontava à época romana, e seus arcebispos acumularam um poder imenso. Eles não só comandavam a vida religiosa de uma vasta região: eram também príncipes territoriais e, a partir da Baixa Idade Média, estavam entre os sete príncipes-eleitores do Sacro Império Romano-Germânico, aqueles que escolhiam o imperador. O arcebispo de Colônia era, assim, um dos homens mais poderosos da Europa.
A cidade cresceu até se tornar, nos séculos XII e XIII, a maior da Alemanha e uma das maiores do continente, com dezenas de milhares de habitantes, um porto próspero no Reno e uma riqueza que se traduziu num conjunto religioso sem igual: as doze grandes igrejas românicas que até hoje pontilham o centro. Colônia era um polo de comércio, peregrinação e conhecimento, com uma universidade fundada em 1388, uma das mais antigas da Europa central.
Mas os cidadãos e comerciantes de Colônia entraram cada vez mais em choque com o poder dos arcebispos. Em 1288, após a batalha de Worringen, a cidade conseguiu, na prática, se libertar do domínio do arcebispo, que teve de transferir sua residência para Bonn. Em 1475 esse status foi formalizado: Colônia foi reconhecida como cidade livre imperial (Freie Reichsstadt), governada pelos próprios cidadãos e subordinada apenas ao imperador. Foi o começo de séculos de autogoverno orgulhoso.
O acontecimento que marcou para sempre o destino de Colônia aconteceu em 1164. Naquele ano, o arcebispo Rainald von Dassel, chanceler do imperador Frederico Barba Ruiva, trouxe para a cidade um tesouro extraordinário: as relíquias que se acreditava serem dos três Reis Magos, levadas como espólio na conquista de Milão. A chegada dos restos dos Magos transformou Colônia em um dos maiores centros de peregrinação da cristandade medieval, no mesmo patamar de Roma ou Santiago de Compostela. Multidões iam venerá-los, e para guardá-los foi encomendado um suntuoso relicário de ouro, prata e pedras preciosas — o Dreikönigenschrein —, obra-prima da ourivesaria medieval que ainda hoje está atrás do altar-mor da catedral.
Relíquias desse porte mereciam um templo à altura. Em 1248 foi lançada a pedra fundamental de uma catedral gótica colossal, pensada para ser uma das maiores da cristandade. As obras avançaram por séculos, mas por volta de 1560 pararam por falta de dinheiro e pelas mudanças dos tempos, deixando a catedral pela metade: o coro pronto, uma torre interrompida a meia altura com um enorme guindaste de madeira fincado no topo, que por quase trezentos anos fez parte da paisagem de Colônia.
O impulso final veio no século XIX. Em pleno romantismo e auge do nacionalismo alemão, terminar a catedral de Colônia virou uma causa nacional. Com o apoio do rei da Prússia e usando as plantas góticas medievais originais, que tinham sido preservadas, as obras foram retomadas em 1842 e concluídas em 1880, mais de seiscentos anos depois de começarem. O imperador Guilherme I presidiu a cerimônia. Durante quatro anos, com suas torres de 157 metros, foi o edifício mais alto do mundo.
A história de Colônia também tem capítulos sombrios que a cidade hoje encara com honestidade. Colônia abrigou uma das comunidades judaicas mais antigas ao norte dos Alpes, documentada já no ano 321 d.C. por um decreto do imperador Constantino, o que a torna a comunidade judaica mais antiga da Alemanha com registro escrito. Durante a Idade Média, os judeus de Colônia viviam em um bairro próprio em torno da atual praça da prefeitura (Rathausplatz), com sua sinagoga, sua escola, seu hospital e um banho ritual (micvê) subterrâneo.
Essa convivência foi marcada pela discriminação e pela violência. Como em tantas cidades europeias, os judeus de Colônia sofreram perseguições, sobretudo durante as Cruzadas e na época da peste negra de 1349, quando foram falsamente acusados de espalhar a doença e muitos foram assassinados. Por fim, em 1424, o conselho da cidade decidiu expulsar definitivamente a comunidade judaica de Colônia, que não pôde voltar a se estabelecer legalmente por quase quatro séculos.
O notável é que aquele bairro não desapareceu de todo: ficou soterrado. Sob a praça da prefeitura, as escavações arqueológicas trouxeram à tona os restos da sinagoga medieval e, principalmente, o impressionante micvê do século XII, um poço ritual de pedra que desce vários metros até o nível do lençol freático do Reno. Sobre esse bairro judeu e sobre os restos do pretório romano foi construído o museu MiQua, um sítio arqueológico que preserva debaixo da terra dois mil anos de história de Colônia. A cidade lembra assim, sem esconder, esse passado.
Depois de séculos como cidade livre, Colônia perdeu sua independência com a ocupação napoleônica (1794-1814) e depois passou a fazer parte do reino da Prússia. No século XIX se industrializou e cresceu com força, recuperou sua universidade e, em 1880, finalmente celebrou a conclusão da catedral. Já no século XX, sob a gestão do prefeito Konrad Adenauer — futuro primeiro chanceler da Alemanha Ocidental —, a cidade se modernizou com parques, avenidas e feiras. Mas a catástrofe se aproximava.
Com o nazismo, a partir de 1933, Colônia viveu a perseguição de opositores e, sobretudo, de sua comunidade judaica, que tinha voltado a florescer no século XIX. Os judeus de Colônia foram privados de seus direitos, tiveram suas lojas saqueadas, a sinagoga incendiada na Noite dos Cristais de 1938 e, por fim, foram deportados e assassinados no Holocausto. Foi o extermínio de uma comunidade com quase dois mil anos de história na cidade.
Na Segunda Guerra Mundial, Colônia, grande centro industrial e entroncamento ferroviário às margens do Reno, virou um dos principais alvos dos bombardeios aliados. Na noite de 30 para 31 de maio de 1942, a RAF britânica lançou sobre a cidade a 'Operação Millennium', o primeiro ataque aéreo da história com mais de mil bombardeiros: cerca de 1.000 aviões despejaram sua carga em apenas uma hora e meia. Foi só o começo. Ao longo da guerra, sucessivos bombardeios destruíram cerca de 90% do centro histórico de Colônia. A população, que girava em torno de 770.000 habitantes antes da guerra, tinha caído para algumas dezenas de milhares quando as tropas americanas tomaram a cidade em março de 1945. A catedral, milagrosamente, continuava de pé em meio a um mar de ruínas, muito danificada mas reconhecível, e se tornou símbolo da sobrevivência da cidade.
A Colônia do pós-guerra teve que renascer praticamente do zero. Com 90% do centro destruído, a cidade encarou uma reconstrução monumental que se estendeu por décadas. A opção foi uma mistura de restauração e modernidade: algumas joias foram reconstruídas com fidelidade — as igrejas românicas, a prefeitura, parte da cidade velha à beira do Reno —, enquanto outros bairros foram erguidos com a arquitetura funcional dos anos 1950 e 1960. Por isso, quem passeia hoje pela Altstadt de Colônia caminha, em boa parte, por uma recriação cuidadosa da cidade histórica, e não por edifícios medievais originais. Essa honestidade faz parte do caráter da cidade.
A catedral foi reparada e, concluídas as obras emergenciais, voltou a dominar o horizonte. Em 1996, o Kölner Dom foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. As doze igrejas românicas foram restauradas uma a uma ao longo da segunda metade do século XX, um esforço enorme de recuperação do patrimônio.
Hoje Colônia é a quarta maior cidade da Alemanha e um grande polo cultural, de mídia e econômico do oeste do país: sede de importantes feiras internacionais, de veículos de comunicação, de uma cena artística vibrante e de uma grande universidade. Mas o que realmente a define é o seu jeito: alegre, tolerante, aberta e brincalhona, bem diferente do resto da Alemanha. Seu carnaval — a 'quinta estação' — é um dos maiores da Europa; sua cerveja Kölsch, servida em copinhos de 0,2 litro, é uma instituição; e seu povo é famoso pela hospitalidade e pelo orgulho local. Colônia é uma cidade que foi arrasada e se reergueu, e que celebra a vida às margens do Reno como poucas no mundo.