Chernivtsi é uma das cidades mais elegantes e surpreendentes da Ucrânia, a capital histórica da Bucovina, uma região de encruzilhada entre mundos. Durante mais de um século fez parte do Império Austro-Húngaro com o nome de Czernowitz, e dessa época herdou um centro histórico de refinada arquitetura vienense, ruas de paralelepípedo, cafés e um clima centro-europeu que lhe rendeu o apelido de 'a pequena Viena' ou até 'a Jerusalém sobre o Prut', pela mistura, outrora vibrante, de povos e religiões. Sua joia é a Residência dos Metropolitas da Bucovina e Dalmácia, um suntuoso conjunto do século XIX, hoje sede da universidade e Patrimônio Mundial da Unesco.
Importante: desde a invasão russa em grande escala de fevereiro de 2022, a Ucrânia está em guerra e sob lei marcial. Embora Chernivtsi, no extremo sudoeste do país, seja uma das cidades mais tranquilas e menos atingidas pela guerra, ela não é, por enquanto, um destino turístico totalmente seguro: valem os alertas aéreos e o toque de recolher noturno, e os governos, incluindo o brasileiro, desaconselham viagens à Ucrânia. Este guia é informativo e cultural, pensado para conhecer Chernivtsi e planejar uma visita quando as condições de segurança permitirem, sem banalizar uma guerra em curso.
Com esses avisos em mente, este guia percorre a Chernivtsi imperdível: a Residência dos Metropolitas, o centro histórico austro-húngaro, a rua de pedestres Kobylianska, as igrejas de diferentes ritos, a memória de sua rica herança judaica e o inconfundível ar de café centro-europeu. Muitos preços, horários e serviços estão hoje alterados pela guerra, então todo dado deve ser reconfirmado antes de qualquer viagem futura.
Chernivtsi é mencionada pela primeira vez no século XV, em terras do principado da Moldávia. Em 1775, a região da Bucovina passou para o Império dos Habsburgo, e Czernowitz (Chernivtsi) virou sua capital e uma brilhante cidade austro-húngara, cosmopolita e multiétnica, lar de ucranianos, romenos, alemães, judeus, poloneses e armênios. Foi um grande centro cultural: aqui nasceu o poeta Paul Celan e floresceu uma intensa vida judaica. Depois da Primeira Guerra Mundial passou para a Romênia; depois da Segunda, com o Holocausto que devastou sua comunidade judaica e as deportações, foi integrada à Ucrânia soviética. Seu grande monumento, a Residência dos Metropolitas da Bucovina e Dalmácia, obra do arquiteto Josef Hlávka (1864-1882), é hoje a universidade e Patrimônio Mundial da Unesco desde 2011. Desde 1991 faz parte da Ucrânia independente. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The most Central European side of Ukraine: Lviv in Habsburg Galicia, the “Piedmont” of the national awakening; elegant Chernivtsi in Bukovina; the Hutsul villages of the Carpathians; Uzhhorod in Transcarpathia; and the great fortresses of Kamianets-Podilskyi and Khotyn.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Chernivtsi surgiu como um modesto povoado de fronteira na região da Bucovina, uma terra de colinas suaves e bosques de faias (daí o nome, do eslavo 'buk', faia), situada numa encruzilhada de povos e poderes. As primeiras menções documentais à cidade datam do século XV, quando a região fazia parte do principado da Moldávia, um Estado que oscilava entre a órbita da Polônia, da Hungria e do crescente Império Otomano.
Segundo a interpretação mais difundida, o nome da cidade viria de uma antiga fortaleza e de um posto alfandegário às margens do rio Prut, no cruzamento de rotas comerciais. Durante séculos, Chernivtsi foi um ponto de passagem e de troca, habitado por rutenos (ucranianos), moldávios (romenos) e, com o tempo, por outras comunidades atraídas pelo comércio. Sua condição de fronteira a expôs às guerras entre a Moldávia, a Polônia e os otomanos, e a manteve como uma localidade pequena, sem o brilho que alcançaria mais tarde.
Sob a soberania otomana, exercida por meio do principado vassalo da Moldávia, a região da Bucovina permaneceu por gerações numa relativa modéstia. Tudo mudaria de forma radical no fim do século XVIII, quando o destino dessa terra ficou ligado a um dos grandes impérios da Europa: o dos Habsburgo.
Em 1775, no contexto das reorganizações territoriais da época, o Império dos Habsburgo ficou com a região da Bucovina, até então sob domínio otomano-moldávio. Foi uma anexação decisiva. Com o nome alemão de Czernowitz, a cidade se tornou a capital administrativa da nova província austríaca e começou uma transformação espetacular, que a levaria de vilarejo de fronteira a uma brilhante cidade centro-europeia.
Sob o governo de Viena, e sobretudo no século XIX, Czernowitz floresceu. A administração imperial lhe deu um traçado urbano ordenado, prédios públicos, teatros, escolas e uma universidade. A cidade se encheu de arquitetura elegante (classicista, historicista e depois art nouveau), de cafés e de uma vida cultural vibrante. Mas o mais singular era a sua composição humana: a cidade virou um extraordinário mosaico de povos e religiões, onde conviviam ucranianos (rutenos), romenos, alemães, judeus, poloneses, armênios e outros, cada um com suas instituições, suas igrejas e sua língua.
Essa convivência, favorecida pela relativa tolerância do império, fez de Czernowitz um caso admirado de cosmopolitismo. O alemão era a língua comum da cultura, mas nas ruas se ouvia meia dúzia de idiomas. A cidade ganhou apelidos como 'a pequena Viena', pela elegância, e 'a Jerusalém do Prut', pela importância da sua comunidade judaica. Foi uma das joias culturais do leste do Império Austro-Húngaro.
O grande símbolo da era de ouro de Czernowitz é a Residência dos Metropolitas da Bucovina e da Dalmácia. Entre 1864 e 1882, o arquiteto tcheco Josef Hlávka ergueu esse conjunto suntuoso como sede dos metropolitas ortodoxos da Bucovina, numa época em que a Igreja Ortodoxa local gozava de grande prestígio e autonomia dentro do império católico dos Habsburgo. O edifício, com sua mistura ousada de estilos bizantino, românico e mourisco e seus telhados de cerâmica policromada, é uma das obras-primas da arquitetura do século XIX na Europa Central.
A Residência expressava a situação peculiar da Bucovina: um império católico que financiava e homenageava a Igreja Ortodoxa de uma de suas províncias, num exemplo da política de tolerância religiosa que marcou a região. Hoje, o conjunto abriga a Universidade Nacional Yuriy Fedkovych de Chernivtsi e é Patrimônio Mundial da Unesco desde 2011.
A vida cultural da cidade tinha, além disso, um forte componente judaico. A comunidade judaica de Czernowitz foi uma das mais cultas e ativas da Europa Central, protagonista da vida econômica, intelectual e artística. Em 1908, a cidade sediou a histórica Conferência da Língua Iídiche. E desse ambiente surgiu uma constelação de escritores e artistas, entre os quais se destaca Paul Celan, nascido na cidade em 1920, autor de uma das poesias mais profundas do século XX em língua alemã e testemunha, na própria vida, da tragédia que estava por vir.
O colapso do Império Austro-Húngaro no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, mudou de novo o destino da cidade. A Bucovina foi incorporada ao Reino da Romênia, e Czernowitz passou a se chamar Cernăuți, tornando-se uma cidade importante do norte romeno. A população continuava sendo um mosaico de nacionalidades, agora sob uma administração romena que promoveu políticas de 'romenização'.
No período entreguerras, a cidade conservou boa parte do seu brilho cultural e da sua vida cosmopolita, com a universidade, os cafés, a imprensa em várias línguas e uma intensa vida judaica, ucraniana e alemã. Foi uma época de certa continuidade com o esplendor austríaco, mas também de tensões nacionais crescentes, numa Europa que deslizava rumo ao autoritarismo e ao conflito.
A sombra que pairava sobre o continente nos anos 1930 (a ascensão do fascismo e do antissemitismo) anunciava tempos sombrios para uma cidade cuja riqueza vinha justamente da sua diversidade. A assinatura do pacto entre a Alemanha nazista e a União Soviética, em 1939, com suas cláusulas secretas sobre a divisão do Leste Europeu, selaria pouco depois uma virada brutal na história de Chernivtsi.
Em 1940, em cumprimento do pacto germano-soviético, a União Soviética ocupou o norte da Bucovina e Chernivtsi, que foi integrada pela primeira vez à Ucrânia soviética. Essa primeira ocupação soviética trouxe repressão, prisões e deportações. Pouco depois, em 1941, com a invasão alemã da URSS, a cidade ficou sob controle da Romênia, aliada do Eixo, e começou o capítulo mais trágico da sua história.
A numerosa comunidade judaica de Chernivtsi, uma das almas da cidade, foi perseguida, espoliada e confinada num gueto. Milhares de judeus da cidade e da Bucovina foram deportados para os campos de extermínio da Transnístria, onde muitos morreram. O extermínio foi enorme, mas parte da comunidade se salvou graças, entre outros fatores, à atuação corajosa do prefeito romeno Traian Popovici, que conseguiu livrar milhares de judeus da deportação e por isso seria reconhecido como 'Justo entre as Nações'. Mesmo assim, a vibrante vida judaica da 'Jerusalém do Prut' foi destruída para sempre. O poeta Paul Celan perdeu os pais nesse horror.
Com a vitória soviética, em 1944, Chernivtsi foi reincorporada de forma definitiva à Ucrânia soviética. O pós-guerra trouxe a saída de boa parte das comunidades alemã, romena, polonesa e judaica sobrevivente, e a transformação da cidade numa urbe soviética de maioria ucraniana. Em 1955, o antigo conjunto da Residência dos Metropolitas foi entregue à universidade da cidade, o que preservou, com outro uso, essa joia arquitetônica.
Com a independência da Ucrânia, em 1991, Chernivtsi se integrou plenamente ao novo Estado como capital da província (óblast) de Chernivtsi e principal cidade da Bucovina ucraniana. Livre do espartilho soviético, pôde redescobrir e valorizar sua extraordinária herança austro-húngara e multicultural, e se dedicar à conservação do seu centro histórico e dos seus monumentos.
O reconhecimento chegou ao auge em 2011, quando a Unesco inscreveu a Residência dos Metropolitas da Bucovina e da Dalmácia na lista do Patrimônio Mundial, consagrando internacionalmente o valor da grande obra de Josef Hlávka e, com ela, o legado cultural da cidade. Chernivtsi se firmou como um dos destinos mais atraentes do oeste da Ucrânia, famosa pela arquitetura, pelo clima de café centro-europeu, pela universidade e pela memória viva do seu passado cosmopolita, incluindo figuras como Paul Celan.
A invasão russa em larga escala de fevereiro de 2022 também atingiu esta região, embora de forma mais leve. Por ficar no extremo sudoeste do país, longe da linha de frente e perto das fronteiras com a Romênia e a Moldávia, Chernivtsi é uma das cidades mais tranquilas e seguras da Ucrânia e virou, assim como Lviv, refúgio para deslocados. Mesmo assim, vive sob lei marcial, com alertas aéreos e toque de recolher, e não está totalmente a salvo da guerra. Este guia é oferecido com respeito a essa realidade: como uma homenagem cultural a uma das cidades mais singulares da Europa, testemunha de séculos de convivência e de tragédia, que hoje faz parte de uma Ucrânia que defende sua existência e seu lugar na Europa.