Um aviso sóbrio antes de começar: a Ucrânia está em guerra desde 2022 e hoje não é um destino turístico seguro. Este guia é informativo e cultural, para conhecer a fortaleza de Khotyn e sua história, não para incentivar viagens em plena guerra. Dito isso, a fortaleza de Khotyn é uma das imagens mais impressionantes da Ucrânia: um colosso de pedra clara com faixas de tijolo vermelho, torres de telhados cônicos e muralhas altíssimas, plantado à beira do cânion do Dniestre.
Sua localização, às margens do rio e no ponto onde começa o longo cânion do Dniestre, faz dela uma das fortalezas mais bem conservadas e fotogênicas do país, eleita uma das Sete Maravilhas da Ucrânia. Durante séculos foi uma chave estratégica do Dniestre, disputada pela Rus, pela Moldávia, pela Polônia, pelo Império Otomano e pela Rússia, e palco da famosa batalha de Khotyn de 1621, na qual as forças da Comunidade Polaco-Lituana e os cossacos frearam o avanço turco. Por seu aspecto imponente, já serviu de cenário para inúmeros filmes históricos.
Este guia percorre a fortaleza e seus arredores: as torres e muralhas, o pátio interno com seu poço e sua igreja, os aterros da Nova Fortaleza, o cânion do Dniestre e a possibilidade de combinar Khotyn com a vizinha Kamianets-Podilskyi. Com as informações práticas — como chegar, moeda, ingressos — para entendê-la, sempre tendo em mente que qualquer plano real depende de a situação de segurança permitir.
Khotyn ergue-se às margens do Dniestre, onde começa o cânion do rio, um ponto estratégico fortificado desde a Alta Idade Média. A primeira fortaleza foi construída no século X, na época da Rus de Kiev, e a cidadela de pedra atual tomou forma entre os séculos XIV e XV sob os príncipes da Moldávia, como Alexandre, o Bom, e Estêvão, o Grande. Sua posição a transformou numa praça disputada pela Moldávia, pela Polônia, pelo Império Otomano e pela Rússia. Em 1621 foi palco da grande batalha de Khotyn, na qual a Comunidade Polaco-Lituana e os cossacos de Sahaidachny detiveram o exército do sultão Osman II, sendo assinado depois o tratado de paz de Khotyn. Após as guerras russo-turcas do século XVIII e do início do XIX, a região passou à Rússia; depois foi romena no período entreguerras e, por fim, soviética e ucraniana. Hoje é reserva histórico-arquitetônica do Estado e uma das Sete Maravilhas da Ucrânia. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história de Khotyn é a história de um ponto no mapa: o lugar onde o rio Dniestre se estreita e começa a escavar seu longo cânion, um vau natural e uma posição dominante sobre uma das grandes vias de comunicação entre o mar Negro, os Bálcãs e a Europa central. Quem controlava Khotyn controlava a travessia do Dniestre, e por isso ali houve uma fortaleza desde tempos muito antigos.
Segundo a tradição, a primeira fortificação foi erguida no século X, na época do príncipe Vladimir, o Grande, como uma das praças de fronteira do sudoeste da Rus de Kiev. Era então uma construção de terra e madeira, destinada a vigiar o rio e as rotas comerciais. Nos séculos seguintes, a região ficou ligada ao principado de Halych (Galícia) e depois ao de Halych-Volínia, no oeste da Rus.
No final do século XIV, com o enfraquecimento das antigas estruturas da Rus e a ascensão de novos poderes na região, Khotyn entrou na órbita do principado da Moldávia, que estava se formando como Estado entre os Cárpatos e o Dniestre. Foram os príncipes moldavos que empreenderam a transformação da velha fortaleza de madeira na formidável cidadela de pedra que hoje admiramos.
O aspecto atual da fortaleza de Khotyn se deve sobretudo aos príncipes da Moldávia dos séculos XIV e XV. A construção da cidadela de pedra começou nas últimas décadas do século XIV e passou por grandes melhorias sob dois governantes-chave: Alexandre, o Bom (Alexandru cel Bun), no início do século XV, e principalmente Estêvão, o Grande (Ștefan cel Mare), na segunda metade daquele século.
Estêvão, o Grande, um dos maiores príncipes da história da Moldávia, reforçou e ampliou bastante a fortaleza a partir da década de 1460, dando a ela boa parte de sua silhueta definitiva: as altas muralhas de calcário claro, decoradas com aquelas faixas e motivos geométricos de tijolo vermelho tão característicos que a tornam inconfundível, e as torres de telhados cônicos, entre elas torres redondas e a torre-portão. As muralhas ganharam grande altura e espessura, adaptadas ao terreno encaixado entre as encostas e o rio.
Sob a Moldávia, Khotyn não era apenas um castelo militar, mas também uma residência principesca e um centro administrativo e comercial na fronteira norte do principado. Sua posição estratégica na rota do Dniestre a manteve no centro das disputas entre a Moldávia, a Polônia e o crescente poder do Império Otomano, que ao longo do século XVI foi estendendo seu domínio e sua influência sobre a Moldávia, transformada em tributária da Sublime Porta.
O episódio que deu fama europeia a Khotyn aconteceu no outono de 1621. Depois de anos de tensões e de incursões cossacas em território otomano, o jovem e ambicioso sultão Osman II reuniu um exército enorme — as crônicas falam de números na casa dos cem mil homens — com a intenção de invadir a Comunidade Polaco-Lituana e avançar para o norte da Europa. Diante dessa ameaça, as forças da Comunidade, cerca de cinquenta mil soldados sob o comando do hetman Jan Karol Chodkiewicz, entrincheiraram-se em Khotyn, reforçadas de maneira decisiva pelo exército cossaco de Zaporíjia, comandado pelo hetman Petro Sahaidachny.
Entre setembro e outubro de 1621, a guarnição polaco-lituana e cossaca resistiu, a partir de suas posições fortificadas junto à fortaleza, a onda após onda de ataques otomanos. Apesar da enorme superioridade numérica turca, os defensores aguentaram por semanas, infligindo grandes perdas ao exército do sultão e frustrando seus planos. O papel dos cossacos de Sahaidachny foi decisivo, e a batalha ficou gravada como um feito heroico na memória tanto polonesa quanto ucraniana.
Em 8 de outubro de 1621 foi assinado o tratado de paz de Khotyn, que encerrou a campanha, deteve o avanço otomano rumo ao norte e confirmou a fronteira entre a Comunidade e o Império Otomano no Dniestre. A batalha de Khotyn é considerada um dos grandes marcos militares da região e uma das razões pelas quais a fortaleza é hoje um símbolo da história heroica da Ucrânia.
Depois da batalha de 1621, Khotyn continuou sendo uma praça cobiçada. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, o Império Otomano controlou repetidamente a fortaleza e a transformou em uma de suas bases avançadas na região. Os turcos, e mais tarde os russos, modernizaram as defesas para adaptá-las à artilharia: foi erguida a chamada Nova Fortaleza, um extenso sistema de aterros, bastiões e fossos que cercava a velha cidadela medieval. Khotyn foi palco de novas batalhas das guerras russo-turcas e trocou de mãos várias vezes entre otomanos e russos.
Só depois da guerra russo-turca de 1806-1812 Khotyn foi incorporada de forma permanente ao Império Russo, dentro da região da Bessarábia, e foi perdendo seu valor militar à medida que as fronteiras do império se afastavam. A fortaleza foi ficando obsoleta e, com o tempo, abandonada como praça de armas.
O século XX trouxe novas mudanças de soberania. Após a Primeira Guerra Mundial e a desintegração dos impérios, a Bessarábia — e com ela Khotyn — passou a fazer parte da Romênia no período entreguerras. Depois da Segunda Guerra Mundial, a região foi incorporada à União Soviética, dentro da RSS da Ucrânia, na região de Chernivtsi (Bucovina). Essa sucessão de domínios — moldavo, otomano, russo, romeno, soviético — explica a mistura cultural da Bucovina de hoje, onde, junto com o ucraniano, também se ouve o romeno.
Já na época soviética o valor da fortaleza foi reconhecido: desde 1963 ela é protegida como monumento arquitetônico e, em 2000, foi declarada reserva histórico-arquitetônica do Estado. Foram realizados trabalhos de conservação que permitiram manter de pé um dos conjuntos fortificados mais bem preservados da Ucrânia. Pelo aspecto imponente, pelas muralhas intactas e pelo clima medieval, a fortaleza de Khotyn virou um cenário preferido do cinema: muitos filmes históricos, soviéticos e ucranianos, foram rodados entre seus muros.
Com a independência da Ucrânia em 1991, Khotyn se consolidou como uma das grandes atrações patrimoniais do país. Em 2007, a fortaleza foi eleita por votação popular uma das Sete Maravilhas da Ucrânia, ao lado de lugares como Kamianets-Podilskyi e a Lavra de Kiev. Antes da guerra, recebia muitos visitantes e sediava recriações e festivais históricos que devolviam a vida à cidadela.
Desde a invasão russa em grande escala de fevereiro de 2022, Khotyn compartilha a realidade de todo o país. Situada no oeste, na região de Chernivtsi, tem estado longe da frente terrestre e entre as áreas relativamente mais protegidas, mas, como toda a Ucrânia, continua sob lei marcial e sob a ameaça de alertas aéreos e ataques de longo alcance. Hoje não é um destino turístico normal. A fortaleza segue de pé, bem cuidada, às margens de seu rio: um colosso de pedra que viu passar a Rus, a Moldávia, os otomanos, os russos e os romenos, e que espera, como o resto do patrimônio ucraniano, que a paz permita voltar a percorrê-la.