O Jungfraujoch é, provavelmente, o passeio mais famoso (e mais caro) da Suíça: subir de trem até 3.454 metros, até a estação ferroviária mais alta da Europa, num lugar que os suíços batizaram com orgulho de 'Top of Europe', o 'Topo da Europa'. Não é uma cidade nem um pico que se conquista com esforço: é um colo glacial entre o Mönch e a Jungfrau aonde se chega confortavelmente sentado, graças a uma façanha de engenharia do começo do século XX que perfurou um túnel de quilômetros no interior da rocha do Eiger e do Mönch.
Lá em cima espera um mundo de gelo e altitude: o mirante da esfinge (Sphinx), a 3.571 metros, com um elevador vertiginoso e um terraço debruçado sobre um mar de picos; o Palácio de Gelo, um labirinto de túneis e esculturas esculpido dentro da geleira; a exposição Alpine Sensation, que conta a história da linha e homenageia os operários que a construíram; e, sobretudo, a vista da geleira Aletsch, a maior dos Alpes e Patrimônio da Unesco, estendendo-se como um rio de gelo rumo ao horizonte.
Este guia conta o que realmente importa para você não ter uma decepção: quanto custa exatamente (muito) e que descontos os passes suíços dão, como evitar o mal da altitude ao subir 3.000 metros em pouco mais de uma hora, por que é imprescindível olhar as webcams antes de comprar a passagem (se estiver nublado, não se vê nada) e o que esperar de uma experiência que acontece, em boa parte, em ambientes fechados. Com a informação certa, o 'Topo da Europa' é um dia inesquecível; sem ela, pode ser uma decepção cara.
A história do Jungfraujoch é a história de uma obsessão. Em 1893, o industrial suíço Adolf Guyer-Zeller concebeu a ideia de uma ferrovia que subisse até a Jungfrau perfurando as montanhas. As obras do Jungfraubahn começaram em 1896 e se estenderam por dezesseis anos, escavando um túnel no interior do Eiger e do Mönch em condições duríssimas; na obra trabalharam sobretudo operários italianos, e cerca de trinta morreram em acidentes ao longo do projeto. Guyer-Zeller não chegou a vê-la concluída: morreu em 1899. O projeto original previa chegar até o próprio cume da Jungfrau, mas nunca foi completado: a linha parou no colo do Jungfraujoch, inaugurado em 1º de agosto de 1912. Em 1937, foi erguido ali o observatório Sphinx, e o complexo se tornou também uma importante estação de pesquisa científica de alta montanha. A seus pés se estende a geleira Aletsch, a maior dos Alpes e Patrimônio Mundial da Unesco, hoje em retração por causa da mudança climática. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The roof of touristic Switzerland: the glacial valleys of the Bernese Oberland settled by the Walser, cradle of the golden age of alpinism and of English Romantic tourism, with Interlaken, Grindelwald, Lauterbrunnen and the railway that climbs to the Jungfraujoch, the "Top of Europe".
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
A história do Jungfraujoch começa com uma caminhada e uma visão. Conta a tradição que, num domingo de agosto de 1893, o industrial e magnata ferroviário suíço Adolf Guyer-Zeller, de 54 anos, contemplava do alto da região do Jungfrau, perto da Schynige Platte, a imponente muralha de cumes do Eiger, do Mönch e da Jungfrau. Ali, olhando as montanhas, ele concebeu uma ideia que pareceu loucura a quase todo mundo: construir uma ferrovia que subisse até o ponto mais alto da Jungfrau, perfurando a rocha das montanhas por dentro.
Era uma época de fé absoluta no progresso e na engenharia. A Suíça vivia uma febre de ferrovias de montanha que estavam abrindo os cumes ao turismo, e Guyer-Zeller — que tinha feito fortuna na indústria têxtil e nas ferrovias — tinha o dinheiro, a ousadia e a determinação para tentar o impossível. Seu projeto previa uma linha que partiria de Kleine Scheidegg, já conectada pelo Wengernalpbahn, e subiria por um túnel escavado no interior do Eiger e do Mönch até alcançar, passando por várias estações intermediárias, o próprio cume da Jungfrau, a mais de 4.000 metros.
Era um plano descomunal para a técnica do fim do século XIX: quilômetros de túnel através de rocha duríssima, em grande altitude, com invernos brutais e meios rudimentares. Guyer-Zeller obteve a concessão e, com uma energia formidável, colocou a obra em andamento. Não podia imaginar que aquele sonho lhe custaria a vida antes de vê-lo concluído, nem que o projeto original nunca chegaria a ser completado tal como ele o havia concebido.
As obras do Jungfraubahn começaram em 27 de julho de 1896 com a primeira detonação em Kleine Scheidegg. O que veio depois foi uma epopeia de dezesseis anos. A linha, de cremalheira, começava ao ar livre e logo entrava num túnel de mais de sete quilômetros que precisava ser escavado à força de perfuratrizes e dinamite, ganhando altura dentro da rocha do Eiger e do Mönch. O avanço era lento e caríssimo: o dinheiro acabava, a montanha reservava surpresas geológicas e as condições de trabalho eram extremas.
O grosso da mão de obra foi formado por trabalhadores italianos, mineiros e operários que chegaram à Suíça em busca de trabalho e que suportaram o frio, a altitude, o barulho, a poeira e o perigo constante das detonações e dos desmoronamentos. Foi um trabalho duríssimo e arriscado: ao longo do projeto, cerca de trinta operários morreram em acidentes e muitos outros ficaram feridos. Um episódio especialmente grave foi a explosão acidental de um depósito de dinamite. A história do Jungfraujoch, tantas vezes contada como uma façanha da engenharia suíça, é também a desses trabalhadores anônimos, em sua maioria italianos, que a pagaram com seu esforço e, alguns, com a vida. Hoje a exposição Alpine Sensation, lá em cima no colo, presta homenagem expressa a eles.
Guyer-Zeller, o motor do projeto, não viveu para vê-lo avançar muito: morreu em 1899, apenas três anos depois do início da obra, deixando a seus herdeiros a tarefa de continuá-la. As estações foram sendo abertas por etapas: Eigergletscher em 1898, a Eigerwand (com suas janelas voltadas para a face norte do Eiger) em 1903, a Eismeer em 1905. O financiamento fraquejava e a ambição inicial teve de ser reduzida.
O plano original de Guyer-Zeller previa que a linha chegasse até o próprio cume da Jungfrau, a 4.158 metros, por meio de estações e elevadores escavados na rocha. Mas a realidade se impôs: os custos dispararam, as obras se arrastavam e o financiamento não dava para tanto. Por fim, decidiu-se encerrar a linha no Jungfraujoch, o colo glacial situado entre o Mönch e a Jungfrau, a 3.454 metros. O cume nunca foi alcançado, e assim a estação terminal ficou onde a conhecemos hoje.
Em 21 de fevereiro de 1912, depois de dezesseis anos de trabalho, os operários perfuraram os últimos metros de rocha e chegaram ao ponto onde seria erguida a estação do Jungfraujoch. Em 1º de agosto de 1912 — data simbólica, dia nacional da Suíça — a linha foi inaugurada oficialmente. O Jungfraubahn se tornava assim a ferrovia mais alta da Europa e sua estação, a 3.454 metros, a estação de trem mais elevada do continente, um recorde que mantém até hoje.
O resultado foi uma das linhas de trem mais extraordinárias do mundo: cerca de nove quilômetros de percurso, a maior parte em túnel dentro das montanhas, vencendo um desnível enorme. Embora tenha ficado longe do cume sonhado por Guyer-Zeller, o Jungfraujoch superou todas as expectativas como atração turística. Desde o primeiro momento, viajantes de toda a Europa quiseram viver a experiência de chegar confortavelmente de trem a um mundo de gelo e altitude que até então só os alpinistas pisavam.
O Jungfraujoch não nasceu apenas como destino turístico: muito cedo se percebeu que aquele lugar a 3.454 metros, com ar puro e condições extremas, era excepcional para a ciência. Em 1931 foi criada a Fundação Internacional das Estações de Pesquisa de Alta Altitude do Jungfraujoch e do Gornergrat (HFSJG), e ao longo dos anos 1930 foram construídas instalações científicas permanentes.
O coroamento desse esforço foi o observatório Sphinx, inaugurado em 1937, empoleirado sobre uma agulha de rocha a 3.571 metros, acima da estação, e acessível por um elevador rapidíssimo escavado na montanha. Com sua cúpula astronômica e seus terraços, o Sphinx se tornou o símbolo do Jungfraujoch e, ao mesmo tempo, uma das estações de pesquisa de alta montanha mais importantes do mundo. Desde então, gerações de cientistas trabalharam aqui em astronomia, meteorologia, glaciologia, física da atmosfera e estudo de raios cósmicos, aproveitando a altitude, a estabilidade e a pureza do ambiente.
Esse duplo caráter — atração turística de massa e laboratório científico de primeiro nível — é uma das singularidades do Jungfraujoch. Enquanto milhares de visitantes percorrem todos os dias o Palácio de Gelo e os terraços, nas entranhas do complexo um punhado de pesquisadores mantém séries de medições que, em alguns casos, remontam a quase um século e são valiosíssimas para entender o clima e a atmosfera do planeta. O 'Top da Europa' é, assim, tanto um mirante espetacular quanto um observatório privilegiado do mundo.
Aos pés do Jungfraujoch nasce a grande maravilha natural da região: a geleira Aletsch, a maior e mais longa dos Alpes, com cerca de 20 quilômetros de extensão e massas de gelo de centenas de metros de espessura acumuladas ao longo de milênios. Dos terraços do complexo e, sobretudo, do mirante Sphinx, dá para vê-la descer majestosa entre as montanhas como um imenso rio branco, numa das vistas mais impressionantes da Europa.
Em 2001, a Unesco reconheceu o valor excepcional desta paisagem ao inscrever a região Jungfrau-Aletsch na lista do Patrimônio Mundial — a primeira área dos Alpes a receber essa distinção por seus valores naturais —, depois ampliada para abranger todo o maciço glacial. É um território de beleza e valor geológico e ecológico extraordinários, testemunho vivo dos processos que moldaram os Alpes.
Mas essa maravilha enfrenta hoje uma ameaça séria: o aquecimento global. Como quase todas as geleiras alpinas, a Aletsch está em franca retração, perdendo comprimento e volume ano após ano, num ritmo que, segundo os cientistas, se acelerou nas últimas décadas. Os estudos alertam que, se a tendência se mantiver, boa parte da geleira pode desaparecer ao longo deste século. Contemplar a Aletsch do Jungfraujoch é, por isso, uma experiência dupla: admirar uma das grandes maravilhas naturais do continente e, ao mesmo tempo, tomar consciência da sua fragilidade. As próprias exposições do complexo lembram esse processo, transformando a visita em algo mais que um cartão-postal: um lembrete do que está em jogo na alta montanha.
Mais de um século depois da inauguração, o Jungfraujoch continua sendo um dos passeios mais populares da Suíça e recebe todos os anos centenas de milhares de visitantes do mundo inteiro, muitos deles vindos da Ásia. O complexo foi sendo ampliado e modernizado: ao observatório Sphinx e ao Palácio de Gelo somaram-se a exposição Alpine Sensation, lojas, restaurantes, um mirante e toda uma infraestrutura pensada para movimentar grandes quantidades de gente protegida do frio extremo.
A mudança mais importante dos últimos anos chegou em 2020 com a inauguração do Eiger Express, um moderno teleférico tricabo que sobe do novo terminal de Grindelwald até Eigergletscher em apenas uns quinze minutos, fazendo ali a conexão com o Jungfraubahn. Essa obra, parte do projeto 'V-Bahn', encurtou de forma notável o tempo de subida pelo lado de Grindelwald e desafogou a rota clássica, embora também tenha alimentado o debate sobre a pressão turística na região.
Subir ao Jungfraujoch hoje é uma experiência impecavelmente organizada, mas também cara: a passagem de ida e volta fica em torno de 200 francos suíços ou mais, um dos preços mais altos do turismo europeu, e os passes nacionais (Swiss Travel Pass, Half Fare Card) só a barateiam em parte. Em troca, o visitante percorre em poucas horas uma das maiores façanhas ferroviárias da história, pisa numa geleira a 3.454 metros e, se o céu ajudar, contempla a Aletsch e um horizonte de cumes de tirar o fôlego. O sonho desmedido de Adolf Guyer-Zeller, pago com o esforço e a vida daqueles operários italianos, continua de pé mais de cem anos depois, transformado num dos grandes ícones dos Alpes.